Já que tratei das forças, direi também a valentia e esforço, manhas e destrezas de algumas pessoas desta ilha, porque de todas não pude saber.
Um Rui Dias se foi desta ilha, sendo muito mancebo, e se pôs com um senhor em Castela e, por ser bom cavalgador, o serviu de Ihe amansar cavalos. Daí se passou para Arzila, onde Ihe aconteceram muitas coisas com os mouros, e deles foi muitas vezes cativo; entre outras, Ihe aconteceu uma mais notável, que agora direi.
Sendo capitão em Arzila D. Manuel Mascarenhas, em absência do conde do Redondo, D. João Coutinho, estavam na dita vila dois cavaleiros, naturais desta ilha, sc., Roque Afonso, do lugar de São Roque, e o dito Rui Dias, de Vila Franca, filho de Diogo Dias Brandão, morador nas Grotas Fundas, da Ponta da Garça, ao qual aconteceu o que ouvireis. Um dia, um mourisco já cristão, que era almocadém em Arzila , chamado António da Silveira, valoroso cavaleiro e muito estimado do capitão, determinou ir tomar um par de porcos, para o que escolheu certos mancebos, filhos de cavaleiros, a que não soube os nomes, e convidou para esta caça a Rui Dias, o qual não se podendo escusar, por serem muito amigos e compadres, foi com ele contra sua vontade; e como não iam mais que a caçar, por terem certeza que eram os alcaides por el-Rei a Fez chamados, não levavam mais armas que lanças de monte, sem adargas.
Chegados ao lugar onde começaram a caça, viu o almocadém António da Silveira a trazeira duns almoguavres mouros que se iam abscondendo para uma serra e, chamando a Rui Dias, se puseram em conselho sobre o que fariam, entendendo que eram já sentidos dos mouros, parecendo-lhes que Ihes tinham dado na trilha. Não sendo assim, e vendo que não eram os mouros mais de treze, se determinaram escaramuçar com eles. Chamados os mancebos que andavam embaraçados na caça, os esforçou e animou a pelejar; e com muito esforço se descobriram e mostraram aos mouros. Indo marchando para eles, os mouros se iam desviando, parece que para reconhecerem se era alguma cilada. Perguntou então António da Silveira a Rui Dias se os conhecia, porque tinha conhecimento de muita gente daquela fronteira; disse-lhe que perguntasse quem era o seu almocadém, e respondendo-lhe com o nome dele, Ihe tornou a dizer que, pois fora sempre cavaleiro, porque se mostrava então judeu, sendo treze contra sete, que virassem; os mouros o fizeram. E de tal maneira pelejaram cinco mancebos, com o favor do almocadém e de Rui Dias, que os desbarataram.
A Rui Dias aconteceu que, encontrando-o um mouro, Ihe desviou com sua lança de monte o encontro, e vindo a braços, levando o mouro de uma gomia, Ihe atravessou uma coxa a Rui Dias; o qual, tomando-lha da mão, o matou com ela. Nisto o encontrou outro, atravessando-o com a lança; e, caindo do cavalo, acertou de tomar a lança do mouro que tinha morto, e levantando-se enrestou com o mouro que o tinha ferido, o qual vinha já com outro golpe sobre ele, e, como o viu determinado, temeu, dando-lhe as costas; mas, por trazer já o cavalo tão cansado, se não pôde sair tão presto, que primeiro o alcançou Rui Dias por cima do arção e o derribou, atravessado na lança. Nisto caiu Rui Dias, arrevesando, esvaído do muito sangue, que Ihe corria das feridas; onde veio ter com ele o almocadém, quase morto, porque estando já ferido de algumas feridas, acabando de matar um mouro, outro de través Ihe deu uma lançada pela garganta, da qual dali a pouco morreu, porque depois de Rui Dias ser ferido, não teve quem o guardasse. A este tempo tinham já mortos, dos mouros, os dez; os três escaparam embrenhados e bem feridos, e os nossos quase todos feridos de morte. Mas, assim feridos, tomaram todos os treze cavalos e caminharam para Arzila, mui louvados, pelo caminho, do seu almocadém António da Silveira que, chegando a uma légua de Arzila, lhe morreu, sendo um dos bons cavaleiros que então havia.
Rui Dias correu muito perigo e os mais dos outros estiveram à morte; mas muito mais perto dela Rui Dias, que todavia convalesceu e esteve por fronteiro em Arzila até que el-Rei a largou.
Então tornou a esta ilha, seu natural, e daqui se foi para as Índias de Castela, donde mais não houve novas dele. Quiseram dizer que falecera em uma nau que vinha de lá e se perdeu na costa do norte desta ilha, defronte do lugar dos Fanais, termo da cidade da Ponta Delgada, mas não se sabe a certeza.
António de Sá, filho de João de Betencor e de D. Guiomar de Sá , moradores e naturais da cidade da Ponta Delgada, era homem comprido, alvo do rosto, formoso, bem posto e delgado do corpo, tão forçoso e valente que dizem que no cerco de Cabo de Gué , saiu um mouro, valente cavaleiro, desafiando aos portugueses, e querendo sair a ele este António de Sá, Iho não consentiu o Capitão Manuel da Câmara. Ele, tomando a licença que Ihe não queriam dar, dizem alguns que saltando pelo muro ou buscando maneira para sair por alguma porta ou postigo, foi ter com o mouro que o estava esperando dentro das tranqueiras, e tendo ali seu desafio, ambos a pé, arremeteu António de Sá ao mouro, e, como era homem grande e de grandes forças, o tomou às costas e levou ao Capitão, o qual ainda que se alegrou com tal vitória, para aviso de outros que se não desmandassem como ele, o mandou prender. Alguns dizem que esta prisão foi sobre palavras que António de Sá disse ao Capitão, por Ihe querer tomar o mouro, sabendo que era pessoa de grande preço e estava certo por ele. Outros afirmam por mais certo que saiu António de Sá de noite, para tomar língua, e achando um mouro, bom cavaleiro, o venceu e trazendo-o às costas Ihe fez o mouro uma grande ferida, mas nem por isso o deixou de trazer preso diante do seu Capitão.
Era este António de Sá tão forçoso que alevantava dois homens do chão, postos com os pés nas palmas das mãos. Também se punha em pé, dizendo que Ihe dessem com uma tranca nas curvas das pernas quão grande porrada quisessem, que o não fariam acurvar; e assim o fazia.
Vindo a esta ilha um capitão de uma caravela de armada, que el-Rei mandou, buscar um cofre de dinheiro que aqui tinha, das rendas desta ilha, sendo um homem muito grande de corpo e valente, perguntou por este António de Sá, em Vila Franca, onde surgiu, por não o deixar o tempo tomar a vila da Ponta Delgada; e sabendo que havia pouco tempo que era falecido António de Sá, na mesma vila da Ponta Delgada, mostrou grande sentimento e tristeza de sua morte, por haverem sido ambos companheiros na guerra, e contava muitas coisas de sua valentia, dizendo que se António de Sá mostrara mais gravidade da que mostrava e se prezara das coisas sinaladas que fazia, sempre tivera grandes cargos, porque os merecia bem pelo valor e esforço de sua pessoa, os quais também não desmerecia por sua linhagem e sangue de que procedia.
Dizem também de um Gaspar Vaz , que, andando nas guerras de Itália, mereceu por seu ânimo, valor e esforço, a capitania de uma companhia, e que, em um encontro que teve com os mouros, os venceu e Ihe tomou as insígnias e bandeiras, uma das quais foi um mui formoso e grande estendarte de damasco cremezim em que estavam as armas e divisa dos imigos, e o mandou a esta ilha, a seu pai, ou a seu irmão; o qual estendarte andou muito tempo nesta ilha, até que se rompeu, por não o guardarem nem estimarem seus parentes, nem o saberem ter na conta que devera ser tido.
Também se conta de um parente deste Gaspar Vaz, chamado Rolão Vaz, natural desta ilha, que, havendo tido certas competências um seu tio, João de Sousa, homem já de dias, e ele bem mancebo, com André Gonçalves de Sampaio, chamado o Congro, mui aparentado e rico, sendo eles ambos, tio e sobrinho, idos às Furnas negociar sua fazenda, os foi o André Gonçalves esperar com dez ou doze parentes seus e criados à ribeira da Abelheira, aquém da Ponta da Garça. E, querendo eles partir das Furnas, disse o Rolão Vaz ao tio, arreceando já o que poderia ser, que fossem por outro caminho, que se chama do Sanguinheiro, que é pela serra, e não pela estrada comum, por não cair em algum encontro ou perigo, ao que Ihe respondeu o tio, dizendo: ah, rapaz, já isso parece medo! E não querendo o tio senão vir pela estrada comum, vindo ambos até junto da mesma ribeira da Abelheira, havendo vista da gente que estava emboscada, disse ao sobrinho: saiamo-nos da estrada, subamos cá por riba. Ao que respondeu o sobrinho: agora já não é tempo, como quem dizia: não quisestes isto quando eu vo-lo dizia que era tempo em que sem prejuízo da honra se pudera fazer; agora adiante havemos de ir, para saberdes se sou covarde ou não. Indo por diante, Ihe saíram os contrairos ao encontro e mataram ao tio, e o sobrinho Rolão Vaz ficou mal ferido; mas eles ambos o fizeram tão valorosamente, que todos os contrairos foram feridos e deles muito maltratados.
