Por morte do ilustre Rui Gonçalves da Câmara, terceiro Capitão desta ilha de S. Miguel e primeiro do nome, Ihe sucedeu na capitania seu filho João Roiz, que outros chamam João Gonçalves da Câmara, grande cavaleiro, muito discreto e benigno, tanto amigo de seus súbditos, tratando-os com amor, dádivas e cortesia, que convidava e afeiçoava muitos homens fidalgos do Reino para virem viver à sua boa sombra nesta ilha; como de feito vieram alguns, que já tenho atrás ditos, porque, além de ser naturalmente bem acondiçoado, humilde, liberal e grandioso, foi criado na Corte que artificiosamente realça a virtude e habilidade, engenho, discrição e bondade natural com que cada um nasce; como também, pelo contrário, acrescenta e refina a doidice, soberba condição e malícia do que nasceu mal ensinado, em cuja má inclinação a desenvoltura da Corte é como espada em mão de doido. Este Capitão, sendo mancebo, foi a África, onde esteve por fronteiro alguns anos em serviço de el-Rei. E na mesma Corte, onde andava, casou, em vida de seu pai, com D. Inês da Silveira, dama do Paço, a que el-Rei D. João, segundo do nome, tinha feito mercê de dezasseis mil réis de tença em sua vida dela, e pagos das suas rendas nesta ilha, para onde a trouxe seu marido, João Roiz da Câmara, em vida de seu pai, Rui Gonçalves, segundo parece.
Houve João Roiz da Câmara da dita D. Inês da Silveira, sua mulher, os filhos seguintes: o primeiro, Rui Gonçalves da Câmara, que herdou sua casa e Ihe sucedeu na capitania, de que adiante direi.
O segundo filho, chamado João de Melo, foi frade professo da ordem de S. Bento, no mosteiro de S. Bernardo de Alcobaça, de que depois contarei alguns sucessos, e por um desastre que Ihe aconteceu, se foi fora do Reino e dizem que faleceu no mar, indo em uma nau para Frandes; o qual, sendo mancebo, houve de uma Maria Dias um filho natural, chamado Rui de Melo, que casou na Índia e veio dela por capitão de uma nau de seu sogro, e tornando nela, se perdeu seiscentas léguas além da Índia, onde foi ter. De lá tornou para Goa, em uma barca que mandou fazer da madeira da nau.
O terceiro filho, por nome Diogo Nunes, foi esposado com D. Maria, filha de João d’Outeiro e de Guiomar Raposa , mulher que fora de Rui Vaz Gago do Trato, sendo moço de pouca idade, sem fazer vida maridável com ela; o qual, andando em Portugal, na Corte, se passou a África e lá o mataram os mouros em serviço de el-Rei.
Teve mais o Capitão João Roiz de sua mulher D. Inês da Silveira outro filho, chamado Garcia de Melo, e três filhas, D. Joana, D. Beatriz e D. Catarina, que faleceram solteiras, como logo direi.
Dizem alguns antigos que logo quando D. Inês veio a esta terra com seu marido João Roiz da Câmara, em vida do Capitão Rui Gonçalves da Câmara, primeiro do nome, seu sogro, por ela ser ainda muito moça e dama delicada, quando ouvia berrar os touros, que andavam muitos no mato junto das casas e povoados, perguntava a seu marido que era aquilo, e ele zombando Ihe respondia que eram demónios, de que ela ficava muito espantada e cheia de medo; e achando-a uma vez o Capitão, seu sogro, chorando, Ihe perguntou porque chorava, ao que ela respondeu: — Choro, senhor, porque me trouxeram a terra onde andam demónios, que João Roiz me disse que eles eram os que berravam. Ele Ihe tirou o medo com brandas palavras e Ihe provou o contrairo, com mandar ajuntar e trazer diante dela muitas vacas e touros, que com ciúmes berravam e pelejavam, dizendo-lhe: — Vedes aqui, filha senhora, os demónios que vosso marido disse. Com que ela ficou tão satisfeita e contente que, dali por diante, muitas vezes ia onde enfogueiravam a ver os touros pelejar e berrar, e também tomava por passatempo ajudar a enfogueirar. Ela e o Capitão, seu marido, fizeram muito tempo habitação na Ribeira Grande, desta ilha.
Este ilustre Capitão João Roiz da Câmara ainda deu muitas terras de sesmaria a alguns homens principais que em seu tempo vieram a esta ilha por seu respeito. E muitos adquirira e trouxera a si, como a pedra de cevar atrai o fino aço, se vivera muitos anos; mas viveu pouco, depois que teve a capitania, a qual governou com muita prudência, justiça, paz e bom exemplo.
E, adoecendo de uma grave enfermidade, se foi curar ao Reino, onde lá faleceu na era de mil e quinhentos e dois ou três anos.
Depois de seu falecimento esteve sua mulher D. Inês nesta terra dois ou três anos, até que veio da Corte seu filho Rui Gonçalves da Câmara, com sua mulher, a tomar posse da capitania em que sucedeu a seu pai, João Roiz. Chegado ele, se partiu ela para Portugal, em uma caravela que se chamava a Jaca levando consigo Garcia de Melo, seu filho, e as três filhas já ditas, D. Joana, D. Beatriz e D. Catarina, com tenção de as meter freiras em algum mosteiro no Reino, ou casá-las. E todas morreram no mar onde se perdeu o navio com tormenta na mesma noite que partiram, logo junto desta ilha, onde algumas pessoas afirmaram ouvir de noite gritos de gente. Outros dizem que se perdeu nas Formigas; outros no ilhéu de Vila Franca; outros que em Vale de Cabaços, onde se ouviu a grita. Mas parece que mais longe devia ser, pois não saiu à costa nenhum sinal deste naufrágio.
Este Capitão João Roiz da Câmara governou esta ilha com cargo de Capitão, por seu pai Rui Gonçalves da Câmara, algum tempo, sendo ele no Reino, com provisão do Duque, que assim dizia: «Eu, Duque, vos faço a saber a vós, juízes e oficiais, fidalgos, cavaleiros e escudeiros e homens bons e povo da minha ilha de S. Miguel, que a mim disse Rui Gonçalves da Câmara, fidalgo de minha casa e do conselho de el-Rei meu Senhor e Capitão por mercê da dita ilha, como ele deixara ora lá em seu cargo de Capitão a João Roiz da Câmara, fidalgo de minha casa, seu filho; da qual coisa a mim me apraz, por sentir dele que é tal, que usará do dito cargo assim como pertence a serviço de el-Rei meu Senhor e meu, e bem da justiça; pelo qual vos rogo e encomendo e mando a todos em geral e a cada um em especial que obedeçais ao dito João Roiz em todas as coisas que ao cargo da dita capitania pertencerem, assim tão cumpridamente como fareis ao dito Rui Gonçalves, seu pai, se lá estivesse, e de direito sois obrigados fazer. O que de um e outro assim cumprirdes vo-lo agradecerei e terei em serviço. E do contrairo me desprazeria e tornaria a isso como fosse razão. E por este mando ao dito João Roiz que, no dar das terras, tenha esta maneira, sc., que as que forem dadas, não Ihe dê espaço nem Ihe bula com elas, nem dê terra de novo a homens que tiverem terras na dita ilha, e somente dará das terras maninhas àquelas pessoas que terras não tiverem, assim aos moradores da dita ilha, como àqueles que de novo a ela vierem viver. E qualquer coisa que ele acerca do que dito é fizer em contrairo, mando que não seja valiosa. Feito em Santarém aos vinte e cinco de Dezembro. — João Cordovil o fez, ano de mil e quatrocentos e oitenta e sete».
Dizem os antigos que, vindo a Vila Franca do Campo, desta ilha, armada castelhana no tempo das guerras entre Portugal e Castela, este ilustre Capitão João Roiz da Câmara, ou governando ele por seu pai, ou quando já era Capitão, por ver a pouca gente que havia na ilha, mandou pôr à vista, de longe, todas as mulheres e homens velhos e moços, com canas compridas arvoradas, de modo que parecessem lanças e gente armada, e os mais que podiam pelejar, junto do mar, quando os castelhanos quiseram cometer o porto, para os espantar e atemorizar. E cuidando eles que toda aquela mostra era de homens de armas, se foram, não ousando entrar na terra.
Quando tratei da ilha da Madeira e de seus ilustres Capitães, disse como o primeiro Capitão dela, João Gonçalves Zargo, houvera de sua mulher, Constança Rodrigues de Almeida, com que casou no Reino, alguns filhos e filhas, o primeiro dos quais, João Gonçalves, herdara sua casa e foi o segundo Capitão da mesma ilha. E seu irmão, segundo filho do dito João Gonçalves Zargo, chamado Rui Gonçalves da Câmara, de que agora quero contar, foi depois terceiro Capitão desta ilha de S. Miguel porque, estando na ilha da Madeira muito rico, depois que o almirante de França alcançou da Rainha de Castela, D. Catarina com título de Rei para um Mosem ou Mossior João de Betancurt ou Betancor ou Betencor, que ganhou três delas, Lançarote, Forte Ventura e a do Ferro, sem poder conquistar a Gran-Canária pela resistência que achou nela, e faltando-lhe a despesa e gente se tornou a França, deixando ali um sobrinho, chamado Mossem Menante ou Misser Maciote de Betancor, com o mesmo título de Rei, com propósito de, em chegando, Ihe mandar gente de armas, ou tornar com ela; o qual depois de lá ser ocupado nas guerras do Rei ou da morte, não tornou nem mandou ao sobrinho algum socorro.
Vendo-se o sobrinho falto de gente e apertado da terra, vendeu o direito que tinha naquelas ilhas, com consentimento de el-Rei de Castela, ao Infante D. Henrique, por certa fazenda e pelas saboarias da ilha da Madeira, para onde se passou o dito Misser Maciote de Betancor, e como era de tanto nome e fama, veio ser tão rico que casou Rui Gonçalves da Câmara, segundo filho do Capitão João Gonçalves Zargo, com uma sua filha, chamada D. Maria Betancor, com grande dote que, junto com o de seu património, se fez Rui Gonçalves da Câmara, muito mais rico.
E, vivendo assim prosperamente com sua mulher na ilha da Madeira , foi ter a ela João Soares de Albergaria, segundo Capitão das ilhas de S. Miguel e de Santa Maria, com sua mulher, Beatriz Godiz, muito enferma, em cuja cura, fazendo muitos custos, Ihe foi necessário vender uma das ditas ilhas; e tendo para isso procuração da Capitoa, sua mulher, Ihe comprou Rui Gonçalves da Câmara esta ilha de S. Miguel, que então estava mais erma que a de Santa Maria, uns dizem que por seiscentos mil réis, outros que por setecentos mil e cem mil réis de socos; mas o certo é, segundo a informação da ilha da Madeira, que Iha comprou por dois mil cruzados em dinheiro de contado e quatro mil arrobas de açúcar, que naquele tempo devia ser boa fazenda, pois por tanto se vendia uma ilha tão grande como é esta. A qual compra e venda foi depois confirmada em a cidade de Évora pela Infanta D. Beatriz, tutor e curador do Duque D. Diogo, seu filho, que ainda naquele tempo era de pouca idade, mestre da cavalaria da Ordem de Cristo, de cujo mestrado eram estas ilhas; feita a confirmação na era do Senhor de mil e quatrocentos e setenta e quatro anos, aos dez dias de Março.
Comprada esta ilha, ficou Rui Gonçalves da Câmara Capitão, o primeiro dela só e primeiro do nome, mas terceiro em número, por haverem precedido os dois Capitães de ambas elas, de Santa Maria e desta ilha de S. Miguel, Gonçalo Velho, Comendador de Almourol, e João Soares de Albergaria, seu sobrinho, que vendeu esta ao dito Rui Gonçalves da Câmara. O qual Rui Gonçalves foi um dos bons cavaleiros do seu tempo e fez muitos serviços a el-Rei, mas não os que se contam na relação dos Capitães da ilha da Madeira, em que se afirma ser ele o de que conta o cronista Damião de Goes, na Crónica de el-Rei D. Manuel, onde se diz que esteve em África na era de mil e quinhentos e dez, no segundo cerco de Arzila, com certa gente de cavalo e de pé à sua custa, sendo outro Rui Gonçalves, seu neto e quinto Capitão desta ilha que na dita era foi Capitão, sendo este Rui Gonçalves, seu avô, já então falecido.
Veio este Rui Gonçalves da Câmara, terceiro Capitão, a povoar esta ilha de S. Miguel, e trouxe consigo sua mulher, D. Maria de Betancor, e muitos homens honrados, e três filhos naturais e uma filha também natural, porque da Capitoa, sua mulher, não teve filhos, nem filha, legítimos.
O primeiro filho natural foi João Roiz, que alguns chamam João Gonçalves da Câmara, que herdou a casa e ficou por Capitão, depois do falecimento de seu pai, como direi, quando tratar dele.
O segundo filho, Antão Roiz da Câmara, homem rico e abastado, muito cavaleiro e esforçado, e o que melhor se punha a cavalo nesta ilha, donde foi a África e lá serviu a ei-Rei alguns anos à sua própria custa, e fez coisas boas. E tornando de África, andando em requerimentos com el-Rei D. Manuel sobre seu despacho, estando el-Rei no Rocio de Lisboa com muitos fidalgos, ele na volta deles, aconteceu passar por ali um elefante com um índio que o trazia; sentindo os cavalos o faro dele se alvoroçaram, fugindo muitos deles com seus donos, caindo alguns da sela, alvoroçando-se também o cavalo de el-Rei e o de Antão Roiz da Câmara. Mas, como ele era homem de grandes espritos, extremado cavaleiro, tão consertador e sabedor para animar um cavalo que ninguém Ihe fazia avantage, temperou o cavalo da rédea e esporas, até afitar com os olhos e conhecer o que era, e seguro o cavalo bateu-Ihe as pernas tão arduamente para onde estava o elefante, que Ihe fez pôr a barba sobre o costado dele e, arrancando de um terçado que levava, deu uma espaldeirada no elefante e tornou muito recolhido e manso para onde el-Rei estava, tirando-lhe o barrete, inclinando-se-lhe todo com grande acatamento, o que el-Rei folgou muito de ver e mostrou levar gosto; e do modo com que aquilo fez, Ihe tiveram os fidalgos presentes grande inveja. Recolhido el-Rei, Ihe mandava pelo estribeiro-mor comprar o cavalo, ao que respondeu Antão Roiz que ele e o cavalo eram de Sua Alteza e que para seu serviço aí estava. Não Iho quiseram aceitar, senão que havia de ser vendido. Respondeu que não havia de vender o seu cavalo, senão fazer serviço dele a Sua Alteza. Não o querendo aceitar o estribeiro-mor, então o trouxe a esta ilha, donde o havia levado, quando foi para a África. Era ruço, rodado, muito formoso e, quando ouvia repicar os sinos, dificultosamente o podiam ter, se não estava cavalgado.
