Por mar e por terra, uma légua e meia da vila de Água do Pau e da Ponta da Galé, quase norte e sul com a mesma ponta, está a vila da Alagoa, chamada assim por uma que teve de água nadível, defronte da porta da igreja principal acima de um recife e porto onde podiam entrar batéis; na qual antigamente se tomou já muito pescado, por entrar às vezes o mar nela, e bebia o gado e nadavam por passatempo algumas pessoas, e onde já se afogou um moço, soltando o rabo de um boi a que ia pegado, nadando. Agora, com terra e polme está atupida e é terra que dá pastel e outras novidades e rende para o concelho; onde António Lopes de Faria teve ali perto dela um fresco pomar, acompanhado e ornado com muitas faias. Foi este lugar feito vila por el-Rei D. João, terceiro do nome, na era de mil e quinhentos e vinte e dois, a onze dias do mês de Abril, no qual tempo estava o dito Rei em Lisboa, e Ihe deu de termo, da banda do oriente, assim como parte com Água do Pau e da banda do norte, da maneira que parte o seu limite com o termo da vila da Ribeira Grande, e da parte do ponente, partindo pelos biscoutos, meia légua e não mais. Os primeiros juízes foram Estêvão Travassos e João Gonçalves; dos mais oficiais da Câmara, do mesmo ano, não pude saber o nome, mas logo o ano seguinte de mil e quinhentos e vinte e três saíram por juízes João Gonçalves e Fernão Vieira, e por vereadores, João Roiz, genro de Álvaro Lopes, e João Rodrigues, de Água , e por procurador do concelho, Pero Gonçalves. Tem esta vila uma bem assombrada igreja Matriz, de naves, da advocação da Santa Cruz, cuia festa se celebra duas vezes no ano, uma dia da Invenção, outra, da Exaltação da mesma Cruz, quando as celebra a Igreja, em seus tempos. Há dentro na vila três ermidas: uma de S. Sebastião, outra de Nossa Senhora do Rosairo e outra do Sprito Santo; e acima da vila, um quarto de légua, a célebre ermida de Nossa Senhora dos Remédios, ao pé do monte que chamam Vulcão, de muita romage de toda a ilha, que se vê na terra de muitas partes e do mar também, a quem pedem na ilha, e de quem também recebem algumas vezes os mareantes seu remédio. Tem esta freguesia de Santa Cruz duzentos e oitenta e um fogos, e almas de confissão mil e seiscentas e cinco, das quais são de comunhão setecentas e oitenta. O primeiro vigairo foi um João de Évora, clérigo da Ordem de S. Pedro; o segundo, Sebastião Fernandes que teve a vigairaria muitos anos; o terceiro, Diogo Ferreira, irmão de Gaspar Ferreira; o quarto, Baltasar Fernandes; o quinto, Pedro Anes Mago, que agora está nela. O primeiro beneficiado foi Luiseañes; o segundo, Simão Gato; o terceiro, Gabriel Lourenço; o quarto, Amador Travassos; o quinto, Pero Dias; o sexto, Amador Martins; o sétimo, João Lourenço, que também era tesoureiro; o oitavo, Gaspar Martins; o nono, João Marinho; o décimo, Jácome Gonçalves; o undécimo, Manuel Roiz; o duodécimo, Sebastião Gonçalves. Tem agora quatro beneficiados. O primeiro cura foi Crisóstomo de Oliveira; o segundo, Manuel Rebelo; o terceiro, Hierónimo Gonçalves de Valasco, que agora serve.
Houve nesta vila duas capitanias das ordenanças: de uma bandeira foi o primeiro capitão, Cristóvão Soares, e o primeiro seu alferes foi Pero Velho Travassos, o segundo, António de Oliveira; o terceiro, Afonso de Oliveira; o primeiro sargento foi João Cabral; o segundo, António Pereira. O segundo capitão foi António Lopes de Faria; seu alferes foi seu sobrinho António de Faria; e sargento Fernão Gomes. Haveria então mais de trezentos homens de peleja. Agora há duas bandeiras: de uma é capitão Francisco Lopes Moniz; alferes, Jorge Correia de Sousa; e sargento, Leão Soares; o outro capitão é António de Faria; seu alferes, Paulo Soares; e sargento, Manuel Pereira. Tem cada uma cento e sessenta homens, quase todos arcabuzeiros.
Do porto da Alagoa por espaço de um tiro de escopeta para o ocidente, corre a vila até o porto que tem, de boa serventia, chamado Porto dos Carneiros, porque depois dos antigos povoadores estarem na Povoação Velha dez meses, não Ihe contentando aquele sítio de terras, se passaram para este porto dos Carneiros, onde fizeram sua habitação, até à tornada do navio que os trouxera, que tornou dali a dez meses do Regno, para onde tornara depois que na Povoação Velha os deitou em terra; e, quando tornou a esta ilha, depois dos ditos dez meses, não os achando na Povoação, discorrendo pela costa para o ocidente, os foi achar neste porto dos Carneiros, que se chamou assim por acharem ali tantos carneiros que, para fazer matança neles e tomar alguns para comerem, faziam dois bardos de paus e de madeira, de uma banda e da outra, por antre os quais os vinham recolhendo e ajuntando, até que do monte e manada tomavam os que queriam. Mas, a certeza da razão desse nome é que, quando o Infante D. Henrique descobriu estas ilhas, com licença de el-Rei D. Afonso, quinto do nome, mandou deitar gado nelas na era de mil e quatrocentos e quarenta e nove por Frei Gonçalo Velho, comendador de Almourol, e começando ele a deixar algum na Povoação e outras partes desta costa do sul, vindo a este porto, deixou nele alguns carneiros, pelo que Ihe ficou este nome de Porto dos Carneiros, que então lançaram nele e multiplicaram tanto em poucos anos com o bom pasto que por ali tinham, sem se trasmontarem mais longe para outras partes, que quando tornaram dali a pouco tempo os acharam quase juntos, em manadas, e então os tomavam da sobredita maneira.
É, este dos Carneiros, bom porto, principalmente de Verão, de que se serve a vila para suas pescarias e necessidades e carregação, e nele se carrega todo o pão que vai da banda do norte, como da vila da Ribeira Grande e seu termo, com obrigação que têm ali de guardar, sem contradição, os despachos que pelos oficiais da Câmara dela vão assinados, porque assim o tem a vila da Ribeira Grande por sentença, em um litígio que sobre isso tiveram.
Tem por granjearia esta vila trigo e pastel e vinhos, que são muitos e, depois dos da Povoação Velha, comummente, os melhores de toda a ilha, de que se recolhem, uns anos por outros, mais de seiscentas pipas, em cada um ano. Digo comummente, porque em algumas partes, e principalmente nas vinhas do termo da cidade, os fazem algumas pessoas curiosas, de vantagem. Havia nesta vila, antigamente, muitos homens nobres, ricos e poderosos; agora são poucos. Aqui morou, como pai de toda a vila, o nobre António Lopes de Faria, freire do hábito de Santiago, memposteiro-mor que foi dos cativos em toda a ilha, que tinha em muitas partes dela muitas rendas e propriedades, como currais de gado vacum e de toda outra sorte, e granjeava muito pão e pastel, de sua lavoura, e outras coisas: pelo que valia sua fazenda mais de sessenta mil cruzados, com que ele e sua nobre e virtuosa e mui caritativa mulher valiam aos moradores e pobres da vila e doutras partes, fazendo muitos benefícios e largas esmolas, a seus tempos devidos. Moram também ali ao presente os nobres Pedro de Faria e António de Faria, irmãos grandiosos e poderosos; e o virtuoso Francisco Lopes Moniz, que terá cinquenta moios de renda, cada ano, de seu próprio património, com o qual e com granjearia de lavoura de trigo e pastel se governa; além doutras nobres pessoas que não são tão ricas. Tem a vila uma fonte de água que custou muito a trazê-la onde está abaixo dos sumptuosos paços, ainda que já velhos, que o Capitão Rui Gonçalves, segundo do nome, ali edificou depois do dilúvio de Vila-Franca, com grandes e fortíssimos esteios dentro das paredes, provendo-se com isso para os terremotos futuros; antes da fábrica dos quais, fez prantar um riquíssimo pomar de diversas árvores de esquisitas pomages, que mandou trazer de Portugal e da ilha da Madeira e de outras partes, acima da vila, para o norte, menos de um quarto de légua, da outra banda do pico que chamam de Lamego, por haver sido porventura de algum homem desta terra assim chamado, em um deleitoso vale, ornado com uma pequena fonte, onde chamam o Cavouco, por ali, nos biscoutos dele, cavoucarem e tirarem pedra os cavouqueiros para seus muros e casas. Não faltavam ali as cerejas e ginjas, nem as peras e peros, maçãs, romãs, nozes e castanhas, nem a fruta de espinho de toda sorte, com que era aquela riquíssima quinta celebrada em toda a ilha, que com sua fruta provia. Mas, parece que acabou tudo com seu dono, como acabaram nesta terra muitos pomares com seus primeiros prantadores, que deles se presavam, presando- se depois seus descendentes de dissipadores, por Ihe faltar a diligência e curiosidade de seus avós e pais curiosos. Logo, saindo do Porto dos Carneiros, está uma ponta pequena de pedra de biscouto, que se chama o Punhete, porque pegado, além dela, tem um porto para a banda de loeste que, por ser pequeno em comparação do porto grande dos Carneiros, como manga, se chama Punhete, em que muitas mulheres antigamente lavavam a roupa, a cuja enseada se acolhem os batéis com tormentas; e também por ser crespo, pelo biscoutal, ou como outros dizem, por ser pequeno e estar no cabo do outro grande dos Carneiros como em um braço, se chamou Punhete, como manga de camisa do mesmo braço.
Do Punhete a dois tiros de besta, está uma ponta que entra pouco no mar, chamada a Ponta Longa, e dela a outro tanto espaço está o calhau onde entesta a terra de Cristóvão Soares; no qual lugar desembarcaram os franceses em dez barcos, a gente de um dos quais se perdeu, tomando água pela popa, com o peso das armas, sem nenhum escapar, e sete deles enxoraram em terra, onde ficaram e os desfez depois a gente da ilha, aproveitando-se de sua madeira; e, dos dois que foram mais para loeste, saíram os soldados sem nenhum perigo, alargando-se logo ao mar, sem serem vistos, os que desembarcaram, dos da terra que estavam guardando o Porto dos Carneiros.
Deste lugar donde saíram os franceses a dois tiros de besta, correndo a costa direita, está uma pequena ponta que por ser alta se chama o Muimento, onde há muito perrexil; e do Muimento a quase um quarto de légua, está o marco que divide os termos da vila da Lagoa e da cidade da Ponta Delgada; e entre o Muimento e o termo, fica no meio o Poço d’Atalhada, onde bebem os gados daquelas partes. Chama-se o Poço d’Atalhada porque, pela terra dentro, Ihe fica para o norte um biscoutal que vai beber na água salgada do mar, onde havia um mato de altas e direitas árvores que antigamente cortavam ou talhavam para mastos de navios, pelo que Ihe ficou o nome Atalhada dos Mastos, onde tem sua quinta e morada o nobre Cristóvão Soares da Costa, com suas terras de lavoura, pomar e vinhas; tão valente por sua pessoa, quanto discreto em suas palavras, já homem antigo e grande amigo de Deus, mais rico de discrição e condição que de fazenda; já falecido.
