Nuno Velho, sobrinho de Frei Gonçalo Velho das Pias, comendador de Almourol e primeiro Capitão da ilha de Santa Maria, filho de uma irmã, que, como tenho dito, trouxe seu tio à ilha menino, depois de homem, casou primeira vez nesta ilha de São Miguel com uma mulher mui principal, e segunda vez na ilha de Santa Maria com África Anes , e houve dela um filho, chamado Duarte Nunes Velho, cavaleiro do hábito de Santiago, e uma filha, chamada Grimaneza Afonso de Melo , muito honrada, de que procedeu nobre geração, e foi casada com um Lourenço Anes, homem nobre da ilha Terceira, da vila de São Sebastião. E o Duarte Nunes casou em Portugal a primeira vez, de que houve filhos: João Nunes Velho, que casou nesta ilha de São Miguel, na vila da Ribeira Grande, com Maria da Câmara, de que houve uma filha, chamada Dona Dorotea, que agora é Capitoa da ilha de Santa Maria, e Tomé da Câmara, cavaleiro-fidalgo da Casa de el-Rei, e Manuel da Câmara, mestre em Artes e bacharel formado em Teologia, que agora é prior de São Pedro de Alenquer, e João Nunes Velho, que foi mais velho filho, vigairo e ouvidor na ilha de Santa Maria, e outros, que faleceram na Índia. Teve mais Duarte Nunes Velho outro filho, chamado Jordão Nunes, que viveu na dita ilha de Santa Maria, e Nuno Fernandes Velho, muito nobre, que agora mora em Malbusca, fazenda que herdou, como morgado, de seu pai, e tem uma filha, chamada Dona Maria, que foi Capitoa da ilha, mulher do terceiro Capitão João Soares , segundo do nome, e Francisco de Andrade, cavaleiro-fidalgo da Casa de el-Rei e agora almoxarife em Setúvel, e outro, chamado Bartolomeu de Andrade, cavaleiro-fidalgo, casado em Santarém, e João de Melo, meirinho da correição no Cabo Verde, e outros filhos e filhas. E o dito Duarte Nunes Velho teve também outros muitos filhos e filhas, muito honrados; e um seu neto, filho de sua filha Inês Nunes Velha, chamado Francisco Anes, foi vigairo na ilha do Pico. Morto Nuno Velho (de cuja progénie e armas dos Velhos direi quando tratar do primeiro Capitão, Frei Gonçalo Velho, de que eles descendem) houve África Anes de outro marido, que se chamava Pedro Anes de Alpoem, nobres filhos, Estêvão Pires, Rui Fernandes e Guilhelme Fernandes, donde ficaram os Alpoens, e se passaram depois a esta ilha de São Miguel. Mas com uma nobre e virtuosa mulher que procedeu de Nuno Velho e de África Anes, chamada Inês Nunes Velha, casou um Miguel de Figueiredo de Lemos, dos Figueiredos de Portugal, como aqui direi.
Dizem que antigamente, tendo el-Rei guerras e dando uma batalha aos imigos, encontraram-se de maneira que quebraram as lanças e espadas, ficando alguns sem armas para pelejarem; sendo destes uns dois irmãos que andavam em companhia do Rei nesta batalha, arremeteram a umas figueiras e delas cortaram ramos, com os quais tornaram aos imigos, e neles fizeram grande destruição, grandes cavalarias. Depois de acabada a guerra, chamou el-Rei aos que nela mais se avantajaram para lhes dar apelidos e fazer mercês, e, chamando aqueles irmãos, a um deles lhe pôs nome Figueiredo, porque pelejara com os paus e ramos da figueira do modo sobredito, e dizendo ao outro que visse qual nome e apelido queria, ele lhe respondeu que não queria apelido, que sua fama soaria, donde logo lhe chamaram Soares, e ficou com tal apelido, os quais, ou por serem naturais de Albergaria, ou por el-Rei fazer logo senhor de Albergaria a este primeiro Soares, os legítimos e verdadeiros Soares se chamam de Albergaria e são parentes dos Figueiredos, por os primeiros destes apelidos serem irmãos. E deste Figueiredo veio a proceder em Portugal um bispo que foi de Viseu, chamado D. Gonçalo de Figueiredo, que era irmão de D. Durão. Este bispo teve um filho, chamado Fernão Gonçalves de Figueiredo, e três filhas, chamadas Inês Gonçalves, Maria Gonçalves e Breatiz Gonçalves, todas com apelido de Figueiredo, como seu pai. Fernão Gonçalves de Figueiredo, filho do dito bispo, casou com Maria Dias, mulher mui principal, e houveram ambos a Diogo Soares de Albergaria, que foi aio de el-Rei D. João e casou com D. Breatiz de Vilhana (sic); foi também aio do Infante, irmão do dito Rei, o qual não houve filhos de sua mulher.
Houve mais Fernão Gonçalves de Figueiredo, filho do dito bispo, de Maria Dias, sua mulher, outro filho, que se chamou Fernão Soares de Albergaria, que casou com D. Isabel de Melo, filha de Estêvão Soares, da qual houve Álvaro Soares, que matou Álvaro de Ataíde, e D. Beatriz, que casou com Afonso de Sequeira e foi ama da Excelente Senhora, e D. Isabel de Melo, que foi mulher de Antão Gomes de Abreu, e outra filha, também chamada D. Breatiz, que casou com Diogo de Mendonça, alcaide-mor de Moura e outra, que se chamava Isabel Soares, que casou com Vasco Carvalho, e D. Briolanja, que casou com João Gomes da Silva, senhor da Chamusca, filho de Rui Gomes Dorgens; houve mais outra filha, que se chamou Dona Catarina, que foi freira em Vila do Conde, e quatro filhos de outra mulher, dois, que chamaram João Soares e Fernão Soares, que foi à Índia, e outros dois, a que não soube o nome. De D. Breatiz, filha do dito Fernão Soares, de Santarém, que foi colaço da Excelente Senhora e pai de Fernão Soares de Albergaria, o do Olho, e Baltazar de Sequeira, senhor do Prado, pai de Diogo Soares, o de Galiza, e D. Catarina, que foi mulher de João Álvares da Cunha, mãe de Mateus da Cunha, e de D. Tomásia, e de outros muitos da Cunha e de Santar.
De D. Isabel, filha do dito Fernão Soares, casada com Antão Gomes de Abreu, nasceu João Gomes de Abreu e Vasco Gomes de Abreu, pai de Diogo Soares, o Rodovalho, e de Cristóvão de Melo; e Pero Gomes de Abreu, morador em Viseu, e Lourenço Soares, vedor e mordomomor do Cardeal D. Afonso, e foi pai de Gomes Soares, e de Diogo Soares, e de outros honrados filhos, e de D. Tereza, mãe de D. Isabel, mulher de D. Manuel da Silva.
De D. Breatiz, filha de Fernão Soares e de Isabel de Melo, casada com Diogo de Mendanha, alcaide-mor de Moura, nasceu D. Margarida, mulher de Jorge de Melo, monteiromor de el-Rei, e D. Joana de Mendonça, Duquesa de Bragança, e Pero de Mendonça, alcaidemor de Moura, e António de Mendonça, e Cristóvão de Mendonça.
De Isabel Soares, filha de Fernão Soares, casada com Álvaro Carvalho , nasceu Álvaro Carvalho e Vasco Carvalho.
De D. Briolanja, filha de Fernão Soares, mulher de João Gomes da Silva, nasceu Francisco da Silva, da Chamusca, e outros.
De Inês Gonçalves de Figueiredo, filha do dito bispo D. Gonçalo de Figueiredo, irmã do dito Fernão Gonçalves de Figueiredo, e de seu marido Martim Anes da Mata, nasceu Álvaro Gonçalves de Figueiredo, que casou com Clara Afonso, sobrinha do bispo de Ceita (sic), dos quais nasceram Luís de Figueiredo, que faleceu solteiro, e Catarina de Figueiredo, mãe de Brás de Figueiredo, o da Cutilada , e Gonçalo de Figueiredo, que casou com Maria Fernandes de Sequeira, que foi pai de Luís de Figueiredo, de Vila Nova dos Coutos, e de Pero de Figueiredo, de Carvalhiços, e de João de Figueiredo, de Viseu, e de Gonçalo de Figueiredo, que foi pai do Conde de Marialva.
Nasceu mais dos sobreditos Martim Anes e Inês Gonçalves Diogo Gonçalves de Figueiredo, que casou com Isabel Barreiros, dos quais nasceram Luís de Figueiredo, de Tonda, avô de Miguel de Figueiredo, do concelho de Besteiros, bispado de Viseu, e Diogo Barreiros, e Isabel Barreiros, da Guarda.
Nasceu mais de Martim Anes da Mata e Inês Gonçalves de Figueiredo Catarina de Figueiredo, que casou com Luís Anes de Loureiro, dos quais nasceram Luís Anes de Loureiro, cónego em Viseu e abade de Silgueiros, e Gaspar de Figueiredo, que foi cidadão de Lisboa, pai de Joana de Figueiredo, freira no Salvador, e de João de Loureiro e Isabel de Figueiredo.
Nasceram mais dos ditos Martim Anes e Inês Gonçalves, Isabel de Figueiredo, mulher de Diogo Pais, de Viseu, e Frei Fernando de Figueiredo, e Maria de Figueiredo, e Catarina de Figueiredo, os quais não houveram filhos, nem filhas.
De Maria Gonçalves de Figueiredo, filha do dito bispo e irmã do mesmo Fernão Gonçalves e da dita Inês Gonçalves, nasceu Aires Gonçalves de Figueiredo, que se chamou Aires Gonçalves de Santar, que foi senhor das terras de Freigedo e alcaide-mor de Gaia e senhor das terras todas da mesma Gaia.
De Breatiz Gonçalves de Figueiredo, filha terceira do dito bispo e irmã dos sobreditos, veio a nascer Tareya (sic) de Figueiredo, que foi mãe de Henrique de Figueiredo, escrivão da Fazenda e pai de Rui de Figueiredo, que também foi escrivão da Fazenda e pai de Jorge de Figueiredo; foi também a dita Tareja de Figueiredo mãe de Gomes de Figueiredo, provedor de Évora, e de João de Figueiredo, de Covilhã, e de Fernão de Figueiredo, que foi viso-rei antre Douro e Minho e Covilhã.
E deste viso-rei nasceu Luís Dias de Figueiredo, de Tonda, neto de Martim Anes da Mata, o qual Luís Dias de Figueiredo foi fidalgo da casa de el-Rei Dom Afonso e teve quatro filhos, sc., Pedro de Figueiredo, senhor de Falorca, e Gonçalo de Figueiredo, senhor de Vila Chã do Monte, esforçado cavaleiro que foi, na era de mil e quinhentos e treze, na tomada de Azamor, Isabel de Figueiredo, mãe de António de Figueiredo, de Vila Pouca, e João de Figueiredo, de Tonda, que casou com Mécia de Lemos, filha do senhor da vila de Recardães, e além disso tinha também um morgado, e criada na corte, conhecida, por muito nobre, de muitos fidalgos e fidalgas, irmã de Diogo de Lemos, prior que foi de Prado e Recardães, e de Nuno de Lemos, que em Recardães herdou a quinta da Póvoa, vinculada em morgado do pai da dita Mécia de Lemos, seu e dos mais irmãos, em a qual sucedeu Diogo de Lemos, de Recardães, filho do dito Nuno de Lemos, que hoje em dia a possui e é cavaleiro-fidalgo da casa de el-Rei D. João, terceiro do nome, que esté (sic) em glória. E irmã, Mécia de Lemos, de Lopo de Vargas de Lemos, natural de Recardães, cavaleiro do hábito de Cristo, o qual por ser da casa do dito Rei D. João, avô de el-Rei D. Sebastião, o foi servir a África por seu mandado, aonde foi alcaide-mor em Safim e fez muitas cavalarias, antre as quais foi uma que matou um leão real, pela qual razão e por se mandar largar Safim aos mouros, quando de África veio o dito Lopo de Vargas, lhe foi feita mercê do hábito de Cristo com trinta mil réis de tença cada ano, que foi muito pouco, por el-Rei, a quem ele serviu, ser morto nesse tempo. E houve provisão para, por sua morte, deixar esta tença a sua filha Antónia de Lemos, que casou com Manuel da Mota, de Estremoz, parente de D. Jerónimo de Souro (sic) , bispo do Algarve, e dos Motas da ilha de São Miguel, e agora a possui Jerónima de Lemos, sua neta, filha da dita Antónia de Lemos.
Casou Lopo de Vargas de Lemos em Estremoz com Mor Dias de Landim, da geração dos Landins, conhecidos por cavaleiros fidalgos dos Reis passados na mesma terra e muito mais em África, onde com el-Rei D. Sebastião morreu a maior parte deles; da qual houve dois filhos e quatro filhas, um por nome Frei Brás de Vargas, da ordem de São Jerónimo, o qual el-Rei D. Sebastião, de quem era muito privado, mandou chamar ao mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro, por ser de muita autoridade e mui conhecido no Reino, e o levou consigo à jornada de África, onde também ficou; outro, chamado Luís de Vargas de Lemos, que el-Rei D. João, terceiro do nome, deu ao Príncipe no número dos quarenta moços da Câmara e Guarda-roupa, o qual faleceu, sendo casado em Estremoz, rica e honradamente, sem ter filhos.
Das quatro filhas, a primeira, Antónia de Lemos, de que já disse; a segunda, Mécia de Lemos, casou e morreu sem filhos; a terceira, Juliana de Landim, faleceu solteira; a quarta, Camilia de Lemos, ainda hoje viva e viúva em Veiros, tem um filho e quatro filhas. E irmã também a sobredita Mécia de Lemos de outros mais e parenta de Duarte de Lemos, senhor da Trofa, e de João Gomes de Lemos, seu filho, outrossim senhor da Trofa, e de seu irmão Fernão Gomes de Lemos, que andou na Índia; e parenta de Nuno Martins da Silveira, senhor do morgado de Góis e Oliveira do Conde, e guarda-mor de el-Rei D. Manuel, e pai do Conde de Sortelha, D. Luís da Silveira, pai também de D. Diogo da Silveira, Conde de Sortelha e guarda-mor de el-Rei D. Sebastião; e parenta de D. Jorge de Lemos, frade de São Domingos, bispo do Funchal e esmoler-mor que foi de el-Rei D. Sebastião, e de outros muitos fidalgos.