Então se foi André Gonçalves de Sampaio, chamado o Congro, desta ilha, e andou alguns anos absente dela, em África e outras partes, sem tornar a ela, até saber que era morto Rolão Vaz. E vindo se pôs em livramento.
Houve também nesta ilha dois homens fidalgos, mui valentes; um muito grande, chamado Rodrigo Afonso Colombreiro; outro mui pequeno, por nome Duarte Roiz Cabea, filho de Afonso Roiz Cabea. Desafiando-se ambos, na vila da Ponta Delgada, se encontraram uma noite e arrancaram, jogando mui valentemente as cutiladas grande espaço, sem os sentir ninguém, por eles não bradarem, e tendo o pequeno já ferido muito ao grande, se meteu tanto debaixo dele que o grande, com os terços da espada, Ihe fendeu a cabeça, e morreu logo. Sendo depois, pelo corregedor Hierónimo Luís, espiado Rodrigo Afonso, saindo ele da igreja a um pardieiro, o meirinho Francisco Vaqueiro, remetendo a ele, o prendeu; e, antes que acudisse mais gente, tomou Rodrigo Afonso às costas o meirinho, como saco de trigo, e com ele foi correndo para a igreja, e sacudindo-o de si, ficou solto no adro.
Um Simão Lopes de Almeida , sendo morador nesta ilha de São Miguel, na vila da Ribeira Grande, e sendo nela juiz ordinário, tendo notícia que uns negros, escravos de Pero Roiz da Câmara, tinham furtado uns porcos a um João Gonçalves, tecelão, ele os foi buscar, e prendeu somente dois que achou, aos quais trazendo pela porta de seu senhor, saíram D. Margarida, sua mulher, e D. Catarina Ferreira, sua cunhada, com outros criados de sua casa, para Ihos tomarem. Não os querendo ele largar, um Pero Gonçalves, palheiro, criado de Pero Roiz da Câmara, por detrás o feriu na cabeça; ele, não fazendo caso disso, não fez autos dele, senão delas somente, por serem fidalgas e mulheres, estimando muito a resistência que Ihe fizeram. E logo deu uma sentença que no Reino, para onde apelou, se cumpriu em parte, e não em todo, sem condenar a Pero Gonçalves, palheiro, criado delas, por ser homem baixo.
Depois, andando o dito Simão Lopes jogando as canas um dia, na praça da vila da Ribeira Grande, Ihe caiu o sombreiro da cabeça e aparecendo nela o sinal da ferida, disse o Pero Gonçalves que estava presente: assinado vai aquele galante do meu ferro. Sabendo isto Simão Lopes de Almeida, sentiu então mais a injúria daquelas palavras que a cutilada, quando a recebera; e determinou vingar-se, para o que se foi à serra da Maia, onde o outro andava, e com um seu próprio manchil, que o Pero Gonçalves trazia na cinta, Ihe deu tanta cutilada pelo rosto e pelo corpo que se não pôde alevantar. Simão Lopes despiu sua camisa e, fazendo-a em pedaços, Ihe apertou as maiores feridas, e, tomando-o às costas, como se fora seu grande amigo, o levou até sobre o lugar da Maia, em vista de sua casa, do ferido, perguntando-lhe se se atreveria ir dali para casa, senão que o levaria, porque queria ir à vila da Ribeira Grande buscar o mestre que o curasse. Pero Gonçalves se atreveu ir para sua casa. Simão Lopes foi com muita pressa, em cima do seu cavalo, e Ihe mandou da Ribeira Grande o mestre Pero Vaz, o melhor cirurgião que então havia nesta ilha, que o curasse à custa dele mesmo, que o mandava; e assim o fez. E, depois dele curado, o foi visitar, como amigo, dizendo-lhe: quando outra vez fizerdes outra tal, não vos gaveis de tal homem como eu, porque, sendo eu juiz, vos pudera então bem castigar por justiça; mas, não estimando o que me fizestes, por serdes homem pobre, o não quis fazer, e vossas palavras depois me incitaram mais a ira, que vossas obras.
Mandando el- Rei D. Manuel três sinos grandes a esta ilha, um para Vila Franca, outro para a Ponta Delgada e outro para a Ribeira Grande, e sabendo os oficiais da Câmara da dita vila da Ribeira Grande que eram chegados a Vila Franca, receosos que lá escolhessem o melhor, ordenaram de ir buscar o seu e na escolha serem melhorados; para o que escolheram certos homens honrados, forçosos e valentes de suas pessoas, para qualquer sucesso, entre os quais foi um Pero Teixeira e Baltasar Vaz de Sousa e o dito Simão Lopes de Almeida, que levavam seus homens estribeiros, e carro posto no porto da vila da Alagoa, e batel por mar com alguns deles, e os de cavalo por terra. Foram todos a Vila Franca. Chegados lá, tiveram muita dúvida com os da Vila, que tinham escolhido o melhor sino, já apartado dos outros, em cima do qual se assentou Simão Lopes de Almeida, com a capa e espada feita, dizendo em alta voz que quem o tirasse de cima dele, ali havia de acabar seus dias. Apelidando os da Vila gente, ergueu-se Simão Lopes e com os mais companheiros levaram o sino ao porto e, metendo-o no batel, remaram para a Alagoa, e os mais, à espora fita, para lá direitos por terra, onde chegando, puseram o sino no carro, e no mesmo dia, o levaram à sua vila da Ribeira Grande, onde ficou para sempre, sendo o melhor sino das ilhas; ainda que já é o pior, por haver poucos anos que quebrou e não serve.
Um Gaspar Homem da Costa, morador em Vila Franca, indo-o buscar uma noite dois homens, Gaspar Dias, vianês, e Simão Fernandes, o Namorado, algaravio , para o espancar, ele só os feriu a ambos e depois curou a um deles, à sua custa, e o teve em sua casa, até que o embarcou; o qual ferido, quando se queria embarcar, foi com alguns algaravios para se vingar do dito Gaspar Homem, e ele só os saiu a receber, com a capa e espada, e Ihe deu algumas galinhas e coisas para o mar, sem os outros ousarem de o acometer. E assim se foram embarcar, sem fazer nada.
Houve nesta ilha um Belchior Baldaia, filho de Gonçalo do Rego, grande cavaleiro, que jogava grandemente de bastão e de lança, de pé, fazendo muitas galantarias, muito para ver, com cada coisa destas. O qual, no tempo que o Imperador Carlos quinto veio a Espanha, ensinava lá os cavalos encobertados por mandado de Guterre Queixada , e das armas de pé e de cavalo, não achou quem Ihe fizesse avantagem. E, muitas vezes, saltou dois cavalos de um salto, sem Ihe pôr pé, pondo somente a mão no primeiro. De riba de um cavalo, a espora fita, lançava um bordo tão longe como uma besta deita um virote, e às vezes mais. Dizem que pôs carta de desafio, na cidade de Évora, de todas as armas de pé e de cavalo, e que nenhum o venceu nelas. Foi tão grande jogador de pela, por riba da corda, que não achou em Espanha quem Ihe fosse igual senão o Pranchas. Jogando a pela com o Infante D. Luís, acabado o jogo, com uma pequena corrida, saltou a corda por cima sem bulir o cascavel, o que vendo o Infante Ihe mandou dar vinte mil réis. A mesma desenvoltura tinha no batalhar e dançar. O qual afirmava quando veio a esta ilha, vendo os cavaleiros e gente dela, que não vira outra, por onde andara, para mais, assim de forças, como de cavalgar a cavalo, onde ensinou a muitos algumas de suas habilidades, uma das quais era, correndo a cavalo, apanhar muitas vezes as laranjas pelo chão; e na carreira lançou uma cana, da cadeia das mulheres, na cidade da Ponta Delgada, até às casas de Gaspar Ferreira, atirando-a com tanta força que ficou nas ancas do cavalo e quase no meio da praça se acabou de pôr na sela. Muitas vezes quebrava com as mãos uma ferradura, por grossa que fosse; e tomava dois homens, cada um em sua palma da mão, pondo-lhe eles as mãos na cabeça, e assim os levava até vinte passos. Na praça da cidade, tomou um quarto cheio de água e, alevantando-o nas mãos sobre os peitos, bebeu pelo batoque. Punha mais a mão em uma parede e dois homens forçosos Ihe punham um pau ou tranca na palma, sem Iha poderem esmagar, antes ele os arredava para trás. Muitas vezes, no começo da carreira, dava uma palmada nas ancas do cavalo e botava a correr a pé, sem o cavalo o alcançar até o cabo dela. Uma vez, vendo em Évora um cavaleiro correr uma carreira em pé no cavalo, não podendo ele fazer outro tanto, correu outra carreira, com uma lança pelo conto, posta a mão no nariz; o que o outro cavaleiro não podendo fazer, Ihe disse ele que fosse uma por outra.