Indo dali para loeste, está o biscoutal grande, em comparação dos outros pequenos, seus vizinhos, que terá légua de comprido por aquela costa, toda de pedra de biscouto seco e raso, com o mar, sem rocha nenhuma alta, onde se acha muito perrexil, agradável e apetitoso manjar para enjoados e famintos no mar, e fartos e enfastiados na terra; e pela banda da terra, vinhas e pomares ornados com quintas e casas alvas, antre sua fresca verdura, com que fica todo aquele sítio muito aprazível à vista de quem o vê e muito mais deleitoso a quem o goza. E assim vai continuando com o mar salgado esta doçura, sem haver fontes mais que uma no cabo, muito pequena, por todo este espaço, repartido em foros pelos herdeiros de Domingos Afonso, cuja foi a maior parte, até chegar ao fim do biscouto, acima do qual, pela terra dentro, está a cruz no caminho, que chamam do Crongo e logo mais para o norte a sua quinta, de André Gonçalves de Sampaio, chamado o Crongo, por em seu tempo ser o mais rico homem da terra, como dizem ser o crongo, entre os peixes que se comem, o maior peixe do mar. Abaixo do biscoutal grande, ao longo da costa, está um meio pico que se chama o Pico de Guiné, porque no tempo antigo faziam ali cevadouros para tomar algumas das muitas galinhas de Guiné que nele andavam; este pico é agora dos herdeiros de Amador da Costa e do bacharel João Gonçalves. No cabo do biscoutal grande está o porto de Jorge Furtado, fidalgo de grande corpo e grandes partes, na condição, discrição e conversação, que ele mandava fazer para mandar recolher e varar nele um barco que ali tinha, para seus passatempos, por ter acima da estrada, para a banda do norte, sua quinta e fazenda, junto do bacharel João Gonçalves, grande e antigo jurisconsulto. Neste biscoutal se dá aos mais perigosos forasteiros impedidos, às vezes, degredo; que assim eles, como os moradores daquela freguesia de S.
Roque, se provêm de água boa, quase doce de um poço que ali descobriu um negro, mudo, escravo de Gaspar Ferreira, bradando e mostrando com acenos haver naquela parte água.
Do porto de Jorge Furtado e deste poço se começa um areal que pelo ser em respeito doutro adiante mais pequeno, Ihe chamam o grande, que será de comprido como de um tiro de escopeta. No meio dele, da banda da terra, está outro meio pico, chamado o Pico da Areia, por estar ali junto e meio coberto dela e agora o Pico das Canas, por prantarem nele muitas; o qual foi de Jorge Nunes Botelho e logo de Pero Pacheco, seu genro, e depois dos herdeiros de Jorge Nunes, que o venderam aos herdeiros do bacharel João Gonçalves e a Francisco Ramalho, seu sobrinho. Vai-se estendendo o areal grande até dar em outro biscoutal e rocha baixa de pedra, acima do qual estão as moradas dos dois nobres irmãos Manuel da Costa e Álvaro da Costa, filhos de Amador da Costa, de tanta virtude que, depois do falecimento de seu pai, nunca quiseram casar; e logo a quinta de Diogo Martins, seu cunhado; e depois a do grande capitão Francisco do Rego de Sá, que houve de Jorge Nunes Botelho, seu sogro, com sua mulher D. Roqueza, cuja fazenda se ajunta e vai continuando pela terra dentro, até chegar à outra costa, da banda do norte, junto do lugar de Rabo de Peixe, sem se entremeter com ela outra, senão dois cerrados alheios.
Logo junto está a igreja de S. Roque, freguesia de cento e vinte e seis fogos e almas de confissão quatrocentas e quarenta e cinco, das quais são de comunhão trezentas e dez, que é sofraganha à cidade; cujo primeiro vigairo foi Pero Cão , que serviu mais de quarenta anos neste lugar chamado Rosto de Cão e freguesia de S. Roque, em cuja história se lê que um cão Ihe lambia as chagas; o segundo, Amador Travassos; o terceiro, Simão Roiz Pavão; o quarto, o licenciado Beraldo Leite; o quinto, o licenciado Ascêncio Gonçalves, que agora é ouvidor do eclesiástico, e tem o primeiro cura, Francisco Rangel. Acima da igreja, estão as moradas de Domingos Afonso Pimentel, homem nobre, prudente e rico em seu tempo, que deixou ricos seus herdeiros. Logo, por uma pedreira queimada vai uma pequena descida de S. Roque para o outro areal, pequeno em respeito do grande atrás dito, onde está um poço de água, mais salobra que a do poço do areal grande, de que bebem os gados e serve de lavagem de roupa, defronte das casas de Jorge Nunes Botelho, do hábito de Cristo, com vinte mil reis de tença, filho de Diogo Nunes Botelho, contador que foi em todas estas ilhas dos Açores, bem imitador, na fidalguia e prudência, de seu pai já defunto; onde está conservando e acrescentando, e não diminuindo aqueles ricos aposentos, fresco pomar e boa fazenda que herdou dele, com o mais concerto que nenhum que eu haja visto nesta ilha, porque tem um rico e grande pomar, com cento e sete grandes laranjeiras, todas arruadas por boa ordem, e um pinheiro de grande sombra e muitos limoeiros, limeiras, cidreiras e outras muitas fruteiras, de toda sorte de boa pomage, e diversas enxertias novamente feitas, pereiros, albricoqueiros, macieiras, marmeleiros, figueiras e amoreiras, tanta cópia que, do sobejo e podado, sustenta quase todo o ano a sua grande casa de lenha; grande vinha com seu lagar e casa; batatal, horta de toda a hortaliça, onde se criam muitos galipavos, patos e galinhas, em grande número; com outra serventia desviada para a casa do pumereiro onde vão os de fora comprar a fruta, em que se faz muito dinheiro, sem Ihe devassar nem inquietar sua casa e família; até na flor de laranjeira, de que se estila, se faz muita água de flor, de que se dá, vende e gasta em muita quantidade; de modo que quase provê de fruta, principalmente de espinho, toda a cidade, de que para ela levam às vezes carros com sebes cheias, carregados de laranjas, com que finalmente parece aquele pomar riquíssima quinta da mesma cidade. Defronte das ricas casas mandou fazer um grande e espaçoso granel, com dois engenhos de pastel debaixo na lógea, sem andar fazendo engenho cada ano, como alguns lavradores fazem, antes aqueles Ihe servem de guarda de toda a abegoaria, que neles fica fechada no Inverno e neles podem agasalhar e se agasalham, muitas vezes, seis e sete cavalos de hóspedes e parentes. Nas paredes do granel estão feitos muitos agulheiros, onde criam pombas; e logo junto um grande lago ou tanque, que leva mil e quinhentos e mais molhos de linho, juntamente com seus estendedoiros ao redor; e acabando de alagar o seu linho e dos vizinhos, tiram a buxa do boeiro e vasam e lavam o tanque sem o abrir, caindo a água dele em um baixo, junto do areal; o qual tanque levará setenta pipas de água, em que se podem tomar muitas pombas bravas e pássaros que vêm a beber nele. Para ir coada a água das chuvas ao tanque, tem na entrada uma cova, à maneira de arca, onde fica assentada a areia e terra, e vai somente a nata da água entrar no tanque, limpa. Logo abaixo das casas, dentro da mesma cerca delas, tem seus repartimentos de casas de gente e duas estrebarias de cavalos e outra casa de repartimento de porcos de monte per si, e outro de bácoros e outro de palheiro. Ao longo do engenho, para a banda do sul, tem em um campo chão perto de cem caniços, para enxugar o pastel, e logo abaixo as tulhas, com uma janela, para recolher por ela os bolos enxutos, e as portas das tulhas, para a banda do sul e da areia, por onde tem a saída.
Tem também no mesmo campo dos caniços um jogo de bola, com sua entrada e porta, para os que a ele vêm de fora, e outra, subindo por um pau, sem derribar parede, para lá irem os de casa; junto da qual tem um grande quintal e figueiral, quase comum aos vizinhos, à sombra do qual manda massar seu linho de dentro de umas covas onde estão as massadeiras, detrás da casa, subindo e descendo também por umas mossas de um pau, sem derribar paredes, com que tudo está amurado e guardado. Tem logo a eira como dentro de casa e a relva para o gado, com dois paus grandes, com seus galhos, em partes diversas, em que os bois se possam coçar, nos troncos o corpo e nos galhos o pescoço. Logo vão suas terras continuando para o norte, até ao Pico da Cruz, quase no meio da largura da ilha, do qual até às ditas moradas e mar do sul ficam águas vertentes, tendo tudo cercado e bem murado e junto das portas a dentro em que todos os seus podem trabalhar sem serem vistos de fora e ele, como sobre-rolda vigiando, acudir a mandar e ordenar todos os que trabalham, com suas serventias postas em tanta ordem e concerto que até os boeiros nas paredes e currais são de maneira que por onde entra o bácoro não pode entrar o porco, e outros boeiros por que entram as patas e galinhas a seus lugares deputados, ordenando os mantimentos e lugares destas coisas, sc., cevada, junça, linho, abóbaras, melões, pepinos e horta, cada coisa ao redor da casa, em cerrados per si, cercados de paredes de oito e nove palmos de alto, onde tem também cercada sua eira que nada se perde, e tudo a seus tempos convenientes, aproveitando não somente os lugares e cerrados, campos, relvas, pomar e horta, mas também os tempos que parece que as coisas e os serviços suavemente se estão fazendo; e com o poço que se chama de Diogo Nunes, seu pai, e mar à porta. E, se nas coisas de casa tem este concerto, não Ihe ficam as de fora sem ele, pois um moio de terra e cerrados de comedia, que tem no termo da vila da Alagoa, que somente Ihe rendia cada ano seis moios de trigo, arrendando os cerrados per si, com a renda deles manda negociar a terra de que recolhe, cada ano, quinze e às vezes vinte moios de trigo. Também tinha uma vinha, que dava de meias a um homem, com horta e criação de galinhas, e fazendo suas contas, agasalhando-o primeiro com terra de biscouto que Ihe deu de foro, em que fizesse casa onde morasse e prantasse outra vinha, pôs outro homem casado, por soldado, na primeira, da qual recolhe agora não a metade, senão todo o fruto, que serão vinte pipas de vinho, que a vinha dá, e toda a criação das aves; o que é notoriamente mais proveitoso, além de andar mais aproveitada a dita vinha, porque se a arrendara, como outros fazem, não Ihe renderia mais que cinco mil reis, e os rendeiros a deitaram a perder, com a cansarem, deixando-lhe muitas varas, para dar muito vinho no tempo do seu arrendamento, sem olhar ao diante, como coisa que não é sua própria, de que pouco se doem. Também mete o trigo no granel por medida e medido o manda tirar, pelo que, faltando, vem a saber quem Iho leva e quanto Ihe levam; e por medida se dá a cevada ao cavalo, com tanta conta, peso e concerto como eu quisera que tiveram todos os homens desta ilha e o tomaram nesta parte por espelho, para se verem e viverem mais ricos e abastados do que são, por não quererem guardar ordem nas coisas, que é todo o ser e acrescentamento e conservação delas. Até os vestidos e alfaias de sua casa manda vir de fora, mandando pastel a Frandes, Inglaterra e a Sevilha, donde Ihe vem tudo escolhido, rico e mais barato, vendendo lá o pastel mais caro e custando as mercadorias mais baratas. Com a qual ordem tendo somente até trinta moios de renda cada ano, os faz chegar a sessenta e setenta, e com esta fazenda não ser muita, mantém grande casa e família e agasalha muitos parentes honrados e sustenta um filho no estudo, tendo já duas filhas freiras no mosteiro de Santo André de Vila-Franca do Campo e casou outra com Pero de Faria, da vila da Lagoa, a que deu em casamento cinco mil cruzados. E por seu pai Diogo Nunes Botelho ter comprado o ofício de contador destas ilhas por quatrocentos mil reis que deu por ele, e o lograr só um ano, pretende havê-lo com sobeja razão e justiça, e sobretudo ele e sua mulher Hierónima Lopes Moniz, filha de Adão Lopes e de Maria Moniz, ambos de muita virtude e amigos de Deus, o que é bastante prova para se crer o grande concerto de sua casa, pois o têm maior em suas almas.
Adiante, passadas poucas casas, está um portal e muro no caminho, com suas seteiras, como forte para resistência e defensão de imigos, se por aquelas partes desembarcarem; e, logo pegada uma ermida de Santa Maria Madalena, com seu virtuoso eremitão, de que se pode dizer muito, porque tem muita virtude; igreja de muita romagem, onde vêm em romaria, por dia de sua festa, quase todos os moradores da cidade e de sua comarca.