E da dita Mécia de Lemos, irmã do dito Lopo de Vargas e dos mais sobreditos, e do dito João de Figueiredo, de Tonda, seu marido, filho do sobredito Luís Dias de Figueiredo, de Tonda, nasceram dois filhos: o primeiro, o licenciado Jorge de Figueiredo, o qual criado em os estudos para clérigo, neste meio tempo veio a ter conversação com uma moça honrada e orfã de pai, que se chama Lucrécia de Viveiros, sobrinha de um frade de Santa Cruz de Coimbra, por nome D. Vicente, e moradora no mesmo lugar de Tonda, de quem houve um filho, que se chama António de Figueiredo, e, correndo a conversação, se fez clérigo de missa, como os ditos seus pai e mãe lhe mandaram, não sabendo eles o inconveniente que sucedeu, e doze anos disse missa, sendo viúva a dita Lucrécia de Viveiros, sem lhe ir à mão; somente, dizem que dizia ela que era com o dito Jorge de Figueiredo casada, como tinha testemunhas, e que, como falecessem seu pai e mãe dele, ela havia de ser sua mulher e ele tomar outra ordem; e, falecendo assim, por serem velhos, os ditos João de Figueiredo e Mécia de Lemos, a dita Lucrécia de Viveiros, por ordem de seu tio D. Vicente, e dizem que de consentimento de Jorge de Figueiredo, por dizer que viera a sua lembrança ser com ela prmeiro casado e temer o Dia do Juízo, houve breve do Padre Santo, pelo qual se conheceu da causa, e ela provou seu intento, e foi sentenciado pelo grande doutor, de perpétua fama, Martim de Azpilcueta Navarro, lente de prima em Coimbra, que tornasse ao primeiro estado e matrimónio que contraíra, durando a vida dela, ou que ambos se metessem em religião de conselho, o que ela não quis fazer; antes viveram ambos no estado de casados, de umas portas a dentro, como marido e mulher que eram, e houveram outros filhos, até que ele faleceu haverá dez anos, e ela ainda é viva.
E nasceu do dito João de Figueiredo e Mécia de Lemos, moradores que foram em Tonda, do concelho de Besteiros, bispado de Viseu, Miguel de Figueiredo de Lemos, o qual, por ser parente de D. Filipa de Vilhena e se criar em sua casa, veio à dita ilha ter cargo da Comenda há muitos anos, aonde casou com Inês Nunes Velha, filha de Sebastião Nunes Velho e de Maria Gonçalves, sua mulher, filha de Gonçalo Vaz e de Isabel Pires, sua mulher, todos moradores que foram na dita ilha; e o dito Sebastião Nunes Velho, pai da dita Inês Nunes Velha, foi filho de Grimaneza Afonso, irmã de Duarte Nunes Velho, cavaleiro do hábito de Santiago, o qual Duarte Nunes Velho e Grimaneza Afonso eram filhos de Nuno Velho, irmão de Pero Velho, que viveu nesta ilha de São Miguel, e de África Anes, sua segunda e muito nobre mulher; os quais eram sobrinhos, filhos de uma irmã, de Frei Gonçalo Velho das Pias, comendador do castelo de Almourol e primeiro Capitão das ilhas de São Miguel e Santa Maria, o qual, por trazer consigo a estas duas ilhas e criar os ditos Nuno Velho e Pero Velho, filhos de sua irmã, quisera renunciar neles as ditas capitanias, para o que pedindo licença ao Infante D. Henrique, em cuja casa andava um João Soares, também seu sobrinho, filho de outra sua irmã, o Infante a não quis dar para se fazer a renunciação das capitanias nos ditos Nuno Velho e Pero Velho, por o não terem servido, senão para se fazer em o João Soares, que era de sua Casa, o qual sucedeu nelas por lhas dar o dito seu tio, e depois vendeu esta de São Miguel a Rui Gonçalves da Câmara, como em seu lugar direi, e se ficou com a de Santa Maria, que naquele tempo era melhor e mais povoada. E nela sucedeu seu filho João Soares de Sousa terceiro Capitão, ao qual também sucedeu seu filho Pero de Sousa, como direi quando tratar deles.
Foi África Anes, filha de Gonçalo Anes de Semandeça, de Portugal, homem nobre, ao qual, morrendo todos os filhos, lhe disseram que ao primeiro, que lhe nascesse, pusesse nome que ninguém tivesse; nascendo-lhe esta filha, pôs-lhe nome África, a qual, tomando do pai o sobrenome Anes chamou-se África Anes. Este Gonçalo Anes de Semandeça veio de Portugal e, com ele, esta filha, África Anes, à ilha de Santa Maria, no princípio do seu descobrimento; e primeiro vieram no lugar de Santa Ana, a Nossa Senhora dos Anjos, onde foi a primeira desembarcação e povoação, segundo já disse; o qual Gonçalo Anes, por morrer, ou por se absentar por um desastre que se diz acontecer da morte de um homem, deixou a dita filha, África Anes, muito moça e formosa e, ainda que de pouca idade, muito grave, encarregada ao Capitão Frei Gonçalo Velho, grande seu amigo, por vir com ele de Portugal e ser muito nobre e honrado; o qual Capitão tratou com que África Anes casasse com Jorge Velho, que também com o dito Capitão veio de Portugal, a quem tinha obrigação, e casou, porque de outra maneira (dizem) que não casara ela com ele, segundo a nobreza, primor e opinião que tinha a dita África Anes, por o dito Capitão a casar com este seu amigo, que também era de nobre geração e cavaleiro de África e (segundo afirmam antigos) sobrinho de el-Rei de Fez, da Casa do Infante D. Henrique, com o qual esteve casada muito pouco tempo, e dele teve um filho que povoou e viveu na cidade da Ponta Delgada, além do mosteiro de São Francisco, e outra na vila de Água de Pau; e daqui procederam os Jorges destas ilhas de São Miguel e de Santa Maria, como em seu lugar contarei mais largo. E, assim, teve uma filha, por nome Inês Afonso, mulher de João da Fonte, o Velho, homem muito nobre e abastado, dos quais nasceram João da Fonte, pai de Maria da Fonte e Álvaro da Fonte, Pero da Fonte, Jorge da Fonte, cavaleiro do hábito de Cristo, e Fernão da Fonte, e Adão da Fonte, que todos morreram na dita ilha de Santa Maria.
A segunda vez, casou esta África Anes na ilha de Santa Maria com Nuno Velho, sobrinho de Frei Gonçalo Velho, comendador de Almourol, primeiro Capitão desta ilha e da de Santa Maria, filho de uma sua irmã, ao qual Nuno Velho trouxe consigo o dito Capitão, e a outro seu irmão, que se chamou Pero Velho, que casou nesta ilha de São Miguel, como já está dito.
Da África Anes e de Nuno Velho, segundo marido, nasceram Duarte Nunes Velho, cavaleiro do hábito de Santiago, que morou em Malbusca, da ilha de Santa Maria, e Grimaneza Afonso de Melo, mãe do sobredito Sebastião Nunes Velho, a qual, por morte do dito seu pai, Nuno Velho, e da África Anes, sua mãe, levou para casa o segundo Capitão de Santa Maria, João Soares de Albergaria, primeiro do nome, por lhe ficar encarregada, para a dar à Rainha, e ser sua sobrinha, filha do dito Nuno Velho, seu primo com-irmão, o que ele não fez, mas em sua casa a casou com um Lourenço Anes, natural da ilha Terceira, da vila de São Sebastião, homem principal, nobre e muito rico, e tão poderoso que teve grandes bandorias com o Capitão de Angra sobre certas propriedades e sua posse, e viveu em a ilha de Santa Maria com a dita sua mulher, Grimaneza Afonso, a qual, quando ia à igreja, levava dez, doze mulheres consigo e lhe levavam o rabo, como ainda há pessoas que disso se acordam e de seu grande fausto.
Da dita Grimaneza Afonso de Melo e do dito seu marido nasceram Sebastião Nunes Velho, pai de Inês Nunes Velha, mulher de Miguel de Figueiredo de Lemos, de que acima disse, e mãe de D. Luís de Figueiredo de Lemos, bispo do Funchal, e de sua irmã, D. Mécia de Lemos, mulher de André de Sousa, filho do dito Capitão de Santa Maria, João Soares de Sousa, segundo do nome, e de outros. Nasceram mais de Grimaneza Afonso e de Lourenço Anes, seu marido, Nuno Lourenço, pai de Matias Nunes Velho, que ora vive na mesma ilha de Santa Maria, e outros.
Nuno Lourenço Velho, filho da Lourenço Anes e de Grimaneza Afonso de Melo, e neto de Nuno Velho, e bisneto de Diogo Gonçalves de Travassos e de D. Violante Cabral, e tresneto de Martim Gonçalves Travassos e de D. Catarina Dias de Melo, da parte masculina, e, da parte feminina, de D. Violante Cabral, que era filha de Fernão Velho e de D. Maria Álvares Cabral, filha do Senhor de Belmonte, este Nuno Lourenço Velho foi casado com Catarina Vaz, de que houve muitos filhos, que, quase todos, morreram na Índia em serviço de el-Rei, e é vivo um, chamado Matias Nunes Velho Cabral, homem de grandes espíritos, esforços, discrição, prudência e magnífica condição, o qual casou com Maria Simões, de que tem um filho, por nome António Cabral de Melo, e algumas filhas, que mora em uma sua quinta, que tem na Frol (sic) da Rosa, acima da Vila, o qual tirou papéis autênticos, em forma devida, de sua nobreza e de seus avós e brazões, em que consta ser fidalgo de geração, e como tal se trata e é tido e havido. E seus avós e bisavós, que foram Nuno Velho, Diogo Gonçalves de Travassos, D. Violante Cabral, Martim Gonçalves de Travassos, D. Catarina de Melo, Fernão Velho, D. Maria Álvares Cabral, filha do Senhor de Belmonte, Frei Gonçalo Velho, comendador de Almourol e Capitão destas duas ilhas, e Rui Velho de Melo, estribeiro-mor de el-Rei D. João, segundo do nome, todos foram do Conselho dos Reis e muito seus privados, e dos mais honrados fidalgos que houve naquele tempo, o que todo (sic) vi por papéis autênticos, em forma devida pelas justiças, e assim foi e é fama comum antre os antigos e modernos. E tem por armas, em seu brazão, o escudo esquartelado: ao primeiro, dos Velhos, que trazem o campo vermelho e cinco vieiras de ouro escurecidas de preto, postas em aspa, e, ao contrairo, dos Melos, que trazem o campo vermelho e seis arruelas de prata encaceradas (sic) antre uma dobre cruz e bordadura de ouro; e ao segundo, dos Cabrais, que trazem o campo de prata e duas cabras de púrpura passantes, armadas de preto, e, ao contrairo, dos Travassos, que trazem o campo vermelho, rosais de flores de trevol postas em aspa, e elmo aberto, guarnido de ouro, paquife de ouro e vermelho e prata e púrpura, e por timbre um chapéu pardo com uma veira de ouro na borda da volta, que é o timbre dos Velhos, e por diferença uma frol de liz de prata. Tem o dito Matias Nunes dois irmãos legítimos, filhos de seu pai e de outra mulher, um, por nome Diogo Velho, e outro, Baltazar Velho Cabral.
Nasceu mais de Grimaneza Afonso de Melo e de seu marido Lourenço Anes, Violante Nunes, avó de Tomé de Magalhães, que agora é almoxarife na dita ilha, homem de muita nobreza, discrição e virtude, e de seu irmão, João Tomé Velho, a qual Violante Nunes foi casada com João Tomé Velho, a qual Violante Nunes foi casada com João Tomé, o Amo, e foi também avó de Cristóvão Vaz Velho e de Fernão Monteiro, que é casado com uma filha do Minhoto, por nome D. Branca, neta de João Soares, terceiro Capitão; os quais Fernão Monteiro e Cristóvão Vaz Velho são primos con-irmãos dos ditos Tomé de Magalhães e João Tomé Velho, filhos de duas irmãs, porque a dita sua avó e Nuno Lourenço e Sebastião Nunes Velho, avô do dito bispo, eram irmãos, filhos de Grimaneza Afonso, sua bisavó.
A terceira vez, casou África Anes com Pedro Anes de Alpoem, homem nobre e estrangeiro, donde nasceu Rui Fernandes de Alpoem, da ilha de Santa Maria, que não teve filho legítimo, senão um filho natural, muito gentil homem e valente mancebo, ao qual mataram à treição (sic), e uma filha, também natural, muito honrada e virtuosa, que casou com o bacharel João de Avelar, homem nobre, de muita virtude e prudência. Nasceram mais da dita África Anes e Pedro Anes de Alpoem Estevão Pires de Alpoem e Guilhelma Fernandes , mãe da Maia.
Do tresavô do Bispo do Funchal, Nuno Velho, e de Pero Velho, seu irmão, procederam os Velhos, nobres desta ilha de São Miguel (como depois direi) e da de Santa Maria e das outras; e da África Anes procederam estas três, e outras nobres gerações delas todas.
Gonçalo Vaz, acima dito, pai da dita Maria Gonçalves e avô de Inês Nunes Velha, mulher do dito Miguel de Figueiredo Lemos, era parente dentro no quarto grau de D. Matinho, arcebispo que foi de Lisboa, e de seu irmão, arcebispo que foi de Braga e cardeal em Roma, e de outros fidalgos, seus irmãos e parentes.