Sendo ainda solteiro, das terras que seu pai Rui Gonçalves da Câmara Ihe deu na Ribeirinha, termo da vila da Ribeira Grande, e de outras que comprou, ajuntou muita fazenda de que depois fez um rico morgado, que rende agora cem moios de trigo cada ano. Houve duas filhas naturais: Guiomar da Câmara, mãe de Rui Gago da Câmara, e Maria da Câmara, mãe de João Nunes da Câmara, vigairo e ouvidor que foi na ilha de Santa Maria, irmão de D. Dorotea, Capitoa da dita ilha, mulher do ilustre Capitão Brás Soares de Sousa que agora a governa, como em seus lugares tenho contado.
Vindo de África, casou Antão Roiz da Câmara, na corte, com D. Catarina Ferreira, por ser muito fidalga e formosa, dama da Duquesa de Bragança, e a trouxe para esta ilha de S. Miguel, onde houve dela a Rui Pereira da Câmara e a D. Mécia Pereira. Adoeceu de uma grave enfermidade; indo-se curar dela ao Reino, faleceu em Viana de Caminha, onde está enterrado; o que sabendo sua mulher D. Catarina, se foi para a Corte com os dois filhos e dali a perto de quarenta anos faleceu em Lisboa, de idade de oitenta. Rui Pereira serviu a el-Rei em África muitos anos, em muitos cargos honrosos e fez lá muitas coisas notáveis, pelo que el-Rei o tinha em muita conta, e em satisfação de seus serviços Ihe deu a Capitania de Sofala, sem nunca ter ido à Índia. Indo para lá, arribou em uma nau em que ia por capitão; chegando a Lisboa, faleceu, sendo ainda solteiro. Sucedeu no morgado sua irmã D. Mécia, que já a este tempo era casada com D. Gomes de Melo, filho de Diogo de Melo e de D. Maria Manuel; os quais houveram a D. Maria Manuel que foi para Castela por dama da Princesa, mãe de el-Rei D. Sebastião, e a D. Rodrigo de Melo, que casou com D. Antónia de Vilhana , filha de Pero de Toar e de D. Beatriz da Silva. Este herdou o morgado, por ser filho mais velho, por falecimento de sua mãe, e passando a África com el-Rei D. Sebastião, indo também lá Manuel de Noronha, seu irmão, ambos faleceram na batalha, pelo que sucedeu no morgado seu irmão D. Francisco Manuel, que pouco há veio da Índia e casou com uma filha de Francisco Carneiro.
Houve mais Diogo de Melo, de sua mulher D. Maria Manuel, a D. Catarina de Noronha, que foi casada com Simão Ribeiro, comendador e alcaide-mor do Pombal, e a D. Ana Pereira e a D. Leonor Manuel, ambas ainda solteiras.
Tem Antão Roiz da Câmara as mesmas armas dos Câmaras, com mais dois puxavantes ao pé da torre, que são declaração de ele sempre ir avante com suas coisas, assim nas da paz, como nas da guerra.
Houve o dito Rui Gonçalves da Câmara, Capitão desta ilha de S. Miguel, o terceiro filho natural, dizem que de uma nobre mulher, de geração dos Albernazes, chamado Pedro Roiz da Câmara, o qual casou com D. Margarida de Betancor, filha de Gaspar de Betancor, da qual teve estes filhos: o primeiro, João Roiz da Câmara; o segundo, Manuel da Câmara; o terceiro, Simão da Câmara; o quarto, Anrique de Betancor; o quinto António de Sá; o sexto, Rui Gonçalves da Câmara; e teve uma filha, D. Francisca, que casou com D. António de Sousa, como logo direi.
O primeiro filho de Pedro Roiz da Câmara, chamado João Roiz da Câmara, casou a primeira vez com D. Helena, filha do contador Martim Vaz Bulhão, de que houve uma filha, chamada D. Joana, que faleceu solteira; e porque o Capitão Rui Gonçalves, segundo do nome, tinha casada a D. Helena com um filho de Sebastião Barbosa da Silva que, em a recebendo, se foi logo desta terra, houve diferenças, demandas e brigas sobre este casamento. Por esta razão, el-Rei tomou a fazenda de D. Helena e por também seu pai, o contador, Iha dever, que é a terra dos própios , que está no lugar da Relva; pelo que também João Roiz da Câmara foi a África, onde em uma batalha com os mouros, em que ele e seu irmão Manuel da Câmara se acharam, cativando os mouros ao dito Manuel da Câmara, indo-se recolhendo, pediu João Roiz ao Capitão Ihe desse licença para ir livrar seu irmão, e dizendo-lhe o Capitão que não era tempo, ele saiu sem licença, arremetendo com o cavalo e a lança enristada aos mouros, e matando do encontro a um deles, tomou o irmão por um braço e, ajudando-o a subir nas ancas do cavalo, o livrou dos imigos. Depois de livre, dizendo-lhe Manuel da Câmara: — pois irmão, como ficamos?, respondeu ele: — como dantes . E, depois de vir de África, Ihe deu el-Rei uma comenda de mais de cem mil réis na Beira, no lugar que se chama Os Trinta, no pé da Serra da Estrela, onde estando à hora, ou antes da hora, de sua morte, casou com D. Catarina, da qual houve estes filhos: o primeiro, Rui Gonçalves da Câmara, que faleceu solteiro na Índia em serviço de el-Rei, tendo vinte anos de serviço em que tinha feitas grandes sortes; e tendo-Ihe el-Rei dado despacho para ser capitão de uma fortaleza, sem o ele saber, em uma batalha o mataram. O segundo, Bernardim da Câmara, muito esforçado cavaleiro e valente soldado, que casou na Vila do Nordeste. O terceiro, Apolinário da Câmara, também de grandes forças e valentia, que foi com el-Rei D. Sebastião à guerra de África, onde o cativaram e não se sabe se é falecido.
Teve mais João Roiz da Câmara três filhas: a primeira, D. Guiomar, que indo para Castela ter com sua tia, que a fazia dama da Imperatriz na Corte, faleceu no caminho. A segunda, D. Beatriz, que também foi para Castela, onde está casada com um grande e poderoso fidalgo, a que não soube o nome. A terceira, D. Margarida, que casou com Pedro Roiz de Sousa, filho de Baltasar Roiz, de Santa Clara, e faleceu sem ter filhos.
O segundo filho de Pedro Roiz, Manuel da Câmara, faleceu solteiro na Índia, ataúde de homens fidalgos e honrados, em serviço de el-Rei; teve um filho natural.
O terceiro, Simão da Câmara, andava na Corte, sendo tão grande sabedor e astrólogo, que estando para falecer o grande piloto e astrólogo Simão Fernandes, disse- lhe el-Rei: — se morrerdes, que nos ficará? Respondeu ele: — se Simão morre, Simão fica —; dizendo isto pelo Simão da Câmara, o qual faleceu na Corte, solteiro.
O quarto, Anrique de Betancor de Sá, morador que foi na vila da Ribeira Grande, que andou na Corte muito tempo e casou com D. Simoa, filha de Baltasar Vaz de Sousa e de Leonor Manuel, de que houve estes filhos: O primeiro, Rui Gonçalves da Câmara, que casou com D. Luzia, filha de Hierónimo Jorge e de Beatriz de Viveiros, de que tem um filho e quatro filhas, três delas já freiras noviças no mosteiro de Jesus, da vila da Ribeira Grande. É fidalgo de magnífica condição, com que agasalhava muitos hóspedes que quase nunca em sua casa faltam; manso e macio para todos. O segundo filho, Manuel da Câmara, casou com dispensação com D. Maria, filha de Rui Gago da Câmara, sua parente, e de Isabel Botelho, de quem tem um filho e uma filha. O terceiro, Francisco de Sá, faleceu solteiro. O quarto, Anrique da Câmara, ainda solteiro, de grandes forças, bom cavaleiro e valente soldado que, andando na Índia em serviço de el-Rei, faleceu há pouco. Teve mais Anrique de Betancor de sua mulher D. Simoa sete filhas, três faleceram solteiras e uma sendo já professa; e tem agora duas freiras professas no mosteiro de Jesus, da vila da Ribeira Grande, chamadas Beatriz da Anunciação e Ângela do Paraíso, de muita virtude. E outra filha, chamada D. Margarida, que casou com Cristóvão Dias, nobre e rico, da cidade da Ponta Delgada.
O quinto filho de Pedro Roiz da Câmara, António de Sá, faleceu solteiro na vila da Ribeira Grande.
O sexto filho de Pedro Roiz da Câmara faleceu também solteiro na ilha da Madeira.
A filha de Pedro Roiz da Câmara e de D. Margarida de Betancor, sua mulher, chamada D. Francisca, casou com D. António de Sousa, viúvo, fidalgo, dos Sousas do Regno, que foi muitos anos vereador na cidade de Lisboa, homem de que el-Rei se servia em muitas coisas.
Deu-lhe Pedro Roiz em casamento propriedade no Morro e no monte de Trigo, que está junto da vila da Ribeira Grande, que rendia cinquenta moios de trigo cada ano, que com o mais que Ihe deram passava de dez mil cruzados.
Era D. António de Sousa irmão do Conde do Prado e de D. Maria de Távora, mulher de Pedro Álvares Carvalho, que foi capitão de Alcácer-Ceguer, que se largou aos mouros, do qual Ihe ficaram filhos, sc., Álvaro de Carvalho, Bernardim de Carvalho e Rui de Sousa, grandes capitães de lugares de África. O primeiro filho de D. António de Sousa, que Ihe ficou da primeira mulher, chamavam D. Martinho de Sousa, primeiro morgado: o segundo, D. Jorge de Sousa, os quais foram à Índia por capitães de naus, cada um, duas vezes. Teve o dito D. António de Sousa, da segunda mulher D. Francisca, filha de Pedro Roiz da Câmara, quatro filhos: o mais velho, D. Pedro de Sousa, comendador de Cristo, muito privado de el-Rei D. João, terceiro do nome; o segundo filho se chamava D. João, ambos bons cavaleiros e gentis-homens, que faleceram solteiros. O terceiro, D. Dinis de Sousa, que casou no Reino, e nele ficou encabeçada toda a fazenda que herdou do pai e da mãe aqui nesta ilha, que houveram de Pedro Roiz da Câmara e de D. Margarida de Betancor; o qual D. Dinis tem alguns filhos e fi!has, a que não soube o nome.
Teve Pedro Roiz da Câmara de sua mulher D. Margarida de Betancor de Sá outra filha, chamada D. Maria da Câmara, que faleceu solteira, caindo de uma janela de casa, por querer colher uma pera de uma pereira que junto dela estava, da qual queda se Ihe causou a morte dali a poucos dias.
Era Pedro Roiz da Câmara bem apessoado, grave e gentil homem, e liberalíssimo de condição. Fez no assento e pomar de suas casas, na vila da Ribeira Grande, um mosteiro de freiras observantes, da invocacão de Jesus, onde estão muitas e virtuosas religiosas suas parentas, e nele está sepultado. Deixou-Ihe dezoito moios de renda na sua fazenda da Achada, e trinta mil réis que Ihe ficaram de seu pai, de juro, na ilha da Madeira. Deixou certa renda ao Esprital da vila da Ribeira Grande. Dando cada um do povo, a quem mais daria, para a igreja matriz de Nossa Senhora da Estrela da dita vila, para que se fazia finta, e, ficando baixa, ele Ihe mandou acrescentar cinco palmos à sua custa e deu um cálice grande, dourado, com suas campainhas, e um pontifical de damasco rosado para a mesma igreja, e dizem que outro para a igreja da Maia. Foi logo — tente do Capitão Rui Gonçalves, seu sobrinho, e governou a Capitania sete anos, em sua absência, com muita paz e justiça, deixando de si bom exemplo e nome, distribuindo com grande liberalidade sua fazenda, que era muita, porque quando casou tinha, cada ano, cento e cinquenta moios de trigo de renda, afora outra muita que depois Ihe cresceu; e sua mulher, D. Margarida de Betancor, filha de Gaspar de Betancor, vivendo com muita virtude, faleceu vinte anos depois dele.
Teve mais o primeiro Capitão Rui Gonçalves da Câmara uma filha natural, chamada D. Beatriz, que casou com um fidalgo que veio muito rico da Índia, chamado Francisco da Cunha, dos Cunhas do Regno, que dizem ter este apelido do primeiro, que sendo alferes de uma capitania, em uma batalha, e sendo maltratados os de sua parte dos contrairos, indo já quase vencidos, vendo este alferes o desbarato dos seus, meteu a bandeira em uma fenda de uma pedra, acunhando-a com outras, e foi pelejar com os imigos tão valorosamente que com sua ajuda alcançaram vitória. E acabada a batalha, vendo o capitão o seu alferes consigo, sem bandeira, Ihe perguntou por ela; respondeu ele que bem acunhada a deixara; pelo que Ihe fez el-Rei mercês e Ihe deu este apelido de Cunhas, para si e seus sucessores. Este fidalgo Francisco da Cunha houve de sua mulher D. Beatriz uma filha, chamada D. Guiomar da Cunha, que casou com João Soares, terceiro Capitão da ilha de Santa Maria e segundo do nome, que houve os filhos já ditos, quando tratei da dita ilha de Santa Maria, pelo que ficaram os Capitães destas duas ilhas liados com estreito parentesco.