Pouco mais adiante, indo para loeste, passada uma pequena ponta de pedra de biscouto, está outro meio pico, que também parece que arrebentou com o fogo em algum tempo e se sumiu no mar a meia parte dele que falta; e no cume do que ficou está a forca, instrumento de justiça da jurdição da cidade da Ponta Delgada, caiada e bem lavrada, com suas ameias, que parece ali um castelo, do mar e da terra, ainda que o mais do tempo sem gente de guarnição, por se haver nesta ilha muita piedade dos soldados que o deviam povoar e pareceram bem nele, que por estar de contínuo tão ermo, parece que ou não há justiça na terra ou são justos e santos todos os vizinhos dela, o que, pelos furtos e insultos que vejo fazer, não sei como possa ser sempre.
Pegado com este castelo, sai um ilhéu ao mar, com alta proa, continuando com a terra, de compridão de mais de um tiro e meio de besta, e no cabo tem uma fenda larga até baixo, por onde o mar entra e sai; e fica, da banda do sul, uma parte dele pequena em que se criam muitas pombas bravas, onde um Domingos Gil que foi carcereiro na cidade da Ponta Delgada, levando uma grossa e comprida vara e atravessando-a no cume deste ilhéu, sobre a fenda, passava da outra parte por ela, a buscar pombinhos, dos quais tomava muitos e os trazia no seio, sem Ihe fugirem, mais seguros e guardados que os presos que ele não pôde bem guardar e sem asas voaram. Na outra parte deste ilhéu, da banda do norte, estão algumas quatro ou cinco covas, algumas já desfeitas e quebradas, estreitas nas bocas e tão grandes dentro como jarras ou tinagens sevilhanas, cavadas no tufo, que no tempo antigo fez ali um João Prestes, cavouqueiro, para encovar e guardar, como em granel, seu trigo nelas, como na ilha Terceira e em outras ilhas costumam fazer debaixo da terra para este efeito. Junto com a terra, quase tudo é uma pedreira de tufo, de que se tira boa pedra para as chaminés da cidade e de toda aquela comarca, em que caldeia melhor a cal que em todo o outro tufo que há pela ilha. Parece este ilhéu um cão, ali assentado com o rabo baixo para a terra, e a ponta dele alta para o mar, que semelha focinho de cão, com os pés ao longo da água, pelo que os antigos Ihe chamaram Rosto de Cão, o qual nome ficou a todo aquele lugar e comarca. Da costa da qual freguesia, começando de casa de Jorge Nunes Botelho, até este ilhéu, entrando pela terra dentro para o norte, estão terras de pedra de biscouto, que correu como ribeira em outro tempo, todas prantadas de ricas vinhas e pomares, com formosas e curiosas quintas, assim dos moradores dela, como dos da cidade, antre as quais tem o principado a de Francisco Mendes Pereira, contador que foi nesta ilha, filho de António Mendes Pereira, casado com Isabel da Gama, dos Gamas de Portugal e da ilha da Madeira, moça da câmara da Rainha D. Catarina; das quais vinhas se recolhem mais de mil pipas de vinho, mas não tão bom, comummente, como o da vila da Alagoa, ainda que já agora, de quinze anos a esta parte, o fazem muitos melhor e, pelo fazerem, por ele vieram a valer as vinhas muito mais que terras feitas e lavradas. Dantes soía valer uma pipa de vinho dois cruzados, mil reis e mil e duzentos; agora três e quatro mil reis e são tidas as vinhas por boas fazendas porque, além dos vinhos delas, se aproveitam muito das frutas, no Verão em seus passatempos, e melhor da lenha em suas necessidades que, por valer já tão cara, a têm em muita estima. Pela terra dentro, para o norte, um quarto de légua da cidade, antre as vinhas, está uma freguesia do lugar da Fajã, cuja igreja é da advocação de Nossa Senhora dos Anjos, ali mudada por a outra antiga se mandar derribar, por estar erma e longe. Tem trinta e seis fogos e almas de confissão cento e oitenta e duas, das quais são de comunhão cento e quarenta e uma; tem anexa uma ermida da Encarnação, perto. O primeiro vigairo foi Jorge Fernandes; o segundo, João Afonso; o terceiro, António de Bastos; o quarto, Roque Coelho; o quinto, Baltasar do Monte. Houve e há, nesta freguesia de S. Roque, homens nobres e ricos que, afora as ricas vinhas, têm suas fazendas e terras de que recolhem muito pastel e trigo. Além do ilhéu, está logo a ponta chamada de João Delgado, porque mora quase nela; e adiante uma ponta de biscouto ao mar, entre a qual e a de João Delgado se faz uma baía de pedra e calhau, onde às vezes varam barcos; e logo outra baía, da mesma maneira, antre outra ponta de biscouto, defronte da casa de António Ledo Panchina, filho de Joane Anes Panchina, na qual ponta se dá degredo, muitas vezes, a muitos forasteiros impedidos, além da qual começa a entrada da cidade da Ponta Delgada, que está da Alagoa légua e meia, e da freguesia de S. Roque meia légua.

O porto da Vila de Água do Pau, que distará dela por espaço de um tiro de berço, pouco mais ou menos, por outro nome se chama porto de Val de Cabaços, por estar no princípio daquele vale e fajã de terra chã e rasa com o mar, cercada de rocha e ladeiras de muitos moios de terra e biscouto de pedra, que toda, em outro tempo, antes de achada a ilha, correu de alguns montes que antigamente arrebentaram com força de fogo, e do que tem ali perto entre ele e a vila, com que fez biscoutos que serviam para vinhas, que tem, e terra feita para searas que nela agora se fazem de trigo e pastel. Tem em si montes pequenos e outeiros, onde há tantos coelhos que destruem as novidades e vinhas, que os antigos, quando iam por ali descobrindo a costa, viram coberta de umas flores grandes e brancas, de uma erva que se chama legação, de que ainda hoje em dia está bem bastecida, que pareciam flores de cabaças e por isso Ihe chamaram Val de Cabaços. Dista de Vila-Franca duas léguas; é muito bom porto e já fortificado com seu baluarte e cavas, até quebrarem os moradores de Água do Pau uma ponte de pedra de biscoito que ali estava, por onde se podia entrar a terra, com que agora fica amurada, além de um forte, mais defensável que forte, que fizeram em cima na rocha, donde um só homem, com pedras que dela deixe cair, pode tolher a desembarcação aos contrairos sem deles poder ser ofendido. Tem também um poço de água salobra junto do mesmo porto, e bom desembarcadouro e varadouro para os barcos de pescar e de cárrega, pegado com o qual, está uma ermida de Nossa Senhora da Concepção, que é a primeira que houve nesta terra desta advocação, onde foi o primeiro mosteiro de freiras de toda esta ilha e de todalas ilhas dos Açores, como a seu tempo contarei.
Logo pouco além do porto, haverá mais de sessenta anos, que na mesma rocha que corre por cima dele—e alguns dizem que só em um certo buraco que está no meio da dita rocha, não muito longe do porto, outros que também em outros buracos que estão no meio da mesma rocha, não muito apartados deste para a parte do ponente—se ouve um tom, que umas vezes, parece o tom que faz um picão quando o pedreiro lavra com ele alguma pedra, e outras vezes parece pessoa que tosse, pela qual razão Ihe chamam os vizinhos deste vale o Tussidor; ouve-se este tom todolos anos desde o começo do mês de Maio até fim de Agosto, e daqui por diante cessa, sem mais ser ouvido em todos os outros meses do ano, e ordinariamente se ouve de noite, e alguns dizem que algumas vezes de dia. Logo no princípio algumas pessoas haviam medo, mas perderam-no depois pelo costume de o ouvirem, principalmente vendo que não recebiam disso nenhum dano; tosse ou dá este gemido, a espaços, tossindo um pouco e cessando outro pouco, como uma pessoa que tosse, que não está sempre tossindo, senão de quando em quando. Dão disto testemunho Gaspar Pires, Sebastião Pires e seus filhos, Sebastião Lourenço e outros moradores de Val de Cabaços, por serem ali tão vizinhos; e o lugar onde mais se sente é na rocha defronte do porto, onde não somente os moradores daquele vale, mas outras muitas pessoas o têm ouvido, que de propósito vão ouvil-o; pelo que parece ser resfolgadouro ou respiradouro de uma talisca ou fenda de pedra que está naquela rocha, posto que pareça ser ouvido em partes diversas naquela concavidade de Val de Cabaços, onde soa como eco, respirando somente em uma que está na dita rocha, ou pode ser outra coisa semelhante, como se conta que se achou antre Douro e Minho, na freguesia de Santa Maria de Adaúfe, termo da cidade de Braga, no ano de mil e quinhentos e cinquenta e cinco, no mês de Julho, quando a terra está ocupada e adornada com diversidade de searas e árvores; quase não havia em toda ela lugar desocupado e vazio mais que aquele por onde os vizinhos e caminhantes frequentavam seus caminhos; andando toda a gente daquele termo neste tempo, solícita em seus trabalhos e serviço, segando os pães de dia e de noite, pela lua, com cantigas e festas, para alivio do cansaço, ouviram um desacostumado eco ou brado, como um grande gemido, que dizia: — Huu. E sendo deste soído as orelhas cheias de uns poucos de homens que andavam segando, começaram uns para os outros a perguntar se ouviam tão espantoso sinal, e respondendo todos que sim, estando quedos, sem bulirem com as espigas do pão, um pouco a escutar, calados, tornou a uivar com um só brado aquele eco dizendo: — Huu. Tanto que os lavradores o tornaram a ouvir, com muito medo e espanto se foram logo apelidar a terra e a manifestal-o a muitos que pelos casais e campos estavam, dizendo-lhe que andava um monstro naquela parte, o qual deitava de si uma voz espantosa de maneira que, indo uns e outros a ver e a ouvir, eram os campos cheios de gente, uns por um cabo, outros pelo outro, a buscar por antre os pães o que aquilo pudesse ser, sem ver nada, somente ouviram de quando em quando aquela voz; e para a parte onde a ouviram, arremetiam em quadrilhas com dardos, foices, espadas, lanças e bestas; e quando cuidavam por sua estimativa que estava isto antre seus pés, o tornavam a ouvir uivar, distância de um tiro de besta deles; tornando a correr para aquela parte, diziam uns aos outros:—aqui está, porque aqui ouvimos a voz; e tornando a escutar e a estar quedos, diziam uns contra os outros que aquilo era algum sinal, e nisto tornava a repetir aquele gemido mui sentido, claramente, desviada distância donde eles cuidavam, porque ora se ouvia em uma parte, ora em outra, e a gente sempre seguindo este animal, sem o verem. De maneira que todos em quadrilhas, espantados e desacoraçoados de medo e temor, andavam com meninos e mulheres que choravam, pelos campos, deixando seus serviços e dizendo que cedo havia de ser a fim; outros que seria algum demónio. Assim que uns de uma maneira, outros de outra, com diversos pareceres e opiniões, andaram atrás disto o dia, até que se cerrou a noite, e recolhendo-se todos; quando veio ao outro dia, se foram aos campos, onde depois das oitas horas por diante, o tornaram a ouvir, mas foi distância de meia légua do lugar passado; pelo que não havia homem que não acudisse daí a duas, três léguas, pela fama desta coisa e por estar a terra apelidada; tanto que não faltou logo quem fosse dar rebate ao Arcebispo de Braga Frei Bartolomeu dos Mártires, que é tido por santo em nossos tempos, antre os que sabem de sua vida e doutrina, e como tal renunciou a prelazia, o qual como prudente, não quis ao tal dar ouvidos; mas contudo, quando viu que com sobejas importunações o inquietavam os lavradores, informou-se de alguns, a quem se podia dar mais crédito. Concedeu então, mais pelos comprazer que pelo tal crer, dizendo que fossem lá dois ou três homens de sua casa, em que entrava um padre; partiram a cavalo e à volta deles algumas pessoas da cidade, mais para verem a novidade da coisa que por crerem que podia ser tamanha carantonha e tão feia, qual os lavradores a pintavam; saíram fora da cidade com alguns moços, que levavam armas e cães, e indo no meio do caminho, contra donde isto era, achavam alguns homens que vinham muito esbaforidos com a fugida, mui depressa, a contar o mesmo caso ao dito Arcebispo, mas, como já ia recado dele, voltaram atrás e quando chegaram perto donde andava aquele espectáculo, mais se espantaram os criados do dito Arcebispo da turba multa da gente, que atrás disto andava, que do que podiam ouvir nem ver. Assim que com grande tropel chegaram, perguntando se andava ainda o tal monstro no lugar passado, responderam muitas lavradores aos homens que de Braga foram:— Senhores, descansem das cavalgaduras e escutem, porque para aqui junto de nós, antre este pouco de trigo que está por segar, o hão-de ouvir; e ainda as palavras não eram ditas quando a alimária deu um grande urro, muito afastado donde eles cuidavam, porque já neste tempo andava seguida e medrosa do tropel da gente. Tanto que eles ouviram ser desviado donde dantes tinham demarcado com o juízo, começaram-se a benzer e a botar a cabeça sobre o ombro. Nisto, os principais que ali estavam se chegaram mais para onde ouviram o brado, com tenção de o escutarem de mais perto, antre os quais ia o cura da igreja daquela freguesia com cruz e água benta, para esconjurarem isto que quer que era, e pondo-se em ordem para o fazer, tornou o eco a dar a voz acostumada, espantosamente; e em a ouvindo um homem, que com os padres fora, respondeu, rindo- se: — Senhores, que fazeis? onde vimos? tornemo-nos para casa, que vergonha é andarmos tamanho exército de homens com armas atrás de um pássaro, dos quais há muitos em Itália que fazem o mesmo, e por sinal se chama este pássaro que ouvis Torcicol, que é pouco maior que uma codorniz e tem assim aquele brado, e tão raros são nesta comarca como ave Fenix; e isto podeis crer em certo e, se Ihe armardes com redes, o tomareis antre estas searas. Dito isto, ficaram os do exército com as bocas abertas, corridos, e cada um foi onde Ihe cumpria, salvo alguns que com cães e redes lhe armaram; e sobre tudo se viu no ar longe. Possível será que seja este tossidor deste porto de Val de Cabaços esta ave Torcicol, que virá de alguma terra nova aqui perto, no sobredito tempo de Verão e tornará no fim dele, todos estes anos em que se ouve, como atrás disse; se não for , que é respiração de algum espírito ou vento por aquela boca ou abertura da terra, que naquela rocha se acha, onde mais principalmente se ouve o seu brado, a que porventura algum discreto homem de Portugal que conhecia a ave Torcicol, vindo a esta terra e ouvindo-o em Val de Cabaços, diria que era a ave chamada Torcicol e, depois pelo tempo em adiante, os da terra esquecidos deste nome o corromperam e por dizer Torcicol, disseram Tossidor, tomando ocasião do seu canto ou pranto, que é como de homem que tosse.