E de Miguel de Figueiredo de Lemos, filho de João de Figueiredo, de Tonda, e de Mécia de Lemos, e neto de Luís Dias de Figueiredo, fidalgo que foi da Casa de el-Rei D. Afonso, e de sua mulher, Inês Nunes Velha, filha de Sebastião Nunes Velho e neta de Grimaneza Afonso, filha de África Anes e de Nuno Velho, e neta também do sobredito Gonçalo Vaz, nasceu o licenciado D. Luís de Figueiredo, capelão de el-Rei, bom letrado nos sagrados cânones, vigairo que foi da igreja do Apóstolo São Pedro da cidade da Ponta Delgada e ouvidor geral do Eclesiástico nesta ilha de São Miguel, e dayão da Sé de Angra, e Vigairo Geral e Governador em o espiritual neste bispado, e agora benemérito bispo do Funchal, que, além de sua muita virtude e prudência, é grave na pessoa, macio na condição, suave na conversação, discreto nas palavras, e em seu cargo vigilantíssimo e mui inteiro, pelas quais coisas e boas partes foi mui estimado e honrado de D. Pedro de Castilho, bispo que foi de Angra e destas ilhas, as quais andou com ele visitando. Assim, também nasceu D. Mécia de Lemos, mulher de André de Sousa, nobre fidalgo, filho do Capitão João Soares de Sousa, o terceiro da ilha e segundo do nome, e nasceram Guiomar de Lemos, freira professa no mosteiro de Santo André da Ponta Delgada, que agora se chama Maria da Conceição, e Catarina de Figueiredo, casada primeiro com António Barradas Tavares, fidalgo e estremado cavaleiro, natural desta ilha de São Miguel, e agora com Gaspar Manuel de Vasconcelos, fidalgo de grande virtude e prudência, e Inês Nunes Velha, que casou com Simão Gonçalves Pinheiro, filho de Manuel Álvares Pinheiro, da cidade da Ponta Delgada, e Jorge de Figueiredo, moço da Câmara de el-Rei D. Sebastião, que faleceu na Índia em serviço do mesmo Rei.
E do dito João de Figueiredo, de Tonda, e de sua mulher Mécia de Lemos nasceram mais António de Lemos, que ora é ainda prior de Recardães, e Manuel de Vargas, já defunto, e Catarina de Lemos, mulher de Gaspar de Loureiro, cavaleiro-fidalgo da Casa de el-Rei e primo de Luís de Loureiro, Capitão que foi de Mazagão, e irmãos do dito Miguel de Figueiredo de Lemos. E, afora estes que agora disse, tem e teve muitos mais parentes de muito merecimento e nome, o que tudo consta, notoriamente, por lembranças antigas e papéis e estromentos verdadeiros, que há, e de pessoas que são vivas em as partes e lugares nomeados no processo da história, que viram com seus olhos algumas, e outras ouviram a outros mais antigos. O qual Miguel de Figueiredo tem seu brazão de armas que aos Figueiredos pertencem (que são fidalgos de cota de armas, de que ele descende por linha direita masculina) e estão nos livros da nobreza do Reino, que são um escudo com o campo vermelho, e nele cinco folhas de figueira, de verde, perfiladas de ouro em aspa, elmo de prata aberto, guarnecido de ouro, paquife de ouro e vermelho, e por timbre dois braços de leão em aspa, com duas folhas de figueira nas unhas, com uma merleta de ouro por divisa.
Assim que estes e outros antigos, e outra nobre gente que, depois, pelo tempo, veio a esta ilha de Santa Maria e seus descendentes, povoaram e cultivaram a terra, e a puseram no estado em que agora está, como são os Faleiros, descendentes de João Vaz Melão, e os Fontes, de João Roiz da Fonte, e os Curvelos, do mestre António, de Catalunha, e os Sarnaches, de Pero Álvares de Sarnache, e outras nobres progénies que a governam, cuja descrição logo irei contando.
Mas, primeiro direi o “Contraponto” que fez o insigne Dr. Daniel da Costa sobre o meu cantochão, que compus da vida do bispo D. Luís de Figueiredo, quando dele tratei, tratando da ilha da Madeira, em que melhor se verá como desta ilha de Santa Maria, tão pequena, saiu quem agora está ilustrando uma ilha tão grande, e a alta progénie deste ilustríssimo prelado, como, então, prometi .
DOS VELHOS E ALPOENS, FALEIROS, FONTES, CURVELOS E SARNACHES, QUE TAMBÉM POVOARAM DO PRINCÍPIO A ILHA DE SANTA MARIA, E DONDE PROCEDERAM OS FIGUEIREDOS QUE HÁ NELA
Nuno Velho, sobrinho de Frei Gonçalo Velho das Pias, comendador de Almourol e primeiro Capitão da ilha de Santa Maria, filho de uma irmã, que, como tenho dito, trouxe seu tio à ilha menino, depois de homem, casou primeira vez nesta ilha de São Miguel com uma mulher mui principal, e segunda vez na ilha de Santa Maria com África Anes , e houve dela um filho, chamado Duarte Nunes Velho, cavaleiro do hábito de Santiago, e uma filha, chamada Grimaneza Afonso de Melo , muito honrada, de que procedeu nobre geração, e foi casada com um Lourenço Anes, homem nobre da ilha Terceira, da vila de São Sebastião. E o Duarte Nunes casou em Portugal a primeira vez, de que houve filhos: João Nunes Velho, que casou nesta ilha de São Miguel, na vila da Ribeira Grande, com Maria da Câmara, de que houve uma filha, chamada Dona Dorotea, que agora é Capitoa da ilha de Santa Maria, e Tomé da Câmara, cavaleiro-fidalgo da Casa de el-Rei, e Manuel da Câmara, mestre em Artes e bacharel formado em Teologia, que agora é prior de São Pedro de Alenquer, e João Nunes Velho, que foi mais velho filho, vigairo e ouvidor na ilha de Santa Maria, e outros, que faleceram na Índia. Teve mais Duarte Nunes Velho outro filho, chamado Jordão Nunes, que viveu na dita ilha de Santa Maria, e Nuno Fernandes Velho, muito nobre, que agora mora em Malbusca, fazenda que herdou, como morgado, de seu pai, e tem uma filha, chamada Dona Maria, que foi Capitoa da ilha, mulher do terceiro Capitão João Soares , segundo do nome, e Francisco de Andrade, cavaleiro-fidalgo da Casa de el-Rei e agora almoxarife em Setúvel, e outro, chamado Bartolomeu de Andrade, cavaleiro-fidalgo, casado em Santarém, e João de Melo, meirinho da correição no Cabo Verde, e outros filhos e filhas. E o dito Duarte Nunes Velho teve também outros muitos filhos e filhas, muito honrados; e um seu neto, filho de sua filha Inês Nunes Velha, chamado Francisco Anes, foi vigairo na ilha do Pico. Morto Nuno Velho (de cuja progénie e armas dos Velhos direi quando tratar do primeiro Capitão, Frei Gonçalo Velho, de que eles descendem) houve África Anes de outro marido, que se chamava Pedro Anes de Alpoem, nobres filhos, Estêvão Pires, Rui Fernandes e Guilhelme Fernandes, donde ficaram os Alpoens, e se passaram depois a esta ilha de São Miguel. Mas com uma nobre e virtuosa mulher que procedeu de Nuno Velho e de África Anes, chamada Inês Nunes Velha, casou um Miguel de Figueiredo de Lemos, dos Figueiredos de Portugal, como aqui direi.
Dizem que antigamente, tendo el-Rei guerras e dando uma batalha aos imigos, encontraram-se de maneira que quebraram as lanças e espadas, ficando alguns sem armas para pelejarem; sendo destes uns dois irmãos que andavam em companhia do Rei nesta batalha, arremeteram a umas figueiras e delas cortaram ramos, com os quais tornaram aos imigos, e neles fizeram grande destruição, grandes cavalarias. Depois de acabada a guerra, chamou el-Rei aos que nela mais se avantajaram para lhes dar apelidos e fazer mercês, e, chamando aqueles irmãos, a um deles lhe pôs nome Figueiredo, porque pelejara com os paus e ramos da figueira do modo sobredito, e dizendo ao outro que visse qual nome e apelido queria, ele lhe respondeu que não queria apelido, que sua fama soaria, donde logo lhe chamaram Soares, e ficou com tal apelido, os quais, ou por serem naturais de Albergaria, ou por el-Rei fazer logo senhor de Albergaria a este primeiro Soares, os legítimos e verdadeiros Soares se chamam de Albergaria e são parentes dos Figueiredos, por os primeiros destes apelidos serem irmãos. E deste Figueiredo veio a proceder em Portugal um bispo que foi de Viseu, chamado D. Gonçalo de Figueiredo, que era irmão de D. Durão. Este bispo teve um filho, chamado Fernão Gonçalves de Figueiredo, e três filhas, chamadas Inês Gonçalves, Maria Gonçalves e Breatiz Gonçalves, todas com apelido de Figueiredo, como seu pai. Fernão Gonçalves de Figueiredo, filho do dito bispo, casou com Maria Dias, mulher mui principal, e houveram ambos a Diogo Soares de Albergaria, que foi aio de el-Rei D. João e casou com D. Breatiz de Vilhana (sic); foi também aio do Infante, irmão do dito Rei, o qual não houve filhos de sua mulher.
Houve mais Fernão Gonçalves de Figueiredo, filho do dito bispo, de Maria Dias, sua mulher, outro filho, que se chamou Fernão Soares de Albergaria, que casou com D. Isabel de Melo, filha de Estêvão Soares, da qual houve Álvaro Soares, que matou Álvaro de Ataíde, e D. Beatriz, que casou com Afonso de Sequeira e foi ama da Excelente Senhora, e D. Isabel de Melo, que foi mulher de Antão Gomes de Abreu, e outra filha, também chamada D. Breatiz, que casou com Diogo de Mendonça, alcaide-mor de Moura e outra, que se chamava Isabel Soares, que casou com Vasco Carvalho, e D. Briolanja, que casou com João Gomes da Silva, senhor da Chamusca, filho de Rui Gomes Dorgens; houve mais outra filha, que se chamou Dona Catarina, que foi freira em Vila do Conde, e quatro filhos de outra mulher, dois, que chamaram João Soares e Fernão Soares, que foi à Índia, e outros dois, a que não soube o nome. De D. Breatiz, filha do dito Fernão Soares, de Santarém, que foi colaço da Excelente Senhora e pai de Fernão Soares de Albergaria, o do Olho, e Baltazar de Sequeira, senhor do Prado, pai de Diogo Soares, o de Galiza, e D. Catarina, que foi mulher de João Álvares da Cunha, mãe de Mateus da Cunha, e de D. Tomásia, e de outros muitos da Cunha e de Santar.
De D. Isabel, filha do dito Fernão Soares, casada com Antão Gomes de Abreu, nasceu João Gomes de Abreu e Vasco Gomes de Abreu, pai de Diogo Soares, o Rodovalho, e de Cristóvão de Melo; e Pero Gomes de Abreu, morador em Viseu, e Lourenço Soares, vedor e mordomomor do Cardeal D. Afonso, e foi pai de Gomes Soares, e de Diogo Soares, e de outros honrados filhos, e de D. Tereza, mãe de D. Isabel, mulher de D. Manuel da Silva.
De D. Breatiz, filha de Fernão Soares e de Isabel de Melo, casada com Diogo de Mendanha, alcaide-mor de Moura, nasceu D. Margarida, mulher de Jorge de Melo, monteiromor de el-Rei, e D. Joana de Mendonça, Duquesa de Bragança, e Pero de Mendonça, alcaidemor de Moura, e António de Mendonça, e Cristóvão de Mendonça.
De Isabel Soares, filha de Fernão Soares, casada com Álvaro Carvalho , nasceu Álvaro Carvalho e Vasco Carvalho.
De D. Briolanja, filha de Fernão Soares, mulher de João Gomes da Silva, nasceu Francisco da Silva, da Chamusca, e outros.
De Inês Gonçalves de Figueiredo, filha do dito bispo D. Gonçalo de Figueiredo, irmã do dito Fernão Gonçalves de Figueiredo, e de seu marido Martim Anes da Mata, nasceu Álvaro Gonçalves de Figueiredo, que casou com Clara Afonso, sobrinha do bispo de Ceita (sic), dos quais nasceram Luís de Figueiredo, que faleceu solteiro, e Catarina de Figueiredo, mãe de Brás de Figueiredo, o da Cutilada , e Gonçalo de Figueiredo, que casou com Maria Fernandes de Sequeira, que foi pai de Luís de Figueiredo, de Vila Nova dos Coutos, e de Pero de Figueiredo, de Carvalhiços, e de João de Figueiredo, de Viseu, e de Gonçalo de Figueiredo, que foi pai do Conde de Marialva.
Nasceu mais dos sobreditos Martim Anes e Inês Gonçalves Diogo Gonçalves de Figueiredo, que casou com Isabel Barreiros, dos quais nasceram Luís de Figueiredo, de Tonda, avô de Miguel de Figueiredo, do concelho de Besteiros, bispado de Viseu, e Diogo Barreiros, e Isabel Barreiros, da Guarda.
Nasceu mais de Martim Anes da Mata e Inês Gonçalves de Figueiredo Catarina de Figueiredo, que casou com Luís Anes de Loureiro, dos quais nasceram Luís Anes de Loureiro, cónego em Viseu e abade de Silgueiros, e Gaspar de Figueiredo, que foi cidadão de Lisboa, pai de Joana de Figueiredo, freira no Salvador, e de João de Loureiro e Isabel de Figueiredo.
Nasceram mais dos ditos Martim Anes e Inês Gonçalves, Isabel de Figueiredo, mulher de Diogo Pais, de Viseu, e Frei Fernando de Figueiredo, e Maria de Figueiredo, e Catarina de Figueiredo, os quais não houveram filhos, nem filhas.
De Maria Gonçalves de Figueiredo, filha do dito bispo e irmã do mesmo Fernão Gonçalves e da dita Inês Gonçalves, nasceu Aires Gonçalves de Figueiredo, que se chamou Aires Gonçalves de Santar, que foi senhor das terras de Freigedo e alcaide-mor de Gaia e senhor das terras todas da mesma Gaia.