Era também Belchior Baldaia tão grande lutador que, armando-se uma luta em um império que se fazia no lugar dos Mosteiros, derribou quatro homens, com o braço esquerdo atado na coxa, estando em calças e em gibão e descalço. Sendo já homem todo branco, e um Lucas de Resende, grande de corpo e muito forçoso, mancebo de até vinte e cinco anos, lutando com ele, tendo Belchior Baldaia a mão esquerda no cinto, andando grande espaço sem se poderem derribar, por fim caíram ambos, mas a queda foi de Lucas de Resende. O mesmo Belchior Baldaia, na cidade da Ponta Delgada, aguardou no corro um touro de seis ou sete anos, muito bravo, o qual arremetendo a ele, Ihe furtou o corpo e deu um cutilada pela coxa, que quase Iha decepou toda, e caiu logo em terra. Na mesma praça, com uma pequena corrida, dava duas passadas pela parede das casas que foram do bacharel João Gonçalves e entrava pela janela.
Também a cavalo, corria com duas lanças nas mãos e o freio na boca, e saltava quarenta e cinco pés, de três saltos. E com uma barra de vinte e cinco arráteis, tirava quarenta e sete pés.
Houve nesta ilha, no lugar dos Fenais, termo da Ponta Delgada, um homem que chamavam o Lutador, tão famoso em forças e luta que todos o temiam. Logo após este, havia outro, chamado João da Uça, lutador do Capitão Rui Gonçalves da Câmara, e este dava obediência ao dos Fenais. Vinham neste tempo a estas ilhas muitos algaravios buscar trigo, entre os quais veio um marinheiro de muita força e manhoso, que em todo o Algarve era único lutador, o qual, perguntando se havia nesta ilha algum homem que tivesse fama de lutar, Ihe disseram que nos Fenais o acharia; onde se foi o algaravio e perguntando por ele, Ihe responderam que mais adiante estava armando uma casa com caibraria. Chegando a ele, perguntou aonde vivia o lutador, ao mesmo, que estava falquejando. Olhando o lutador para o marinheiro, conheceu logo que também era lutador e o vinha buscar, pelo que a resposta que Ihe deu, foi tomar um mui grosso caibro pela ponta, com uma só mão, e apontou para a casa onde vivia, dizendo: ali vive esse homem por quem perguntais. Quando viu o marinheiro tal força que com uma só mão tinha um pau tão grande e pesado, alevantando-o pela ponta e com ele apontava a casa, como se fora com uma vara ou cana muito leve, ficou maravilhado e Ihe contou ao que vinha, dizendo que com ele não queria desafio e se dava por vencido. Comeram então ambos, ficando grandes amigos. Era este lutador quase igual em forças a Marcos de Braga, da ilha da Madeira, e dele houve geração nesta ilha. Dizem que procedeu da primeira pessoa que nasceu na ilha de Santa Maria.
Na vila do Nordeste, houve dois irmãos, Baltasar Vaz e Pedro Anes, um dos quais, saindo a lutar, em um império que se fazia na festa do Espírito Santo, não ousou ninguém sair à luta; pelo que muitos homens honrados, que estavam presentes, acabaram com eles que lutassem ambos, o que fizeram com importunações e rogos. Andando muito espaço sem derribar um ao outro, enquanto lutavam, foi um parente dizê-lo à mãe deles, já casados, que não tinham pai.
Ouvindo isto, a mãe tomou o manto e debaixo dele um pau que afeiçoou para isso; e chegando a eles que andavam apegados, largou o manto e com o pau Ihe deu muitas pancadas, dizendo-lhes: para isso vos pari eu, para serdes um contra o outro; comigo tende a luta e desafio. Desapegaram-se então um do outro e fugiram da mãe, com que ficou a luta e a briga desfeita.
João de Aveiro, da vila da Ribeira Grande, corria a um cavalo a anca revolta, e também tão ligeiramente pelo areal, ao longo do mar, que Ihe não achavam rasto, senão de meio pé para diante.
João Roiz Carreiro, filho de Bartolomeu Roiz, da Serra, corria a qualquer cavalo a anca revolta. E desafiando-o um Francisso Anes, criado de seu pai, dizendo que havia de correr mais que ele, Ihe respondeu: se eu correr mais que vós, nenhuma honra ganho e, se correr menos, perco muito; por isso correrei convosco ou com as mãos atadas atrás, ou com uma barra nelas, e tomando uma barra de vinte e dois ou vinte e três arrates nas mãos, correu com ela mais que ele. O mesmo João Roiz pondo dois homens de boa estatura, cada um de sua parte, uma lança nos peitos, sem correr de longe, senão dando duas passadas, rijo, saltava por cima da lança.
Adão Lopes, da vila da Ribeira Grande, corria tão ligeiro que não achou quem corresse tanto como ele, senão só um, chamado Galvão.
Um Brás Dias, da Ribeira Grande, foi o melhor jogador de pela que houve em todas as ilhas dos Açores, porque jogando de ambas as mãos, tanto Ihe dava jogar com uma, como com outra; e, logo após ele António Roiz e Fernão Martins, do lugar da Maia.

Afora o gado que, por mandado de el-Rei e do Infante D. Henrique, foi deitado nesta ilha de São Miguel, logo no princípio de seu descobrimento, trouxeram a ela, da ilha de Santa Maria, sua vizinha, outro muito: porcos, de que se inçou; e antes de virem bois, lavravam com bestas asnais, como fazia um Luís Femandes da Costa, pai de Manuel da Costa, e outros muitos. E foi tanta a multiplicação do gado vacaril e porcos, que durou por tempos não poderem desinçar os touros e vacas e porcos bravos, carneiros e cabras, e eram tantos os porcos, que danavam os pastos ao gado vacum com seu fossar; pelo que os mais dos moradores eram fragueiros, forçosos e ligeiros, por causa do exercício que tinham de ir a montear e caçar este gado diverso, dos quais contarei alguns que alcancei saber.
Um Afonso Soeiro, irmão de Leonor Soeira, primeira mulher de Garcia Roiz, e Bertolameu Roiz, pai de Baltasar Roiz, que morava além de Santa Clara, da Ponta Delgada, e um Francisco Anes, Moreão de alcunha, e Bertolameu Afonso Pereira, de alcunha o Rato, indo à serra, dentro nas Sete Cidades, a montear e fazer carnes, com Baltasar Vaz de Sousa, porque no seu Telhal, que tinha acima da Ribeira Grande, gastava muitas carnes, Ihe aconteceu que, andando eles dentro nas Sete Cidades, onde havia muito gado bravo e sem ferro, nem sinal, acharam um bravo touro e foram para o matar, o qual tomou a Baltasar Vaz nos cornos e entre eles o trouxe um grande espaço, abarcando-se ele tão fortemente com ele, pelo pescoço, que nunca o touro o pôde matar, nem ferir, somente o pisou e tratou muito mal em uma barreira, onde deu com ele. E Francisco Anes, de riba da rocha, quisera tirar ao touro com uma meia lança que levava, mas Baltasar Vaz de Sousa Ihe disse que não atirasse, que o erraria e mataria a ele, e que o encomendasse a Deus e o deixasse, que não houvesse medo que o touro o matasse. Indo assim por uma grota abaixo o touro com ele nos cornos, lançou mão de um louro, que estava atravessado na grota, e ficou ali dependurado nele, e o touro passou adiante seu caminho. E ele ficou tão pisado e mal aviado que o tomaram os companheiros e o levaram à vila da Ribeira Grande onde morava, e o sangraram duas ou três vezes e o envolveram em um lançol molhado em vinho; e depois de são, ele e um mourisco que tinha, com um cão de filha e um cachorro de rodeio e outros cães, se tornou em busca do touro às Sete Cidades e o perseguiu tanto com os cães, que se acolheu o touro a uma alagoa grande que dentro está, chamada a alagoa Azul, por ser muito funda. Baltasar Vaz se deitou a nado, a ele, com um sedenho na mão, e se pôs em cima do pescoço do touro, escanchado, com as mãos pegadas nos cornos, e tanto andou sobre ele, que de cansado se Ihe abriu o cesso e enchendo-se de água se afogou, que é propriedade ou qualidade das bestas, sc., cavalos e asnos e bois, afogarem-se por detrás, pelo cesso; como o porco com as unhas se degola nadando pela garganta, e o homem se afoga pela boca e ventas. Depois de afogado o touro, Ihe deitou o sedenho nos cornos, atando-o com ele, e o chegou à borda de água; e então Ihe acudiu o mouro e outra gente que andava dentro na serra, e Iho ajudaram a esfolar e esquartejar, e o levou em bestas, caminho da Ribeira Grande, onde ele era morador.
O mesmo Baltasar Vaz e Vasco Fernandes, moradores no Telhal, da Ribeira Grande, tendo notícia que andava acima do Telhal, onde eles moravam, onde se chama o Cortado, um grande touro bravo, determinaram de o ir tomar e, indo à serra, o viram. Disse então Baltasar Vaz a Vasco Fernandes que se fosse pôr à passagem da pedreira, e que ele o acossaria e iria com ele e ali o decepariam ou matariam com uma chuça que levava Vasco Fernandes; o qual Vasco Fernandes se foi pôr naquela passagem, indo Baltasar Vaz sempre após o touro, que não foi ter aonde estava Vasco Fernandes, mas a outra passagem do pico das Mós, seguindo-o sempre Baltasar Vaz, e ali escorregando o touro caiu, e Baltasar Vaz, quando o viu caído, se foi a ele e o socornou e afogou com terra que Ihe achegava para a boca.