Do porto pela terra dentro, para o ponente, espaço dum tiro de berço, está um pico grande, que em algum tempo dantes ardeu e arrebentou, de que correu grande parte daquela fajã de Val de Cabaços de pedra e terra, o que se mostra bem claro, pois tem o mesmo pico uma concavidade muito grande e no meio dela esteve antigamente uma figueira cotia, pelo que Ihe chamavam o pico da Figueira, e ao pé vinhas de um Diogo Fernandes Lixaria, que acabou mal na mesma figueira. Da outra banda do pé do pico para a parte do norte, está uma alagoa ou paúl de água, onde vai ter uma ribeira sem saída, mais que um sumidouro, que dizem ir por debaixo do pico ter ao mar; e logo para o ponente está situada a antiga vila de Água do Pau, chamada assim porque , indo por ali os antigos descobrindo a costa do mar, acharam uma ribeira que caía de um alto e não sabiam determinar se era pau, se água, mas chegando mais perto viram ser água que corria por um pau que ali estava derribado. Mas, segundo outros mais certos, vendo os primeiros descobridores da ilha cair pela rocha a água desta ribeira, curva e arcada, para o mar, Ihe parecia pau por onde a água corria, e uns apostavam com os outros que era pau, outros que era água, até que chegando mais perto viram ser ribeira, e pela diferença que tiveram sobre ela, se era pau ou água, ainda que por pau não corria, Ihe chamaram Água do Pau; o qual nome ficou a esta vila, que depois edificaram pela terra dentro, menos de um quarto de légua ao longo da mesma ribeira, que a corta pelo meio, de que herdou o nome; a qual ribeira se chama também a ribeira do Campo, por causa de um campo que está arriba da vila, ao longo dela, onde antigamente jogavam a choca; afora a ribeira do Paúl que Ihe fica da parte do oriente, e a ribeira Seca, que corre no Inverno da banda do ocidente; com que está em um vale assentada e regada, parecendo uma rica quinta e um deleitoso vergel, com seus pomares de muita fruta, abrigada do vento do mar com aquele pico que Ihe tolhe a vista dele, e do da terra, com a grande e altíssima serra chamada Vulcão, que ali se mete no mar do sul. E o porto dela, por onde se servem, a que chamam Val de Cabaços, fica com o rosto na ribeira do mar, da parte do oriente, e no meio dele e dela aquela grande fajã que parece querer fazer ali por si uma ilha rasa, com seus outeiros, e desapegar-se do espinhaço da serra grande que corre do interior do sertão onde fez a natureza, ou algum incêndio e terremoto, a alta e soberba serra tão humilhada e afilada e aguda até o andar do mar, que se espraia este esteiro ou terra corrida por aquela planície, que é à semelhança de manga, o fim da qual é quase como várzea; de maneira que contra o mar, da banda da vila, fica o pico Alto, de que parece claro que nalgum tempo arrebentou e correu aquela fajã e biscouto de viva pedra, fazendo aquela ponta delgada ao mar, que chamam de Galé, por parecer de longe desta figura e feição. Do sob pé do qual pico, da banda do norte, a vila está situada, e toda aquela chapa de serra, que jaz na vista do mar e de muitas partes da ilha, até o seu cume, é uma aprazível pintura, a mais dela obra da natureza e o menos da indústria dos homens, e antre a verdura dos alhos agrestes, que chamam bravos, grande parte dourada no mês de Maio com pampilhos, que eles já mais poderão desinçar dela; e, segundo a opinião dos mesmos moradores, não é a terra tão má que de si mesma tal criasse, antes afirmam vir a amargosa semente deles de fora, a qual trouxe do Algarve um Afonso Lourenço antre uma pouca de linhaça, como também dizem serem prantadas as primeiras parreiras em baixo, naquela fajã junto da ermida já dita , por um antigo ermitão chamado Joane Anes.
E, como é abastada de águas e moendas, não Ihe falta lenha de que é bem provida, principalmente de faias e urzes que tornam a arrebentar depois de cortadas, arriba da vila, em um salão como o da ilha de Santa Maria, de que se aproveitam os moradores; e se foram aquelas, grandes terras, nunca naquela vila faltara lenha, pois as poucas árvores tornam a arrebentar com tanta abundância. Tem esta vila um boa igreja de naves, da advocação de Nossa Senhora dos Anjos, da festa da Assunção; é freguesia de duzentos e cinquenta e três fogos e almas de confissão oitocentas e setenta, das quais são de sacramento seiscentas e sessenta e sete. O primeiro vigairo foi um Frei João e o segundo, Frei Pedro, ambos da ordem de Cristo; o terceiro, Fernão de Alvres; o quarto, Duarte Fernandes, natural de Guimarães; o quinto, António de Araújo, dos nobres da terra—todos três sacerdotes da ordem de São Pedro.
O primeiro beneficiado na mesma vila foi Simão Pires; o segundo, Manuel de Crasto; o terceiro, Adão Vaz; o quarto, João Pires; o quinto, Baltasar de Sousa; o sexto, António de Araújo, que agora é vigairo; o sétimo, Manuel Coelho; por falecimento de Manuel de Crasto, sucedeu no seu benefício António da Rocha, e por sua renunciação foi provido nele António da Mota, e renunciando-o, o houve Jerónimo de Brum, filho de Diogo Salgueiro e de Helena de Brum; e agora criou novamente o Bispo D. Pedro de Castilho um benefício novo, que serve Álvaro Gonçalves, com que há neste tempo na dita freguesia, quatro beneficiados e um tesoureiro. O primeiro cura foi Francisco da Ponte; o segundo, Crisóstomo de Oliveira de Vasconcelos. Há nesta vila uma ermida da Trindade que fez uma virtuosa beata, chamada Margarida Afonso; e outra ermida de Nossa Senhora do Rosairo; e outra de São Pedro, junto da Ribeira Seca, que Ihe fica da parte do ponente.
Sendo lugar esta vila de Água do Pau, a petição de seus moradores, na era de mil e quinhentos e quinze anos, aos vinte e oito dias do mês de Julho do dito ano, estando el-Rei D. Manuel em Lisboa, o desmembrou de Vila-Franca e o fez vila com meia légua de termo ao redor; e António Paes fez o alvará de el-Rei, por onde foi feita vila, o qual alvará, com o livro da Câmara em que se fez a primeira eleição dos primeiros oficiais da Câmara na vila, levou a ribeira em uma enchente que veio por dia de São Miguel, pela manhã , quando também levou as ameias do meio, quando alcançava o arco da ponte da vila da Ribeira Grande, onde veio a ribeira pela praça, trazendo paus brancos e cedros e outra lenha e eirós, que se tomaram e apanharam na mesma praça da Ribeira Grande. E o alvará da vila de Água do Pau não se perdeu, somente se molhou, mas o livro da primeira eleição se não pôde achar, por a ribeira que vai pelo meio da vila, com a cheia, o levar juntamente com a casa do concelho; pelo que não pude saber quais foram os primeiros vereadores, nem o primeiro procurador do concelho na dita vila; ainda que alcancei serem os primeiros juízes ordinários João Alvares e João Afonso, cavaleiros, sendo no mesmo ano ouvidor do eclesiástico em toda a ilha Frei João, vigairo da dita vila de Água do Pau, que naquele tempo se chamava capelão perpétuo ou confirmado, como os outros vigairos das outras igrejas da dita ilha, em que também, no mesmo ano de mil quinhentos e quinze, por mandado de D. Diogo Pinheiro, Bispo do Funchal, era visitador um Vasco Afonso; e no ano de mil quinhentos e vinte e cinco, em os dez dias do mês de Novembro, foi arrematada a igreja Matriz de Nossa Senhora dos Anjos, da dita vila, assim de obra de cantaria, como de carpintaria, juntamente, a um João Fernandes, carpinteiro, morador no lugar da Alagoa, por cento e vinte mil reis, por outra que dantes tinha ser caída no tempo da subversão de Vila-Franca. Há nesta vila de Água de Pau uma bandeira de duzentos e cinquenta homens de armas. O primeiro capitão que houve foi Gaspar Pires, o Velho, e seu alferes, Amador Coelho e sargento, Salvador Daniel; o segundo capitão, Matias Lopes de Araújo; o terceiro, Miguel Lopes de Araújo, e sargento, Gaspar Afonso Fagundo; e, por falecimento de Miguel Lopes, foi eleito quarto capitão Roque Jorge, que agora tem o cargo; depois se fez uma companhia de que é capitão Salvador Daniel. Morou sempre nesta vila gente nobre e poderosa: Araújos, Pavões, Oliveiras, Pretos e Manuéis, afora alguns moradores de Vila-Franca, que são em tudo mais antigos. Muitos filhos dos homens nobres de Água do Pau foram dos primeiros desta ilha servir a el-Rei em África, à sua custa e de seus pais, os quais alcancei serem Pedro Anes Preto, pai de Gaspar Pires, de Água do Pau, e de João Pires, escrivão que foi na cidade, da mesma vila, e de Sebastião Pires, de Água do Pau; e de Gaspar Pires, seu filho, sogro de Miguel Lopes de Araújo; e Manuel Afonso Pavão com três filhos seus, sc., Pero Manuel e João Manuel e Pero Manuel, o Moço; e Gaspar Manuel e André Manuel, filhos de Pero Manuel, o Velho; e Estêvão de Oliveira e Guterres Lopes, genros de Manuel Afonso Pavão; e João Jorge e um seu filho, Bartolomeu Jorge, que lá faleceu em África.