Estando o Infante D. Henrique em Sagres favorecendo o descobrimento destas ilhas, como tenho dito, comprou a Misser Maciote de Betancor, Rei das Canárias, e Ihe deu pelo que tinha delas subjugado e direito da empresa as saboarias da ilha da Madeira e vinte e cinco mil réis de juro na alfândega, e por dadas as Lombas dos Esmeraldos e a Ribeira de Água de Mel, sobre o Funchal. Com isto se passou o dito Maciote de Betancor à ilha da Madeira e casou sua filha, D. Maria de Betancor, com Rui Gonçalves da Câmara, segundo filho do primeiro Capitão dela, João Gonçalves Zargo; o qual Rui Gonçalves, comprando esta ilha a João Soares de Albergaria, segundo Capitão da ilha de Santa Maria, se passou a ela com sua mulher e como dentre eles não houve filhos legítimos, por razão de João Roiz da Câmara, filho natural mais velho do dito Rui Gonçalves da Câmara, ficar encabeçado na Capitania e jurdição, fizeram partilha em sua vida, ele e sua mulher, D. Maria de Betancor, que ela ficasse com cento e cinquenta mil réis de foro cada um ano, para sempre, nas Lombadas dos Esmeraldos, seus foreiros, por eles mesmos Ihas aforarem, quando da ilha da Madeira se vieram com a compra desta ilha, com mais a Ribeira de Água do Mel e com trinta mil réis de renda de foros em Vila Franca do Campo desta mesma ilha, que tudo o que agora rende, esta parte de D. Maria de Betancor, importa dois mil cruzados cada ano, que ela fez em morgado, encabeçado em Gaspar de Betancor, seu sobrinho, filho de sua irmã, que mandou vir da ilha da Madeira para nesta Ihe fazer companhia, por não ter aqui parente nenhum, em vida de seu marido Rui Gonçalves, e daí em seus descendentes, no filho mais velho. E seu marido Rui Gonçalves ficou com a Capitania, que então importava tão pouco que, para ficar igualado na partilha com sua mulher, ficou com mais o quarto da fazenda que se chama Ribeira de Água do Mel, sobre a cidade do Funchal, na ilha da Madeira.
Esta D. Maria de Betancor, francesa, nesta terra, ou por humildade, ou pelo muito que deixara das ilhas Canárias e isto ser pouco naquele tempo, ou por descender de geração dos Reis nunca se nomeou por Capitoa, nem ninguém Ihe chamava senão D. Maria; era muito formosa e liberal. Deixou em Vila Franca, para o concelho da mesma vila, dois moios de terra que está arriba da vila e parte da banda do sul com os Pomares, e da banda de levante com uma grota que vai antre a fazenda de Rui Gago da Câmara e a própria terra do concelho, e da banda do ponente com terra foreira do mosteiro dos frades de Nossa Senhora, e do norte com terras que foram de João d’Outeiro, a qual terra deixou que rendesse para as coisas do concelho, com condição que os gados, que viessem de caminho, pudessem dormir ali uma noite e mais não, e nunca andassem éguas nem fêmeas nela. Mandou também fazer uma capela no Funchal, no mosteiro de S. Francisco, no cruzeiro à mão direita, onde disse que levassem sua ossada. Dizem alguns que depois faleceu, e outros que primeiro, que o Capitão seu marido, alguns anos; que foi enterrado , segundo alguns dizem, na capela do mosteiro de S. Francisco; mas outros afirmam que na capela-mor da igreja matriz do Arcanjo S. Miguel, que havia antes da subversão de Vila Franca.
Tinha este Capitão Rui Gonçalves seu assento principal em Vila Franca do Campo, onde residia o mais do tempo, por ser então única vila nesta ilha. Era homem bem apessoado, grande e grosso, discreto e solícito em fazer cultivar e povoar a terra, visitando-a pessoalmente muitas vezes, só, a cavalo, vestido com uma peliça de martas e uma touca na cabeça, como naquele tempo se costumava, e com um cão grande detrás de si, chamado Temido, sem trazer outros pages consigo, e algumas vezes andava em uma mula, dando ordem à sua gente que roçavam as terras, que agora possuem os Capitães seus sucessores, que são a Salga e a Criação, chamada assim porque criava nela seu gado, perto dos Fenais da Chada, onde ele morava algum tempo, com sua mulher e família.
Este Capitão Rui Gonçalves da Câmara me parece que mandou vir de Guiné, ou da ilha da Madeira, as galinhas chamadas de Guiné, que nesta ilha multiplicaram muito e duraram pouco.
Repartiu a maior parte das dadas ou doações das terras desta ilha, de sesmaria, que é desta maneira: quando dava o Capitão dada ou fazia alguma repartição de terra nova, povoada de mato e espesso arvoredo, a alguma pessoa, de obrigação, na terra que Ihe davam fazia curral e cafua, curral para gado e casa para morar, e tudo era para tomar posse do que recebia; e dentro em cinco anos eram obrigados, estes moradores e possuidores, a terem terra feita e roçada a maior e melhor parte daquela que Ihe era dada e eles recebiam; e não o fazendo assim, dentro no termo de cinco anos, ia outro pedir ou o Capitão podia dar a outrem aquela terra, e a dava, porque o primeiro não fazia benfeitoria nela.
Chamava-se terra de sesmaria, uns dizem que porque no sexto ano ficava livre do que a não aproveitara em cinco; de seis se chamava seismaria. Outros dão outras razões não tão boas. Pode ser que se diz terra dada de sesmaria, deste verbo ou desta palavra scemo em italiano, em que estas letras juntas só soam x e se há-de pronunciar xemo, que quere dizer dividido ou dividir, roçar, cortar, cultivar, porque a terra, dividida e repartida por muitos, para isso se dava, para se aproveitar, cortando- a, roçando-a e cultivando-a, que isto quere dizer scemo; e para fazer isto e os homens a quem se davam terem cuidado, era necessário pôr-lhe termo em que as beneficiassem, com pena de as perderem e ficarem devolutas e livres para as darem a outros colonos e lavradores, que as fizessem dar fruto. O mesmo quere dizer este vocábulo scemato, dividido ou cortado. Também se pode com mais razão dizer que deste nome scisma se disse sesmaria, porque se dividem as terras por cada um, que dantes estavam juntamente devolutas e comuns a todos, em uma comunidade, porque scisma se diz deste verbo scindo, scindis, que quere dizer cortar, e scisma, que quere dizer cortadura ou coisa cortada e parte dividida do todo, como se dividiu esta ilha no princípio, dando de scismaria e divisão ou partilha, a cada um dos que a vinham povoar, sua parte.
Fez seu testamento Rui Gonçalves da Câmara, filho do primeiro Capitão da ilha da Madeira, aos 21 dias do mês de Novembro da era de mil e quatrocentos e noventa e sete anos, em Vila Franca do Campo desta ilha de S. Miguel, estando enfermo em cama, da qual enfermidade faleceu, havendo bem governado a capitania vinte e um anos, pelo que parece que começou a governar na era de mil e quatrocentos e setenta e quatro anos, quando foi confirmada a compra e venda desta ilha por el-Rei D. Afonso, o quinto, e governando-a vinte e um anos, faleceu na era de mil e quatrocentos e noventa e sete ou oito, pouco mais ou menos. Deixou por herdeiro da Capitania a João Roiz da Câmara, seu filho, tendo-o já dantes nomeado também na sua legitimação, da maneira que era dada e confirmada pelos Infantes e Duques e Reis passados, e por el-Rei D. Manuel que então reinava, e depois por seus sucessores.
Toda outra fazenda e herança, que tinha em qualquer parte e lugar, tomou para se distribuir por sua alma e para pagar o que devesse.
Deixou por seu testemanteiro a João Roiz, seu filho.
Foi enterrado seu corpo dentro na capela-mor da igreja do Arcanjo S. Miguel, na sepultura onde jazia já sua mulher, a Capitoa D. Maria de Betancor, de que encarregou a seu filho que houvesse licença de el-Rei para se enterrar na capela-mor, que ele chamava capela dos grandes trabalhos, pelos que teve e pelas despesas grandes que fez em fazer povoar esta ilha.
Neste testamento deixou seis escravas, que tinha prometido em casamento, a seu genro Francisco da Cunha.
Deixou um anal de missa quotidiana na capela-mor onde seu corpo se enterrasse, e obrigou para isso o quarto da fazenda da Ribeira de Água do Mel, da ilha da Madeira, e as mais rendas que tinha; e o remanescente de sua terça se distribuísse cada ano por pobres, como se faz.
Era este Capitão Rui Gonçalves da Câmara, primeiro do nome, mui temente a Deus e de boa consciência, e assim fez o seu testamento como muito amigo de Deus, segundo dele se pode bem coligir.
No dito testamento se vê que o dito Capitão Rui Gonçalves e Gaspar de Betancor ficaram por testamenteiros de D. Maria de Betancor, sua mulher, primeira Capitoa desta ilha, depois que se apartou a capitania da ilha de Santa Maria, mandando-lhe que o dito cargo de testamenteiro ficasse aos descendentes de Gaspar de Betancor, filho, neto, bisneto e mais descendentes; e assim nomeou o dito Rui Gonçalves, primeiro Capitão, por testamenteiro depois da morte de Gaspar de Betancor a seu filho João de Betancor, e depois seus filhos, netos e bisnetos, declarando que era melhor sê-lo uma só pessoa que duas, como mandava D. Maria, sua mulher, em seu testamento, que diz que fossem testamenteiros o dito seu marido e Gaspar de Betancor, e por falecimento de seu marido nomeasse uma pessoa que fosse com Gaspar de Betancor.
Estava esta quinta da Ribeira do Mel aforada por setenta mil réis cada ano; a qual teve Gaspar de Betancor e seus descendentes, que é como morgado, e agora rende muito mais.
O Capitão Manuel da Câmara, bisneto deste Capitão Rui Gonçalves, comprou depois um quinhão de vinte mil réis de renda que tinha Luís da Silva de Meneses, fidalgo, e D. Maria, sua mulher, na quinta de Água do Mel, da ilha da Madeira, os quais vinte mil réis herdam por morte de João Brandão, seu pai.
Nos derradeiros dias deste ilustre Capitão Rui Gonçalves da Câmara se fez alardo geral, por seu mandado, nesta ilha, das armas que nela havia, porquanto os andaluzes, naquele tempo das guerras de Castela com Portugal, vivendo el-Rei D. João, segundo do nome, soíam vir por estas ilhas, em armadas, a roubar e fazer entradas, principalmente e sendo avisado o dito Capitão de certa armada que vinha para entrar nesta ilha de S. Miguel; e se acharam nela cento e setenta lanças de costa, que tiveram em muito, e trinta e seis gibanetes que o mesmo Capitão, por seu dinheiro, mandou pedir ao Capitão da ilha da Madeira, seu irmão, e sobre isso escreveu uma carta a el-Rei, dando-lhe conta do ânimo dos moradores desta terra e da razão que havia para Sua Alteza fazer mercês e dar liberdades aos fidalgos, cavaleiros e homens honrados pelo muito esforço que neles achara, para defensão da terra e seu serviço.
Quando tratei da ilha da Madeira e de seus ilustres Capitães, disse como o primeiro Capitão dela, João Gonçalves Zargo, houvera de sua mulher, Constança Rodrigues de Almeida, com que casou no Reino, alguns filhos e filhas, o primeiro dos quais, João Gonçalves, herdara sua casa e foi o segundo Capitão da mesma ilha. E seu irmão, segundo filho do dito João Gonçalves Zargo, chamado Rui Gonçalves da Câmara, de que agora quero contar, foi depois terceiro Capitão desta ilha de S. Miguel porque, estando na ilha da Madeira muito rico, depois que o almirante de França alcançou da Rainha de Castela, D. Catarina com título de Rei para um Mosem ou Mossior João de Betancurt ou Betancor ou Betencor, que ganhou três delas, Lançarote, Forte Ventura e a do Ferro, sem poder conquistar a Gran-Canária pela resistência que achou nela, e faltando-lhe a despesa e gente se tornou a França, deixando ali um sobrinho, chamado Mossem Menante ou Misser Maciote de Betancor, com o mesmo título de Rei, com propósito de, em chegando, Ihe mandar gente de armas, ou tornar com ela; o qual depois de lá ser ocupado nas guerras do Rei ou da morte, não tornou nem mandou ao sobrinho algum socorro.
Vendo-se o sobrinho falto de gente e apertado da terra, vendeu o direito que tinha naquelas ilhas, com consentimento de el-Rei de Castela, ao Infante D. Henrique, por certa fazenda e pelas saboarias da ilha da Madeira, para onde se passou o dito Misser Maciote de Betancor, e como era de tanto nome e fama, veio ser tão rico que casou Rui Gonçalves da Câmara, segundo filho do Capitão João Gonçalves Zargo, com uma sua filha, chamada D. Maria Betancor, com grande dote que, junto com o de seu património, se fez Rui Gonçalves da Câmara, muito mais rico.
E, vivendo assim prosperamente com sua mulher na ilha da Madeira , foi ter a ela João Soares de Albergaria, segundo Capitão das ilhas de S. Miguel e de Santa Maria, com sua mulher, Beatriz Godiz, muito enferma, em cuja cura, fazendo muitos custos, Ihe foi necessário vender uma das ditas ilhas; e tendo para isso procuração da Capitoa, sua mulher, Ihe comprou Rui Gonçalves da Câmara esta ilha de S. Miguel, que então estava mais erma que a de Santa Maria, uns dizem que por seiscentos mil réis, outros que por setecentos mil e cem mil réis de socos; mas o certo é, segundo a informação da ilha da Madeira, que Iha comprou por dois mil cruzados em dinheiro de contado e quatro mil arrobas de açúcar, que naquele tempo devia ser boa fazenda, pois por tanto se vendia uma ilha tão grande como é esta. A qual compra e venda foi depois confirmada em a cidade de Évora pela Infanta D. Beatriz, tutor e curador do Duque D. Diogo, seu filho, que ainda naquele tempo era de pouca idade, mestre da cavalaria da Ordem de Cristo, de cujo mestrado eram estas ilhas; feita a confirmação na era do Senhor de mil e quatrocentos e setenta e quatro anos, aos dez dias de Março.