Estando nisto, chegou Vasco Fernandes, que se veio do passo onde estava, por tardar o touro e não ir ter com ele onde esperava, suspeitando que havia de ir ter à outra passagem, debaixo do pico das Mós; foi-se à dita passagem, onde achado o rasto do touro e de Baltasar Vaz que eram já passados, seguindo-os, viu o touro caído e Baltasar Vaz em cima dele, tendo-o socornado e afogando- o com terra, e disse-lhe que o não acabasse de afogar, sem que primeiro o sangrassem; e assim o fizeram e ali o acabaram de matar. Depois de esfolado, estando-o partindo, sentiram vir gente que vinham ao mato cortar e dar rama aos bois, e porque não soubesse o Capitão que eles andavam a monte, pelo ter defendido com penas de dinheiro e degredo, partiram o touro pelo meio, os quartos trazeiros a uma banda e os dianteiros a outra; tomou Baltasar Vaz às costas os trazeiros e o couro, e Vasco Fernandes os dianteiros, e assim o trouxeram de sobre o Cavouco, onde o mataram, até suas casas, que tinham no Telhal, perto de uma légua dali.
Também outro dia, indo ambos a monte, viram estar umas novilhas que determinaram matar; e fazendo Vasco Fernandes um tiro com uma chuça a uma delas, camarinha, pintada de branco e vermelho, fugiu a novilha e de caminho, indo após ela, decepou duas novilhas das que ficaram; e depois de haver buscado a camarinha, achando só a haste da chuça, que parece que passando ela entre umas árvores, embaraçando-se com ela nelas, a quebrou e deixou ali; e, passando adiante, nunca a puderam achar, nem morta, nem viva. Depois de muito buscada, voltando onde deixaram as outras duas novilhas, as esfolaram e trouxeram cada um a sua às costas, para casa, trazendo Baltasar Vaz mais os dois couros com a sua novilha, em que levava avantagem ao Vasco Fernandes. Tornando a montear no mesmo lugar, daí a um ano, foram dar com a própria novilha camarinha e, indo após ela, a mataram e acharam-lhe a costura soldada por onde Ihe deram com a chuça no couro, e logo dentro outra costura no bucho, no meio do qual estava o ferro da chuça, amolado e luzente, como que se então saíra do escamel da mão do barbeiro.
Um Pero Ribeiro, natural do Nordeste, estando com um Fernandeanes, morador na ribeira do Salto, entrando um dia no curral, onde estava o gado vacum encurralado, uma vaca se enviou a ele e Ihe deu uma encontrada grande na barriga, sem o fazer mover, nem mudar para parte nenhuma. Vendo ele isto, disse assim: dessa maneira sois vós; prometo-vos que vos hei-de ordenhar como cabra. Tomou-a então por uma perna e metendo-a na sua curva dele, ali a teve mão, sem ela mais bolir, e a esteve ordenhando como quem ordenha uma cabra. E a um touro que na ribeira do Salto, no pico Mocho, se vinha às novidades, sem ousar alguém aparecer diante, ele o tomou pelo rabo e Ihe deu tanta pancada que nunca mais prestou.
Este mesmo Pero Ribeiro, indo o corregedor fazer correição ao Nordeste e achando-o culpado, o quisera prender. Indo ele fugindo à justiça, vendo estar por debaixo de um granel um buraco por onde entrava um porco, se meteu por ele e, saindo pela outra banda, acolheu-se a uma ermida de Nossa Senhora de Nazaré. Indo lá o corregedor, Ihe perguntou como coubera por tão pequeno buraco, sendo homem tão grande, respondeu ele: se vossa mercê chegara mais cedo, vira o granel estar ainda tremendo, porque todo o levava eu às costas. Era grande de corpo e alevantava uma grande âncora até os peitos. Comia, só a um jantar ou ceia, uma cabra, por grande que fosse, e esfolando-a com os dentes, sem mais outra ferramenta.
Este Pero Ribeiro foi com o Capitão Manuel da Câmara a Cabo de Gué, e, quando tomaram a vila, tomou ele um montante nas mãos e matou tantos mouros que fez um bardo antre si e eles, tão grande que quase o não podiam passar e chegar a ele; e, vendo-se cansado, sem poder mais pelejar, disse aos contrairos: ora cães, comei-me agora e ali o mataram.
Houve nesta ilha um João Lopes dos Mosteiros, por morar no lugar deste nome, pai de João Lopes, que foi meirinho muitos anos, o qual teve tantas forças que, andando debulhando junto de uma rocha com uma cobra de gado e tirando-se o tamueiro do mourão, começaram as reses a cair pela rocha abaixo; arremeteu ele e pegou na que andava no mourão e fazendo finca-pé, teve todo o gado, estando já algumas penduradas na rocha, e se afogaram uma ou duas. Se um carro ia com dois bois, carregado, e por alguma subida cansava algum deles, o desapunha e no seu lugar com o outro subia o carro.
Tomava qualquer boi, e, pelo pé ou pelo corno, o fazia estar quedo.
Também seu filho, João Lopes, meirinho, e outro, Manuel Lopes, eram de grandes forças; e uma filha sua, chamada Maria Lopes, muito virtuosa e honrada, casada com Manuel de Oliveira, nobre e rico, é de tanta força, que uma mó que havia mister dois homens para a tirar e pôr na atafona, ela a tomava, metendo o braço pelo olho da mó e a tirava e tornava a pôr, sem nenhuma ajuda, mui facilmente. Também tomava qualquer boi ou touro pelo corno ou perna e o fazia estar quedo.
E seu pai, João Lopes, no porto dos Mosteiros, tomou às costas um quarteiro de trigo, em dois sacos, e uma tarrafa cheia de peixe, e levou tudo para sua casa, caminho que passava de légua; e assim trazia qualquer boi ou vaca morta, da serra, como se fosse uma cabra. Tomava também um asno pelas mãos, com uma mão, e com outra, pelos pés, sem mais o atar, e, pondo-lhe a cabeça na barriga, o alevantava às costas e levava para onde queria; e alevantava outros mores pesos.
João do Monte, o Velho, filho de João de Piamonte, da vila da Ribeira Grande, tomava uma mó de engenho de pastel e a carregava só, sem ajuda de outrem, em cima de um carro.
Um Belchior Lucas, morador na vila da Alagoa, tem tanta força que, quando Ihe cansa um boi, serve em seu lugar por ele.
Baltasar Roiz de Sousa, que morava a Santa Clara, junto da cidade da Ponta Delgada, tomando qualquer touro pelo corno e, com a outra mão, pelo queixo, o derribava. Este mesmo, vendo em uma rua da dita cidade arrancar dois homens, não levando ele espada, arremeteu a um cão que viu e tomando-o por uma perna, esgrimindo com ele entre os que pelejavam, os apartou logo com esta arma.
O mesmo Baltasar Roiz de Sousa, trazendo-lhe um homem honrado, seu amigo, a casa um seu mouro que Ihe havia fugido, rogando-lhe que o não castigasse por aquela vez, por amor dele, prometeu que assim o faria, dizendo ao mouro que se mais fugia o havia de açoitar cruelmente. Resmungando o mouro, Ihe mandou que se calasse, senão que o açoitaria. E dizendo o mouro: si, açoitar como afirmando que o não podia fazer, arremeteu a ele e tomando-o com as mãos pela barriga, o deitou no chão, dando-he alguns coices. Acudindo-lhe então os que com ele estavam jogando e folgando, viram correr muito sangue da barriga do mouro, que Ihe acharam aberta, com as tripas fora, pelo lugar por onde o senhor o tomou com as mãos, com sua muita força.
Este mesmo, prendendo o ouvidor do Capitão, André Fernandes Fafes, a seu irmão Pero Roiz, que andava em um arruído na praça, fazendo com uma partezana grandes finezas, vendo preso seu irmão, com a capa e espada que trazia, fez tal caminho pela gente que andava no arruído, que chegou onde o ouvidor o tinha preso e Iho tirou das mãos. E, sendo ambos somente, se defenderam mais de uma hora, até que Pero Roiz segunda vez se pôs nas mãos do ouvidor, obedecendo à justiça, e Baltasar Roiz o fez soltar outra vez; em a qual envolta, achando-se o ouvidor ferido no rosto, deu um brado, que da parte de el-Rei o prendessem, e toda a justiça, com mais de duzentos homens que ali se acharam, os não puderam prender e se foram para suas casas. O ouvidor o acusava que ele o ferira, e ele defendendo-se, entre outros artigos em sua defesa, fez um em que dizia ser homem de tanta força que, ainda que quisera dar pequeno golpe, não pudera, por onde se via claro que o mesmo ouvidor se ferira nas guardas da sua espada.
Vindo ele um dia de pescar e estando para jantar, Ihe deram aviso que o ouvidor, com toda a justiça e muita gente, se faziam prestes para o prenderem; perguntando ele se iam já e dizendo-Ihe que não, se pôs a jantar mui quieto, pondo todavia uma espia que Ihe desse sinal.