Levaram seus mantimentos, para eles e para seus cavalos, com cevada e palha e carnes e vinho, com seus criados e moços de serviço; os quais foram em África armados cavaleiros em diversas saídas que fizeram contra mouros, principalmente quando tomaram um lugar deles, que está não muito longe de Arzila, chamado Benahamed; e no ano de mil quinhentos e vinte e um, antes do dilúvio de Vila-Franca, vieram ter a Água do Pau armados cavaleiros e foram recebidos com muita festa. Dali a poucos dias, em dia de Nossa Senhora da Assunção, a quinze de Agosto, que é a advocação da freguesia da mesma vila, repicando os sinos em louvor da mesma festa, se alvoroçaram tanto os cavalos, que de África trouxeram, na estrebaria em que estavam, com o costume que de África traziam, que não havia soltas nem cadeias que pudessem com eles, parecendo-lhe que era ou havia de haver escaramuça, como em África se costumava haver quando tangiam os sinos, em algum rebate de mouros. Da mesma vila de Água do Pau saíram os primeiros dois letrados legistas que a terra deu: o primeiro, Diogo de Vasconcelos, homem fidalgo, que nesta ilha foi ouvidor do Capitão muitos anos; o segundo, João de Teve, que teve cargos honrosos de judicatura no Reino. E ainda que o padre Pero Gago, natural da vila da Ribeira Grande, que depois foi vigairo na cidade de Ponta Delgada muitos anos, fosse o primeiro que desta ilha cantou missa fora dela, em Salamanca, depois dele cantaram também as primeiras missas novas, nesta vila de Água do Pau, três naturais dela: o primeiro, o padre Manuel de Castro; o segundo, Adão Vaz; o terceiro, João Pires. Pelo que parece que, se não em todas as coisas, ao menos nestas tão honrosas, colheram os moradores desta nobre vila de Água de Pau as primeiras primícias, e sarou a Água do Pau os males da preguiça e descuido que os antigos moradores de toda esta iIha tinham com grande viço e mimo dela. Tem a dita vila juízes e vereadores e almotacés da terra e dois escrivães; e os moradores têm agora medianamente de comer, por ser terra de pouca lavrança e o mais de pastel, que se leva a granar à cidade da Ponta Delgada; pode carregar e deitar fora de si, cada ano, de boas novidades, até cento e cinquenta moios de trigo, que se pode carregar em navios, em seu porto de Val de Cabaços que por não haver nela muitas carregações não se aproveitam dele, senão em batéis, para serviço da dita vila.
Do porto de Val de Cabaços até à Ponta da Galé será um quarto de légua. Passando a ermida de Nossa Senhora, correndo pela costa, um tiro de besta, está uma furna com a boca aberta, que o mar lava por baixo, em cima da qual se dá feno; e por toda aquela costa, que é rasa com o mar, até à Ponta da Galé, são terras de pão, moledos e biscoutais de vinhas. Antes de chegar à Ponta da Galé, quase junto dela, está uma vasa, onde entra o mar pela terra, pouco espaço, até chegar quase às vinhas, onde com tempo de maresia e antrelunhos entra muito pescado de toda a sorte e fica em certos currais, que ali têm feitos de parede, em os quais se diz que vai ter a água da ribeira do Paúl, que se sume na alagoa do mesmo Paúl que está detrás da igreja principal da vila de Água do Pau, e parece ser assim, porque naqueles currais se cria muita minhoca, com que pescam ao peixe, e muitos cranguejos; onde acode muito peixe por razão da água doce que ali parece arrebentar, como arriba de Diogo Preto, nas Fontes, junto do Forninho, que atrás tenho dito, e tanto se toma que às vezes carregam carros com sebes cheias de peixe de toda a sorte. Dali um tiro de besta, se estende pelo mar a ponta que se chama da Galé, por ter feição de galé e aparecer de longe uma baixa que está a par da terra, espaço de um tiro de besta, da banda do nascente da ponta, onde passam batéis por antre ela e a terra e é uma ponta notável muito metida no mar. Da Ponta da Galé pouco espaço sai ao mar uma pequena ponta que chamam Ponta Gorda e Ponta de Alta Serra, por se começar nela uma grossa e alta. Correndo assim a costa, faz volta a terra para o norte até à vila da Alagoa, que está norte e sul com a dita ponta, começando uma grande baía, até à Ponta de Santa Clara, além da cidade, com muitos pesqueiros, onde morre muito pescado, por espaço de um quarto de meia légua, até chegar a um lugar de biscouto miúdo e áspero de pedra seca, que se chama o Jubileu, por irem lá poucas vezes, onde esta uma fajã, de quantidade de um alqueire de terra, com um figueiral de muitos figos bacorinhos, longares, brancos e pretos; e para a parte do norte muitas e boas vinhas e terras de pão, por derredor, que tudo foi de Manuel Afonso Pavão e agora é de seus herdeiros. Dentro no mar, defronte dele, quantidade de um jogo de mancal, está um ilhéu de pedra, de altura de duas lanças, de meio alqueire de terra em cima, no qual estão prantados alguns pés de parreiras e há feno e se criam pombos e garajaus nele, em que se não pode entrar senão com maré vazia. Dele para diante, há muitos pesqueiros e vinhas e terras de pão, por espaço de um tiro de besta, até chegar ao porto que se diz de Manuel Afonso, de cujo dono foram todas estas terras, as quais estão agora aforadas, por obrigações de capelas por sua alma. No qual porto podem entrar batéis e embarcar e desembarcar seguramente e nele entram as ribeiras que vêm de riba da vila de Água do Pau, que são duas e ali se ajuntam em uma à saída ou entrada no mar, sobre que os antigos tiveram a diferença já dita, se era pau ou água, de que a vila tomou o nome de Água do Pau, como atrás tenho dito.
Dali para diante corre um areal grande, com algum calhau, por espaço de meia légua, até chegar à Ponta Gorda, chamada assim por ser romba e ficar a rocha alta da banda da terra. Da Ponta Gorda corre a rocha alta, de vieiros de terra e pedra, um quarto de meia légua, até chegar à Grota Funda que tem este nome por ela o ser. Dali por diante começam as rochas da Quinta do Conde, chamadas assim, não por serem ou por haverem sido de algum conde, senão por os segadores andando ali segando e chamarem, por este respeito, àquela terra a Quinta do Conde, por o segador escolhido e avantajado entre todos dizer aos outros que era ali a sua quinta, donde Ihe ficou o nome Quinta do Conde, sem ele o ser, senão postiço entre segadores. Outros afirmam que havia em Vila-Franca do Campo um homem abastado e que se prezava muito de si, pelo que Ihe chamavam conde, o qual, não sendo pescador, tinha um barco seu em que pescavam alguns, pagando-lhe a sua parte, no qual ia ele algumas vezes, no Verão, com sua mulher, e três filhas formosas, de Vila-Franca à fajã do Faial, que está nesta costa, a gozar da sombra das faias e das águas das frescas fontes que por ali há; e quando ia e tornava perguntado, respondia que ia para a sua quinta ou vinha dela, pelo que ficou a este lugar, abaixo desta terra e rocha, o nome de Quinta do Conde.
Correm por estas rochas, em distância de meia légua, muitas fontes de muito boas águas e se criam nelas muitas rabaças e agriões e aipo. A primeira, que tem muita quantidade de água, se chama a fonte de Maria Esteves, por estar na terra de uma mulher de Diogo de Oliveira, assim chamada; logo daí, quantidade de um tiro de besta, outra fonte muito fresca de grande cópia de água, que também nasce em meia rocha, acompanhada de agriões, aipo, rabaças e outras ervas, onde pascem os gados; e daí um tiro de pedra, está a fajã que chamam o Faial, por ter antigamente mato de faias, de que naquele tempo se proviam de lenha os mareantes, estando ancorados no porto dos Carneiros da vila da Alagoa. Desta fajã para loeste, estão duas fontes, ornadas com rabaças, agriões, junça e outra verdura, que se chamam fontes de João Jorge, por serem aquelas terras, no tempo passado, de João Jorge e de outros seus herdeiros. Daí a um tiro de besta, está uma rocha brava, com uma ponta que se mete no mar quantidade de um tiro de pedra, onde se chama, pela razão já dita, o pesqueiro de João Jorge, avô do Padre Manuel Vaz, beneficiado que foi na Ribeira Grande; e nesta ponta vai beber uma grota, chamada do Limite, por se partir por ela o termo dantre as duas vilas vizinhas, Água do Pau e Alagoa. Dali por diante, espaço de um tiro de besta, corre uma praia de areia e calhau, ao longo de uma alta rocha de terra maninha, até uma ribeira seca, que não corre, nem leva água, chamada a ribeira de João Jorge, pela razão já dita. Dali por diante, haverá quantidade de meia légua, pouco mais ou menos, de rocha mais alta, sem fontes, nem criações de gado, até à vila da Alagoa; no meio da qual rocha, em cima, nas terras feitas, está um pico não muito alto, à maneira de lomba, em que está a forca, instrumento de justiça da mesma vila, mal edificada, com seus três paus sem baraço, e peor povoada, sem ladrões, que quase em nenhum tempo se enforcaram nem enforcam nela; e logo a vila da Alagoa, que está légua e meia da vila de Água do Pau, que atrás fica.

O antigo lugar da Povoação Velha, assim chamado a respeito das outras povoações de toda a ilha que depois dela se fizeram, se a fortuna a favorecera, por sua antiguidade pudera pretender maior e melhor lugar antre todas elas; mas, os acontecimentos das coisas são assim, que às vezes o derradeiro é primeiro e o primeiro vem a ser o derradeiro; ainda que o não é esta aldeia em tudo, porque está situada e bem assentada em uma muito fresca fajã de até doze moios de terra, que dá trigo e cevada, pastel e todos os legumes, e deu já, no tempo dos açúcares, quando logo se começaram a fazer nesta ilha, grande canavial de canas dele; além de ser a comarca dela que deu as primícias de todos os frutos e foi a pedra de toque em que se tocaram os quilates do ouro e preço de toda a ilha, respondendo com grande fertilidade e muito mais do que o desejo do avaro lavrador cuidava, nem esperava, sendo todos os frutos os melhores desta ilha e das ilhas, como já atrás tenho relatado. Está cercada esta fajã e aldeia de altas rochas e ladeiras, todas cobertas de fresco arvoredo, vinhas e pomares de árvores de espinho e outras fruteiras de diversas pomagens, parecendo uma grande e formosa praça, armada ao redor toda de panos de verduras e diversas cores e de rica tapeçaria, não faltando ali a verde hera, abraçada com os antigos troncos de alto arvoredo, e pelos altos rochedos os medrosos coelhos por antre eles, nem os solitários e seguros passarinhos com suas cantilenas, com que fazem saudoso aquele deleitoso bosque, nem os pombos torquazes, quase soberbos e briosos com este nome, que alcançaram do nome Torques em latim, que em linguagem quer dizer colar, e eles são como azuis, que tiram a cinzentos e têm um colar branco pelo pescoço, antre as penas douradas, e por serem assim acalorados se chamam torquazes, por terem o torques ou colar ao pescoço; pelo que, com seu brio, estes azuis são piores de tomar e têm mais resguardo em si que os pombos pretos que, como tolos, com laços que à mão tente Ihe deitam no pescoço, se deixam tomar facilmente. E para selo da frescura ser mais fresca, pelas ladeiras e rochas caem quatro grandes ribeiras e nove frescas fontes, algumas, com que podem moer azenhas, que correm todo o ano e antes de chegar ao mar se ajuntam todas, assim ribeiras, como fontes, em uma só ribeira, em que está um moinho, chamada a Ribeira Maior, a respeito de outra que corre de outra banda do lugar, ao ponente, antre as quais está assentado e quase nadando como o peixe na água. Da banda de leste, da outra parte da grande ribeira, que sai ao mar, está uma ermida de Santa Bárbara, que foi a primeira igreja que se fez no mesmo lugar da Povoação, onde se celebrou a primeira missa que na ilha se disse: e às vezes enche tanto esta ribeira, com as muitas águas que nela se ajuntam, que se faz tão grande como o rio Mondego, que passa por Coimbra, ou como outro de Portugal ainda que maior seja, e leva do mato muita madeira e penedia com que vai fazendo tão grande arruído e estrondo que faz alevantar todos os moradores de noite, com temor dela; pela qual entram do mar muitas tainhas, além dos infinitos eirós que em si cria, e na boca dela entram sargos e outras sortes de pescados, que, com tresmalhos e tarrafas, tomam ali nela os vizinhos daquele povo. E, segundo conjectura e parecer dos antigos, e por sinais evidentes que se acham debaixo da terra, como é cascalho e areia, foi esta fajã no tempo antigo mar, como a dos Mosteiros e outras desta ilha, e depois se fez fajã de terra, com a que correu pelas ribeiras que nela caem e a ela vão ter, com as enchentes das grandes chuvas do inverno. E, no tempo de um João Loução, fez ele uma caravela junto de sua casa, por chegar ali o mar, que agora está afastado dela dois tiros de besta. Há nestas ribeiras e fontes muitas rabaças e agriões e aipo, e todas as fontes criam eirós, como as mesmas ribeiras. Os figos brejaçotes e toda a mais fruta. assim de espinho como de outras fruteiras, é a melhor de toda a ilha, como também os vinhos são os melhores de quantos ela produz. É finalmente toda a comarca deste lugar terra que logo no descobrimento desta ilha se enjeitou como estéril e pouco proveitosa, por ser muito forte; e agora, depois que a gente cresceu, a tornou a experimentar como terra nova, semeando trigo e prantando muitas vinhas em terra, como em Portugal, porque não tem biscoutos, com propósito de as terem por granjearia. Os herdeiros de João de Arruda da Costa têm nesta freguesia muita ou quase toda sua fazenda, procedida de seus avós, e fazem agora muita destas propriedades, pela razão já dita. O primeiro deles, que agora novamente fez ali casal e pumar, é Rui Tavares, filho de Pero da Costa, capitão- mor das ordenanças em Vila-Franca do Campo, de que este lugar e o Faial são sufragâneos. É terra de boas e grandes criações e muitos matos até às Furnas, uma légua dela pela terra dentro para o norte, que dá grossa granjearia de madeira aos outros moradores dela, e para todos eles dá trigo em abastança e dará daqui adiante mais, porque já se dão a ele.