Comprada esta ilha, ficou Rui Gonçalves da Câmara Capitão, o primeiro dela só e primeiro do nome, mas terceiro em número, por haverem precedido os dois Capitães de ambas elas, de Santa Maria e desta ilha de S. Miguel, Gonçalo Velho, Comendador de Almourol, e João Soares de Albergaria, seu sobrinho, que vendeu esta ao dito Rui Gonçalves da Câmara. O qual Rui Gonçalves foi um dos bons cavaleiros do seu tempo e fez muitos serviços a el-Rei, mas não os que se contam na relação dos Capitães da ilha da Madeira, em que se afirma ser ele o de que conta o cronista Damião de Goes, na Crónica de el-Rei D. Manuel, onde se diz que esteve em África na era de mil e quinhentos e dez, no segundo cerco de Arzila, com certa gente de cavalo e de pé à sua custa, sendo outro Rui Gonçalves, seu neto e quinto Capitão desta ilha que na dita era foi Capitão, sendo este Rui Gonçalves, seu avô, já então falecido.
Veio este Rui Gonçalves da Câmara, terceiro Capitão, a povoar esta ilha de S. Miguel, e trouxe consigo sua mulher, D. Maria de Betancor, e muitos homens honrados, e três filhos naturais e uma filha também natural, porque da Capitoa, sua mulher, não teve filhos, nem filha, legítimos.
O primeiro filho natural foi João Roiz, que alguns chamam João Gonçalves da Câmara, que herdou a casa e ficou por Capitão, depois do falecimento de seu pai, como direi, quando tratar dele.
O segundo filho, Antão Roiz da Câmara, homem rico e abastado, muito cavaleiro e esforçado, e o que melhor se punha a cavalo nesta ilha, donde foi a África e lá serviu a ei-Rei alguns anos à sua própria custa, e fez coisas boas. E tornando de África, andando em requerimentos com el-Rei D. Manuel sobre seu despacho, estando el-Rei no Rocio de Lisboa com muitos fidalgos, ele na volta deles, aconteceu passar por ali um elefante com um índio que o trazia; sentindo os cavalos o faro dele se alvoroçaram, fugindo muitos deles com seus donos, caindo alguns da sela, alvoroçando-se também o cavalo de el-Rei e o de Antão Roiz da Câmara. Mas, como ele era homem de grandes espritos, extremado cavaleiro, tão consertador e sabedor para animar um cavalo que ninguém Ihe fazia avantage, temperou o cavalo da rédea e esporas, até afitar com os olhos e conhecer o que era, e seguro o cavalo bateu-Ihe as pernas tão arduamente para onde estava o elefante, que Ihe fez pôr a barba sobre o costado dele e, arrancando de um terçado que levava, deu uma espaldeirada no elefante e tornou muito recolhido e manso para onde el-Rei estava, tirando-lhe o barrete, inclinando-se-lhe todo com grande acatamento, o que el-Rei folgou muito de ver e mostrou levar gosto; e do modo com que aquilo fez, Ihe tiveram os fidalgos presentes grande inveja. Recolhido el-Rei, Ihe mandava pelo estribeiro-mor comprar o cavalo, ao que respondeu Antão Roiz que ele e o cavalo eram de Sua Alteza e que para seu serviço aí estava. Não Iho quiseram aceitar, senão que havia de ser vendido. Respondeu que não havia de vender o seu cavalo, senão fazer serviço dele a Sua Alteza. Não o querendo aceitar o estribeiro-mor, então o trouxe a esta ilha, donde o havia levado, quando foi para a África. Era ruço, rodado, muito formoso e, quando ouvia repicar os sinos, dificultosamente o podiam ter, se não estava cavalgado.
Sendo ainda solteiro, das terras que seu pai Rui Gonçalves da Câmara Ihe deu na Ribeirinha, termo da vila da Ribeira Grande, e de outras que comprou, ajuntou muita fazenda de que depois fez um rico morgado, que rende agora cem moios de trigo cada ano. Houve duas filhas naturais: Guiomar da Câmara, mãe de Rui Gago da Câmara, e Maria da Câmara, mãe de João Nunes da Câmara, vigairo e ouvidor que foi na ilha de Santa Maria, irmão de D. Dorotea, Capitoa da dita ilha, mulher do ilustre Capitão Brás Soares de Sousa que agora a governa, como em seus lugares tenho contado.
Vindo de África, casou Antão Roiz da Câmara, na corte, com D. Catarina Ferreira, por ser muito fidalga e formosa, dama da Duquesa de Bragança, e a trouxe para esta ilha de S. Miguel, onde houve dela a Rui Pereira da Câmara e a D. Mécia Pereira. Adoeceu de uma grave enfermidade; indo-se curar dela ao Reino, faleceu em Viana de Caminha, onde está enterrado; o que sabendo sua mulher D. Catarina, se foi para a Corte com os dois filhos e dali a perto de quarenta anos faleceu em Lisboa, de idade de oitenta. Rui Pereira serviu a el-Rei em África muitos anos, em muitos cargos honrosos e fez lá muitas coisas notáveis, pelo que el-Rei o tinha em muita conta, e em satisfação de seus serviços Ihe deu a Capitania de Sofala, sem nunca ter ido à Índia. Indo para lá, arribou em uma nau em que ia por capitão; chegando a Lisboa, faleceu, sendo ainda solteiro. Sucedeu no morgado sua irmã D. Mécia, que já a este tempo era casada com D. Gomes de Melo, filho de Diogo de Melo e de D. Maria Manuel; os quais houveram a D. Maria Manuel que foi para Castela por dama da Princesa, mãe de el-Rei D. Sebastião, e a D. Rodrigo de Melo, que casou com D. Antónia de Vilhana , filha de Pero de Toar e de D. Beatriz da Silva. Este herdou o morgado, por ser filho mais velho, por falecimento de sua mãe, e passando a África com el-Rei D. Sebastião, indo também lá Manuel de Noronha, seu irmão, ambos faleceram na batalha, pelo que sucedeu no morgado seu irmão D. Francisco Manuel, que pouco há veio da Índia e casou com uma filha de Francisco Carneiro.
Houve mais Diogo de Melo, de sua mulher D. Maria Manuel, a D. Catarina de Noronha, que foi casada com Simão Ribeiro, comendador e alcaide-mor do Pombal, e a D. Ana Pereira e a D. Leonor Manuel, ambas ainda solteiras.
Tem Antão Roiz da Câmara as mesmas armas dos Câmaras, com mais dois puxavantes ao pé da torre, que são declaração de ele sempre ir avante com suas coisas, assim nas da paz, como nas da guerra.
Houve o dito Rui Gonçalves da Câmara, Capitão desta ilha de S. Miguel, o terceiro filho natural, dizem que de uma nobre mulher, de geração dos Albernazes, chamado Pedro Roiz da Câmara, o qual casou com D. Margarida de Betancor, filha de Gaspar de Betancor, da qual teve estes filhos: o primeiro, João Roiz da Câmara; o segundo, Manuel da Câmara; o terceiro, Simão da Câmara; o quarto, Anrique de Betancor; o quinto António de Sá; o sexto, Rui Gonçalves da Câmara; e teve uma filha, D. Francisca, que casou com D. António de Sousa, como logo direi.
O primeiro filho de Pedro Roiz da Câmara, chamado João Roiz da Câmara, casou a primeira vez com D. Helena, filha do contador Martim Vaz Bulhão, de que houve uma filha, chamada D. Joana, que faleceu solteira; e porque o Capitão Rui Gonçalves, segundo do nome, tinha casada a D. Helena com um filho de Sebastião Barbosa da Silva que, em a recebendo, se foi logo desta terra, houve diferenças, demandas e brigas sobre este casamento. Por esta razão, el-Rei tomou a fazenda de D. Helena e por também seu pai, o contador, Iha dever, que é a terra dos própios , que está no lugar da Relva; pelo que também João Roiz da Câmara foi a África, onde em uma batalha com os mouros, em que ele e seu irmão Manuel da Câmara se acharam, cativando os mouros ao dito Manuel da Câmara, indo-se recolhendo, pediu João Roiz ao Capitão Ihe desse licença para ir livrar seu irmão, e dizendo-lhe o Capitão que não era tempo, ele saiu sem licença, arremetendo com o cavalo e a lança enristada aos mouros, e matando do encontro a um deles, tomou o irmão por um braço e, ajudando-o a subir nas ancas do cavalo, o livrou dos imigos. Depois de livre, dizendo-lhe Manuel da Câmara: — pois irmão, como ficamos?, respondeu ele: — como dantes . E, depois de vir de África, Ihe deu el-Rei uma comenda de mais de cem mil réis na Beira, no lugar que se chama Os Trinta, no pé da Serra da Estrela, onde estando à hora, ou antes da hora, de sua morte, casou com D. Catarina, da qual houve estes filhos: o primeiro, Rui Gonçalves da Câmara, que faleceu solteiro na Índia em serviço de el-Rei, tendo vinte anos de serviço em que tinha feitas grandes sortes; e tendo-Ihe el-Rei dado despacho para ser capitão de uma fortaleza, sem o ele saber, em uma batalha o mataram. O segundo, Bernardim da Câmara, muito esforçado cavaleiro e valente soldado, que casou na Vila do Nordeste. O terceiro, Apolinário da Câmara, também de grandes forças e valentia, que foi com el-Rei D. Sebastião à guerra de África, onde o cativaram e não se sabe se é falecido.
Teve mais João Roiz da Câmara três filhas: a primeira, D. Guiomar, que indo para Castela ter com sua tia, que a fazia dama da Imperatriz na Corte, faleceu no caminho. A segunda, D. Beatriz, que também foi para Castela, onde está casada com um grande e poderoso fidalgo, a que não soube o nome. A terceira, D. Margarida, que casou com Pedro Roiz de Sousa, filho de Baltasar Roiz, de Santa Clara, e faleceu sem ter filhos.
O segundo filho de Pedro Roiz, Manuel da Câmara, faleceu solteiro na Índia, ataúde de homens fidalgos e honrados, em serviço de el-Rei; teve um filho natural.
O terceiro, Simão da Câmara, andava na Corte, sendo tão grande sabedor e astrólogo, que estando para falecer o grande piloto e astrólogo Simão Fernandes, disse- lhe el-Rei: — se morrerdes, que nos ficará? Respondeu ele: — se Simão morre, Simão fica —; dizendo isto pelo Simão da Câmara, o qual faleceu na Corte, solteiro.
O quarto, Anrique de Betancor de Sá, morador que foi na vila da Ribeira Grande, que andou na Corte muito tempo e casou com D. Simoa, filha de Baltasar Vaz de Sousa e de Leonor Manuel, de que houve estes filhos: O primeiro, Rui Gonçalves da Câmara, que casou com D. Luzia, filha de Hierónimo Jorge e de Beatriz de Viveiros, de que tem um filho e quatro filhas, três delas já freiras noviças no mosteiro de Jesus, da vila da Ribeira Grande. É fidalgo de magnífica condição, com que agasalhava muitos hóspedes que quase nunca em sua casa faltam; manso e macio para todos. O segundo filho, Manuel da Câmara, casou com dispensação com D. Maria, filha de Rui Gago da Câmara, sua parente, e de Isabel Botelho, de quem tem um filho e uma filha. O terceiro, Francisco de Sá, faleceu solteiro. O quarto, Anrique da Câmara, ainda solteiro, de grandes forças, bom cavaleiro e valente soldado que, andando na Índia em serviço de el-Rei, faleceu há pouco. Teve mais Anrique de Betancor de sua mulher D. Simoa sete filhas, três faleceram solteiras e uma sendo já professa; e tem agora duas freiras professas no mosteiro de Jesus, da vila da Ribeira Grande, chamadas Beatriz da Anunciação e Ângela do Paraíso, de muita virtude. E outra filha, chamada D. Margarida, que casou com Cristóvão Dias, nobre e rico, da cidade da Ponta Delgada.
O quinto filho de Pedro Roiz da Câmara, António de Sá, faleceu solteiro na vila da Ribeira Grande.
O sexto filho de Pedro Roiz da Câmara faleceu também solteiro na ilha da Madeira.
A filha de Pedro Roiz da Câmara e de D. Margarida de Betancor, sua mulher, chamada D. Francisca, casou com D. António de Sousa, viúvo, fidalgo, dos Sousas do Regno, que foi muitos anos vereador na cidade de Lisboa, homem de que el-Rei se servia em muitas coisas.
Deu-lhe Pedro Roiz em casamento propriedade no Morro e no monte de Trigo, que está junto da vila da Ribeira Grande, que rendia cinquenta moios de trigo cada ano, que com o mais que Ihe deram passava de dez mil cruzados.
Era D. António de Sousa irmão do Conde do Prado e de D. Maria de Távora, mulher de Pedro Álvares Carvalho, que foi capitão de Alcácer-Ceguer, que se largou aos mouros, do qual Ihe ficaram filhos, sc., Álvaro de Carvalho, Bernardim de Carvalho e Rui de Sousa, grandes capitães de lugares de África. O primeiro filho de D. António de Sousa, que Ihe ficou da primeira mulher, chamavam D. Martinho de Sousa, primeiro morgado: o segundo, D. Jorge de Sousa, os quais foram à Índia por capitães de naus, cada um, duas vezes. Teve o dito D. António de Sousa, da segunda mulher D. Francisca, filha de Pedro Roiz da Câmara, quatro filhos: o mais velho, D. Pedro de Sousa, comendador de Cristo, muito privado de el-Rei D. João, terceiro do nome; o segundo filho se chamava D. João, ambos bons cavaleiros e gentis-homens, que faleceram solteiros. O terceiro, D. Dinis de Sousa, que casou no Reino, e nele ficou encabeçada toda a fazenda que herdou do pai e da mãe aqui nesta ilha, que houveram de Pedro Roiz da Câmara e de D. Margarida de Betancor; o qual D. Dinis tem alguns filhos e fi!has, a que não soube o nome.