Estando comendo, avisado que já iam, se pôs a cavalo com muita desenvoltura, tomando uma lança em uma mão e adarga na outra; e em vez de acolher à serra, se foi passeando para a cidade e chegando uma carreira de cavalo de Santa Clara, chegava a justiça, com mais de cem pessoas, à mesma ermida. Enristou ele então a lança, batendo as pernas ao cavalo, com grande brado que se guardassem, e, arredando-se todos da grande fúria que levava, se acolheu à dita ermida.
Estando em sua casa, sendo ainda mancebo, foi ter com ele Lopo Cabral de Melo, grande cavaleiro, para ver um seu cavalo, bom ginete, mas desenfreado; e cavalgando nele em um sarrado detrás de suas casas, o botava a uma mão e à outra, com muito ar e desenvoltura; mas, correndo uma carreira, o não pôde parar, e vendo que o cavalo se ia meter entre as casas, se botou fora da sela, quase ficando como afrontado disso. Então cavalgou Baltasar Roiz e, correndo, fez o cavalo outro tanto com ele, e não ousando de tirar rijo pelo freio, receando de o quebrar, abaixando-se, o tomou pela barbela e tirou com tanta força, que pôs o rosto do cavalo na sua coxa e o fez estar quase de todo quedo.
Também em uns sarrados abaixo da Serra Gorda, tomou um poldro, que ia a quatro anos, muito bravo e furioso, e com uma corda o teve sem bulir pé, nem mão, o que muitos homens juntos não puderam fazer.
Apostando ele com um seu vizinho de cortar de um golpe um cão grande de filha , pelo meio, o cortou pelo lombo, ficando quase em dois, pegado somente pelo couro da barriga.
Cortava também, de um golpe, um porco grande, dependurado, pelo meio; e, uma vez, tomou um burro e o pôs além de uma parede, pela não derribar o almocreve que por ali passava.
Também Ihe viram quebrar com as mãos duas ferraduras juntas e alevantar pelos pentes uma pipa de vinho. E, abaixo de sua casa, estando cinco ou seis homens sem poder tirar uma égua de uma rilheira de carro, muito funda com as chuvas, onde caíra, junto da rocha, ele só, fazendo uma cova para afirmar os pés, a tomou pela cabeça e botou fora, chamando àqueles homens borrecas .
Indo o mesmo Baltasar Roiz ao lugar dos Mosteiros, sobre um cavalo, ao longo de um grotilhão, quebrou a terra com ele, e deitando-se fora da sela, caiu o cavalo em baixo, onde ele desceu; e, metendo-se debaixo dele, o alevantou e pôs fora do grotilhão, selado e enfreiado como estava. Teve um irmão chamado Pero Roiz , mui valente e de grandes forças; como tem também dois filhos, Pero Roiz de Sousa e Brás Coelho, mui esforçados, forçosos e animosos. E seu pai, chamado Bartolomeu Roiz, também teve as mesmas forças e valentia, o qual, indo a montear à serra, tomava uma vaca e, matando-a, Ihe tirava as tripas fora e levava só, às costas, grande espaço, até achar lugar limpo onde a pudesse esfolar e esquartejar.
Na freguesia da Bretanha, houve um mancebo, chamado o Casco, que levava às costas vinte alqueires de trigo.
Um João Teixeira, da vila da Ribeira Grande, foi de grandes forças; o qual, estando uma vez para tomar uma novilha de dois anos, muito brava, para debulhar, e não querendo ela ir à cobra, disse ele aos que ali estavam: — ora, deixai-me com ela, que eu vo-la trarei —. Foi-se a ela e tomando-a em peso nos braços, como se fora uma criança, a levou à eira, onde a meteu na cobra.
Seu filho, Bartolomeu Teixeira, também foi tão forçoso que, levando uma vez um carro de lenha e vendo um dos bois fraco, o tirou dos canzis, e tomando a canga nos braços, com o outro boi que ficou, tirou o carro por um arrebentão e ladeira acima. E saindo-se-lhe uma vez o eixo de um carro, carregado de lenha, dos coucões, ele só, alevantou o carro pelo arrecavem , por detrás, e outro Ihe tornou a meter o rodeiro nos coucões. Também era de tanta força que nos Biscoitos, de Rabo de Peixe, quebrava qualquer barra, por grande e grossa que fosse, metendo-a em rocha forte. Tendo um boi tachoso, que não queria ir à canga, como ele desejava, o tomou pelos cornos e de tal maneira Ihe pôs as mãos, com tão grande força, que Ihe desarreigou um corno. Correndo os touros na praça da Ribeira Grande, um dia de festa, saltou um touro o palanque, e indo fugindo pela ponte, por onde o Bartolomeu Teixeira vinha, vendo o touro junto de si, deixou cair a capa e desviando-se dele, lançou mão do rabo, e depois de uma perna, e ali o teve quedo, até que veio gente, que o tornaram a levar ao corro . Este homem ao presente é vivo e, ainda que muito velho, não perdeu muita parte das forças.
Um Nuno Vaz, da Ribeira Grande, era de tanta força que, por grande que o touro fosse, se Ihe lançava mão do corno, tinha mão nele e, tomando-o com a outra mão pela barba, o derribava. O mesmo fazia Manuel Roiz, o Potás.
Um Francisco Gonçalves, lavrador, da governança da vila do Nordeste, era tão forçoso que indo uma vez com um carro pelo espigão do porto da dita vila abaixo, que é muito íngreme e temeroso, por ter rocha mui alta de ambas as bandas, quebrando-lhe o canzil da canga a um boi e não tendo com que o remediar, se pôs em lugar do boi solto, ajudando ao outro, e assim levou o mesmo carro, carregado com um moio de trigo, abaixo ao porto — que não parecerá tanto a quem o ouvir, quanto a quem souber aquele dificultoso caminho Aires Jácome Correia é homem de tão grandes forças e esforço que, acendendo-se o fogo no rio de Lisboa, em um galeão de el-Rei, que tinha duas naus da Índia, uma de uma parte e outra da outra banda, em que se houvera de apegar o mesmo fogo e arder tudo em cuja companhia ele fora da ilha Terceira, encarregado por João da Silva do Canto, acudiu ele em um batelão e, desamarrando o galeão, o apartou das naus da Índia e Ihe valeu com Ihe cortar as varandas e obras mortas do castelo de avante, com que se salvou ele e as naus da Índia, e com pouco custo se tornou a consertar; ficando Aires Jácome escaldado pelos lombos, do alcatrão que derretido, de riba das obras mortas, Ihe caiu pelo pescoço abaixo, de que ficou assinalado pelas costas, com uma malha branca na carne.
Cristóvão Luís, filho de Pero Luís, morador na vila de Água do Pau, foi extremado cavaleiro e teve tão grande força que atirava com um dardo, tanto como uma besta tira uma seta, ou mais.

Uma mulher do Amo, chamada Maria Gonçalves, trouxe as silvas, primeiramente, a esta ilha de São Miguel, para com elas fazer tapume nos pomares, hortas e campos, na vila da Ponta Delgada, onde morou. E depois o Capitão Rui Gonçalves da Câmara, segundo do nome, mandou trazer algumas para tapar o seu rico pomar que mandou prantar no Cavouco, junto da vila da Alagoa. E um Fernandafonso chamado da Horta, grande hortelão, por vender hortaliça, morador na vila da Ribeira Grande, junto da ermida de Santa Luzia, onde viveu Pedro Dias, da Achada, e Sebastião Pires Paiva com dois asnos bravos, que amansou e ensinou, lavrava e carreava, indo ao mato buscar lenha em carro, com eles, chamando a um Malícia e a outro Ruindade. Este, indo buscar sua mulher a Portugal e tornando com ela, foi o primeiro que trouxe as silvas à vila da Ribeira Grande, onde era morador, em um caixão de terra. Outros dizem que as trouxe da ilha Terceira, em uma corda esfregada e untada com a semente das silvas, e, enterrando a corda ao comprido estendida, nasceu um silvado. O primeiro lugar, onde as prantou, foi em um sarrado que tinha detrás de suas casas em que morava, perto da dita ermida de Santa Luzia, para se tapar com elas.
Tanto as guardavam e prezavam naquele tempo, que as não dava quem as tinha senão a grandes amigos e a pessoas a que tinha muita obrigação, estimando-se por grandes presentes os que de alguns ramos delas se faziam; e se Ihas furtavam, armavam grandes arruídos e jogos de cutilados, sobre elas. Tanto as cobiçavam alguns, que se ajuntavam de noite e as iam furtar para as prantarem em suas fazendas e terras, que vieram a ficar tão iscadas delas, assim por pegarem bem, não somente com as raízes na terra, mas com qualquer ponta que toca no chão ou nas pedras e logo ali deitam raízes, como por os pássaros comerem das suas amoras e irem estercar a semente pelos campos. E assim multiplicaram tanto, que com elas está perdida uma grande parte da ilha; e, se a deixassem despovoada quatro anos, se tornaria um mato e silvado bravo, e acabaria de se perder toda com elas.