Este foi o primeiro porto a que aportaram e em que desembarcaram os primeiros e antigos descobridores desta ilha, e aqui se disse a primeira missa em uma ermida de Santa Bárbara, que mandou fazer um Mateus Dias, homem honrado. Aqui fez o primeiro assento aquele antigo Gonçalo Vaz, o Grande, em tudo grande, na progénia de grandes e nobres descendentes e nas obras de virtude, no exemplo e na fazenda, que não somente neste lugar, mas em outros da ilha, deixou a seus herdeiros.
A terra deste lugar da Povoação tem três camadas sobre a terra boa, que era dantes. A primeira sobre a mesma terra boa é de cinza dois palmos em alto; a segunda, em cima desta, é pedra pomes que tem perto de três palmos de alto; e a terceira camada, que está de riba, é cinza da altura de dois palmos; e tudo isto desta maneira se conjectura que caiu sobre a superfície da terra, quando arrebentaram as Furnas, dali duas léguas, ou o pico delas ou outros ali chegados. Esta terra, pela folhagem das ervas ou folhada do mato que pelo tempo cresceu, com que estava estercada, depois que a roçavam, dava muito pão ao princípio, com aquele esterco, e por isso está ali uma lomba, chamada a Lomba do Pão, por o dar naquele tempo muito; e depois, por se gastar o esterco, ficou menos fértil e não deu pão muitos anos, mas já agora a começam a cultivar e dá algum fruto.
Aqui está o lugar onde estava a faia, ou ginja, ou zimbro, ou qualquer outra árvore que fosse, em que se fez a primeira justiça nesta ilha, quer fosse mandada fazer por Jorge Velho, quer por Gonçalo Vaz, o Grande, ou pelo Capitão Frei Gonçalo Velho, em um alto de uma baixa rocha, junto da ribeira, que fica do lugar para a parte do ponente, em que enforcaram o homem que veio da ilha de Santa Maria e primeiro pôs os pés nesta terra, para tão prestes Ihos alevantarem dela.
Antre as duas ribeiras, tem uma igreja que mandou fazer João de Arruda e seus filhos, da advocação de Nossa Senhora dos Anjos, cuja festa principal se celebra aos quinze dias do mês de Agosto; mas, por andarem neste tempo ocupados os fregueses em recolher suas searas e em outros trabalhos, celebram agora esta por dia da Natividade de Nossa Senhora, a oito de Setembro. É freguesia de cento e três fogos e duzentas e trinta e oito almas de confissão, das quais são de sacramento cento e quarenta e oito. O primeiro vigairo foi Baltasar Pires, por alcunha o Malícia; o segundo, Fernando Rodrigues; o terceiro, Baltasar de Sousa; o quarto, Francisco de Aguiar que agora serve.
Da Povoação para a parte de loeste, corre um pouco espaço de costa de pedra e calhau roliço, e da parte da terra, uma alta rocha até uma pequena ponta, da qual até à outra, que se chama do Garajau, por ali se ver algum, que está além de uma ribeira mediana e fresca, chamada dos Agriões, pelos criar muitos, acompanhada, de uma parte e outra, de graciosos arvoredos, que será meia légua da Povoação até à dita Ponta do Garajau, se faz uma enseada, dentro da qual, defronte da dita ribeira dos Agriões, está uma baixa, rasa, do tamanho de um alqueire de terra, que se chama a ilha de Mateus Dias, porque saindo ele a folgar, pescar e mariscar nela, mandou o batel a Vila-Franca, para da tornada o tornar a tomar, e alevantou-se o tempo de tal maneira que, tornando o batel para o recolher não pôde chegar à baixa senão com muito trabalho e com grande risco de perderem todos as vidas, estando já a baixa quase coberta de água. Da ribeira pequena, que disse, corre do mar uma ponta de pedra alta, onde ela é alcantilada, que se chama, como tenho dito, Ponta do Garajau, por aparecer ali algum muitas vezes, ou porque pegada com ela, onde se chama a Escada na Rocha, está uma pedra, feita pela natureza, por onde descem abaixo, ao longo do mar, em que estava um buraco que passava a terra da outra banda, por onde se via o ar branco e alvo que de longe parecia garajau, e agora está já atupido; com a qual faz uma grande enseada, abrigada dos ventos ponentes. Passada a Ponta do Garajau, dela até à Ponta de Simão Figueira antre estas duas pontas, está uma enseada de areia, tanto como um tiro de arcabuz, e logo adiante da Ponta de Simão Figueira, em uma baía de compridão de um tiro de berço, que se faz antre seu penedo e antre outra ponta chamada o Rosto Branco, por ser a mesma ponta de terra branca, onde estão fajãs que terão cinco moios de terra, que têm vinhas e dão pão e pastel, está a Ribeira Quente, de muito boa e copiosa água, por causa que se ajuntam nela as três ribeiras das Furnas, sc. a Quente e a outra que corre pela fábrica da pedra hume, que se chama a Ribeira que Ferve, e a outra chamada Ribeira Fria e alguns outros regatos pequenos, deles, das mesmas Furnas, e outros doutras partes; na qual ribeira entra muito pescado, onde com não pequeno gosto e grande passatempo, fazem os principais da terra e alguns sacerdotes e religiosos e alguns nobres estrangeiros, no Verão, grandes e ricas pescarias.
Da parte do Rosto Branco, a dois tiros de espingarda, antes de chegar ao direito, onde demanda a ribeira de Diogo Preto, está o Forninho, chamado assim por uma figura que a natureza fez ali naquelas pedras, da feição de um forno, onde está um recife, ainda que pequeno, todavia muito proveitoso aos barcos de pescar e a outros que navegam nesta costa, onde se acolhem, tomando-os nesta paragem algumas tormentas; e direito do Forninho para o mar, tanto como um tiro de pedra, está uma baixa grande, que terá vinte varas de medir pano, de comprido, e três de largo, antre a qual e o Forninho, saem no mesmo mar três olhos de água doce, como três canos, com uns borbulhões e olheiros dela na superfície da água, como em triângulo, tão afastados um do doutro como dez palmos, pouco mais ou menos. Um deles que está mais ao pego, é tão grosso como a coxa de um homem; os dois são iguais, tão grossos como a haste de uma lança; todos três tão apartados da terra como um tiro de pedra, saindo com tanta fúria, que dizem alguns que algumas vezes sobre a água do mar a tomam para beber naquela fervura. Mas, o mais certo e comum é que se toma ali água doce dentro na água salgada do mar, onde ela toda está misturada no fundo dele, mas não na superfície, com uma invenção, de que dizem ser inventor um Fernão Roiz, vigairo que foi da Povoação Velha e beneficiado depois em Vila-Franca, sendo muito velho, metendo um pichel com a boca cerrada, atado pela asa com um atilho e com outro pela tapadoira cerrada, levando um peso que o leve ao fundo e sendo em baixo, Ihe tiram pelo atilho da tapadoira e, aberto o pichel, recebe aquela água doce, e enchendo-se dela e tornando a afrouxar o cordel e deixar cair a tapadoira, ficando ele cerrado, o tiram de baixo, do fundo, pelo outro cordel da asa, e assim vem cheio daquela água doce, como se fora tomada em uma fonte cá da terra, porque trazem tanta força aqueles olhos de água, que afastam de si água salgada do mar e vem doce quase até à superfície dele. Uns suspeitam que vem esta água destes três olhos, da lagoa das Furnas, que está dali uma légua pela terra dentro, para o norte; mas, a mais certa conjectura é nascerem da ribeira de Diogo Preto, que dali quase uma légua, naquele mesmo direito, se consome dentro na terra, na lagoa Clara onde entra a ribeira sem crescer a alagoa e se consume ali em areia branca e parece sem falta vai por debaixo da terra aquele espaço, perto de uma légua, e entrando no mar torna a sair com os três olhos ditos, antre a baixa e o Forninho, que já disse. E não é muito ser assim, pois da mesma maneira se sume na terra, na ilha de Santa Maria, não longe do Castelete, para a parte do sul, uma fonte grande e vai sair, por debaixo da rocha e de umas fajãs, ao lível do mar, que não aparece senão com a maré vazia; e outras coisas maiores, desta sorte, há no mundo; para o que se há-de notar que vindo aquele espaço por onde a água vai ou for acanalada, ou como por canal, ou reçumada, se chama rio sobterranho do mar, como vai o rio Alfeo, por debaixo do mar Jónio, do boqueirão em que se sume e funde na Moreia, que é em Grécia, até que arrebenta a cabo de mais de cem léguas que há corrido por debaixo do mar em a Fonte Arethusa, perto da cidade de Çaragoça de Sicília, o que mostra a experiência, pois tudo o que se deita onde este rio se funde sai na Fonte Arethusa em Sicília; como se conta que, quanto deitam em Grécia, junto do monte Olimpo no rio Alfeo, tudo vai por debaixo do mar e sai em Sicília, nesta fonte chamada Arethusa, e por isso o grande poeta Virgílio, na décima e última égloga que fez em nome do pastor Menalcas, que começa: — Extremum hunc Arethusa mihi concede laborem — falando com a principal musa das sicilianas, a que atribui o nome desta Fonte Arethusa, a qual os antigos fingiram que, fugindo de AIfeo, mancebo que a seguia, muito suada de correr, se tornou em fonte, porque, como tenho dito, o rio Alfeo que nasce no Peloponeso, em Grécia, sumindo-se na terra, vai sair na cidade de Çaragoça, da ilha de Sicília e faz esta fonte chamada Arethusa, de que diz Ovídio no livro de suas Transformações, no lugar onde diz: — Arethusa in fontem — que Arethusa era uma ninfa que do muito suor que suou, fugindo de Alfeo, caçador que a perseguia na montanha, até Ihe fugir, além do mar, à Sicília, lá se tornou com seu suor em fonte e o Alfeo, em o Peloponeso, em o rio Alfeo: de que faz mui doces versos Virgílio, falando com a musa, que chama Arethusa, como a mesma fonte, pedindo-lhe o poeta que o favoreça naquele derradeiro trabalho, que queria tomar, de compor aquela final égloga, em louvor do poeta Galo, grande seu amigo, Ihe diz, antre outros, estes dois versos: Sic tibi cum fluctus subter labore sicanos Doris amara suam non intermisceat undam.
como se dissera: — Musa, chamada Arethusa, como a fonte de Sicília, favorecei-me, neste derradeiro trabalho; assim Doris que é a água) não misture a ti sua água salgada, com a água do rio Alfeo, de que tu nasces, quando suas correntes passam por baixo das ondas sicilianas, ou fluctos sicanos.