Teve Pedro Roiz da Câmara de sua mulher D. Margarida de Betancor de Sá outra filha, chamada D. Maria da Câmara, que faleceu solteira, caindo de uma janela de casa, por querer colher uma pera de uma pereira que junto dela estava, da qual queda se Ihe causou a morte dali a poucos dias.
Era Pedro Roiz da Câmara bem apessoado, grave e gentil homem, e liberalíssimo de condição. Fez no assento e pomar de suas casas, na vila da Ribeira Grande, um mosteiro de freiras observantes, da invocacão de Jesus, onde estão muitas e virtuosas religiosas suas parentas, e nele está sepultado. Deixou-Ihe dezoito moios de renda na sua fazenda da Achada, e trinta mil réis que Ihe ficaram de seu pai, de juro, na ilha da Madeira. Deixou certa renda ao Esprital da vila da Ribeira Grande. Dando cada um do povo, a quem mais daria, para a igreja matriz de Nossa Senhora da Estrela da dita vila, para que se fazia finta, e, ficando baixa, ele Ihe mandou acrescentar cinco palmos à sua custa e deu um cálice grande, dourado, com suas campainhas, e um pontifical de damasco rosado para a mesma igreja, e dizem que outro para a igreja da Maia. Foi logo — tente do Capitão Rui Gonçalves, seu sobrinho, e governou a Capitania sete anos, em sua absência, com muita paz e justiça, deixando de si bom exemplo e nome, distribuindo com grande liberalidade sua fazenda, que era muita, porque quando casou tinha, cada ano, cento e cinquenta moios de trigo de renda, afora outra muita que depois Ihe cresceu; e sua mulher, D. Margarida de Betancor, filha de Gaspar de Betancor, vivendo com muita virtude, faleceu vinte anos depois dele.
Teve mais o primeiro Capitão Rui Gonçalves da Câmara uma filha natural, chamada D. Beatriz, que casou com um fidalgo que veio muito rico da Índia, chamado Francisco da Cunha, dos Cunhas do Regno, que dizem ter este apelido do primeiro, que sendo alferes de uma capitania, em uma batalha, e sendo maltratados os de sua parte dos contrairos, indo já quase vencidos, vendo este alferes o desbarato dos seus, meteu a bandeira em uma fenda de uma pedra, acunhando-a com outras, e foi pelejar com os imigos tão valorosamente que com sua ajuda alcançaram vitória. E acabada a batalha, vendo o capitão o seu alferes consigo, sem bandeira, Ihe perguntou por ela; respondeu ele que bem acunhada a deixara; pelo que Ihe fez el-Rei mercês e Ihe deu este apelido de Cunhas, para si e seus sucessores. Este fidalgo Francisco da Cunha houve de sua mulher D. Beatriz uma filha, chamada D. Guiomar da Cunha, que casou com João Soares, terceiro Capitão da ilha de Santa Maria e segundo do nome, que houve os filhos já ditos, quando tratei da dita ilha de Santa Maria, pelo que ficaram os Capitães destas duas ilhas liados com estreito parentesco.
Estando o Infante D. Henrique em Sagres favorecendo o descobrimento destas ilhas, como tenho dito, comprou a Misser Maciote de Betancor, Rei das Canárias, e Ihe deu pelo que tinha delas subjugado e direito da empresa as saboarias da ilha da Madeira e vinte e cinco mil réis de juro na alfândega, e por dadas as Lombas dos Esmeraldos e a Ribeira de Água de Mel, sobre o Funchal. Com isto se passou o dito Maciote de Betancor à ilha da Madeira e casou sua filha, D. Maria de Betancor, com Rui Gonçalves da Câmara, segundo filho do primeiro Capitão dela, João Gonçalves Zargo; o qual Rui Gonçalves, comprando esta ilha a João Soares de Albergaria, segundo Capitão da ilha de Santa Maria, se passou a ela com sua mulher e como dentre eles não houve filhos legítimos, por razão de João Roiz da Câmara, filho natural mais velho do dito Rui Gonçalves da Câmara, ficar encabeçado na Capitania e jurdição, fizeram partilha em sua vida, ele e sua mulher, D. Maria de Betancor, que ela ficasse com cento e cinquenta mil réis de foro cada um ano, para sempre, nas Lombadas dos Esmeraldos, seus foreiros, por eles mesmos Ihas aforarem, quando da ilha da Madeira se vieram com a compra desta ilha, com mais a Ribeira de Água do Mel e com trinta mil réis de renda de foros em Vila Franca do Campo desta mesma ilha, que tudo o que agora rende, esta parte de D. Maria de Betancor, importa dois mil cruzados cada ano, que ela fez em morgado, encabeçado em Gaspar de Betancor, seu sobrinho, filho de sua irmã, que mandou vir da ilha da Madeira para nesta Ihe fazer companhia, por não ter aqui parente nenhum, em vida de seu marido Rui Gonçalves, e daí em seus descendentes, no filho mais velho. E seu marido Rui Gonçalves ficou com a Capitania, que então importava tão pouco que, para ficar igualado na partilha com sua mulher, ficou com mais o quarto da fazenda que se chama Ribeira de Água do Mel, sobre a cidade do Funchal, na ilha da Madeira.
Esta D. Maria de Betancor, francesa, nesta terra, ou por humildade, ou pelo muito que deixara das ilhas Canárias e isto ser pouco naquele tempo, ou por descender de geração dos Reis nunca se nomeou por Capitoa, nem ninguém Ihe chamava senão D. Maria; era muito formosa e liberal. Deixou em Vila Franca, para o concelho da mesma vila, dois moios de terra que está arriba da vila e parte da banda do sul com os Pomares, e da banda de levante com uma grota que vai antre a fazenda de Rui Gago da Câmara e a própria terra do concelho, e da banda do ponente com terra foreira do mosteiro dos frades de Nossa Senhora, e do norte com terras que foram de João d’Outeiro, a qual terra deixou que rendesse para as coisas do concelho, com condição que os gados, que viessem de caminho, pudessem dormir ali uma noite e mais não, e nunca andassem éguas nem fêmeas nela. Mandou também fazer uma capela no Funchal, no mosteiro de S. Francisco, no cruzeiro à mão direita, onde disse que levassem sua ossada. Dizem alguns que depois faleceu, e outros que primeiro, que o Capitão seu marido, alguns anos; que foi enterrado , segundo alguns dizem, na capela do mosteiro de S. Francisco; mas outros afirmam que na capela-mor da igreja matriz do Arcanjo S. Miguel, que havia antes da subversão de Vila Franca.
Tinha este Capitão Rui Gonçalves seu assento principal em Vila Franca do Campo, onde residia o mais do tempo, por ser então única vila nesta ilha. Era homem bem apessoado, grande e grosso, discreto e solícito em fazer cultivar e povoar a terra, visitando-a pessoalmente muitas vezes, só, a cavalo, vestido com uma peliça de martas e uma touca na cabeça, como naquele tempo se costumava, e com um cão grande detrás de si, chamado Temido, sem trazer outros pages consigo, e algumas vezes andava em uma mula, dando ordem à sua gente que roçavam as terras, que agora possuem os Capitães seus sucessores, que são a Salga e a Criação, chamada assim porque criava nela seu gado, perto dos Fenais da Chada, onde ele morava algum tempo, com sua mulher e família.
Este Capitão Rui Gonçalves da Câmara me parece que mandou vir de Guiné, ou da ilha da Madeira, as galinhas chamadas de Guiné, que nesta ilha multiplicaram muito e duraram pouco.
Repartiu a maior parte das dadas ou doações das terras desta ilha, de sesmaria, que é desta maneira: quando dava o Capitão dada ou fazia alguma repartição de terra nova, povoada de mato e espesso arvoredo, a alguma pessoa, de obrigação, na terra que Ihe davam fazia curral e cafua, curral para gado e casa para morar, e tudo era para tomar posse do que recebia; e dentro em cinco anos eram obrigados, estes moradores e possuidores, a terem terra feita e roçada a maior e melhor parte daquela que Ihe era dada e eles recebiam; e não o fazendo assim, dentro no termo de cinco anos, ia outro pedir ou o Capitão podia dar a outrem aquela terra, e a dava, porque o primeiro não fazia benfeitoria nela.
Chamava-se terra de sesmaria, uns dizem que porque no sexto ano ficava livre do que a não aproveitara em cinco; de seis se chamava seismaria. Outros dão outras razões não tão boas. Pode ser que se diz terra dada de sesmaria, deste verbo ou desta palavra scemo em italiano, em que estas letras juntas só soam x e se há-de pronunciar xemo, que quere dizer dividido ou dividir, roçar, cortar, cultivar, porque a terra, dividida e repartida por muitos, para isso se dava, para se aproveitar, cortando- a, roçando-a e cultivando-a, que isto quere dizer scemo; e para fazer isto e os homens a quem se davam terem cuidado, era necessário pôr-lhe termo em que as beneficiassem, com pena de as perderem e ficarem devolutas e livres para as darem a outros colonos e lavradores, que as fizessem dar fruto. O mesmo quere dizer este vocábulo scemato, dividido ou cortado. Também se pode com mais razão dizer que deste nome scisma se disse sesmaria, porque se dividem as terras por cada um, que dantes estavam juntamente devolutas e comuns a todos, em uma comunidade, porque scisma se diz deste verbo scindo, scindis, que quere dizer cortar, e scisma, que quere dizer cortadura ou coisa cortada e parte dividida do todo, como se dividiu esta ilha no princípio, dando de scismaria e divisão ou partilha, a cada um dos que a vinham povoar, sua parte.
Fez seu testamento Rui Gonçalves da Câmara, filho do primeiro Capitão da ilha da Madeira, aos 21 dias do mês de Novembro da era de mil e quatrocentos e noventa e sete anos, em Vila Franca do Campo desta ilha de S. Miguel, estando enfermo em cama, da qual enfermidade faleceu, havendo bem governado a capitania vinte e um anos, pelo que parece que começou a governar na era de mil e quatrocentos e setenta e quatro anos, quando foi confirmada a compra e venda desta ilha por el-Rei D. Afonso, o quinto, e governando-a vinte e um anos, faleceu na era de mil e quatrocentos e noventa e sete ou oito, pouco mais ou menos. Deixou por herdeiro da Capitania a João Roiz da Câmara, seu filho, tendo-o já dantes nomeado também na sua legitimação, da maneira que era dada e confirmada pelos Infantes e Duques e Reis passados, e por el-Rei D. Manuel que então reinava, e depois por seus sucessores.
Toda outra fazenda e herança, que tinha em qualquer parte e lugar, tomou para se distribuir por sua alma e para pagar o que devesse.
Deixou por seu testemanteiro a João Roiz, seu filho.
Foi enterrado seu corpo dentro na capela-mor da igreja do Arcanjo S. Miguel, na sepultura onde jazia já sua mulher, a Capitoa D. Maria de Betancor, de que encarregou a seu filho que houvesse licença de el-Rei para se enterrar na capela-mor, que ele chamava capela dos grandes trabalhos, pelos que teve e pelas despesas grandes que fez em fazer povoar esta ilha.
Neste testamento deixou seis escravas, que tinha prometido em casamento, a seu genro Francisco da Cunha.
Deixou um anal de missa quotidiana na capela-mor onde seu corpo se enterrasse, e obrigou para isso o quarto da fazenda da Ribeira de Água do Mel, da ilha da Madeira, e as mais rendas que tinha; e o remanescente de sua terça se distribuísse cada ano por pobres, como se faz.
Era este Capitão Rui Gonçalves da Câmara, primeiro do nome, mui temente a Deus e de boa consciência, e assim fez o seu testamento como muito amigo de Deus, segundo dele se pode bem coligir.
No dito testamento se vê que o dito Capitão Rui Gonçalves e Gaspar de Betancor ficaram por testamenteiros de D. Maria de Betancor, sua mulher, primeira Capitoa desta ilha, depois que se apartou a capitania da ilha de Santa Maria, mandando-lhe que o dito cargo de testamenteiro ficasse aos descendentes de Gaspar de Betancor, filho, neto, bisneto e mais descendentes; e assim nomeou o dito Rui Gonçalves, primeiro Capitão, por testamenteiro depois da morte de Gaspar de Betancor a seu filho João de Betancor, e depois seus filhos, netos e bisnetos, declarando que era melhor sê-lo uma só pessoa que duas, como mandava D. Maria, sua mulher, em seu testamento, que diz que fossem testamenteiros o dito seu marido e Gaspar de Betancor, e por falecimento de seu marido nomeasse uma pessoa que fosse com Gaspar de Betancor.
Estava esta quinta da Ribeira do Mel aforada por setenta mil réis cada ano; a qual teve Gaspar de Betancor e seus descendentes, que é como morgado, e agora rende muito mais.
O Capitão Manuel da Câmara, bisneto deste Capitão Rui Gonçalves, comprou depois um quinhão de vinte mil réis de renda que tinha Luís da Silva de Meneses, fidalgo, e D. Maria, sua mulher, na quinta de Água do Mel, da ilha da Madeira, os quais vinte mil réis herdam por morte de João Brandão, seu pai.