De Breatiz Gonçalves de Figueiredo, filha terceira do dito bispo e irmã dos sobreditos, veio a nascer Tareya (sic) de Figueiredo, que foi mãe de Henrique de Figueiredo, escrivão da Fazenda e pai de Rui de Figueiredo, que também foi escrivão da Fazenda e pai de Jorge de Figueiredo; foi também a dita Tareja de Figueiredo mãe de Gomes de Figueiredo, provedor de Évora, e de João de Figueiredo, de Covilhã, e de Fernão de Figueiredo, que foi viso-rei antre Douro e Minho e Covilhã.
E deste viso-rei nasceu Luís Dias de Figueiredo, de Tonda, neto de Martim Anes da Mata, o qual Luís Dias de Figueiredo foi fidalgo da casa de el-Rei Dom Afonso e teve quatro filhos, sc., Pedro de Figueiredo, senhor de Falorca, e Gonçalo de Figueiredo, senhor de Vila Chã do Monte, esforçado cavaleiro que foi, na era de mil e quinhentos e treze, na tomada de Azamor, Isabel de Figueiredo, mãe de António de Figueiredo, de Vila Pouca, e João de Figueiredo, de Tonda, que casou com Mécia de Lemos, filha do senhor da vila de Recardães, e além disso tinha também um morgado, e criada na corte, conhecida, por muito nobre, de muitos fidalgos e fidalgas, irmã de Diogo de Lemos, prior que foi de Prado e Recardães, e de Nuno de Lemos, que em Recardães herdou a quinta da Póvoa, vinculada em morgado do pai da dita Mécia de Lemos, seu e dos mais irmãos, em a qual sucedeu Diogo de Lemos, de Recardães, filho do dito Nuno de Lemos, que hoje em dia a possui e é cavaleiro-fidalgo da casa de el-Rei D. João, terceiro do nome, que esté (sic) em glória. E irmã, Mécia de Lemos, de Lopo de Vargas de Lemos, natural de Recardães, cavaleiro do hábito de Cristo, o qual por ser da casa do dito Rei D. João, avô de el-Rei D. Sebastião, o foi servir a África por seu mandado, aonde foi alcaide-mor em Safim e fez muitas cavalarias, antre as quais foi uma que matou um leão real, pela qual razão e por se mandar largar Safim aos mouros, quando de África veio o dito Lopo de Vargas, lhe foi feita mercê do hábito de Cristo com trinta mil réis de tença cada ano, que foi muito pouco, por el-Rei, a quem ele serviu, ser morto nesse tempo. E houve provisão para, por sua morte, deixar esta tença a sua filha Antónia de Lemos, que casou com Manuel da Mota, de Estremoz, parente de D. Jerónimo de Souro (sic) , bispo do Algarve, e dos Motas da ilha de São Miguel, e agora a possui Jerónima de Lemos, sua neta, filha da dita Antónia de Lemos.
Casou Lopo de Vargas de Lemos em Estremoz com Mor Dias de Landim, da geração dos Landins, conhecidos por cavaleiros fidalgos dos Reis passados na mesma terra e muito mais em África, onde com el-Rei D. Sebastião morreu a maior parte deles; da qual houve dois filhos e quatro filhas, um por nome Frei Brás de Vargas, da ordem de São Jerónimo, o qual el-Rei D. Sebastião, de quem era muito privado, mandou chamar ao mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro, por ser de muita autoridade e mui conhecido no Reino, e o levou consigo à jornada de África, onde também ficou; outro, chamado Luís de Vargas de Lemos, que el-Rei D. João, terceiro do nome, deu ao Príncipe no número dos quarenta moços da Câmara e Guarda-roupa, o qual faleceu, sendo casado em Estremoz, rica e honradamente, sem ter filhos.
Das quatro filhas, a primeira, Antónia de Lemos, de que já disse; a segunda, Mécia de Lemos, casou e morreu sem filhos; a terceira, Juliana de Landim, faleceu solteira; a quarta, Camilia de Lemos, ainda hoje viva e viúva em Veiros, tem um filho e quatro filhas. E irmã também a sobredita Mécia de Lemos de outros mais e parenta de Duarte de Lemos, senhor da Trofa, e de João Gomes de Lemos, seu filho, outrossim senhor da Trofa, e de seu irmão Fernão Gomes de Lemos, que andou na Índia; e parenta de Nuno Martins da Silveira, senhor do morgado de Góis e Oliveira do Conde, e guarda-mor de el-Rei D. Manuel, e pai do Conde de Sortelha, D. Luís da Silveira, pai também de D. Diogo da Silveira, Conde de Sortelha e guarda-mor de el-Rei D. Sebastião; e parenta de D. Jorge de Lemos, frade de São Domingos, bispo do Funchal e esmoler-mor que foi de el-Rei D. Sebastião, e de outros muitos fidalgos.
E da dita Mécia de Lemos, irmã do dito Lopo de Vargas e dos mais sobreditos, e do dito João de Figueiredo, de Tonda, seu marido, filho do sobredito Luís Dias de Figueiredo, de Tonda, nasceram dois filhos: o primeiro, o licenciado Jorge de Figueiredo, o qual criado em os estudos para clérigo, neste meio tempo veio a ter conversação com uma moça honrada e orfã de pai, que se chama Lucrécia de Viveiros, sobrinha de um frade de Santa Cruz de Coimbra, por nome D. Vicente, e moradora no mesmo lugar de Tonda, de quem houve um filho, que se chama António de Figueiredo, e, correndo a conversação, se fez clérigo de missa, como os ditos seus pai e mãe lhe mandaram, não sabendo eles o inconveniente que sucedeu, e doze anos disse missa, sendo viúva a dita Lucrécia de Viveiros, sem lhe ir à mão; somente, dizem que dizia ela que era com o dito Jorge de Figueiredo casada, como tinha testemunhas, e que, como falecessem seu pai e mãe dele, ela havia de ser sua mulher e ele tomar outra ordem; e, falecendo assim, por serem velhos, os ditos João de Figueiredo e Mécia de Lemos, a dita Lucrécia de Viveiros, por ordem de seu tio D. Vicente, e dizem que de consentimento de Jorge de Figueiredo, por dizer que viera a sua lembrança ser com ela prmeiro casado e temer o Dia do Juízo, houve breve do Padre Santo, pelo qual se conheceu da causa, e ela provou seu intento, e foi sentenciado pelo grande doutor, de perpétua fama, Martim de Azpilcueta Navarro, lente de prima em Coimbra, que tornasse ao primeiro estado e matrimónio que contraíra, durando a vida dela, ou que ambos se metessem em religião de conselho, o que ela não quis fazer; antes viveram ambos no estado de casados, de umas portas a dentro, como marido e mulher que eram, e houveram outros filhos, até que ele faleceu haverá dez anos, e ela ainda é viva.
E nasceu do dito João de Figueiredo e Mécia de Lemos, moradores que foram em Tonda, do concelho de Besteiros, bispado de Viseu, Miguel de Figueiredo de Lemos, o qual, por ser parente de D. Filipa de Vilhena e se criar em sua casa, veio à dita ilha ter cargo da Comenda há muitos anos, aonde casou com Inês Nunes Velha, filha de Sebastião Nunes Velho e de Maria Gonçalves, sua mulher, filha de Gonçalo Vaz e de Isabel Pires, sua mulher, todos moradores que foram na dita ilha; e o dito Sebastião Nunes Velho, pai da dita Inês Nunes Velha, foi filho de Grimaneza Afonso, irmã de Duarte Nunes Velho, cavaleiro do hábito de Santiago, o qual Duarte Nunes Velho e Grimaneza Afonso eram filhos de Nuno Velho, irmão de Pero Velho, que viveu nesta ilha de São Miguel, e de África Anes, sua segunda e muito nobre mulher; os quais eram sobrinhos, filhos de uma irmã, de Frei Gonçalo Velho das Pias, comendador do castelo de Almourol e primeiro Capitão das ilhas de São Miguel e Santa Maria, o qual, por trazer consigo a estas duas ilhas e criar os ditos Nuno Velho e Pero Velho, filhos de sua irmã, quisera renunciar neles as ditas capitanias, para o que pedindo licença ao Infante D. Henrique, em cuja casa andava um João Soares, também seu sobrinho, filho de outra sua irmã, o Infante a não quis dar para se fazer a renunciação das capitanias nos ditos Nuno Velho e Pero Velho, por o não terem servido, senão para se fazer em o João Soares, que era de sua Casa, o qual sucedeu nelas por lhas dar o dito seu tio, e depois vendeu esta de São Miguel a Rui Gonçalves da Câmara, como em seu lugar direi, e se ficou com a de Santa Maria, que naquele tempo era melhor e mais povoada. E nela sucedeu seu filho João Soares de Sousa terceiro Capitão, ao qual também sucedeu seu filho Pero de Sousa, como direi quando tratar deles.
Foi África Anes, filha de Gonçalo Anes de Semandeça, de Portugal, homem nobre, ao qual, morrendo todos os filhos, lhe disseram que ao primeiro, que lhe nascesse, pusesse nome que ninguém tivesse; nascendo-lhe esta filha, pôs-lhe nome África, a qual, tomando do pai o sobrenome Anes chamou-se África Anes. Este Gonçalo Anes de Semandeça veio de Portugal e, com ele, esta filha, África Anes, à ilha de Santa Maria, no princípio do seu descobrimento; e primeiro vieram no lugar de Santa Ana, a Nossa Senhora dos Anjos, onde foi a primeira desembarcação e povoação, segundo já disse; o qual Gonçalo Anes, por morrer, ou por se absentar por um desastre que se diz acontecer da morte de um homem, deixou a dita filha, África Anes, muito moça e formosa e, ainda que de pouca idade, muito grave, encarregada ao Capitão Frei Gonçalo Velho, grande seu amigo, por vir com ele de Portugal e ser muito nobre e honrado; o qual Capitão tratou com que África Anes casasse com Jorge Velho, que também com o dito Capitão veio de Portugal, a quem tinha obrigação, e casou, porque de outra maneira (dizem) que não casara ela com ele, segundo a nobreza, primor e opinião que tinha a dita África Anes, por o dito Capitão a casar com este seu amigo, que também era de nobre geração e cavaleiro de África e (segundo afirmam antigos) sobrinho de el-Rei de Fez, da Casa do Infante D. Henrique, com o qual esteve casada muito pouco tempo, e dele teve um filho que povoou e viveu na cidade da Ponta Delgada, além do mosteiro de São Francisco, e outra na vila de Água de Pau; e daqui procederam os Jorges destas ilhas de São Miguel e de Santa Maria, como em seu lugar contarei mais largo. E, assim, teve uma filha, por nome Inês Afonso, mulher de João da Fonte, o Velho, homem muito nobre e abastado, dos quais nasceram João da Fonte, pai de Maria da Fonte e Álvaro da Fonte, Pero da Fonte, Jorge da Fonte, cavaleiro do hábito de Cristo, e Fernão da Fonte, e Adão da Fonte, que todos morreram na dita ilha de Santa Maria.
A segunda vez, casou esta África Anes na ilha de Santa Maria com Nuno Velho, sobrinho de Frei Gonçalo Velho, comendador de Almourol, primeiro Capitão desta ilha e da de Santa Maria, filho de uma sua irmã, ao qual Nuno Velho trouxe consigo o dito Capitão, e a outro seu irmão, que se chamou Pero Velho, que casou nesta ilha de São Miguel, como já está dito.
Da África Anes e de Nuno Velho, segundo marido, nasceram Duarte Nunes Velho, cavaleiro do hábito de Santiago, que morou em Malbusca, da ilha de Santa Maria, e Grimaneza Afonso de Melo, mãe do sobredito Sebastião Nunes Velho, a qual, por morte do dito seu pai, Nuno Velho, e da África Anes, sua mãe, levou para casa o segundo Capitão de Santa Maria, João Soares de Albergaria, primeiro do nome, por lhe ficar encarregada, para a dar à Rainha, e ser sua sobrinha, filha do dito Nuno Velho, seu primo com-irmão, o que ele não fez, mas em sua casa a casou com um Lourenço Anes, natural da ilha Terceira, da vila de São Sebastião, homem principal, nobre e muito rico, e tão poderoso que teve grandes bandorias com o Capitão de Angra sobre certas propriedades e sua posse, e viveu em a ilha de Santa Maria com a dita sua mulher, Grimaneza Afonso, a qual, quando ia à igreja, levava dez, doze mulheres consigo e lhe levavam o rabo, como ainda há pessoas que disso se acordam e de seu grande fausto.
Da dita Grimaneza Afonso de Melo e do dito seu marido nasceram Sebastião Nunes Velho, pai de Inês Nunes Velha, mulher de Miguel de Figueiredo de Lemos, de que acima disse, e mãe de D. Luís de Figueiredo de Lemos, bispo do Funchal, e de sua irmã, D. Mécia de Lemos, mulher de André de Sousa, filho do dito Capitão de Santa Maria, João Soares de Sousa, segundo do nome, e de outros. Nasceram mais de Grimaneza Afonso e de Lourenço Anes, seu marido, Nuno Lourenço, pai de Matias Nunes Velho, que ora vive na mesma ilha de Santa Maria, e outros.