E desta mesma maneira se pode crer que vão muitos rios debaixo do mar pelos caminhos sobterranhos que têm feitos, como também o rio de Manicongo, um dos grandes que no mundo sabe de água doce, que é de largo duas léguas e de alto, em toda a boca e muito dentro, sessenta braças, dizem que entra pelo sertão trezentas léguas e que traz tanta força que pelo mar faz corrente ao longo da costa cinquenta léguas; o qual rio, terra de Congo, é Portugal mil e setecentas léguas. Como também em França, o rio Ródano vai e leva sua corrente por meio do lago Remano sem misturar suas águas com as do lago, e sai tão grande como entrou, ainda que o lago Remano seja de dezassete léguas em comprido; e o rio Guadiana que tomou o nome de Guadal, nome mourisco que significa água, e de Suano, sétimo Rei dos antigos de Espanha, é um rio notável, cujo primeiro nascimento é em umas alagoas em terra de Alhambra, perto de quatro léguas da vila de Montiel, e depois de correr obra de oito léguas pelas entranhas da terra, torna a nascer, junto da vila de Daimiel, em outra alagoa, a que chamam os Olhos de Guadiana, perdendo o nome primeiro de Rodeira, e é rio que folga de nascer muitas vezes e sem estes o faz outras vezes, sumindo-se em outras partes debaixo da terra e tornando a nascer; como no mapa de Espanha se vê, que em Castela, não muito longe da povoação de Puebla de Alcácer, se sume na terra e indo por debaixo dela, dali a dez léguas, perto de Vila Nova torna a sair e vai por Mérida, pelo que se soe a perguntar: — qual é a ponte que no estio sustenta sobre si e cabem nela quatrocentas mil cabeças de gado? e responde-se: — que é este espaço de dez léguas de terra, por debaixo do qual vai o rio Guadiana, que com sua humidade tem ali erva fresca na força do estio, quando falta em outras partes, e pastam nestas dez léguas as quatrocentas mil cabeças de gado, ou quarenta mil, como outros dizem. Em Itália, o rio Pado, que também por outro nome se chama Eridano, onde caiu Phaeton, filho do Sol, de que fala Lucano, no segundo Livro, sai com sete bocas ao mar, a maior das quais chamam o Pó, que quer dizer Pado; diz dele Virgílio: — Suumque in mare alveum servat, porque corre longe pelo mar, até se encontrar com o rio Istro da outra parte, e os que por ali passam tomam dele água doce: como destes olhos de água doce da ribeira de Diogo Preto, que vão sair dentro no mar, matam sua sede os barqueiros e passageiros que com mar bonança por aquele lugar fazem sua viagem. O rio Eufrates se sume também pelas areias e depois torna a sair e dizem que é o rio Nilo, como conta Virgílio, e Cícero na quinta Verrina. E como desta maneira vão muitos rios por debaixo do mar, pelos caminhos sobterranhos que têm feitos, assim parece claro a quem vê a ribeira de Diogo Preto sumir-se na lagoa Clara, que em baixo tem areia branca e que dali vai, por debaixo da terra e do mar, sair no mesmo mar, no direito dela, com estes olhos de água que dela nele nascem, como tenho contado.
Direito do Forno ou Forninho saem três fontes juntas da rocha, duas de água doce e a do meio como vinagre. Do Forno à Ponta da Lobeira, para o mar, haverá um tiro de arcabuz; a qual Lobeira é uma baixa metida no mar tanto espaço que passam navios por antre ela e a terra, e há nela muitas cracas e mariscos. Chama-se a Lobeira por se ver nela um lobo marinho. Da Ponta da Lobeira até à outra ponta adiante, chamada Tufo, por ser pedra mole, haverá um tiro de escopeta e antre elas fica a ribeira do Leitão, que cobrou este nome, por um bravo, que ali se tomou e comeu. Logo adiante, também um tiro de arcabuz, sai ao mar uma ribeira que se chama da Amora, por haver muitas amoras ao longo dela, defronte da qual, metido no mar, está um cais de pedra, como espigão feito pela natureza, agudo para o mesmo mar, de vinte varas de comprido e uma de largo, antre o qual e a terra haverá um tiro de pedra. Tudo isto está na enseada que faz antre a Ponta da Lobeira e a Ponta da Garça, que está para o ponente, e será de uma à outra uma grande légua, e da Povoação à Lobeira, outra. Grande parte da costa, atrás dita, da Povoação, e no mesmo lugar pela ribeira acima, é de pedra preta, que serve de cantaria; da banda da terra, do Forninho, já dito, por diante para loeste, é tudo rocha alta, e em algumas partes há também, ao longo do mar, algumas fajãs, que até este tempo presente não haviam sido cultivadas, mas cobertas de mui gracioso arvoredo, e agora semeiam nelas muito pastel e trigo e hortas de muitos melões e abóboras e outros legumes. Vai desta maneira correndo esta costa bem assombrada, acompanhada de frescas fontes e ribeiras e alto arvoredo, mais graciosa para ver do mar que para caminhar por terra, por ser em si por cima, pela mesma terra e ao longo do mar, em grande maneira fragosa; e é tudo serra tão áspera para caminhar, como deleitosa e graciosa para ver e, como dizia um negro, bom para olho, mas mau para pé. E vai assim deste modo até onde chamam as Grotas Fundas, por elas o serem, que estão antes de chegar à Ponta da Garça, tanto como a terça parte de meia légua. Daí começam as terras que semeiam, e ao longo do mar todavia vão rochas mui altas, ainda que não tanto como as atrás ditas, nem tão frescas, em que também há algumas fontes; e os caminhos pela terra são muito fragosos, por antre espessos e sombrios bosques e por meio de altas, fundas e frescas ribeiras. Está logo uma ponta, distante da Povoação Velha duas léguas, a que chamaram os antigos descobridores Ponta da Garça, por Ihe parecer de longe garça ou vulto o ar que Ihe aparecia, da outra parte, branco como ela, por um buraco ou vão que a mesma ponta tem na rocha. Da qual para o mar um tiro de pedra está uma baixa, que com maré vazia se descobre uma cabeça de pedra, da feição de um escopro, pelo parecer que tem dele, ou porventura com o vocábulo corrupto, que se chama em latim scopulus.
Nesta Ponta da Garça está um lugar do mesmo nome, que tornou dela, freguesia de Nossa Senhora da Piedade, que é a festa da sua Apresentação, que se celebra a vinte e um de Novembro, a qual igreja fez Lopo Anes de Araújo, na fazenda que agora é de seus herdeiros; tem oitenta e nove fogos e almas de confissão trezentas e trinta e duas, das quais são de sacramento duzentas e quarenta e oito. O primeiro vigairo foi João Afonso Salgado; o segundo, Afonso Anes; o terceiro, Fernão Rodrigues; o quarto Manuel Roiz.
É também, como o Faial e Povoação, termo de Vila-Franca, e todos têm juízes pedâneos, que julgam até um tostão e às vezes até trezentos reis, e o escrivão e alcaide senão a Ponta da Garça. Tem granjearia e lavoura de trigo, do melhor da ilha, e pastel, por ter muitas e grossas terras, em que os moradores estão espalhados e não muito juntos. É lugar situado à beira do mar, junto de altas rochas que tem por muro da parte do sul; pouco viçoso de frutas e menos regado de águas; onde há nobres fregueses e tem sua morada, principalmente no Verão, João de Arruda, filho de Pero da Costa, casado com D. Guiomar, filha de Hector Gonçalves Minhoto, neta do Capitão João Soares, segundo do nome, da ilha de Santa Maria.
Antes de chegar à Ponta da Garça, está o Cavouco, que é uma ressaca pequena e encolhimento da terra para dentro, onde há uma pequena ribeira que corre somente de Inverno, em tempo de enchentes e cai de salto. Está nesta fajã, chamada o Cavouco uma vinha e pomar.
Daqui, passando pela Ponta da Garça, já dita, até à ribeira da Abelheira, para o ponente, que será espaço de pouco mais de quarto de légua, caem da rocha, por antre ervas verdes, rabaças e agriões, e entre canas e outras ervas, muitas e frescas fontes, umas que deitam grossa água, como a coxa de um homem, outras menores e outras mais pequenas, onde, dizem alguns, que todas elas se chamam as Onze Águas, por serem onze fontes; mas a certeza disso é que são quinze ou dezasseis, algumas espalhadas e longe umas das outras, ainda que em um lugar onde estão seis ou sete juntas, no meio de uma alta rocha, passada a Ponta da Garça, pouco espaço além dela, como um tiro de falcão, dizem alguns que ali é propriamente as Onze Águas e parece que em algum tempo foram onze e por isso Ihe puseram, àquele lugar, onde as havia juntas na rocha, este nome; onde Jordão Jácome Raposo, com outras pessoas, tinham determinado fazer um engenho de açúcar, para o qual tinha já começado o caminho pela rocha e muita pedra de cal junta, por terem na mesma comarca prantadas muitas canas de açúquere o mesmo Jordão Jácome e Marcos Dias e Jorge Afonso, as quais se perderam juntamente com as da Vila-Franca, com um furacão que sobreveio, como adiante direi. E no mesmo lugar já esteve um moinho, em baixo, ao lível do mar, e ajuntaram estas águas todas com que ele moeu, no tempo do segundo terremoto desta ilha, por se perderem os moinhos da Praia, com as grandes enchentes que então foram, as quais não somente levaram os moinhos, mas também uma ponte que na ribeira deles estava, muito forte e bem feita, e outra que estava como um quarto de légua de Vila-Franca, na Ribeira das Tainhas, a qual havia pouco tempo que era acabada. Ou aquelas fontes se ajuntaram, ou algumas secaram, porque agora não são mais que seis juntas , onde comummente chamam Onze Águas: ainda que algumas pessoas dizem que toda esta comarca e espaço do Cavouco, até à ribeira da Abelheira, já dita, tem este nome de Onze Águas, dizendo que há nela estas onze fontes, sendo elas ao presente tempo quinze ou dezasseis.