Este Fernando Afonso deu um raminho, com raiz desta pranta, a Baltasar Vaz de Sousa, donde encheu a ribeira do Telhal delas, e dali a ilha toda e cuido que as mais ilhas. Se não fossem as cabras, que as comem, já fora meia ilha coberta de silvado, ou quase toda.
Mas o que agora é sobejo e danoso, cuido que há-de ser minguado e proveitoso, que como vai faltando a lenha, ao menos para os fornos hão elas de ser grande remédio. E este há-de ser o mato de que mais se há-de usar nalgum tempo. E já neste de agora algumas pessoas as não querem deixar cortar nas suas terras e as defendem, porque a necessidade, boa mestra, Ihes vai ensinando e mostrando que são boa lenha.
Toda a estima desta pranta era porque eram defensão das terras; por isso as prantavam como enxertos ou fruteiras de boa pomagem e davam pesentes para que repartissem delas com eles, como foi um João Fernandes, morador na freguesia da Fajã, ao Charco da Madeira, termo da cidade da Ponta Delgada, que levou um presente de capões e galinhas ao Capitão Rui Gonçalves da Câmara, segundo do nome, ao Cavouco, onde ele então morava, para que Ihe desse umas prantas de silvas, poucas, que o dito Capitão mandara trazer de fora, para tapume daquele seu pomar. Havendo-as com presentes e rogos, e às vezes furtando-as, e semeando-as os pássaros que comiam a semente, onde os homens as não prantavam, se inçou toda esta ilha delas, tanto que vieram a maior parte das terras a não aproveitarem mais que para comedias de cabras, sem darem outro fruto nem proveito.
Mas, andando o tempo que tudo muda, de maneira que as terras feitas, debaixo, não queriam já dar novidade, de cansadas, tanto que os pastéis, a que soíam dar quatro e cinco colheduras, dando-lhe a primeira se secavam logo, que era grande perda dos lavradores, Ihe foi forçado roçarem as silvas e cavarem as terras à enxada, com muito trabalho, para fazerem pastelais que, nas tais roças, com o esterco das ditas silvas que queimavam e roçavam, se dava muito bem, como em terras novas. Mas, correram alguns anos que não rompiam as terras senão para o dito pastel e não semeavam trigo nelas, porquanto a casta do trigo que na terra se semeava, chamado comummente barbela, se tomava e perdia, por serem terras altas e sujeitas aos ventos e às névoas; mas, proveu Nosso Senhor com uma espécie de trigo que se chama canoco ou, para melhor dizer, pelado, porquanto não tem pargana , que veio de fora, e primeiramente da ilha da Madeira, enviado a João de Arruda da Costa, morador na sua quinta, junto da cidade da Ponta Delgada, com aviso que se dava melhor nas terras frias, de cima, junto da serra, que nas de baixo, perto da costa do mar, para ele semear nas suas campinas. De maneira que, quando no melhor ano de pão, o melhor moio de terra, das baixas junto do mar, que eram as melhores de todas, dava vinte moios, era espanto e o tinham e julgavam por grande rendimento.
Mas, agora as ditas roças das silvas dão comummente de trigo pelado, que não se toma tanto como o barbela, a razão de trinta e vinte e cinco e, ao menos, vinte moios, e muitas vezes chegam a razão de quarenta moios por moio e daí para cima. E antes que viesse à terra este trigo pelado, ainda que roçassem as silvas para na roça fazerem o dito pastel, não colhiam os lavradores mais que aquela novidade daquele só ano, e logo se tornavam a cobrir e encher as terras das mesmas silvas, com que tinham os homens grande trabalho e custo e pouco proveito. Mas, depois que veio à terra o trigo pelado, acabando de recolher a novidade do pastel, da terra de roças das silvas, logo o segundo ano e o terceiro seguinte, dá a dita roça duas novidades do mesmo trigo que lhe semeiam depois da novidade do pastel, e assim ficam três novidades em três anos contínuos, sc., no primeiro ano da roça a novidade do pastel, e nos dois seguintes as do trigo, por onde as ditas roças e terras ficam limpas de todo. E, com Ihe semearem logo o quarto ano de tremoço, que foi outro dom de Deus, ficam capazes de darem outras duas novidades a reo ou contínuas e juntas, de trigo; e se Ihe semearem a primeira de pastel, e a segunda de trigo, as dará muito melhor. E, se há algumas terras de silvas que não são capazes de darem novidades, por serem fragosas ou pedregosas, servem-se das silvas para os fornos, como em Portugal se servem dos tojos; e, se algumas pessoas as têm nas suas herdades, sem terem delas necessidade, pelas deixarem roçar para os ditos fornos, Ihe dão dinheiro por elas. E outros silvados, que estão em lugares onde se podem prantar vinhas, arrancadas e queimadas as silvas, se prantam as vides em seu lugar e dão muito proveito, pelo que já se não agastam com elas. E, se as há tão longe que não possam usar delas para isto e para os fornos, criam-se com elas muitas cabras nas serras, onde as há, porque são para este gado cabrum o melhor pasto de todos.
Daqui se vê claramente que foram duas mercês grandes de Deus, que fez a esta terra, uma, a das silvas e outra a dos tremoços, de que logo tratarei; que foi tanto como achar-se outra ilha nova, tão grande como esta, ao longo dela. Doutra maneira não havendo estes dois remédios que Deus deu, se despovoara muita parte desta ilha, porque pouco tempo há que se despovoaram os lugares de alguns moradores, como Santo António, a Bretanha, o Nordeste e outros muitos, pela fraqueza das terras, antes do tremoço, e agora com ele dão mais pão do que dão as melhores terras da ilha, sem o dito tremoço. Porque, se houvessem de estercar um moio de terra com esterco, não bastaria a valia da mesma terra para ficar capaz de dar trigo, e com dois moios de tremoço, que custam dois mil réis e menos, semeados em um moio de terra, somente em cabelo, sem a lavrar nem fazer mais custos, fica tão estercada que muitas vezes o viço Ihe faz mal, como agora direi.

De pequenas coisas faz Deus, muitas vezes, e costuma fazer, grandes remédios, para mostrar seu grande poder e saber, e usar com os homens de sua misericórdia, como de fracos e quebradiços óculos de vidro remedeia a fraca, cansada e quase perdida vista dos antigos velhos, e das baixas, rasas, pequeninas e humildes ervinhas do campo faz mezinhas e antídotos para grandes e arreigadas enfermidades, e de muito amargosas drogas ordena purgas para dar ao enfermo a doce e desejada saúde. Assim de uma amargosa erva, mais baixa e grosseira das ervas, como é o tremoço, fez Deus mezinha para curar a envelhecida, fraca, cansada e estéril terra desta ilha, para poder com ela, como com óculos, ver a fertilidade que já dantes não via, e como com amargoso medicamento curar a debilidade e fraqueza de sua cansada e fraca natureza tão estéril, e tornar desta maneira a terra inútil muito fértil e frutuosa; porque, como Deus não deixa nada sem remédio e, quando falta o humano, acode logo com o divino, para que os homens entendam melhor que da sua mão nos vem e há-de vir todo o bem e socorro, havendo aqui, nesta ilha de São Miguel, terras fracas e cansadas, em que os lavradores se perdiam com o pouco rendimento delas, acudiu o Senhor com a sua costumada misericórdia e bondade, e descobriu o remédio de atremoçar as terras para as fazer fértiles e frutuosas, as quais com esta mezinha, como com purga amargosa, de doentes ficaram sãs, e de fracas fortes, e expirando reviveram.
Um Barão Fernandes, que morava à Grota de João Bom, entre os Mosteiros e a Bretanha, no ano de mil e quinhentos e cinquenta, pouco mais ou menos, foi o primeiro que inventou ou começou a tremoçar a terra, depois que enfraquecia, semeando os tremoços ao redor de sua seara de trigo, junto dos caminhos, em uma leira ou carreiro deles, como nesta ilha costumaram depois muitos; e depois semeou um alqueire de terra deles como agora semeiam um alqueire de chícharos para comer curtidos, sem saber o mais proveito que dali podia vir.
Depois deste homem, veio um de Portugal, chamado Lopo Pessoa, o qual inventou os tremoços para proveito das terras, vendo que onde se semeavam um ano, para o ano seguinte Ihe dava ali trigo forte e melhor; donde veio a tremoçar mais quantidade de terra por suspeitar que dos tremoços Ihe vinha dar melhor novidade. E, achando melhoria nas novidades, daí veio a outonar com tremoços e semear as terras e relvas de um ano para o outro, primeiramente no lugar de Santo António, que parece que este Santo, na sua freguesia da banda do norte, descobriu, deparou e achou primeiro este remédio e mezinha para as terras que ali estavam já como perdidas; e depois o começaram usar em toda a ilha, de que se acharam muito bem os lavradores e com proveito. O mesmo efeito têm as favas e legumes todos e o linho que fazem a terra, onde os semeiam, ser depois mais frutífera, ainda que ela de si seja fraca e estéril para pão, como quase já eram as terras do dito lugar de Santo António, limite da cidade da Ponta Delgada, e outras muitas.