Nos derradeiros dias deste ilustre Capitão Rui Gonçalves da Câmara se fez alardo geral, por seu mandado, nesta ilha, das armas que nela havia, porquanto os andaluzes, naquele tempo das guerras de Castela com Portugal, vivendo el-Rei D. João, segundo do nome, soíam vir por estas ilhas, em armadas, a roubar e fazer entradas, principalmente e sendo avisado o dito Capitão de certa armada que vinha para entrar nesta ilha de S. Miguel; e se acharam nela cento e setenta lanças de costa, que tiveram em muito, e trinta e seis gibanetes que o mesmo Capitão, por seu dinheiro, mandou pedir ao Capitão da ilha da Madeira, seu irmão, e sobre isso escreveu uma carta a el-Rei, dando-lhe conta do ânimo dos moradores desta terra e da razão que havia para Sua Alteza fazer mercês e dar liberdades aos fidalgos, cavaleiros e homens honrados pelo muito esforço que neles achara, para defensão da terra e seu serviço.
Saem à costa desta ilha, algumas vezes, baleias, mais da banda do norte que do sul, principalmente na costa do lugar de Rabo de Peixe, onde se acham muitas favas do mar, que dizem ser-lhe agradável ou natural manjar. E, posto que muitas saíssem somente se aproveita o azeite delas, sem nunca se achar ambre .
Na era de mil e quinhentos e trinta e seis ou sete anos entre Porto Formoso e a Maia, na ponta de São Brás, no pesqueiro do Demo, chamado assim por ser ruim e trabalhoso, em uma angrada de calhau saiu um peixe que não era baleia, sem osso nem espinha, de quarenta e dois côvados em comprido e oito de largo, de quinze palmos de alto, e da ponta da boca até a da guelra tinha vinte e cinco palmos; o que vendo alguns homens disseram que, se abrira a boca, bem pudera caber e entrar por ela uma junta de bois com seu carro. Achando-se ali com a maré vazia, em tempo de grande tormenta, o ataram com cordas pelo rabo e cabeça, porque o mar o não levasse quando enchesse. Tinha da cabeça até ao rabo cintas pela banda de cima, por onde subiram os homens a ele, como sobem pelas cintas a um navio. No primeiro dia, andaram cem homens cortando nele com machados; no segundo, cento e cinquenta, e todos cortavam juntamente, uns de uma banda, outros da outra, e outros em cima, sem um estorvar a outro. O primeiro que meteu o machado nele foi um Afonso Pires, morador na Maia, o qual o arrombou pelo arcabouço, e deitou pela ilharga tanto azeite claro, que bem pudera encher duas ou três pipas, que logo se coalhou, entrando na água, donde depois o tiravam com cestos e joeiras, pelas quais escoando-se a água, ficava o azeite branco e coalhado como manteiga.
Cortando todos e derretendo em fogueiras que ali fizeram tiraram muito azeite, o qual, além de aproveitar para a candeia, aproveitou depois de mezinha para sarna e matadura de bestas e cangueira de bois, e para frialdade, untando-se com ele. Como disse, não tinha osso, senão um junto com o pescoço e outro perto da rabadilha, os quais não eram propriamente ossos, senão como cabos que todos se derretiam em azeite; e todo o mais dele era polpa sem osso e sem espinha. Os nervos eram de tal qualidade e tão rijos, que depois tiravam e arrastavam madeira na serra com eles, como com tamoeiros de arrastar, sem nunca quebrarem, e traziam bois e bestas presos nas relvas, como com ataferas do Algarve, e eram ainda mais seguros e fortes que elas. Enchendo depois a maré e embravecendo mais o mar, tanto o alevantou por vezes que quebraram as cordas e, partindo-se pelo meio, deitou no mar grande cópia de azeite. E ametade dele foi ter defronte da ribeira que se chama Gorreana, onde dele se aproveitaram uns mouriscos e outras pessoas. Não conhecia ninguém que peixe era; alguns dizem ser trebolha, afirmando-se todos não ser baleia. Um homem de fora, que ali se achou e já fora a Guiné, disse que era peixe espadarte, de que em Guiné havia muitos.
A dez de Junho de mil e quinhentos e oitenta anos se viu no mar, da banda do sul desta ilha de São Miguel, da Povoação Velha até a cidade uma mui travada batalha de três grandes peixes, por espaço de quatro ou cinco dias, no fim dos quais, andando dois barcos da Vila Franca pescando à vista um de outro, um Domingos Afonso, chamado Canejo, foi encontrar com um peixe morto de estranha grandura; e, capeando ao outro barco, que veio ter com ele, o fez ir a terra buscar barcos e aparelhos, ficando ele olhando pelo peixe e por marca dele, até que Ihe foram batéis da terra, o qual levaram atoado até o porto de Afonso Vaz, onde o desfizeram cuidando ser baleia, de que se fizera muito proveito, se o fora, de ambre ou bálsamo, ou ao menos azeite, que se pudera fazer muito; mas, como era outro peixe seco, não se fez dele nenhum proveito, senão pouco mais de um quarto, por se gastar mais na lenha para o queimar, e fazer mais custo do que rendia e valia o azeite, que era melhor que o da baleia, e mais claro alumiava, sem cheiro mau nenhum, quando ardia, e também por ser a carne dele mui dura de cortar. Seria de noventa palmos de comprido, dezoito de largo, e outros dezoito de alto, de cor preta, cuja cabeça era de quinze palmos, tão grande como um batel de pescar, e o rabo de outro tanto; e tinha de comprido duas cintas, como de navio, e em lugar de guelras, ao redor de toda a cabeça, umas barbatanas como tábuas de forro, com uns cabelos, como sedas, nas pontas. Disseram alguns que nas Índias de Castela se chama peixe mulo; o qual parece que mataram os dois peixes espadas que com ele se viram andar pelejando, porque são grandes guerreiros e furiosos na peleja, de cujos golpes dizem que vinha aberto pela barriga. Foi muita gente a vê-lo, como coisa espantosa que era.
Também antigamente saiu à costa um peixe de feição de baleia, tão grande como meio baleato, que chamam boto.
Aos vinte e sete dias do mês de Março do ano de mil e quinhentos e cinquenta e nove, no termo da cidade da Ponta Delgada, a Pedralvres Benavides nasceu um bezerro macho, com um corpo e duas cabeças pegadas uma na outra, e cada uma tinha dois olhos e sua boca, com seu focinho perfeito; não tinha mais que duas orelhas, uma em cada cabeça, e em cada uma seu gorgomilho. Morrendo, logo foi aberto e dentro Ihe acharam dois buchos.
O primeiro dia do mês de Dezembro de mil e quinhentos e oitenta anos, uma porca ruiva, de ano e meio, do bacharel Gonçalo Aires Ferreira, mestre de gramática na vila da Ribeira Grande, pariu da segunda parição sete leitões, entre os quais nasceu um ruivo, como a mesma mãe, e trazia nas orelhas o sinal de que a mãe era assinada, sc., uma orelha forcada e outra levada da reigada até à ponta pela banda de diante, sem diferença nenhuma da mãe, que havia já um ano que era assinada.
No mês de Março do ano de mil e quinhentos e oitenta e um, entre o Nordeste e o Faial, na criação do licenciado Bartolomeu de Frias, nasceu já morto, de uma sua vaca, um bezerro com duas cabeças perfeitas cada uma.
Sobre o pico de el-Rei, na serra de Vila Franca do Campo, no mesmo ano, em quinta e sexta-feira de Endoenças, de duas vacas de António Pacheco nasceram dois bezerros cegos e logo morreram.
Uma galinha de uma Maria Manuel, vizinha de Vila Franca, Ihe pôs um ovo, dentro do qual achou outro tão grande, como de codorniz, com casca, clara e gema.
Na freguesia de Nossa Senhora do Rosairo, do lugar da Achadinha, em casa de Francisco Lopes, nasceu um leitão com dois corpos e uma cabeça.
A seis de Agosto de mil e quinhentos e oitenta e um, em casa de um Pero Nunes, morador em Vila Franca do Campo, nasceu um pintão com oito pernas com seus dedos, como outra qualquer ave; duas delas, onde as têm as outras aves, e as outras, mais atrás; andava com as duas e as mais levava a rasto.
Uma terça-feira, véspera de S. Mateus, vinte de Setembro de mil e quinhentos e oitenta e três anos, na vila da Ribeira Grande, entre outros, tirou uma galinha de André Lopes e de Margarida da Ponte, sua mulher, moradores na mesma vila, um pintão que em saindo da casca, batendo primeiro as asas, cantou três vezes dentro em casa onde estava, tão alto que o podiam ouvir fora, na rua.
Por monstro, contarei de um homem, vizinho da vila de Água do Pau, chamado Francisco Londrino , , ainda ao presente vivo, que amamenta a criança, enquanto sua mulher parida não tem leite depois de parir; o qual, indo ter ao lugar da Relva e achando uns homens trabalhadores comendo pão e alhos somente, Ihe disse se queriam comer um pouco de leite que Iho daria, e, respondendo-lhe eles que fosse ele comer do leite de quem o parira, tomou ele os seus úberes, que tem como mulher, e os borrifou com o leite deles e, deitando dele em um pedaço de pão, o comeu. Suspeitando eles por isto e dizendo se seria mulher, disse ele que sua barba e quatro fllhos que tinha diziam que era homem macho.
Um João Fernandes, morador na sua vinha, junto com o licenciado Bartolomeu de Frias, vivendo nas casas em que ora João Lourenço, barbeiro, na cidade vive, sendo térreas, matou um porco muito gordo e grande, o qual tinha atravessados os bofes com um ferro de lança e neles tão unido e pegado, que parecia parte da fressura, sem nunca saber quando foi ferido.
Deixando aparte os corregedores que vieram a esta ilha com alçada, de que tratarei quando disser algumas coisas da ilha Terceira, cabeça do Bispado de Angra, onde eles principalmente residem, direi agora de alguns oficiais da justiça eclesiástica e secular e de outros cargos que houve nesta ilha de S. Miguel, segundo pude saber, ainda que não todos.
Antes do dilúvio de Vila Franca do Campo, na era de mil e quinhentos e seis, foi ouvidor do eclesiástico em toda esta ilha de S. Miguel um Frei Bartolomeu; o segundo, Frei João, vigairo de Água do Pau, na era de quinze; depois foi ouvidor o vigairo de Vila Franca, Frei Simão Godinho, que no dito dilúvio faleceu na mesma vila. E não pude saber de outros alguns que dantes deles fossem. O quarto, Frei Marcos, vigairo e ouvidor na dita vila; o quinto, o abade de Moreira, irmão de Fernão de Anes, do lugar de Rabo de Peixe, pai do licenciado Bartolomeu de Frias; o sexto, Pero Garcia, vigairo dos Fenais, termo da cidade da Ponta Delgada; o sétimo, Frei Manuel Pereira, vigairo da vila da Ribeira Grande, o qual teve muitos anos este cargo e outros de visitador e ouvidor dos agravos; o oitavo, João de Contreiras, vigairo da igreja de S. Pedro da cidade da Ponta Delgada; o nono, o cónego Francisco Álvares; o décimo, o bacharel Ascêncio Gonçalves, vigairo que foi de Santa Clara da cidade da Ponta Delgada, e agora, de S. Pedro da Ribeira Seca, termo da vila da Ribeira Grande; o undécimo, o licenciado Luís de Figueiredo de Lemos, sendo vigairo de S. Pedro da cidade, e depois foi daião da Sé de Angra, vigairo geral e governador deste Bispado, e agora é Bispo do Funchal; o duodécimo, o licenciado Berardo Leite de Sequeira; o décimo tércio, o licenciado Timóteo Roiz Teixeira; o décimo quarto, o bacharel Ascêncio Gonçalves, acima dito.
O primeiro ouvidor do secular, por el-Rei e pelo Capitão desta ilha, foi Gonçalo Vaz, o Grande; o segundo, Gonçalo Álvares; o terceiro, Antão Pacheco, que faleceu no dilúvio de Vila Franca, e era pai de Pedro Pacheco; o quarto, Fernão do Quental; o quinto, o licenciado Diogo de Vasconcelos, natural desta ilha ; o sexto, o licenciado João de Teve; o sétimo, Jorge Nunes Botelho; o octavo, João Pardo; e daqui por diante vieram letrados de fora: o nono, o licenciado André Fernandes; o décimo, o licenciado Manuel Nunes Ribeiro, o undécimo, o licenciado Jorge Correia Fafes; o duodécimo, o licenciado Luís da Rocha Portocarreiro; o décimo tércio, o licenciado Francisco Pires Picão; o décimo quarto, o licenciado Gonçalo Nunes Dares ; o décimo quinto, o licenciado Diogo Salgado; o décimo sexto, em sua vagante, o licenciado Luís Leite; o décimo sétimo, o doutor Cristóvão de Almeida; o décimo octavo, o licenciado António Barreto Teixeira; o décimo nono, o licenciado Bartolomeu de Frias, natural desta ilha. O primeiro meirinho dos ouvidores foi Sebastião Cardoso; o segundo, João Lopes; o terceiro, Manuel de Medeiros; o quarto, Manuel Pavão; o quinto, Vasco Caldeira, cavaleiro, fidalgo, do hábito de Santiago, que agora tem o cargo.
O primeiro juiz de fora, que veio a esta ilha, foi o licenciado Lourenço Correia; o segundo, o licenciado Rodrigo Afonso Azinheiro; o terceiro, o licenciado João Usademar, que esteve nesta ilha perto de sete anos; o quarto, o licenciado Gaspar Leitão, que esteve nesta terra mais de cinco anos; o quinto, o licenciado Cristóvão Soares de Albergaria, que depois foi corregedor e agora tem o mesmo cargo na ilha Terceira e mais ilhas dos Açores; o sexto, o doctor Gil Eanes da Silveira; o sétimo, o licenciado Cristóvão da Costa Feio.
O primeiro juiz do mar e juntamente contador foi Diogo Nunes Botelho; o segundo, o licenciado Lourenço Correia, que também era juiz de fora; o terceiro, o licenciado Gonçalo Nunes Dares; o quarto, Francisco de Arruda da Costa; o quinto, Manuel Cordeiro de Sampaio, que agora tem o cargo.