Nuno Lourenço Velho, filho da Lourenço Anes e de Grimaneza Afonso de Melo, e neto de Nuno Velho, e bisneto de Diogo Gonçalves de Travassos e de D. Violante Cabral, e tresneto de Martim Gonçalves Travassos e de D. Catarina Dias de Melo, da parte masculina, e, da parte feminina, de D. Violante Cabral, que era filha de Fernão Velho e de D. Maria Álvares Cabral, filha do Senhor de Belmonte, este Nuno Lourenço Velho foi casado com Catarina Vaz, de que houve muitos filhos, que, quase todos, morreram na Índia em serviço de el-Rei, e é vivo um, chamado Matias Nunes Velho Cabral, homem de grandes espíritos, esforços, discrição, prudência e magnífica condição, o qual casou com Maria Simões, de que tem um filho, por nome António Cabral de Melo, e algumas filhas, que mora em uma sua quinta, que tem na Frol (sic) da Rosa, acima da Vila, o qual tirou papéis autênticos, em forma devida, de sua nobreza e de seus avós e brazões, em que consta ser fidalgo de geração, e como tal se trata e é tido e havido. E seus avós e bisavós, que foram Nuno Velho, Diogo Gonçalves de Travassos, D. Violante Cabral, Martim Gonçalves de Travassos, D. Catarina de Melo, Fernão Velho, D. Maria Álvares Cabral, filha do Senhor de Belmonte, Frei Gonçalo Velho, comendador de Almourol e Capitão destas duas ilhas, e Rui Velho de Melo, estribeiro-mor de el-Rei D. João, segundo do nome, todos foram do Conselho dos Reis e muito seus privados, e dos mais honrados fidalgos que houve naquele tempo, o que todo (sic) vi por papéis autênticos, em forma devida pelas justiças, e assim foi e é fama comum antre os antigos e modernos. E tem por armas, em seu brazão, o escudo esquartelado: ao primeiro, dos Velhos, que trazem o campo vermelho e cinco vieiras de ouro escurecidas de preto, postas em aspa, e, ao contrairo, dos Melos, que trazem o campo vermelho e seis arruelas de prata encaceradas (sic) antre uma dobre cruz e bordadura de ouro; e ao segundo, dos Cabrais, que trazem o campo de prata e duas cabras de púrpura passantes, armadas de preto, e, ao contrairo, dos Travassos, que trazem o campo vermelho, rosais de flores de trevol postas em aspa, e elmo aberto, guarnido de ouro, paquife de ouro e vermelho e prata e púrpura, e por timbre um chapéu pardo com uma veira de ouro na borda da volta, que é o timbre dos Velhos, e por diferença uma frol de liz de prata. Tem o dito Matias Nunes dois irmãos legítimos, filhos de seu pai e de outra mulher, um, por nome Diogo Velho, e outro, Baltazar Velho Cabral.
Nasceu mais de Grimaneza Afonso de Melo e de seu marido Lourenço Anes, Violante Nunes, avó de Tomé de Magalhães, que agora é almoxarife na dita ilha, homem de muita nobreza, discrição e virtude, e de seu irmão, João Tomé Velho, a qual Violante Nunes foi casada com João Tomé Velho, a qual Violante Nunes foi casada com João Tomé, o Amo, e foi também avó de Cristóvão Vaz Velho e de Fernão Monteiro, que é casado com uma filha do Minhoto, por nome D. Branca, neta de João Soares, terceiro Capitão; os quais Fernão Monteiro e Cristóvão Vaz Velho são primos con-irmãos dos ditos Tomé de Magalhães e João Tomé Velho, filhos de duas irmãs, porque a dita sua avó e Nuno Lourenço e Sebastião Nunes Velho, avô do dito bispo, eram irmãos, filhos de Grimaneza Afonso, sua bisavó.
A terceira vez, casou África Anes com Pedro Anes de Alpoem, homem nobre e estrangeiro, donde nasceu Rui Fernandes de Alpoem, da ilha de Santa Maria, que não teve filho legítimo, senão um filho natural, muito gentil homem e valente mancebo, ao qual mataram à treição (sic), e uma filha, também natural, muito honrada e virtuosa, que casou com o bacharel João de Avelar, homem nobre, de muita virtude e prudência. Nasceram mais da dita África Anes e Pedro Anes de Alpoem Estevão Pires de Alpoem e Guilhelma Fernandes , mãe da Maia.
Do tresavô do Bispo do Funchal, Nuno Velho, e de Pero Velho, seu irmão, procederam os Velhos, nobres desta ilha de São Miguel (como depois direi) e da de Santa Maria e das outras; e da África Anes procederam estas três, e outras nobres gerações delas todas.
Gonçalo Vaz, acima dito, pai da dita Maria Gonçalves e avô de Inês Nunes Velha, mulher do dito Miguel de Figueiredo Lemos, era parente dentro no quarto grau de D. Matinho, arcebispo que foi de Lisboa, e de seu irmão, arcebispo que foi de Braga e cardeal em Roma, e de outros fidalgos, seus irmãos e parentes.
E de Miguel de Figueiredo de Lemos, filho de João de Figueiredo, de Tonda, e de Mécia de Lemos, e neto de Luís Dias de Figueiredo, fidalgo que foi da Casa de el-Rei D. Afonso, e de sua mulher, Inês Nunes Velha, filha de Sebastião Nunes Velho e neta de Grimaneza Afonso, filha de África Anes e de Nuno Velho, e neta também do sobredito Gonçalo Vaz, nasceu o licenciado D. Luís de Figueiredo, capelão de el-Rei, bom letrado nos sagrados cânones, vigairo que foi da igreja do Apóstolo São Pedro da cidade da Ponta Delgada e ouvidor geral do Eclesiástico nesta ilha de São Miguel, e dayão da Sé de Angra, e Vigairo Geral e Governador em o espiritual neste bispado, e agora benemérito bispo do Funchal, que, além de sua muita virtude e prudência, é grave na pessoa, macio na condição, suave na conversação, discreto nas palavras, e em seu cargo vigilantíssimo e mui inteiro, pelas quais coisas e boas partes foi mui estimado e honrado de D. Pedro de Castilho, bispo que foi de Angra e destas ilhas, as quais andou com ele visitando. Assim, também nasceu D. Mécia de Lemos, mulher de André de Sousa, nobre fidalgo, filho do Capitão João Soares de Sousa, o terceiro da ilha e segundo do nome, e nasceram Guiomar de Lemos, freira professa no mosteiro de Santo André da Ponta Delgada, que agora se chama Maria da Conceição, e Catarina de Figueiredo, casada primeiro com António Barradas Tavares, fidalgo e estremado cavaleiro, natural desta ilha de São Miguel, e agora com Gaspar Manuel de Vasconcelos, fidalgo de grande virtude e prudência, e Inês Nunes Velha, que casou com Simão Gonçalves Pinheiro, filho de Manuel Álvares Pinheiro, da cidade da Ponta Delgada, e Jorge de Figueiredo, moço da Câmara de el-Rei D. Sebastião, que faleceu na Índia em serviço do mesmo Rei.
E do dito João de Figueiredo, de Tonda, e de sua mulher Mécia de Lemos nasceram mais António de Lemos, que ora é ainda prior de Recardães, e Manuel de Vargas, já defunto, e Catarina de Lemos, mulher de Gaspar de Loureiro, cavaleiro-fidalgo da Casa de el-Rei e primo de Luís de Loureiro, Capitão que foi de Mazagão, e irmãos do dito Miguel de Figueiredo de Lemos. E, afora estes que agora disse, tem e teve muitos mais parentes de muito merecimento e nome, o que tudo consta, notoriamente, por lembranças antigas e papéis e estromentos verdadeiros, que há, e de pessoas que são vivas em as partes e lugares nomeados no processo da história, que viram com seus olhos algumas, e outras ouviram a outros mais antigos. O qual Miguel de Figueiredo tem seu brazão de armas que aos Figueiredos pertencem (que são fidalgos de cota de armas, de que ele descende por linha direita masculina) e estão nos livros da nobreza do Reino, que são um escudo com o campo vermelho, e nele cinco folhas de figueira, de verde, perfiladas de ouro em aspa, elmo de prata aberto, guarnecido de ouro, paquife de ouro e vermelho, e por timbre dois braços de leão em aspa, com duas folhas de figueira nas unhas, com uma merleta de ouro por divisa.
Assim que estes e outros antigos, e outra nobre gente que, depois, pelo tempo, veio a esta ilha de Santa Maria e seus descendentes, povoaram e cultivaram a terra, e a puseram no estado em que agora está, como são os Faleiros, descendentes de João Vaz Melão, e os Fontes, de João Roiz da Fonte, e os Curvelos, do mestre António, de Catalunha, e os Sarnaches, de Pero Álvares de Sarnache, e outras nobres progénies que a governam, cuja descrição logo irei contando.
Mas, primeiro direi o “Contraponto” que fez o insigne Dr. Daniel da Costa sobre o meu cantochão, que compus da vida do bispo D. Luís de Figueiredo, quando dele tratei, tratando da ilha da Madeira, em que melhor se verá como desta ilha de Santa Maria, tão pequena, saiu quem agora está ilustrando uma ilha tão grande, e a alta progénie deste ilustríssimo prelado, como, então, prometi .
Como na alta mente do Infante estava posta e entendida outra coisa que os seus não entendiam nem cuidavam, recebendo-os ele com alegre rosto e fazendo as mercês costumadas a semelhantes serviços, confirmou mais o que cuidava, de estar ali perto daquele baixo de penedia à (sic) ilha que ele mandava buscar, e sabendo mui bem que (sic) porfia mata caça e a lebre que uma vez se esconde outro dia se descobre, determinou provar outra vez a ventura e aventurar o pouco que gastava pelo muito que disso esperava cobrar; e, como foi tempo disposto para o descobrimento, no ano seguinte tornou, com rogos e com promessas (como alguns dizem), a mandar o mesmo Frei Gonçalo Velho a descobrir o que dantes não achara, dando-lhe por regimento que passasse avante das Formigas. O qual Gonçalo Velho, tornando a fazer esta viagem, como lhe era mandado, vindo com próspero tempo, querendo Deus já fazer esta tão alta mercê ao Infante e a ele, houve vista da ilha em dia da Assunção de Nossa Senhora, quinze dias de Agosto do ano do Senhor, uns dizem de 1430, outros de 1458.
Mas isto não pode ser, porque commumente se disse e afirmou sempre, e assim se acha em algumas lembranças de homens graves desta ilha de São Miguel, que foi achada depois da ilha de Santa Maria ser descoberta doze anos, e se achou na era de 1444, como depois direi tratando dela; pois se esta ilha de São Miguel se achou nesta era de 444 e a ilha de Santa Maria foi achada primeiro que ela doze anos, como todos dizem, e nunca caiu isto da memória dos homens, quem de 1444 tira doze ficam 1432, que é o ano em que se achou a ilha de Santa Maria.
Assim que a mais verdade que pude saber é que foi achada e houve vista dela Frei Gonçalo Velho e seus companheiros, que com ele iam, no ano de mil e quatrocentos e trinta e dois, reinando ainda em Portugal el-Rei D. João, de Boa Memória, décimo rei em número e primeiro do nome, no penúltimo ano de seu reinado, pois ele foi coroado por Rei de Portugal na cidade de Coimbra na era de 1385 anos, e no mesmo ano, véspera de Nossa Senhora da Assunção, que é em Agosto, venceu este Rei a el-Rei de Castela com todo o seu poder, em batalha campal, no Campo de São Jorge, acima de onde ora está edificado o mosteiro da Batalha, sendo de idade de trinta e oito anos, e viveu setenta e seis, dos quais reinou cinquenta, e faleceu véspera de Nossa Senhora de Agosto, na era de 1433 anos, que é um ano depois de se achar a ilha. E neste mesmo ano em que foi achada a dita ilha de Santa Maria (que se chamou assim, e lhe puseram este nome os descobridores dela, porque a acharam em seu dia), nasceu em Santarém o Príncipe D. Afonso, filho de el-Rei D. Duarte, o qual D. Afonso foi o quinto deste nome e duodécimo rei de Portugal.
Com grande contentamento de Gonçalo Velho e de sua companhia foi celebrado aquele dia da Assunção de Nossa Senhora com duas alegres festas, uma por entrar a Senhora no Céu a gozar dos bens da glória, outra por entrarem eles naquela ilha nova a lograr os frutos da terra.
Como entraram, e a primeira terra que tomaram, onde saíram, foi, da banda de Oeste, em uma curta praia de uma abra que se faz antre a ponta da terra, que se chama a Praia dos Lobos, e outra ponta, que se chama o Cabrestante, onde vai sair ao mar uma pequena ribeira que corre todo o ano, chamada a ribeira do Capitão, por correr pelas suas terras, que naquela parte depois tomou para si, que são a Faneca, Monte Gordo, Flor da Rosa, Paúl, Roça das Canas, donde nasce aquela ribeira que vai ter ali ao mar, junto do Cabrestante; onde se fez pelo tempo adiante o primeiro coval, junto da mesma ribeira, em uma pedra mole, como tufo, e amarela, como barro, que se corta à enxada, a que chamam saibro, no qual saibro, onde quer que o há na ilha, se dá o melhor vinho dela; onde se encovou o primeiro trigo que deu a terra.
E assim são os granéis de toda a ilha, que depois fizeram em covas onde acham aquele tufo. E cada cova leva de dois até dez moios de trigo, conforme a como as querem fazer, em que o têm todo o ano, e quem o não encovar põe-se a risco de o perder, como muitas vezes se perde; nas quais covas só se guarda o que se há-de comer e não o que fica para semear, por se não danar, o qual têm fora em granéis, ou em sacos, até o tempo da sementeira. E a terra do Capitão, que ali teve, chega aos seus Covões, que são umas terras que têm uns vales como covas, e por isso lhe chamaram Covões, que estão ao pé da serra e do mato, as quais agora possuem seus herdeiros.
Assim que os primeiros que saíram em terra, ali junto do mar, ao longo daquela ribeira do Capitão, ou desta vez, ou da segunda, fizeram a primeira casa que na ilha se fez, e, depois, pelo tempo adiante fizeram outras pela ribeira acima, e esta foi a primeira povoação da ilha, e por isso escolheu depois ali o Capitão suas terras, que são as melhores da ilha, e dão mais e melhor fruto e trigo, quase como o de Alentejo, quando o ano é temperado e bom.
Andou Gonçalo Velho correndo a costa da banda do Sul, ora no navio, ora na bateira, saindo em terra onde achava lugar para isso, vendo-a coberta de muito e mui espesso arvoredo de cedros, ginjas, pau branco, faias, louros, urzes e outras plantas, notando as baías e pontas, compridão e longura da ilha, e tomando em vasilhas água de fontes e ribeiras e, da terra, alguns ramos de diversas árvores, que nela havia, para mostrar ao Infante.