O outono dos tremoços, que se corta em verde, também dizem que esterca a terra com sua rama, que nela, logo lavrada apodrece, e assim estercada fica mais frutuosa. Outros dizem que, com a sombra que à terra fazem, cobrindo-a com sua rama, defendendo-a do frio e calma, que a não corte, tendo-a assim mimosa e macia, vem cobrar a terra fôlego, força e vigor para ao diante dar mais e melhor fruto. Todas estas razões podem ajudar a isso, mas ainda que nisto houve e há diversas opiniões e razões, a mais certa é que os tremoços são grosseiros e amargosos, e por se nutrirem e criarem dos mais grossos e piores humores da terra, chupam a salsugem e pior dela, como fazem também as favas e outros legumes, mas muito mais o tremoço, por ser o pior e mais grosseiro legume, e assim fica a terra defecada e como purgada e limpa dos humores mais grosseiros, e, com os melhores que Ihe ficam, está, depois do tremoço de um ano ou do outono, criando e nutrindo o trigo melhor e com mais abundância que dantes. Este foi um notável e singular remédio para as terras desta ilha, que já iam muito enfraquecendo, poderem dar melhores novidades de pão e de algumas outras coisas, como outonadas dão melhor linho.
É o tremoço uma erva de muita folha e de muitas hastes em um pé, de altura que dá a um homem pela cinta; cujo fruto, que dá em umas vaginhas, como de favas, deitado de molho na água doce ou salgada, e dando-lhe primeiro uma boa fervura ao fogo, de amargoso se torna doce e se deixa comer sem acabar de fartar a quem o come, apetitoso ao gosto, como são as ervilhas; e tanto que o semeiam e vem a ter rama e folha, tem tal qualidade que sempre traz a mesma folha e haste virada ao sol, sc., ao nascente do sol, pela manhã, está toda a ele inclinada, e assim como o sol se vai empinando, assim vai virando; quando vem ao meio dia, está direita; e tanto que desce o sol para o ponente, assim vão as folhas, flores e hastes do tremoço virando, de maneira que ao pôr do sol Ihe ficam inclinadas e viradas daquela parte onde ele está e se põem; e pela manhã, que vem da noite seguinte, se tornam a virar ao nascente a receber o sol da parte donde ele nasce.
Depois de se inventar primeiramente o atremoçar as terras no lugar de Santo António, segundariamente se começou a usar no lugar das Feiteiras, e por verem o grande proveito e muito rendimento que têm as terras atremoçadas, se usa o mesmo já agora em toda a ilha geralmente.
E quem tem poder, o melhor dela é tremoço velho, de um ano para o outro, sc., atremoçando a terra um ano, que não dá mais novidade o mesmo ano que o próprio tremoço que Ihe semeiam. O qual tem três proveitos: o primeiro, o tremoço que soe valer, os mais dos anos, a vinte e cinco, a trinta e quarenta réis o alqueire, de que se carrega algum para fora da ilha; o segundo proveito é a palha dele, depois de malhado, que é boa lenha para os fornos, e vale cada carrada, o menos, dois tostões; o terceiro proveito é que a terra daquele ano semeada de tremoço velho, está nela, para o outro, certa a novidade de trigo ou pastel, mais que de terra de relva ou alqueive, porque a terra que fica de relva não tem mais virtude que estar folgada e não ser lavrada aquele ano, nem dá mais novidade que a erva de pasto, que também dá bom rendimento ao dono dela, porque ordinariamente se arrenda a terra, que fica de relva, para pasto de gado, apastorado ou preso à corda, a dois ou três alqueires por alqueire, segundo é o pasto da terra. Mas, a que fica semeada de tremoço velho tem mais virtude, por ficar purgada dos maus humores com que ele se nutre, como já disse, e por causa da sombra que Ihe faz a rama do mesmo tremoço, que é altura de ametade e, às vezes, de um homem, com que fica a terra mimosa e sombria, sem ser cortada das calmas; e também por causa da folhada do tremoço que cai na mesma terra que, depois de apodrecer nela, parece ingoento com que se engrossa. E, assim, dizem os que a lavram que Ihe parece andarem com os pés sobre algum ingoento, ou sobre veludo, tão macia e amorosa a acham, o que não tem a terra que fica de relva, a qual acham mais áspera. Costumam, sobre a terra de tremoço velho, semear pastel e o segundo ano trigo, e ambas estas novidades dá abastantemente, a qual melhor, da maneira que atrás tenho dito, quando tratei das silvas.
Há outro modo de atremoçar a terra, que se chama outonar, porque no outono, começando e acabando em o mês de Octubro, fazendo primeiro umas velgas com o arado, e semeando o tremoço por elas, a lavram depois, com que fica o tremoço nela soterrado; e, nascendo e crescendo altura de três ou quatro palmos, no mês de Dezembro e Janeiro o decepam com espadas, para tornar a lavrar a mesma terra, onde apodrece aquela rama, com que fica a terra como estercada com ela às vezes dois anos, sem ter necessidade neles de mais outro benefício. E, se se faz seara deste outono, ou de tremoço velho, ao longo de outra que não tem tremoço, não tem necessidade de haver extrema entre elas, porque de longe, quanto mais de perto, se divisa e diferença uma seara de outra, pela grande vantagem que faz a do tremoço àquela terra que o não teve. E, como já disse, o mesmo proveito fazem as favas e alguns outros legumes, como são abóboras e melões que com sua folhada cobrem a terra que se não corte da calma. E, onde o tremoço está basto, nenhuma erva cresce debaixo dele que venha a ter semente, e por isso o semeiam desta maneira nas terras em que querem desinçar o saramago e as ruins sementes, com que ficam as searas do ano seguinte com menos monda; e alguns lavradores, que não podem atremoçar toda a sua terra, dão parte dela a outras pessoas que a semeiam de tremoço velho e levam o grão e palha dele, contentando-se com Ihe ficar a terra purgada e limpa, para depois fazer nela sua sementeira de trigo ou pastel, como está dito.
Mas, agora já alguns se guardam de atremoçar a terra, porque dizem que um bicho branco e pequeno, que algumas vezes, em alguns anos, se acha dentro, acima do primeiro nó da palha do trigo, junto da raiz, que faz perder a espiga, o tremoço é causa dele; e alguns dizem que é também causa de alforra. E assim como as drogas e mezinhas, como estão muito tempo na botica, não somente perdem sua força, mas podem e vêm a fazer algum dano e trabalho ao que delas usa, assim já alguns não querem usar da mezinha dos tremoços em suas terras, por dizerem que são causa de nascerem dentro na palha do trigo, junto à raiz, sobre o primeiro nó , uns bichinhos brancos e curtos, como bichos de carne, que logo tomam e murcham a espiga; e outros dizem que do muito atremoçar as terras nasceu a alforra de que adiante direi.
Dizem que o tremoço, que faz bem às terras desta ilha, faz mal às terras de Portugal.
Parece a razão disto ser porque aqui as terras são salgadas e rociadas do mar, a qual salsugem Ihe chupa o tremoço, que se cria do pior humor da terra, ou as favas e outros legumes com que ficam defecadas e purgadas, para dar melhor novidade. Mas, em Portugal, onde a terra não tem esta salsugem, chupam os tremoços o bom e doce humor dela, e assim fica estéril.

Também dá esta terra açúquere. O primeiro que o experimentou foi Lopeanes de Araújo, que mandou em sua casa pisar e espremer umas canas de casa de um Sebastião Pires, que foi o primeiro que prantou um alqueire de terra, ou dois, delas, e, cozendo o sumo e deitandolhe senrada, acabado de alimpar e escumar, ficou o melado perfeito, o que vendo Lopo Anes disse: — açúquere temos. Então, que foi na era de mil e quinhentos e quarenta, moeu Sebastião Pires as outras canas que tinha, em um engenho como de pastel, com sua mó e alfarge com uma besta, e fez até obra de quinze pães de açúquere, que foram os primeiros que fizeram nesta ilha. E depois um Sebastião Gonçalves, filho de Hierónimo Gonçalves, morador também em Vila Franca, por ver que havia boa mostra do açúquere e esperança de se poder fazer bom, foi à ilha da Madeira e fez concerto com Baltazar Pardo, que veio com ele a esta ilha e morou nas casas de Marcos Dias, na Praça, trazendo consigo um Fernão Ligeiro, mestre de fazer engenhos de açúquere, o qual fez ao dito Sebastião Gonçalves o primeiro engenho na Água de Alto, arriba do caminho do concelho, em Vila Franca. E depois fez o segundo na mesma lomba da Água de Alto, de Gabriel Coelho, na fazenda de Simão da Mota, que também tinha parte nele. Feitos estes dois engenhos, se tornou Fernão Ligeiro para a ilha da Madeira e ficou um seu criado, chamado Afonso Pires, por alcunha o Pé de Chumbo a que depois chamaram Chumbo, também mestre de engenhos, e fez o terceiro engenho, de André Gonçalves de Sampaio, e de Diogo Gonçalves e de João Anes, mercadores, na Água de Alto, ao longo do mar. Depois, este mesmo mestre Chumbo fez o quarto engenho, de Lopo Anes de Araújo e de Rui Vaz, morador na cidade do Porto, na Ribeira Seca, na fazenda do dito Lopo Anes, junto do caminho que vai para a Maia.