Não falando nos corregedores que foram contadores, como foi o doctor Francisco Toscano, o primeiro contador que eu sei ser muitos anos nesta ilha e em todas as dos Açores foi Martim Vaz Bulhão; o segundo, António Borges de Gamboa; o terceiro, Diogo Nunes Botelho; o quarto, o licenciado Lourenço Correia, que serviu de juiz de fora e contador; o quinto, o licenciado Gonçalo Nunes de Arez, que serviu de juiz do mar e contador; o sexto, Francisco de Mares , que foi juiz do mar e contador; o sétimo, Manuel Botelho Cabral, filho de Jorge Nunes Botelho, que agora está servindo a el-Rei na Índia; o octavo, Francisco Mendes Pereira; o nono, Paulo da Ponte, da ilustre progénie dos Pontes de Vila Franca do Campo, de grande entendimento, rara discrição e prudência.
O primeiro juiz dos resíduos que houve nesta ilha, de que me acordo, foi o licenciado Diogo de Vasconcelos; o segundo, o bacharel Diogo Pereira; o terceiro, Gomes Freire, criado de el-Rei, que Ihe fez mercê do ofício de chançarel-mor em todas estas ilhas, andando na correição com o corregedor António de Macedo, que então servia, com os que pelo tempo adiante fossem; ao qual Gomes Freire fez também el-Rei mercê do ofício de juiz dos resíduos e provedor dos órfãos, espritais e albergarias, segundo dantes o tinha e possuía o bacharel Diogo Pereira; o quarto, Estêvão de Oliveira; o quinto, André Gonçalves de Sampaio, chamado o Congro; o sexto, Nuno Gonçalves Botelho; o sétimo, o licenciado Francisco de Maris, e, dantes e depois, os corregedores da comarca e o licenciado Gaspar Leitão, juiz que foi de fora na cidade e o licenciado Cristóvão Soares de Albergaria, e o doutor Gil Eanes da Silveira, e o licenciado Cristóvão da Costa Feio, juiz de fora na cidade da Ponta Delgada. Escrivães: João Lourenço Tição, Gaspar Gonçalves, Gonçalo Mourato, António Jorge, Manuel Serrão, Miguel Serrão e Manuel Nunes.
O primeiro juiz dos órfãos de Vila Franca do Campo, e em toda esta ilha de S. Miguel, foi Lopo Anes de Araújo, desde a era de mil e quinhentos e vinte até à de mil e quinhentos e trinta e três, pouco mais ou menos. E então foi o segundo juiz, por mercê de el-Rei, Salvador Afonso Pimentel. Depois sucedeu seu filho, Manuel Afonso Caramazel, terceiro juiz. O quarto foi o licenciado António Monteiro.
O primeiro juiz dos órfãos na cidade da Ponta Delgada, sendo ainda vila, foi Gonçalo do Rego, cidadão da cidade do Porto, pai de Gaspar do Rego; o segundo Lourençayres Rodovalho, cidadão da cidade da Ponta Delgada; o terceiro, seu filho Gaspar Correia Rodovalho; o quarto, Pero Camelo, fidalgo, que agora tem o cargo.
O primeiro que me lembra ter o cargo de juiz dos órfãos na vila da Ribeira Grande foi Simão Lopes de Almeida, na era de mil e quinhentos e vinte e nove, sendo corregedor o licenciado Domingos Garcia, por cujo mandado se fez; o segundo, Bartolomeu Lopes de Almeida, seu irmão; o terceiro, Lopo Dias Homem; o quarto, Duarte Privado.
O primeiro memposteiro dos cativos, que houve nesta ilha foi um Luís Vaz Maldonado, pai da Tarfoza , a Velha, que viveu na vila da Ponta Delgada, e teve o cargo o ano de quinze e o de dezasseis; o segundo, Gonçalo Vaz, pai de André Gonçalves de Sampaio, chamado o Congro, o qual serviu até o dia da subversão de Vila Franca do Campo; o terceiro, Pero Camelo Pereira; o quarto, seu irmão, Gaspar Camelo, que serviu na era de mil e quinhentos e trinta e dois e trinta e três, até que faleceu; o quinto, Belchior Vieira, da ilha de Santa Maria, que aqui proveu o corregedor e doctor Francisco Toscano; o sexto, André Gonçalves de Sampaio, chamado o Congro; o sétimo, João Roiz Camelo; o octavo, Mateus Vaz Pacheco, de Porto Formoso; o nono, Álvaro Martins; o décimo, António Lopes de Faria; o undécimo, Cristóvão Cordeiro; o duodécimo, o licenciado António de Frias, que agora tem o cargo. Os escrivães deste tempo foram; João Lourenço Tição, João de Aveiro e Manuel Martins, seu filho.
A bula dos cativos foi concedida pelo Santo Padre no ano de mil e quinhentos e quinze.
O primeiro lealdador dos pastéis foi Govarte Luís, que faleceu no dilúvio de Vila Franca, onde morava; o segundo, Pero Vaz, o Ruivo, natural da vila da Ponta Delgada, e começou de servir na era de mil e quinhentos e vinte e dois, vivendo na vila da Ribeira Grande; o terceiro, Francisco Dozouro que foi sargento-mor nesta ilha, o qual o renunciou em Baltasar Rebelo, que por sua renunciação foi o quarto lealdador; o quinto, Hércules Barbosa da Silva, filho de Francisco Barbosa da Silva.
Coudel-mor da cidade da Ponta Delgada é Jorge Camelo da Costa; de Vila Franca do Campo foi primeiro Jorge Furtado, e agora é Leonardo de Sousa, seu filho. E da vila da Ribeira Grande é Rui Gago da Câmara.
Nesta ilha, sempre houve almoxarifes, que recebiam e feitorizavam a fazenda de el-Rei. O primeiro dizem que foi Gonçalo de Teive, e logo um João Roiz, chamado recebedor, em lugar de feitor. Depois, foram muitos que tiveram este cargo do almoxarifado que, por não saber todos, não nomeio algum. Dos feitores direi os que me lembram: o primeiro foi João de Belas; o segundo, Pero Trigueiro; o terceiro, Francisco de Mares ; o quarto, Simão Vieira; o quinto, Simão de Abreu; o sexto, Diogo Lopes de Espinhosa; o sétimo, Jorge Dias; o octavo, Manuel Mousinho de Vasconcelos, dos Mousinhos, fidalgos que no Reino tiveram grandes cargos, um dos quais, chamado Francisco Mousinho, andando por capitão do Rio do Aljôfre na Índia por ter feito muitos danos aos imigos, sendo deles espreitado, por traição o tomaram, e posto dentro em uma bombarda tiraram com ele a seu próprio arraial; o nono, António Ribeiro, do hábito de Aviz.
Luís Mendes Vitória foi alguns anos, nesta ilha, feitor de el-Rei de Castela, e arrecadava os dízimos da fazenda que se vendia aqui, vinda das Antilhas. E o mesmo cargo teve na ilha de Santa Maria, sem haver outro, antes dele nem depois, com este cargo, nestas duas ilhas, até o tempo presente, em que se foi desta terra e se ajuntaram os Reinos em uma só coroa.
Já que não posso bem saber a ordem dos tempos, sem a guardar contarei várias coisas que aconteceram nesta ilha.
No tempo que el-Rei D. Afonso trazia guerra com el-Rei D. Fernando de Castela e Aragão, vieram a estas ilhas duas naus de castelhanos com determinacão de roubarem e meterem a saco as povoações delas, e como Vila Franca do Campo era então a mais populosa e rica que em todas as ilhas havia, lançaram âncora em um ilhéu que está junto da dita vila, determinando de efectuarem seu desejo. Vendo os da vila as naus e temendo o que podia ser, se fortificaram, com valos e tranqueiras, o melhor que puderam, e não havendo bombardeiro, nem outra pessoa que atirasse com uma espera que tinham, um religioso de São Francisco, que ali se achou, a assestou às naus e Ihe pôs fogo, e foi tão bem guiado o pelouro e o religioso fez tão bem o ofício de bombardeiro que derribou a uma nau o masto do meio, matando-lhe muita gente.
Vendo os castelhanos tão grande destroço feito com um só pelouro, se alevantaram logo do dito ilhéu e foram para a ilha Terceira. Na dita vila não havia mais que aquela espera e aquele só pelouro, nem mais pólvora, a qual espera se perdeu quando correu a terra sobre Vila Franca e está hoje em dia debaixo dela, sem a tirarem por não saberem lugar certo onde estará.
Chegando os castelhanos ao porto de Angra, desembarcaram nele e roubaram a vila que a este tempo era povoação mui pequena e não estava tão forte e guarnecida, como agora está, com muita artilharia e fortalezas que tem. Depois que os castelhanos se foram com as naus carregadas de presas que nesta ilha e outras fizeram, edificaram os moradores da vila de Angra um castelo, que agora está situado em um outeiro que cai sobre a cidade, que para o tempo em que se fez era assás forte, movidos a fazê-lo por arrecearem a tornada dos castelhanos.
Por esta causa também se edificou a vila de S. Sebastião em um grande vale, junto de uma serra mui alta, afastada de um bom porto que tem, tendo-se os moradores dela por mais seguros, vivendo afastados da costa do mar.
O castelo da cidade de Angra, com novas de cossairos e guerras que recresceram, foi depois bem fortalecido para se recolherem as mulheres nele, quando houver algum acometimento de contrairos; pois veio tempo que os moradores destas ilhas, dantes tão seguros e quietos, tenham muitas vezes sobressaltos e rebates de piratas, com que vivem como em fronteira de imigos, como fronteiros de África.
Um João Dorta, das partes de Besteiros, por ser homem de respeito, o fizeram ouvidor no concelho daquele lugar, o qual ofício servindo ele contra sua vontade, ouvindo dizer da fertilidade desta ilha, se foi à cadeia e fez pergunta a cada um dos presos da causa de sua prisão, a qual sabida soltou a todos, ainda que alguns tivessem graves crimes. Feito isto, se veio para esta ilha, onde teve na Ribeirinha, da vila da Ribeira Grande, algumas terras, e na dita vila parte da rua, que se chama de João Dorta. E desbaratou depois tudo para se tornar, como tornou, estando já esquecido o que fez. Depois de ser lá, se tornou a vir e morrer nesta ilha, onde tinha um filho honrado e cavaleiro, feito em África, chamado Álvaro Dorta.
No tempo que se foi desta ilha, havia nela alvará de el-Rei D. Manuel que toda pessoa, que desse fazenda ou mercadoria fiada, ficasse em vontade e querer do devedor pagar-lhe a dívida ou não. Sendo o alvará apregoado e vindo a notícia de todos, querendo-se embarcar o dito João Dorta, mandou um porteiro apregoar que toda pessoa, a que ele devesse, viesse aquele dia à tarde à praça e ali Ihe faria pagamento do que Ihe devia. E vindo ele com um gaiteiro de gaita de fole, como então se costumava, mandou pôr mesa e cadeiras na praça e assentar e tanger o gaiteiro, onde vieram os accredores , um dos quais era Pantaleão Fogaça, mercador portalês e rico, e o dito João D’Orta disse a todos que estava ali com sua pessoa e dinheiro para Ihes pagar, com tal condição que cada um havia de bailar ao som da gaita.
Aceitaram todos a condição, senão Pantaleão Fogaça, dizendo que pela vida o não faria, quanto mais por dinheiro. Mas, vendo a João Dorta fazer pagamento aos mais e não a ele, botou a capa fora dos ombros e pôs-se no terreiro a saltar e balhar, ainda que o sabia mal fazer, e com isto foi satisfeito e pago da dívida.
É esta ilha de São Miguel de tão bons ares e sadia, que vivem os moradores muito tempo nela, e muitos, assi homens, como mulheres, chegaram a cem anos e passaram, que por serem muitos não nomeio todos, por escusar prolixidade. Somente direi alguns, antre os quais foi uma Maria Anes, mulher de um João Moreno, bisavô do chançarel Belchior Gonçalves, que viveu cento e oito anos e tinha muitos filhos, netos, bisnetos e tresnetos . Quando faleceu, se acharam à sua cabeceira trinta pessoas que procederam dela, a cada um dos quais deitou sua bênção, estando em todo seu siso, aconselhando-os a todos que fossem bons e acabando de deitar a benção ao derradeiro tresneto , alevantou as mãos ao Céu e deu alma a Deus.
Era velha muito virtuosa e devota, de muitas esmolas; nunca foi doente, mas de velhice morreu.
Também houve na vila da Ribeira Grande uma mulher que veio viúva do Algarve, chamada Inês Gonçalves, a qual trazia uma filha, por nome Catarina Gonçalves, que casou aqui com um Fernão d’Álvares, o Pequeno, medidor de terras, com o qual esteve sempre a velha Inês Gonçalves até falecer seu genro, e depois se passou a casa de Salvador Fernandes, seu neto.
Quando morreu, era de cento e cinco anos; depois que entrou nos cento, tudo fazia como menina, chamando à filha mãe, e, não tendo dentes, não podia comer senão papas, dizendo: mãe, papa, papa, e engatinhava pela casa como uma criança, nem fazia mais soma que ela.
Vê-la era ver uma coisa sem figura; tinha os olhos e boca metidos na caveira, que parecia a mesma morte. E Catarina Gonçalves, filha desta velha, também era perto de cem anos quando faleceu, estando ambas as velhas, mãe e filha, em casa do neto de uma e filho da outra, que era coisa de espanto vê-las ambas.