Fazendo ali pouca detença, como viu tempo conveniente, se partiu para o Reino, onde, chegado ao lugar donde partira, disse ao Infante como achara a ilha, dizendo o que dela entendera e mostrando-lhe as coisas que levava da terra, com a qual nova o Infante, dando graças a Deus, que lha manifestara, e ficando muito contente, recebeu com bom gasalhado e cortesia a Gonçalo Velho e aos mais que lá em sua companhia mandara, fazendo mercês a todos, segundo a qualidade das pessoas e serviços e ofícios de cada um deles, porque, como os bons servos mostram sua virtude e fidelidade em servir com amor e diligência a seus senhores, assim os príncipes e grandes senhores manifestam sua grandeza e magnificência em fazer mercês a seus obedientes súbditos e galardoar com superabundância de amor e obras os serviços de seus fiéis criados.
Não se sabe a certeza se no ano seguinte, depois de achada esta ilha de Santa Maria, se depois algum tempo mais adiante, mandou o Infante deitar gado nela, e se logo a vieram povoar, se dali a alguns anos depois de deitado o gado; mas de crer é que, ou no mesmo ano, ou logo no outro seguinte, mandaria o Infante, solícito nestes descobrimentos, deitar gado vacum, e ovelhum, e cabras, e coelhos, e outras coisas, e aves domésticas para se criarem e multiplicarem na terra, entretanto que a não mandava povoar, e, pelo tempo adiante, pela boa informação que Gonçalo Velho deu da qualidade e fresquidão da terra, determinou o Infante, com aprazimento de el-Rei, de o mandar lá outra vez; mas não se sabe em que era, mais que conjecturar que dali a um, dois ou três anos, faria, como fez, mercê dela ao dito Frei Gonçalo Velho, que a achara, e o mandaria com gente nobre de sua casa e outra de serviço para a povoar, cultivar e beneficiar, e colher nela os frutos de seus trabalhos. Os quais, chegando a ela em os barcos dos navios, descobriram a costa de toda a ilha em torno, pouco a pouco, e, então, pelo tempo em diante iriam pondo os nomes a seu beneplácito às pontas, angras, e ribeiras, e lugares que povoaram, e, principalmente, à Vila do Porto, no bom que acharam em uma formosa baía, onde agora está a principal e mais nobre povoação de toda a ilha; da qual gente, que a ela veio, precisamente não soube o número, nem os nomes. Mas os de alguns antigos que a povoaram no princípio, como melhor pude alcançar, são estes que agora direi.
Afirmam todos, e por verdade se tem, que os primeiros e mais antigos habitadores, que à ilha de Santa Maria vieram, foram, primeiramente, o primeiro Capitão e descobridor dela, Frei Gonçalo Velho das Pias, comendador de Almourol, o qual, como adiante, em seu lugar, direi, descobriu depois esta ilha de São Miguel, por mandado do dito Infante D. Henrique, e foi também Capitão dela; Nuno Velho e Pedro Velho, que passaram depois a esta ilha de São Miguel, ambos irmãos, e sobrinhos do dito Capitão, Frei Gonçalo Velho das Pias, filhos de uma sua irmã, que ele trouxe a estas ilhas moços de pouca idade; e João Soares de Albergaria , seu sobrinho, filho de outra sua irmã, que também foi Capitão, depois de seu tio, de ambas estas duas ilhas; Filipe Soares, sobrinho do Capitão João Soares de Albergaria , casado com Constança de Agrela, o qual mataram dois negros seus, estando crestando uma abelheira.
Álvaro Pires de Lemos, segundo dizem, foi o segundo homem dos principais que entrou na ilha. Fernão do Quental e João da Castanheira, homens mui nobres e honrados, que vieram de Portugal e começaram a povoar a ilha, na Vila do Porto, e tiveram dadas nela, e, depois de descoberta esta ilha de São Miguel, vendendo o que tinham na de Santa Maria por pouco preço, se passaram a morar nela, e moraram na Ponta Delgada, acima da qual teve um deles uma serra, que do seu nome se chamou o Pico de João de Castanheira, dos quais direi adiante, quando tratar da mesma ilha. Clenestimor, homem também principal, que veio casado da ilha da Madeira com sua mulher Filipa Gil. João Marvão, criado do Infante D. Henrique e seu feitor e almoxarife na ilha, natural do Sabugal, de Portugal, para onde se tornou já depois de muito velho e ter filhos e filhas, que na ilha ficaram, de uma parenta de Jorge Nunes Botelho, desta ilha de São Miguel, com que foi casado; e os Alpoens da ilha foram seus parentes.
Neste tempo, para fazer prantar canas de açúcar na ilha, e fazê-lo como na da Madeira, mandou o Infante D. Henrique a ela um mestre António Catalão , o qual as prantou e fez prantar logo no princípio, e deram-se muito boas, que trouxeram a moer nesta ilha de São Miguel, em Vila Franca, e fez-se delas muito bom açúcar; mas, pela pouca curiosidade dos homens, ou por não haver regadias, ou pelo pouco poder, cessou a granjearia delas. Este mestre António veio casado à ilha e pediu dadas a el-Rei, e faleceu de mais de cento e dez anos, deixando dois nobres filhos, Genes Curvelo e Francisco Curvelo, homens de muita maneira, honrados e generosos, de magnífica condição e grande esforço.
O Genes Curvelo trouxe os princípios todos da ilha, como foi provisão para se fazer a igreja, e ornamentos e sinos, e as coisas da Câmara, e vivia no cabo da ilha, da banda de Leste, onde se chama Santo Espírito; o qual houve cinco filhos e cinco filhas, com os quais vinha à Vila, à missa, todos a cavalo, com muita prosperidade; sua mulher, chamada Maria de Lordelo, era muito honrada, natural da ilha da Madeira. O Francisco Curvelo casou na ilha com Guiomar Gardeza, mulher nobre, de que houve nobres filhos e filhas. E, assim, de mestre António procedeu a geração dos Curvelos, que é a maior parte da terra. João Vaz Melão , donde descendeu outra geração, que se chamam os Faleiros. Da África Anes, casada com Jorge Velho, descenderam os Jorges desta ilha de São Miguel, como direi a seu tempo, quando tratar dela.
Dizem também alguns que Pedro Álvares foi dos primeiros habitadores da dita ilha de Santa Maria e foi logo-tente do Capitão, e um seu filho, chamado João Pires, fo o primeiro homem que nela nasceu, e logo depois dele um Álvaro da Fonte. Mas, primeiro que estes ambos, a primeira pessoa que nasceu na dita ilha de Santa Maria foi uma Margaida (sic) Afonso, filha de Afonso Lourenço, do Paúl, que foi mulher de Diogo Fernandes Lutador, que depois morou na freguesia de Nossa Senhora da Luz do lugar dos Fanais (sic), termo da Ponta Delgada, desta ilha de São Miguel.
COMO FOI ACHADA A ILHA DE SANTA MARIA POR FREI GONÇALO VELHO, COMENDADOR DE ALMOUROL, QUE PELO INFANTE D. HENRIQUE A SEU DESCOBRIMENTO FOI ENVIADO E FEITO CAPITÃO DELA; E DE ALGUNS ANTIGOS QUE NO PRINCÍPIO A POVOARAM
Como na alta mente do Infante estava posta e entendida outra coisa que os seus não entendiam nem cuidavam, recebendo-os ele com alegre rosto e fazendo as mercês costumadas a semelhantes serviços, confirmou mais o que cuidava, de estar ali perto daquele baixo de penedia à (sic) ilha que ele mandava buscar, e sabendo mui bem que (sic) porfia mata caça e a lebre que uma vez se esconde outro dia se descobre, determinou provar outra vez a ventura e aventurar o pouco que gastava pelo muito que disso esperava cobrar; e, como foi tempo disposto para o descobrimento, no ano seguinte tornou, com rogos e com promessas (como alguns dizem), a mandar o mesmo Frei Gonçalo Velho a descobrir o que dantes não achara, dando-lhe por regimento que passasse avante das Formigas. O qual Gonçalo Velho, tornando a fazer esta viagem, como lhe era mandado, vindo com próspero tempo, querendo Deus já fazer esta tão alta mercê ao Infante e a ele, houve vista da ilha em dia da Assunção de Nossa Senhora, quinze dias de Agosto do ano do Senhor, uns dizem de 1430, outros de 1458.
Mas isto não pode ser, porque commumente se disse e afirmou sempre, e assim se acha em algumas lembranças de homens graves desta ilha de São Miguel, que foi achada depois da ilha de Santa Maria ser descoberta doze anos, e se achou na era de 1444, como depois direi tratando dela; pois se esta ilha de São Miguel se achou nesta era de 444 e a ilha de Santa Maria foi achada primeiro que ela doze anos, como todos dizem, e nunca caiu isto da memória dos homens, quem de 1444 tira doze ficam 1432, que é o ano em que se achou a ilha de Santa Maria.
Assim que a mais verdade que pude saber é que foi achada e houve vista dela Frei Gonçalo Velho e seus companheiros, que com ele iam, no ano de mil e quatrocentos e trinta e dois, reinando ainda em Portugal el-Rei D. João, de Boa Memória, décimo rei em número e primeiro do nome, no penúltimo ano de seu reinado, pois ele foi coroado por Rei de Portugal na cidade de Coimbra na era de 1385 anos, e no mesmo ano, véspera de Nossa Senhora da Assunção, que é em Agosto, venceu este Rei a el-Rei de Castela com todo o seu poder, em batalha campal, no Campo de São Jorge, acima de onde ora está edificado o mosteiro da Batalha, sendo de idade de trinta e oito anos, e viveu setenta e seis, dos quais reinou cinquenta, e faleceu véspera de Nossa Senhora de Agosto, na era de 1433 anos, que é um ano depois de se achar a ilha. E neste mesmo ano em que foi achada a dita ilha de Santa Maria (que se chamou assim, e lhe puseram este nome os descobridores dela, porque a acharam em seu dia), nasceu em Santarém o Príncipe D. Afonso, filho de el-Rei D. Duarte, o qual D. Afonso foi o quinto deste nome e duodécimo rei de Portugal.
Com grande contentamento de Gonçalo Velho e de sua companhia foi celebrado aquele dia da Assunção de Nossa Senhora com duas alegres festas, uma por entrar a Senhora no Céu a gozar dos bens da glória, outra por entrarem eles naquela ilha nova a lograr os frutos da terra.
Como entraram, e a primeira terra que tomaram, onde saíram, foi, da banda de Oeste, em uma curta praia de uma abra que se faz antre a ponta da terra, que se chama a Praia dos Lobos, e outra ponta, que se chama o Cabrestante, onde vai sair ao mar uma pequena ribeira que corre todo o ano, chamada a ribeira do Capitão, por correr pelas suas terras, que naquela parte depois tomou para si, que são a Faneca, Monte Gordo, Flor da Rosa, Paúl, Roça das Canas, donde nasce aquela ribeira que vai ter ali ao mar, junto do Cabrestante; onde se fez pelo tempo adiante o primeiro coval, junto da mesma ribeira, em uma pedra mole, como tufo, e amarela, como barro, que se corta à enxada, a que chamam saibro, no qual saibro, onde quer que o há na ilha, se dá o melhor vinho dela; onde se encovou o primeiro trigo que deu a terra.
E assim são os granéis de toda a ilha, que depois fizeram em covas onde acham aquele tufo. E cada cova leva de dois até dez moios de trigo, conforme a como as querem fazer, em que o têm todo o ano, e quem o não encovar põe-se a risco de o perder, como muitas vezes se perde; nas quais covas só se guarda o que se há-de comer e não o que fica para semear, por se não danar, o qual têm fora em granéis, ou em sacos, até o tempo da sementeira. E a terra do Capitão, que ali teve, chega aos seus Covões, que são umas terras que têm uns vales como covas, e por isso lhe chamaram Covões, que estão ao pé da serra e do mato, as quais agora possuem seus herdeiros.
Assim que os primeiros que saíram em terra, ali junto do mar, ao longo daquela ribeira do Capitão, ou desta vez, ou da segunda, fizeram a primeira casa que na ilha se fez, e, depois, pelo tempo adiante fizeram outras pela ribeira acima, e esta foi a primeira povoação da ilha, e por isso escolheu depois ali o Capitão suas terras, que são as melhores da ilha, e dão mais e melhor fruto e trigo, quase como o de Alentejo, quando o ano é temperado e bom.
Andou Gonçalo Velho correndo a costa da banda do Sul, ora no navio, ora na bateira, saindo em terra onde achava lugar para isso, vendo-a coberta de muito e mui espesso arvoredo de cedros, ginjas, pau branco, faias, louros, urzes e outras plantas, notando as baías e pontas, compridão e longura da ilha, e tomando em vasilhas água de fontes e ribeiras e, da terra, alguns ramos de diversas árvores, que nela havia, para mostrar ao Infante.
Fazendo ali pouca detença, como viu tempo conveniente, se partiu para o Reino, onde, chegado ao lugar donde partira, disse ao Infante como achara a ilha, dizendo o que dela entendera e mostrando-lhe as coisas que levava da terra, com a qual nova o Infante, dando graças a Deus, que lha manifestara, e ficando muito contente, recebeu com bom gasalhado e cortesia a Gonçalo Velho e aos mais que lá em sua companhia mandara, fazendo mercês a todos, segundo a qualidade das pessoas e serviços e ofícios de cada um deles, porque, como os bons servos mostram sua virtude e fidelidade em servir com amor e diligência a seus senhores, assim os príncipes e grandes senhores manifestam sua grandeza e magnificência em fazer mercês a seus obedientes súbditos e galardoar com superabundância de amor e obras os serviços de seus fiéis criados.
Não se sabe a certeza se no ano seguinte, depois de achada esta ilha de Santa Maria, se depois algum tempo mais adiante, mandou o Infante deitar gado nela, e se logo a vieram povoar, se dali a alguns anos depois de deitado o gado; mas de crer é que, ou no mesmo ano, ou logo no outro seguinte, mandaria o Infante, solícito nestes descobrimentos, deitar gado vacum, e ovelhum, e cabras, e coelhos, e outras coisas, e aves domésticas para se criarem e multiplicarem na terra, entretanto que a não mandava povoar, e, pelo tempo adiante, pela boa informação que Gonçalo Velho deu da qualidade e fresquidão da terra, determinou o Infante, com aprazimento de el-Rei, de o mandar lá outra vez; mas não se sabe em que era, mais que conjecturar que dali a um, dois ou três anos, faria, como fez, mercê dela ao dito Frei Gonçalo Velho, que a achara, e o mandaria com gente nobre de sua casa e outra de serviço para a povoar, cultivar e beneficiar, e colher nela os frutos de seus trabalhos. Os quais, chegando a ela em os barcos dos navios, descobriram a costa de toda a ilha em torno, pouco a pouco, e, então, pelo tempo em diante iriam pondo os nomes a seu beneplácito às pontas, angras, e ribeiras, e lugares que povoaram, e, principalmente, à Vila do Porto, no bom que acharam em uma formosa baía, onde agora está a principal e mais nobre povoação de toda a ilha; da qual gente, que a ela veio, precisamente não soube o número, nem os nomes. Mas os de alguns antigos que a povoaram no princípio, como melhor pude alcançar, são estes que agora direi.