E todos quatro estiveram moentes e correntes alguns anos, mas desfizeram-se como a hera de Jonas, depois que entrou o bicho nas canas, tirando o de André Gonçalves que ainda está em pé, mas não moe, e outro de Lopo Anes que custou seiscentos mil réis de fazer, e foi vendido a Sebastião de Crasto por sessenta mil réis, o qual somente moe agora e tiveram seus filhos António de Crasto e Manuel de Crasto, e depois sua mãe e Diogo Leite, seu cunhado, onde se faz muito açúquere, como nos outros se fazia, mas não tão bom como o da ilha da Madeira.
Naquele mesmo tempo se fez outro engenho do Capitão Manuel da Câmara, abaixo da vila de Água do Pau, o qual também moeu, mas também cessou e se desfez por causa do bicho das canas. Depois destes, se fizeram dois engenhos na vila da Ribeira Grande, um de Diogo de Morim e de Fernão Correia, que foi o primeiro, e outro de Jorge Gonçalves Cavaleiro e de outros companheiros, que também pela mesma causa se desfizeram.
Outros dizem que o açúquere nesta ilha de São Miguel começou desta maneira. Dando-lhe princípio o dito Sebastião Pires, natural de Guimarães, morador em Vila Franca do Campo, abaixo da ermida de Santa Catarina onde tratava de mercador, e no primeiro terramoto perdeu quanto tinha e, vendo-se desbarratado , fez-se serrador de madeira, e sua mulher, vendendo vinho, azeite, mel e outras mercadorias alheias, ganhava assim sua vida; e, vindo a ter alguma posse, ordenaram fazer algumas camas de roupas, dando pousadas a pessoas que as haviam mister, de maneira que era sua casa estalagem onde se recolhiam muitos estrangeiros que acudiam e iam ter àquela vila, pola alfândega que nela estava. Vindo da ilha da Madeira uns mercadores que se agasalharam em sua casa, deram a sua mulher algumas canas de açúquere que traziam, das quais ela, como coisa por demais ou por curiosidade, prantou em um quintal pequeno da casa uns pedaços, que em pouco tempo arrebentaram e cresceram. Vendo-as perfeitas e formosas, as colheu e foi prantar em um sarrado que tinha abaixo da Abegoaria, onde depois viveu muito tempo e agora vive um seu filho, chamado Francisco Pires, e ali se deram muito melhores que as que havia trazido do quintal de sua casa. Dali se começaram de espalhar e repartir por muitas pessoas da dita vila, que prantavam quem uma dúzia de canas, quem mais, quem menos, como cada um as podia haver. Foram assim multiplicando tanto, que em pouco tempo o dito Sebastião Pires e outras pessoas, como Lopo Anes de Araújo, Cristóvão Dias, Manuel Lopes, Marcos Dias, vieram a ter uns alqueires de terra prantados delas, mui douradas e formosas, mas não serviam de mais, até então, que de as comerem, venderem e darem, e assim se gastavam e espalhavam pela ilha.
Mas, Lopo Anes de Araújo, parecendo-lhe que se poderia delas fazer açuquere, disse a Bastião Pires: — quereis, compadre, que façamos ensaio e experiência destas canas, se se fará açúquere delas? Disse Bastião Pires: — e quem saberá fazer isso? Respondeu Lopo Anes: — eu sei quem o fará. E logo fez ir da Ponta Delgada um Fernão Vaz, homem honrado, natural da ilha da Madeira, casado e morador na dita vila, que agora é cidade, o qual deu ordem como se fez um engenho de besta, como de pastel, mas o assento da mó diferente, porque era de uma pedra grande e mui cavada, a maneira de gamela e furada pelo fundo, por onde o sumo das canas, que dentro nela se moiam, ia por debaixo do chão, por uma calle ou bica, sair fora do andaimo da besta que moía, e assim fez fazer também um fuso e caixa para espremer o bagaço, e uma fornalha com uma caldeira em cima, a maior que então se achou, onde cozia aquela calda, e cozida a deitava em uma tacha e ao outro dia fazia o mesmo, até que fez cópia de melado para se poder fazer açúquere. Um Diogo Gomes, morador na Relva, da dita vila, se ofereceu a o temperar e purgar, por haver estado na ilha da Madeira, em casa de um seu tio, senhor de um engenho onde ele comunicava, ainda que não era oficial do mesmo engenho, e fez logo dois pães de açúquere muito fino; mas não moíam senão as meias das canas, que é o perfeito delas, pelo que parece que, com sua pouca ciência e menos experiência, saiu aquele açúquere assim tão bom e tão fino.
Neste meio tempo, veio a ter a Vila Franca um mancebo da ilha da Madeira, que lá servia de caldeireiro, que dali por diante temperava o assuquere que se fazia, até que acaso veio da Canária um castelhano, mestre de açúqueres, o qual fez no mesmo engenho algum açúquere. Logo depois deste, de Sebastião Pires, fez Cristóvão Roiz sete pães, já melhor que o de Sebastião Pires. Fez isto tanto alvoroço na gente e moradores da dita vila, vendo principalmente escusarem-se custos de água para regarem as canas, pois sem regadia se davam mui formosas, que mandou logo Lopo Anes de Araújo buscar à ilha da Madeira um navio de canas para prantar, e foi o primeiro que começou a entender nesta granjearia com alguma companhia; ao qual seguiram outros, como foi um Sebastião Gonçalves com companhia de um Baltazar Pardo, da ilha da Madeira, que fizeram engenho, e Lopo Anes outro. Mas, como viram o princípio não ser como se cuidou e por causa da lenha que importava muito e os açúqures baixos, não quiseram sustentar isto para diante; perderam tanto que se lançaram desta granjearia, e vendeu Lopo Anes seu engenho, dizem que a Gabriel Coelho, que nele tinha parte e aos Crastos. Francisco Vaz e Gabriel Coelho tinha outro com companhia de António de Pesqueira, burgalês, que nesta ilha residiu, onde também Simão da Mota tinha sua parte, o qual engenho se desbaratou e receberam seus autores muita perda. Pero da Costa fez outro com companhia de Sebastião Dias, de Água de Alto, que sustentaram algum tempo e também cessou pelo pouco proveito que nele acharam. E assim cessaram os outros todos, tirando o de Lopo Anes que houveram os Crastos, o qual sustentaram, por serem muito ricos, até a era de mil e quinhentos e oitenta e quatro anos, em que faleceu Manuel de Crasto, derradeiro herdeiro deste apelido, morador que foi na dita vila, e depois sua mãe e Diogo Leite, seu genro, casado com D. Helena, irmã dos ditos Crastos, cuja fazenda valeria quarenta mil cruzados. Os que vieram depois dele, quer herdeiros, quer compradores de sua fazenda, não sei o que farão, se serão curiosos de sustentarem esta doce e rica mercadoria na terra.
Depois dos ditos engenhos se fizeram outros e se carregaram alguns navios de assúqure ; mas, pela vaidade que entrava nos homens com esta riqueza, desfez Deus as canas com um bicho, como a hera de Jonas. E não havendo canas, cessaram os engenhos todos, excepto o dos Crastos, que até esta era de mil e quinhentos e oitenta e oito permanece.
Ultimamente, o senhor Conde Rui Gonçalves da Câmara, de grande curiosidade, fazendo prantar muitas canas no sítio das Furnas, onde trazia muita gente trabalhando nelas, também desistiu de fazer ali engenho e povoação como pretendia fazer, pelo pouco proveito e muito custo delas.
Também há nesta ilha muitas betatas , que se criam debaixo da terra, em canteiros feitos à enxada, a modo de lavoura de camalhão, mas muito maiores, onde prantam a rama delas, que é delgada e tem o talo e folhas como de hera e deita raízes que vão engrossando e crescendo, e são as mesmas betatas; as quais tiveram princípio nesta ilha em casa do dito Sebastião Pires, pelo modo que começaram as canas de açúquere porque vindo à dita Vila Franca uma nau das Índias de Castela e recolhendo-se em sua casa alguns passageiros, deram a sua mulher umas betatas pequenas, delgadas e murchas, como são todas as que de lá vêm, as quais ela prantou no seu quintal, onde nasceram e se fizeram muito formosas. Dali começaram a levar algumas pessoas alguns raminhos que prantaram nos quintais, com que em pouco tempo se foram multiplicando. Depois de haver alguns betatais vieram a criar-se nelas uns bichos grandes, Iistrados de verde e amarelo, tão grossos como um grosso dedo, de mais de meio palmo de comprido, com a boca e cara carrancuda e rabo revitado , os quais se acham e criam também no orjavão e na pimenta redonda do Brasil, que não queima, e nas oliveiras; e, como nesta terra não havia outros senão os bichinhos das hortas, que se criam nas couves e outra hortaliça, tiveram estes por peçonhentos como na verdade o são, e assi aborrecidos e temerosos deles, dizem que largaram a granjearia das betatas e se vieram quase a perder. Mas, correndo tempo e não se achando algum dano que eles fizessem, se tornaram a aproveitar delas e fazerem searas desta fruta como de trigo, de que carregam navios para o Reino, e na mesma terra serve de mantimento à gente pobre e de gulodice à rica, comendo as betatas assadas ou cozidas, as quais já agora não criam tantos bichos, como dantes criavam.