Na mesma vila, houve uma mulher, filha de um João Franco, chamada Bartoleza Franca, que viveu cento e dez anos na Ribeira Seca, a qual casou com João Gomes, de que ficou viúva com uma filha, por nome Constança Franca, que casou com Mem Lobo, da qual houve uma filha, chamada Hierónima de Matos, que casou com Jorge Nunes, das ilhas de baixo; do qual Ihe ficou outra filha, a que não sei o nome, que houve, sendo moça, um filho e uma filha de um homem estranho. E todas cinco viúvas, mãe, filha, neta, bisneta e tresneta, andavam em demandas com pessoas poderosas sobre terras que João Franco, pai de Bartoleza Franca tinha vendidas baratas, andando quatro por seu pé e a tresneta de Bartoleza Franca no colo e pela mão, pedindo pelas portas para sustentarem as demandas. E Bartoleza Franca era muito rija e brava, de grandes spritos , sem trazer bordão, sendo de cento e dez anos, com seu juízo inteiro, vista e dentes. A filha, Constança Franca, andava detrás de sua mãe, com bordão, parecendo mais velha. E porque saíram algumas sentenças contra elas, se foram todas cinco com apelação para Lisboa, onde acabaram seus dias. Andavam todas em corpo, e a mãe e a filha, que eram mais velhas, traziam sempre os braços encruzados um sobre o outro; vê-las todas juntas, da maneira que andavam, era coisa poucas vezes vista, como esta, ou nenhuma.
Uma Catarina Pires, mulher de Pero Dias Solteiro, morador na Ribeira Seca, termo da vila da Ribeira Grande, faleceu de cento e nove anos, de velhice, assentada em uma baixa cadeira de pau, sem dentes, com os olhos muito sumidos e encovados, parecendo um bugio ou monstro; chorava como menina, chamava à nora mãe e não comia senão papas.
Houve também na vila da Ribeira Grande um António Martins, chamado Malaca, por ter ido a esta cidade, que faleceu de mais de cem anos e era tão disforme e desfigurado, que por nova invenção o puseram à janela, passando a procissão, um dia de Corpus Christi.
Uma Catarina Lopes, mulher de Diogo Afonso, das Grotas Fundas, faleceu de cento e cinco anos, com todo seu siso.
Rui Tavares viveu na vila da Ribeira Grande, casado, com sua mulher, Leonor Afonso, sessenta e seis anos e faleceu muito velho. Outros tantos viveu casado João Tavares, seu filho, com sua mulher Luzia Gonçalves, e faleceram, sendo ele de oitenta e oito anos e ela de noventa e dois, em uma mesma semana. Um preto, Adão Matoso, faleceu de cem anos. E um velho pombeiro, sendo de cem anos, ia da Grota de João Bom a Vila Franca em um dia, que pode ser caminho de oito léguas.
João Álvares, da vila da Lagoa, faleceu de noventa anos; sua mulher, Inês Anes, de cento e dez; e sua sogra, Beatriz Fernandes, de cento e vinte e dois.
Um Pedro Afonso, da Barba, porque a tinha muito comprida, faleceu de cento e vinte anos; e um chamado Lopo, de cem anos, segava ainda no verão; e um Fernão Roiz Culão, serrador, passava de cem anos e serrou o dia que faleceu, sendo tão velho; e um Gonçalo Afonso, Corpo-chão, porque ninguém o viu dormir em cama, serrador e morador em Porto Formoso, viveu perto de cem anos, o qual, serrando, fazia a cama nos farelos e ali dormia e pousava, porque não tinha outra casa. E uma Branca Roiz faleceu de mais de cem anos, na vila da Ribeira Grande.
Uma Maria Gonçalves, mulher que foi de Diogo Pires, o Feste, chamado assim porque quando veio de Portugal e queria matar porco em sua casa, chamava ao debulho feste, dizendo que havia de fazer um feste, teve do dito seu marido quatro filhas e um filho, das quais veio a tanta multiplicação que, quando faleceu, tinha de netos, bisnetos e trisnetos noventa e sete, todos vivos ao tempo de seu falecimento, e além destes eram já falecidos cinco ou seis; e depois dela falecida, a dois dias, Ihe nasceu um trisneto. E faziam por todos, mortos e vivos, cento e dois; e era, quando faleceu, de noventa anos.
Maria Gonçalves, mulher de Fernão Gonçalves, o amo do Capitão Rui Gonçalves, pai de Manuel da Câmara, sogro de Sebastião Velho Cabral, que morava na cidade da Ponta Delgada, sendo ainda vila, tendo um filho seu, que se chamava Luís Galvão, em uma dúvida que teve, morto a um seu cunhado, o qual Luís Galvão morava um quarto de légua da cidade da Ponta Delgada, em uma quinta que ele tinha, pegada com as casas de Mendo de Vasconcelos, sentindo sua mãe Maria Gonçalves que a justiça o queria ir prender e movendo-se grande parte da vila em sua ajuda, não se fiando de ninguém para mandar aviso a seu filho, nem querendo que alguém se culpasse por ele, selou ela mesmo um cavalo, tomando uma lança e adarga; cavalgando nele, se foi detrás da justiça e com muita pressa, como viu geito para isso, pôs as pernas ao cavalo e chegando a casa do dito filho, deu uma contoada na porta, dizendo: alevantai-vos, filho, que vos vêm prender. O qual se alevantou logo em camisa, e como estava na cama, e cavalgando no cavalo em que a mãe ia, se pôs em salvo, dando-lhe a mãe a lança e adarga nas mãos. E, espantando-se o corregedor de quem Ihe poderia dar aviso, Ihe disse ela que não suspeitasse em ninguém, pois ela Iho dera, porque, quando passou pela justiça, não entenderem que era mulher, cuidando que era algum cavaleiro; a qual faleceu de cem anos, parecendo que não falecia de velhice.
Uma nobre e virtuosa mulher, chamada Constança Barrosa, casada com um Manuel Velho Cabral, parente dos Capitães da ilha de Santa Maria, morador na vila da Alagoa, desta ilha de S. Miguel, e meirinho do eclesiástico nela, prendendo por um grave feito crime, ou dois, Fernão Gomes, vereador na mesma vila aquele ano, em nome do juiz, por ser o juiz absente, em uma noite, a um Marçal Barroso, filho único da dita Constança Barrosa, não estando seu pai Manuel Velho na vila, pediu ela o filho ao vereador por algum tempo, que ela o mandaria à cadeia, e dando-lhe ele, ela o entregou a um homem que o levasse; e levando-o, por conselho que Ihe deram de fora, fugiu ao homem que o levava, cuidando que para isso o pediria sua mãe à justica, e se acolheu à igreja de Santa Cruz, parróquia da mesma vila. Sabendo isto sua mãe, Constança Barrosa, ainda que era longe de sua casa, cobrindo logo seu manto, se foi com dois vizinhos honrados à igreja onde o filho estava e, tomando-o pelo braço, o levou, com o homem a que ele fugiu, à cadeia, dizendo que o prendessem e amarrassem muito bem e que se ele fizera o mal, que ele o pagasse e não outrem por ele. Vindo o marido, vendo o que a mulher fez, disse que por aquilo que fizera Ihe perdoara qualquer feito que ela Ihe pudera fazer.
O mesmo Manuel Velho Cabral, indo da vila da Alagoa, a cavalo, para a cidade da Ponta Delgada, achou sete ou oito homens que levavam preso um Pedro Álvares, que fora carcereiro na mesma cidade, e Ihe haviam fugido perto de cinquenta presos, muitos deles por casos de mortes de homens e feitos graves. Ele pediu o dito preso aos que o levavam; dando- lho, o pôs nas ancas do cavalo e passando por uma freguesia de S. Roque, onde estavam dizendo missa, a foram ambos ouvir. Acabada a missa, tornando a cavalgar, disse Pedro Álvares ao dito Manuel Velho: pôsto o cepo de uma banda do pescoço e o cutelo da outra, corte por onde quiser e cumpra-se a palavra; e deixou-se levar à cadeia da Ponta Delgada, onde esteve preso por vinte e três meses, ao cabo dos quais se acabou de livrar. Não sei se foi maior o benefício e liberalidade de Manuel Velho, arriscando-se pelo preso, se o agradecimento do preso, cumprindo sua palavra.
Assim, em Lisboa, andando um tangendo a campainha pela cidade, se chegou um homem a ele e Ihe perguntou quem era o que havia de padecer aquele dia; o que tangia a campainha Ihe disse que um Fuão, que era o mesmo que perguntava, sem o outro o conhecer, porque andava solto com licença do carcereiro. Ouvindo isto, se foi logo meter na cadeia ou no Limoeiro. Parece que por esta fidelidade que guardou ao carcereiro o livrou Nosso Senhor, que lá teve modo com que, ainda que o levaram a enforcar, não morreu, porque não faltou quem Ihe desse remédio de Ihe pôrem o laço da corda por debaixo dos braços, com que ainda que parecia ficar enforcado, o não era pelo pescoço, senão pelos braços, e dali escapou com vida, por ser amigo de guardar sua palavra e verdade. Tanta força tem a verdade e a fidelidade, que pode livrar aos amigos dela de muitos e graves perigos, até da morte, como livrou a este.
Eram os homens tão ricos nesta terra, que não estimavam dar grossas esmolas do que Deus Ihe dava. Na era de mil e quinhentos e quarenta, sendo elegido na Casa da Misericórdia da vila da Ponta Delgada um Gaspar Homem da Costa para tirar esmola de gado vacaril para a mesma Casa, tirou por rol cento e quinze reses em toda esta ilha. E dali a um ano as tornava arrecadar, ajuntar e ferrar; e achando mortas doze, trouxe para a casa cento e três, sc., cento e duas fêmeas e um macho. Buscando-lhe pastor vaqueiro que as guardasse, vieram aquele primeiro ano sessenta vacas paridas; depois, tendo os irmãos da Casa por melhor conselho ser mais proveito vendê-las e comprar renda para o Sprital, compraram com o dinheiro delas seis ou sete moios de renda.
Na era de mil e quinhentos e quarenta, ou no mês de Março de quarenta e um, vindo o corregedor Francisco Toscano da ilha de Santa Maria com toda sua alçada para esta ilha de S.
Miguel, em uma barca de um João Bravo, veio ter às Prainhas, que estão no Morro desta ilha, da vila do Nordeste, por não poderem tomar porto em outra parte. E ali saiu em terra o dito corregedor, com toda a mais gente. E não ficando na barca mais que João Bravo, deu-lhe tanto vento oeste e es-noroeste, que se desamarrou, esgarrando tanto, que foi ter em onze dias a Safim, não levando dentro mais que o dito João Bravo, o qual comia abóboras e bebia água rosada, que traziam os que na dita barca vinham. E afirmava que, quando dormia, Ihe navegavam e governavam a barca; a qual mandou o capitão de Safim, com aviso, ao feitor de el- Rei, que estava em Andaluzia. E depois foram desta ilha a Safim buscar o fato e dinheiro do corregedor e dos mais letrados e escrivães da sua correição.
Vindo do Reino António Juzarte de Melo, com sua mulher, D. Guiomar de Sá, em uma nau, com tormenta caiu um homem ao mar, o qual não puderam tomar, e vindo ter dali a certos dias a esta ilha, acharam já o dito homem vivo e descansado, porque, passando outro navio pela mesma esteira, o tomou e trouxe primeiro a terra.
Uma terça-feira, dezassete dias de Fevereiro do ano de mil e quinhentos e sessenta e oito, estando sobre amarra, no porto dos Carneiros, da vila da Alagoa desta ilha, uma caravela de um Brás Gonçalves, morador na Vila Franca do Campo, carregando de trigo para a ilha da Madeira, Ihe deu um furacão de vento nor-nordeste tão grande, sendo três ou quatro horas de noite e tendo já dentro trinta moios de trigo, quatro homens e três moços, que quebrou as amarras e atravessou, ao qual tempo os homens e moços andavam debaixo da coberta arrumando caixas e fato para Ihe o trigo não correr; e, como atravessou, sossobrou logo e o mar lançou debaixo fora, pelas escotilhas, os quatro homens e três moços, os que se acolheram sobre o costado da dita caravela, que o muito e tempestuoso vento que fazia ia levando para o pego; e, vindo um mar grande, levou de cima do costado um dos homens, sem os outros o verem mais, os quais ficaram assim até pela manhã, que Ihes deu outro mar tamanho que os levou ao mar, onde se afogaram dois homens e os três moços, e o navio se virou sem os mastros, somente o grande ficou fora e atravessado sobre o convés, ficando só um homem vivo, que se acolheu a nado ao chapitéu do navio e nele se amarrou com uma das cordas da enxárcia da mezena e andou assim no dito navio oito dias, até dia de S. Matias, sem comer, nem beber, nem dormir, vindo nele alagado ter sobre o lugar da Relva, termo da cidade da Ponta Delgada, mais de duas léguas do porto onde sossobrou, e dali o foram dizer à cidade, dizendo alguns que era baleia e outros, por causa do mastro que aparecia, afirmando ser navio. Foram lá apenados três batéis e dali o desamarraram e levaram consigo em um dos batéis; os quais apartados pouco espaço do navio, deu logo à costa, onde com grande estrondo se quebrou. O qual homem se chamava Gaspar Afonso, natural de Vila Franca do Campo desta ilha, e saiu tão esforçado em terra que a pé foi em romaria à ermida da Madre de Deus, onde deixou um pedaço de corda, com que vinha atado no dito navio.
Na era de mil e quinhentos e setenta e sete anos, em um domingo à tarde, um Jorge Luís e sua mulher Águeda Nunes, moradores na vila da Ribeira Grande, ambos faleceram em um mesmo dia e hora, de uma mesma doença de câmaras, e no mesmo dia que faleceram, foram ungidos e a ambos fizeram o ofício da agonia. E foram juntamente levados a enterrar no adro da igreja de Nossa Senhora da Estrela, onde eram fregueses, ele na tumba, diante, escudeirando morto a mulher morta, que ia detrás em um leito; e foram enterrados em duas covas, um junto do outro.
Uma mulher, criada de Constança Fernandes, parteira da cidade da Ponta Delgada, pariu de um ventre três filhos machos, que se baptizaram todos e viveram alguns meses.
Outra mulher honrada, de um móvito, moveu sete crianças, que todas se enxergavam de machos e fêmeas.
Outra mulher nobre moveu sete postas de carne, divididas, que eram ou houveram de ser sete crianças. Outras pariram, cada uma, três crianças vivas, que foram baptizadas.
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