Afirmam todos, e por verdade se tem, que os primeiros e mais antigos habitadores, que à ilha de Santa Maria vieram, foram, primeiramente, o primeiro Capitão e descobridor dela, Frei Gonçalo Velho das Pias, comendador de Almourol, o qual, como adiante, em seu lugar, direi, descobriu depois esta ilha de São Miguel, por mandado do dito Infante D. Henrique, e foi também Capitão dela; Nuno Velho e Pedro Velho, que passaram depois a esta ilha de São Miguel, ambos irmãos, e sobrinhos do dito Capitão, Frei Gonçalo Velho das Pias, filhos de uma sua irmã, que ele trouxe a estas ilhas moços de pouca idade; e João Soares de Albergaria , seu sobrinho, filho de outra sua irmã, que também foi Capitão, depois de seu tio, de ambas estas duas ilhas; Filipe Soares, sobrinho do Capitão João Soares de Albergaria , casado com Constança de Agrela, o qual mataram dois negros seus, estando crestando uma abelheira.
Álvaro Pires de Lemos, segundo dizem, foi o segundo homem dos principais que entrou na ilha. Fernão do Quental e João da Castanheira, homens mui nobres e honrados, que vieram de Portugal e começaram a povoar a ilha, na Vila do Porto, e tiveram dadas nela, e, depois de descoberta esta ilha de São Miguel, vendendo o que tinham na de Santa Maria por pouco preço, se passaram a morar nela, e moraram na Ponta Delgada, acima da qual teve um deles uma serra, que do seu nome se chamou o Pico de João de Castanheira, dos quais direi adiante, quando tratar da mesma ilha. Clenestimor, homem também principal, que veio casado da ilha da Madeira com sua mulher Filipa Gil. João Marvão, criado do Infante D. Henrique e seu feitor e almoxarife na ilha, natural do Sabugal, de Portugal, para onde se tornou já depois de muito velho e ter filhos e filhas, que na ilha ficaram, de uma parenta de Jorge Nunes Botelho, desta ilha de São Miguel, com que foi casado; e os Alpoens da ilha foram seus parentes.
Neste tempo, para fazer prantar canas de açúcar na ilha, e fazê-lo como na da Madeira, mandou o Infante D. Henrique a ela um mestre António Catalão , o qual as prantou e fez prantar logo no princípio, e deram-se muito boas, que trouxeram a moer nesta ilha de São Miguel, em Vila Franca, e fez-se delas muito bom açúcar; mas, pela pouca curiosidade dos homens, ou por não haver regadias, ou pelo pouco poder, cessou a granjearia delas. Este mestre António veio casado à ilha e pediu dadas a el-Rei, e faleceu de mais de cento e dez anos, deixando dois nobres filhos, Genes Curvelo e Francisco Curvelo, homens de muita maneira, honrados e generosos, de magnífica condição e grande esforço.
O Genes Curvelo trouxe os princípios todos da ilha, como foi provisão para se fazer a igreja, e ornamentos e sinos, e as coisas da Câmara, e vivia no cabo da ilha, da banda de Leste, onde se chama Santo Espírito; o qual houve cinco filhos e cinco filhas, com os quais vinha à Vila, à missa, todos a cavalo, com muita prosperidade; sua mulher, chamada Maria de Lordelo, era muito honrada, natural da ilha da Madeira. O Francisco Curvelo casou na ilha com Guiomar Gardeza, mulher nobre, de que houve nobres filhos e filhas. E, assim, de mestre António procedeu a geração dos Curvelos, que é a maior parte da terra. João Vaz Melão , donde descendeu outra geração, que se chamam os Faleiros. Da África Anes, casada com Jorge Velho, descenderam os Jorges desta ilha de São Miguel, como direi a seu tempo, quando tratar dela.
Dizem também alguns que Pedro Álvares foi dos primeiros habitadores da dita ilha de Santa Maria e foi logo-tente do Capitão, e um seu filho, chamado João Pires, fo o primeiro homem que nela nasceu, e logo depois dele um Álvaro da Fonte. Mas, primeiro que estes ambos, a primeira pessoa que nasceu na dita ilha de Santa Maria foi uma Margaida (sic) Afonso, filha de Afonso Lourenço, do Paúl, que foi mulher de Diogo Fernandes Lutador, que depois morou na freguesia de Nossa Senhora da Luz do lugar dos Fanais (sic), termo da Ponta Delgada, desta ilha de São Miguel.
Saudades da Terra
No ano de mil e quatrocentos e vinte e oito se conta que foi o Infante D. Pedro a Ingraterra, França, Alemanha, à Casa Santa e a outras daquela banda, e tornou por Itália; esteve em Roma e Veneza, e trouxe de lá um mapa-mundi que tinha todo o âmbito da Terra e o estreito de Magalhães, a que chamava Cola do Dragão, o Cabo de Boa Esperança, fronteira de África; e conjecturo que deste se ajudaria depois o Infante D. Henrique em seu descobrimento.
E conta o capitão António Galvão que Francisco de Sousa Tavares lhe dissera que, no ano de mil e quinhentos e vinte e oito, o Infante D. Fernando lhe amostrara um mapa, que se achara no cartório de Alcobaça, que havia de cento e vinte anos que era feito e tinha toda a navegação da Índia com o Cabo de Boa Esperança, como os de agora, o qual mapa-mundi cuido que devia ser o que trouxe o Infante D. Pedro. E, sendo assim, isto já em tempo passado era tanto, como agora, ou mais descoberto; e de crer é que deste mapa se ajudaria também muito o Infante D. Henrique para o descobrimento destas ilhas dos Açores, de que falamos. E pode ser que a notícia que delas dariam os fenicianos, que alguns dizem ser os venezianos, que atrás disse, tão antiga as faria por arrumar e pintar nos mapas que já daquele tempo antigo para cá se fizeram e imprimiram, porque não é de crer que tão graves Príncipes se movessem, sem mais notícia, a descobrimentos tão duvidosos, trabalhosos e tão custosos. Senão se se moveu o Infante D. Henrique a isso por revelação divina, como alguns cuidaram e escreveram, o que não é muito crer dele, pela muita limpeza e virtudes de que Deus o dotou em sua vida.
Mas com todo o trabalho e gasto que o Infante D. Henrique tinha feito, nunca desistiu de seu propósito e descobrimento da costa de África e para isso mandou Gileannes, seu criado, que foi o primeiro que passou o Cabo Bojador, tanto por todos arreceado, e trouxe nova não ser tão perigoso como se dizia; da outra banda saiu em terra e, como quem tomava posse, pôs nela por marco uma cruz de pau.
Dizem alguns antigos que logo perto deste tempo em que Giliannes passou o Cabo Boyador (sic), estando o Infante D. Henrique em Sagres, no Algarve, mandou um navio descobrir a ilha que agora chamam de Santa Maria, primeiro que todas as outras ilhas dos Açores, o qual navio vindo, andou certos dias no mar, e, não a achando, arribou ao Algarve, e querem dizer que àquela mesma hora disse o Infante aos que com ele estavam em Sagres: — “Agora arribou o navio que ia a descobrir a ilha”, e depois, chegando o mesmo navio, disse o Infante ao capitão e mestre dele: — “Tal dia arribastes”; e, respondendo-lhe que era verdade, lhe disse o Infante que por curto a não acharam. E daí a dias tornou a mandar o mesmo navio, avisando aos que iam nele que fossem mais adiante, e que logo a achariam, como, de feito, acharam. Mas o que mais certo deste descobrimento pude saber é o que agora direi.
Pelas informações e notícia que o Infante D. Henrique tinha destas ilhas dos Açores, como atrás dito tenho, ou porque Deus lho inspirava para bem destes reinos, no ano do Senhor de mil e quatrocentos e trinta e um, reinando em Portugal el-Rei D. João, de Boa Memória, décimo em número e primeiro do nome, tendo o dito Infante em sua casa um nobre fidalgo e esforçado cavaleiro, chamado Frei Gonçalo Velho das Pias, comendador do castelo de Almourol, que está sobre o Rio Tejo, arriba da vila de Tancos, de quem, por sua virtude, grande esforço e prudência, tinha muita confiança, o mandou descobrir destas ilhas dos Açores a ilha de Santa Maria, ou, porventura, também esta de São Miguel; o qual, aparelhando o navio com as coisas necessárias para sua viagem, partiu no dito ano da vila de Sagres e, navegando com próspero vento para o Ocidente, depois de passados alguns dias de navegação, teve vista de uns penedos que estão sobre o mar e se vêem da ilha de Santa Maria, e de uns marulhos que fazem outros que estão ali perto, debaixo do mar, chamados agora todos Formigas, nome imposto por ele, ou por serem pequenos como formigas, em comparação das ilhas, ou porque ferve ali o mar, como as formigas fervem na obra que fazem; de qualquer maneira que seja, estas Formigas são uns baixos perigosos de rocha e penedia, que estão em trinta e sete graus e meio de altura da parte do Norte setentrional, pouco alevantados sobre o mar. E esta ilha de São Miguel tem outro baixo, que está Nordeste Sudoeste com o porto da vila do Nordeste, afastado da terra por espaço de três léguas; deste baixo, que está Norte Sul com o baixo que chamam as Formigas, até as mesmas Formigas há caminho de oito léguas; e o porto do Nordeste está com elas Nor-noroeste e Su-sueste, em distância de dez léguas. As quais, com a Ponta de Álvaro Pires, que é a da banda de Leste da ilha de Santa Maria, estão Nordeste e Sudoeste, afastadas sete léguas da dita ponta, ficando da mesma ilha quase ao Nor-nordeste.
O que destes baixos aparece sobre a água do mar tem no princípio um grande e alto penedo, e na outra ponta outro mais baixo e pequeno, e, do alto até o mais baixo, corre a compridão delas como do Nordeste a Su-sudoeste, e a ponta mais delgada delas, que é o penedo mais baixo, vai direita à ilha de Santa Maria, esvarando (sic) pela banda do Norte da mesma ilha. Têm estas Formigas, do penedo grande à outra ponta do outro penedo mais pequeno (indo correndo antre eles tudo conforme e igual com outra altura mais baixa), tanto como um bom tiro de besta. O penedo maior, que é a cabeça deste baixo, é de altura de uma casa sobradada, e, deste penedo para a ponta, que é outro penedo um pouco mais baixo, corre em altura de casa térrea. Assim que são três alturas diferentes, porquanto têm os meios mais baixos. E há um canal antre o penedo grande e o outro baixo mais baixo, por onde passam barcos de banda à banda, e aqui, neste canal, morre muito peixe de muitas maneiras nas bocas dele, e morrem também escolares. E da banda de Leste se abrigam os barcos a este penedo grande de todo o temporal que corre contrário de rosto ao Leste. A largura deste baixo será tanto como vinte côvados, de três palmos cada côvado, a lugares mais e a lugares menos. E da banda do Sul está outro baixo arredado, que é o penedo mais pequeno da outra ponta, por antre o qual e o baixo do meio pode passar um barco. E estes penedos dos cabos, assim o grande como o pequeno, chamam os mareantes Cuadas, porque são os extremos e pontas de todo este baixo, que está sobre o mar. E quando o vento é Nor-nordeste, nesta Cuada, ou penedo pequeno, se abrigam dois até três barcos, porque não cabem mais. Mas, sendo o vento mui rijo, então se acolhem à ilha de Santa Maria, o que não é assim no outro abrigo, da banda de leste, que é a Cuada ou penedo mais alto, porque lá, com toda a tormenta do mundo, aguardarão, não todos os barcos que se acharem, senão só quinze até vinte, porque não podem em aquele lugar caber mais, e, quando ali se abrigam, estão amarrados às proízes ao penedo, e com suas poutas botadas no baixo. Da banda do Sudoeste está uma calheta pequena, metida no penedo, em a qual com vento contrário, que é Leste e Les-nordeste, se abrigam dois barcos.
Nestes baixos há muitos caranguejos, lapas, cracas e búzios, em tanta quantidade, que é coisa de espanto ver a multidão deste marisco. Estando pescando aqui uns pescadores da cidade da Ponta Delgada, desta ilha de São Miguel, ceavam todas as noites em terra, ou para melhor dizer, em pedra, sobre o baixo, e àquela calheta vinha ter um lobo marinho, da feição e grandura de um grande bezerro, a encostar-se às pedras, ao qual botavam eles as espinhas do pescado que comiam. E já se aconteceu irem pescadores pescar a estas Formigas e, deixando lenha e uma cruz em cima do penedo, quando tornaram lá o outro ano seguinte, acharam a cruz e a lenha, sem a tormenta a levar. Da Cuada, ou cabo deste grande e mais alto penedo, direito ao Sueste, espaço de uma légua, demora outro baixo debaixo do mar, ficando-lhe o outro alto ao Noroeste, de maneira que estão ambos Noroeste Sueste. Este baixo, que chamam o Raso, é muito mais perigoso que o outro alto, de que mais se temem os mareantes, e onde os navios se perdem; e são três baixas debaixo do mar, com três eiras entrempadas como em triângulo, que farão todas três estendidas e o mar, que no meio se mete, quantidade de três alqueires de terra. Por muito manso e chão que estè (sic) o mar, arreceia qualquer barco, por pequeno que seja, de se meter antre elas, pelo grande fervor que a água ali trás.
Com baixa-mar, podem ser sobre estas baixas sete ou oito palmos de água, e com mar grosso (porque cava, então, muito), tudo aparece branco e quase se descobrem. Dizia um Álvaro Gonçalves Maranhão, mareante da cidade da Ponta Delgada, que já vira nestas baixas calhaus como de lastro de navio, que parece que ali em algum tempo de tormenta se perdera.
Neste baixo, e ao redor dele, em barcos, se faz a pescaria principal, onde morre peixe escolar e de toda sorte. Mas os barcos que pescam nele, por ser tão perigoso para de noite dormirem no mar, que é ali roleiro, logo se acolhem dele ao penedo grande, onde estão mais seguros.
E, às vezes, aos pescadores que viram o lobo marinho na baixa e calheta do penedo alto, lhe saía sobre o mar neste baixo do Sueste o mesmo lobo, o qual conheciam por uma malha branca que trazia detrás de uma orelha, e bem o puderam arpoar, por vezes, se quiseram, o que não faziam com medo da baixa, por não perigar nela. Suspeita-se e dizem destas Formigas que correm pelo fundo do mar com alevantados braços de penedia, antre estas duas ilhas de São Miguel e Santa Maria, com que, como duas boas vizinhas e amigas, as têm ambas liadas e abraçadas, e dizem alguns que, indo ter estas Formigas ao baixo, debaixo do mar, de grande pescaria, em que se toma muito peixe, que está junto da vila do Nordeste desta ilha de São Miguel, como tenho dito, para o Norte, por espaço de oito léguas, vão correndo pelo fundo do mar ao Nor-nordeste, perto de cento e setenta e cinco léguas, até dar em uns baixos que estão junto da ilha das Maidas.
Vindo a estas Formigas Frei Gonçalo Velho no novo descobrimento (como, Senhora, ia contando), não achando ilha frutuosa e fresca, senão estériles e feios penedos, e, em lugar de terras altas e seguras, vendo somente baixas pedras, tão baixas e perigosas, cuidando e suspeitando ele e os da sua companhia que o Infante seu senhor se enganara, julgando aquela pobre penedia por uma rica ilha, não entendendo todos eles com esta suspeita que havia mais que descobrir, se tornaram desgostosos ao Algarve, donde partiram, sem mais ver outra coisa que terra parecesse, e dando esta nova ao Infante D. Henrique, juntamente dizendo seu parecer, que não havia por este mar outras terras senão aquelas duras pedras que nele somente acharam.
DO MOTIVO QUE SE CONJECTURA HAVER TIDO O INFANTE D. HENRIQUE PARA O DESCOBRIMENTO DAS ILHAS DOS AÇORES E COMO MANDANDO DESCOBRIR A ILHA DE SANTA MARIA, PRIMEIRA DELAS, FORAM ACHADOS UNS BAIXOS, A QUE SE CHAMAM FORMIGAS
No ano de mil e quatrocentos e vinte e oito se conta que foi o Infante D. Pedro a Ingraterra, França, Alemanha, à Casa Santa e a outras daquela banda, e tornou por Itália; esteve em Roma e Veneza, e trouxe de lá um mapa-mundi que tinha todo o âmbito da Terra e o estreito de Magalhães, a que chamava Cola do Dragão, o Cabo de Boa Esperança, fronteira de África; e conjecturo que deste se ajudaria depois o Infante D. Henrique em seu descobrimento.
E conta o capitão António Galvão que Francisco de Sousa Tavares lhe dissera que, no ano de mil e quinhentos e vinte e oito, o Infante D. Fernando lhe amostrara um mapa, que se achara no cartório de Alcobaça, que havia de cento e vinte anos que era feito e tinha toda a navegação da Índia com o Cabo de Boa Esperança, como os de agora, o qual mapa-mundi cuido que devia ser o que trouxe o Infante D. Pedro. E, sendo assim, isto já em tempo passado era tanto, como agora, ou mais descoberto; e de crer é que deste mapa se ajudaria também muito o Infante D. Henrique para o descobrimento destas ilhas dos Açores, de que falamos. E pode ser que a notícia que delas dariam os fenicianos, que alguns dizem ser os venezianos, que atrás disse, tão antiga as faria por arrumar e pintar nos mapas que já daquele tempo antigo para cá se fizeram e imprimiram, porque não é de crer que tão graves Príncipes se movessem, sem mais notícia, a descobrimentos tão duvidosos, trabalhosos e tão custosos. Senão se se moveu o Infante D. Henrique a isso por revelação divina, como alguns cuidaram e escreveram, o que não é muito crer dele, pela muita limpeza e virtudes de que Deus o dotou em sua vida.
Mas com todo o trabalho e gasto que o Infante D. Henrique tinha feito, nunca desistiu de seu propósito e descobrimento da costa de África e para isso mandou Gileannes, seu criado, que foi o primeiro que passou o Cabo Bojador, tanto por todos arreceado, e trouxe nova não ser tão perigoso como se dizia; da outra banda saiu em terra e, como quem tomava posse, pôs nela por marco uma cruz de pau.
Dizem alguns antigos que logo perto deste tempo em que Giliannes passou o Cabo Boyador (sic), estando o Infante D. Henrique em Sagres, no Algarve, mandou um navio descobrir a ilha que agora chamam de Santa Maria, primeiro que todas as outras ilhas dos Açores, o qual navio vindo, andou certos dias no mar, e, não a achando, arribou ao Algarve, e querem dizer que àquela mesma hora disse o Infante aos que com ele estavam em Sagres: — “Agora arribou o navio que ia a descobrir a ilha”, e depois, chegando o mesmo navio, disse o Infante ao capitão e mestre dele: — “Tal dia arribastes”; e, respondendo-lhe que era verdade, lhe disse o Infante que por curto a não acharam. E daí a dias tornou a mandar o mesmo navio, avisando aos que iam nele que fossem mais adiante, e que logo a achariam, como, de feito, acharam. Mas o que mais certo deste descobrimento pude saber é o que agora direi.
Pelas informações e notícia que o Infante D. Henrique tinha destas ilhas dos Açores, como atrás dito tenho, ou porque Deus lho inspirava para bem destes reinos, no ano do Senhor de mil e quatrocentos e trinta e um, reinando em Portugal el-Rei D. João, de Boa Memória, décimo em número e primeiro do nome, tendo o dito Infante em sua casa um nobre fidalgo e esforçado cavaleiro, chamado Frei Gonçalo Velho das Pias, comendador do castelo de Almourol, que está sobre o Rio Tejo, arriba da vila de Tancos, de quem, por sua virtude, grande esforço e prudência, tinha muita confiança, o mandou descobrir destas ilhas dos Açores a ilha de Santa Maria, ou, porventura, também esta de São Miguel; o qual, aparelhando o navio com as coisas necessárias para sua viagem, partiu no dito ano da vila de Sagres e, navegando com próspero vento para o Ocidente, depois de passados alguns dias de navegação, teve vista de uns penedos que estão sobre o mar e se vêem da ilha de Santa Maria, e de uns marulhos que fazem outros que estão ali perto, debaixo do mar, chamados agora todos Formigas, nome imposto por ele, ou por serem pequenos como formigas, em comparação das ilhas, ou porque ferve ali o mar, como as formigas fervem na obra que fazem; de qualquer maneira que seja, estas Formigas são uns baixos perigosos de rocha e penedia, que estão em trinta e sete graus e meio de altura da parte do Norte setentrional, pouco alevantados sobre o mar. E esta ilha de São Miguel tem outro baixo, que está Nordeste Sudoeste com o porto da vila do Nordeste, afastado da terra por espaço de três léguas; deste baixo, que está Norte Sul com o baixo que chamam as Formigas, até as mesmas Formigas há caminho de oito léguas; e o porto do Nordeste está com elas Nor-noroeste e Su-sueste, em distância de dez léguas. As quais, com a Ponta de Álvaro Pires, que é a da banda de Leste da ilha de Santa Maria, estão Nordeste e Sudoeste, afastadas sete léguas da dita ponta, ficando da mesma ilha quase ao Nor-nordeste.
O que destes baixos aparece sobre a água do mar tem no princípio um grande e alto penedo, e na outra ponta outro mais baixo e pequeno, e, do alto até o mais baixo, corre a compridão delas como do Nordeste a Su-sudoeste, e a ponta mais delgada delas, que é o penedo mais baixo, vai direita à ilha de Santa Maria, esvarando (sic) pela banda do Norte da mesma ilha. Têm estas Formigas, do penedo grande à outra ponta do outro penedo mais pequeno (indo correndo antre eles tudo conforme e igual com outra altura mais baixa), tanto como um bom tiro de besta. O penedo maior, que é a cabeça deste baixo, é de altura de uma casa sobradada, e, deste penedo para a ponta, que é outro penedo um pouco mais baixo, corre em altura de casa térrea. Assim que são três alturas diferentes, porquanto têm os meios mais baixos. E há um canal antre o penedo grande e o outro baixo mais baixo, por onde passam barcos de banda à banda, e aqui, neste canal, morre muito peixe de muitas maneiras nas bocas dele, e morrem também escolares. E da banda de Leste se abrigam os barcos a este penedo grande de todo o temporal que corre contrário de rosto ao Leste. A largura deste baixo será tanto como vinte côvados, de três palmos cada côvado, a lugares mais e a lugares menos. E da banda do Sul está outro baixo arredado, que é o penedo mais pequeno da outra ponta, por antre o qual e o baixo do meio pode passar um barco. E estes penedos dos cabos, assim o grande como o pequeno, chamam os mareantes Cuadas, porque são os extremos e pontas de todo este baixo, que está sobre o mar. E quando o vento é Nor-nordeste, nesta Cuada, ou penedo pequeno, se abrigam dois até três barcos, porque não cabem mais. Mas, sendo o vento mui rijo, então se acolhem à ilha de Santa Maria, o que não é assim no outro abrigo, da banda de leste, que é a Cuada ou penedo mais alto, porque lá, com toda a tormenta do mundo, aguardarão, não todos os barcos que se acharem, senão só quinze até vinte, porque não podem em aquele lugar caber mais, e, quando ali se abrigam, estão amarrados às proízes ao penedo, e com suas poutas botadas no baixo. Da banda do Sudoeste está uma calheta pequena, metida no penedo, em a qual com vento contrário, que é Leste e Les-nordeste, se abrigam dois barcos.
Nestes baixos há muitos caranguejos, lapas, cracas e búzios, em tanta quantidade, que é coisa de espanto ver a multidão deste marisco. Estando pescando aqui uns pescadores da cidade da Ponta Delgada, desta ilha de São Miguel, ceavam todas as noites em terra, ou para melhor dizer, em pedra, sobre o baixo, e àquela calheta vinha ter um lobo marinho, da feição e grandura de um grande bezerro, a encostar-se às pedras, ao qual botavam eles as espinhas do pescado que comiam. E já se aconteceu irem pescadores pescar a estas Formigas e, deixando lenha e uma cruz em cima do penedo, quando tornaram lá o outro ano seguinte, acharam a cruz e a lenha, sem a tormenta a levar. Da Cuada, ou cabo deste grande e mais alto penedo, direito ao Sueste, espaço de uma légua, demora outro baixo debaixo do mar, ficando-lhe o outro alto ao Noroeste, de maneira que estão ambos Noroeste Sueste. Este baixo, que chamam o Raso, é muito mais perigoso que o outro alto, de que mais se temem os mareantes, e onde os navios se perdem; e são três baixas debaixo do mar, com três eiras entrempadas como em triângulo, que farão todas três estendidas e o mar, que no meio se mete, quantidade de três alqueires de terra. Por muito manso e chão que estè (sic) o mar, arreceia qualquer barco, por pequeno que seja, de se meter antre elas, pelo grande fervor que a água ali trás.
Com baixa-mar, podem ser sobre estas baixas sete ou oito palmos de água, e com mar grosso (porque cava, então, muito), tudo aparece branco e quase se descobrem. Dizia um Álvaro Gonçalves Maranhão, mareante da cidade da Ponta Delgada, que já vira nestas baixas calhaus como de lastro de navio, que parece que ali em algum tempo de tormenta se perdera.
Neste baixo, e ao redor dele, em barcos, se faz a pescaria principal, onde morre peixe escolar e de toda sorte. Mas os barcos que pescam nele, por ser tão perigoso para de noite dormirem no mar, que é ali roleiro, logo se acolhem dele ao penedo grande, onde estão mais seguros.
E, às vezes, aos pescadores que viram o lobo marinho na baixa e calheta do penedo alto, lhe saía sobre o mar neste baixo do Sueste o mesmo lobo, o qual conheciam por uma malha branca que trazia detrás de uma orelha, e bem o puderam arpoar, por vezes, se quiseram, o que não faziam com medo da baixa, por não perigar nela. Suspeita-se e dizem destas Formigas que correm pelo fundo do mar com alevantados braços de penedia, antre estas duas ilhas de São Miguel e Santa Maria, com que, como duas boas vizinhas e amigas, as têm ambas liadas e abraçadas, e dizem alguns que, indo ter estas Formigas ao baixo, debaixo do mar, de grande pescaria, em que se toma muito peixe, que está junto da vila do Nordeste desta ilha de São Miguel, como tenho dito, para o Norte, por espaço de oito léguas, vão correndo pelo fundo do mar ao Nor-nordeste, perto de cento e setenta e cinco léguas, até dar em uns baixos que estão junto da ilha das Maidas.
Vindo a estas Formigas Frei Gonçalo Velho no novo descobrimento (como, Senhora, ia contando), não achando ilha frutuosa e fresca, senão estériles e feios penedos, e, em lugar de terras altas e seguras, vendo somente baixas pedras, tão baixas e perigosas, cuidando e suspeitando ele e os da sua companhia que o Infante seu senhor se enganara, julgando aquela pobre penedia por uma rica ilha, não entendendo todos eles com esta suspeita que havia mais que descobrir, se tornaram desgostosos ao Algarve, donde partiram, sem mais ver outra coisa que terra parecesse, e dando esta nova ao Infante D. Henrique, juntamente dizendo seu parecer, que não havia por este mar outras terras senão aquelas duras pedras que nele somente acharam.
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