Pode ser que de princípio seriam onze somente e por isso Ihe chamariam as Onze Águas, e depois nasceram e arrebentaram e brotaram as outras, e fizeram dezasseis por todas, ficando-lhe o nome antigo de Onze. Dizem também alguns que algumas destas fontes não correm no Inverno e secam de todo, e quando vem o Verão tornam a arrebentar e correr como dantes. Sendo assim, a razão disso será por se taparem no Inverno os poros da terra e assim ficarem tão cerrados e tapados os canos destas fontes, sem então correrem; mas, abrem-se e corre por eles sua água, vindo o Verão com sua quentura, com que abre os poros da terra, como acontece em outras partes, em muitas outras fontes, e como se vê no corpo humano que não sua no Inverno, por se Ihe taparem então os poros do coiro e da carne com o frio dele, mas vindo a quentura do Verão, que os abre, sua logo e estila de si água por suores, como fonte ou como algumas fontes; ou também porque nem todas as fontes nascem do mar, do qual nascem aquelas que acham meatos, cavernas e caminhos pela terra e vêm sair ou em rochas ou em vales, ora em outeiros, ora em altos montes, porque o mar é mais alto que toda a terra, pois seu próprio e natural lugar é estar sobre o globo dela. Mas, outras fontes e águas se geram e criam em algumas cavernas e lugares da terra, do ar que nelas está encerrado e se vai de novo encerrando, que lá se congela e converte em água, ainda que em menos quantidade, porque assim como de um punhado de água se converte e torna em dez de ar, assim de dez de ar se converte em um de água; e esta água feita de ar congelado nas cavernas da terra e em algumas partes dela, reçume pelos poros dela e corre em fontes, que às vezes são perenes e perpétuas, porque acabada de se congelar uma quantidade de ar, entra pelos poros da terra outra quantidade que se torna a congelar, fazendo-se água, e após aquela quantidade, outra e outra; assim como vai o ar cevando a concavidade onde encerrado se vai congelando e tornando água continuamente, com que continua a corrente da fonte feita dele e não do mar. Pelo que é perigoso cavar muito estas fontes que nascem e se geram de ar congelado, porque se Ihe abre com o muito cavar grande boca, fica o ar contínuo com o de fora e não se congela, por não estar encerrado, e não se congelando, e tornando água, seca a fonte que cavaram; e pode ser que algumas destas fontes das Onze Águas seriam geradas desta maneira sobredita, de ar convertido em água e quebraria algum pedaço da rocha, no lugar por onde elas dantes saíam e fazendo grande boca ficou o ar continuo com o de fora, sem se congelar e tornar água, por não estar encerrado, e desta maneira secarem-se algumas daquelas onze fontes juntas com a rocha, ali quebrada, e não ficarem onze fontes, como de antes eram, senão seis ou sete que agora são, ainda que sempre Ihe ficasse aquele lugar este nome de Onze Águas. Antes das Onze Águas, está a Grota Funda, pelo ela ser, onde junto do mar se criam muitas pombas no topo dela, como em um ilhéu; e das Onze Águas para Vila-Franca, que é uma légua, vão algumas fontes e ribeiras que não correm senão de Inverno, como a Ribeira Grande, e além a ribeira da Abelheira, por se achar ali alguma, e adiante a Ribeira das Tainhas, pelas haver nela, e depois a Ribeira Seca, a qual, ainda que em respeito doutras menores tenha esse nome, corre de Inverno e Verão, e está antes de chegar à Vila-Franca tanto como a quarta parte de meia légua, onde há um rico engenho de açúquere que foi de Lopo Anes de Araújo, depois de Gabriel Coelho e dos nobres irmãos e ricos Crastos, e por falecimento de um, o possuiu o outro, chamado Manuel de Crasto, mais rico de saber e prudência que de fazenda, e agora o possui sua mãe e Diogo Leite, seu genro. Está Vila-Franca, da Ponta da Garça, uma légua e da Povoação Velha três léguas.

A Ribeira Seca que se chama assim pela razão já dita e porque alguns anos não chega no Verão a água dela ao mar, ainda que entra nela outra ribeira que chamam Ribeira Nova, salvo agora que há pouco tempo que em cima na serra Ihe meteram a Ribeira das Tainhas, por causa do engenho do açúquere que ali fez Lopo Anes de Araújo, o qual se desaparelhou com um espantoso furacão que desfez e queimou todos os canaviais, prantados não somente em Vila-Franca, mas nas vilas de Água do Pau e da Ribeira Grande, onde também os havia mui prósperos; e não só se perderam as canas que estavam prantadas, mas dali por diante nas que se prantaram houve tanto bicho que para o tirar era necessário arrancar todas as canas, pelo que os lavradores, que as faziam, as largaram e se deitaram delas, tirando alguns que perseveram, como foram os filhos de Sebastião de Crasto que houveram o engenho de Gabriel Coelho, que se vendeu em pregão por parte de el-Rei, e agora o tem Diogo Leite, por falecimento de Manuel de Crasto e António de Crasto, seus cunhados, assim desaparelhado que foi de Lopo Anes de Araújo, e faz nele tanto proveito que Ihe rende cada ano muitas arrobas de açúquere, além do que nele moe de sua lavoura, com que está enobrecendo muito aquela Vila-Franca, onde residiu algum tempo e com outra grossa fazenda que granjeia, de que é bem merecedor, por sua muita prudência e virtude, pois a sabe repartir a seus tempos devidos e valer a muitos com ela, como seus predecessores faziam.
Quase desta ribeira e engenho se começa a antiga e nobre Vila-Franca do Campo e seus ricos pomares de muitas frutas, de que está rodeada, chamada Franca porque, segundo dizem, logo no princípio, tirando os dízimos que somente se pagam a el-Rei, era franca de todas as mais coisas e direitos, para melhor ser povoada esta ilha, e chamou-se do Campo por ser situada em um formoso campo, terra mais rasa com o mar que as outras partes de altas rochas, que ali os antigos descobridores descoberto haviam. Pelo que, parecendo-lhe aquela terra mais bem assombrada e assentada que todas as outras atrás, fazendo nela sua colónia, assentaram e edificaram naquele lugar esta primeira vila, que com a fertilidade da terra nova cresceu em pouco tempo, tanto em edifícios e comércio, que parecia uma pequena corte, ordenada com seus ilustres Capitães e fidalguia de muita gente nobre, que nela tinha suas ricas moradas e dela iam e mandavam cultivar as terras que por sorte e repartição couberam em toda a ilha, tornando-se sempre a recolher nela, a seus tempos devidos, com seus frutos que dali carregavam para fora, de modo que esta vila era toda a ilha e dela, como de colmeia cheia, e nobre e antigo tronco, saíram os enxames depois e se cortaram os generosos garfos dos moradores das outras vilas e lugares que nesta terra se fizeram e povoaram, antre todos os quais, Vila-Franca, como seu seminário, origem, cabeça, mãe e primeiro princípio, pode com sobeja razão pretender e ter mor lugar em toda a parte, como o tem nos ajuntamentos das Câmaras das vilas todas, onde fala primeiro, e, por ser amparo de toda a ilha, não somente tinha muita gente da terra, mas também forasteira e estrangeira, e muitos nobres e ricos mercadores, que a enobreciam com seus ricos tratos de trigo e pastel, que então tinham por sua principal granjearia, e agora é mais acrescentada com açúcares que nela se fazem, como adiante direi. Viveram e vivem nesta vila sempre homens de estima e bons spritos, prezando- se de suas honras, e governaram e governam sua república com prudência e bom zelo. As fazendas são pela maior parte dos moradores dela, com que são poderosos para prosseguir o que começam e pretendem, e, por serem suas e viverem com o seu, se tratam sempre à lei da nobreza. Há moradores que têm cinquenta, sessenta moios de renda e outros de doze, quinze mil, e outros seis, sete mil cruzados, afora muitos bem afazendados, com que o povo vive honrado e abastado. Tiveram uma rica igreja de naves, da advocação do Arcanjo S. Miguel, padroeiro de toda a ilha. Caída esta e destruída a vila edificaram outra, do mesmo Orago e não menos sumptuoso edifício, e outra vila, não menos nobre, da outra parte da ribeira, para a parte do ponente, no arrabalde que dantes era, com acrescentados privilégios dos cidadãos da cidade do Porto, para todos os nobres dela. Tem agora esta freguesia de S. Miguel quinhentos e dezanove fogos, e mil e novecentas e trinta e uma almas de confissão, das quais são de sacramentos mil e trezentas e sessenta e uma. O primeiro vigairo, antes da sua subversão, foi um padre da ordem do Convento de Tomar, porque vieram juntamente dois, um por vigairo de Vila-Franca e outro para vigairo da Vila da Praia, da ilha Terceira, a que não soube os nomes; o segundo, Frei Estêvão; o terceiro, Frei Simão Godinho, que morreu no mesmo terramoto; e depois dele, o quarto, Marcos de Sampaio; o quinto, Frei Melchior Homem, que, sendo vigairo na ilha de Santa Maria, trocou com Frei Marcos de Sampaio, todos homens para muito e que em seu tempo foram ouvidores do eclesiástico em toda a ilha; sexto, o licenciado António de Lira, letrado nos sacros cânones que agora reside na mesma igreja, que teve estes beneficiados, o primeiro, Bartolomeu Fernandes; o segundo, João Afonso; o terceiro, Álvaro Anes; o quarto, Roque Prégo; o quinto, Gaspar Mendes, filho do Potas; o sexto, Cristóvão Roiz; o sétimo, Simão Gonçalves; o oitavo, Cristóvão da Mota; o nono, Afonso Anes, que depois foi vigairo da Ponta da Garça; o décimo, João Folgado que trocou com Afonso Anes; o undécimo, Hierónimo Perdigão; o duodécimo, Frutuoso Coelho; o décimo tércio, Pero de Brum; o décimo quarto, João de Teve; o décimo quinto, Miguel do Quental, transferido do lugar da Maia; o décimo sexto, Fernão de Bastos, transferido do lugar da Bretanha; o décimo sétimo, António da Mota, no benefício de Cristóvão da Mota; o décimo octavo, Pero de Araújo, no benefício de Fernão Roiz, e outros, de modo que tem ao presente oito beneficiados e um cura, o primeiro dos quais foi Francisco da Ponte; o segundo, Sebastião de Faria, filho de Álvaro Dias; o terceiro, António Gonçalves, que agora serve.
Tem esta vila, sobmetidas à sua jurdição nove aldeias, sc., da banda do norte, cinco, Achada Grande, Achadinha, Fenais da Maia , Porto Formoso; da banda do sul, quatro, sc., Faial, Povoação Velha, Ponta da Garça, São Lázaro; quase todas com seus juízes pedâneos, de jurdição de cento até trezentos reis, e com seus escrivães e alcaides. Além dos dois mosteiros de religiosos e religiosas, e do Sprital e Casa de Misericórdia, que tem muito lustrosa, junto da igreja paroquial, tem seis devotas e bem ornadas ermidas, a primeira de S.
João Batista, na quinta de Jorge da Mota, a segunda, de Santa Catarina, a terceira, de Nossa Senhora do Desterro, no pomar de João da Grãa, a quarta, do Corpo Santo, a quinta, de São Pedro, a sexta, de Santo Amaro, na Relva, à porta de Miguel da Grãa, filho de João da Grãa, em sua fazenda. Há em Vila-Franca três bandeiras de duzentos homens cada uma; os capitães foram: o primeiro, Pero da Costa, e seu alferes Jorge Furtado; o segundo, Pero Rodrigues Cordeiro e seu alferes Gaspar de Gouveia, seu genro; o terceiro, Diogo Dias Brandão, na Ponta da Garça, que morava nas Grotas Fundas, que é no cabo da freguesia da Ponta da Garça, e seu alferes António Furtado, que depois foi na mesma companhia capitão, e seu alferes Hierónimo de Araújo, e na mesma companhia sucedeu por capitão o mesmo Hierónimo de Araújo, e seu alferes Francisco Pacheco; e por morte de Francisco Pacheco, foi seu alferes António de Matos, que agora é capitão da mesma companhia, e seu alferes Filipe do Quental, seu irmão.
Na capitania de Pero da Costa, sucedeu por capitão Jorge Furtado, e seu alferes, João Roiz Cordeiro; e depois sucedeu a Jorge Furtado, Pero de Freitas , e seu alferes Lopo Anes Furtado, o qual foi capitão na mesma companhia e seu alferes Leonardo de Sousa, que ao presente é capitão na mesma companhia e seu alferes Apolinário Raposo, que agora servem os ditos cargos.
A Pero Rodrigues Cordeiro sucedeu por capitão Gaspar de Gouveia, seu genro, e seu alferes Jorge Correia, seu cunhado; esta companhia cessou então por dez anos, porque se fizeram, de toda esta gente, somente duas companhias, e fizeram então capitão-mor a Pero da Costa e depois dele feito, duraram estas duas companhias como cinco anos; depois se tornou a reformar a companhia de Gaspar de Gouveia, e sucedeu-lhe por capitão Manuel Favela da Costa e seu alferes Manuel da Mota e por um certo respeito Ihe tiraram a bandeira e a deram a Cosme de Brum, que agora tem este cargo.
Manuel Favela da Costa foi feito, pelo Conde D. Rui Gonçalves da Câmara, capitão no ano de mil e quinhentos e setenta e cinco e juntamente e no mesmo dia Lopo Anes Furtado capitão porque Hierónimo de Araújo o era dantes; e no mesmo dia e ano de mil e quinhentos e setenta e cinco se fizeram os três alferes, sc., Manuel da Mota, para a bandeira de Manuel Favela e Leonardo de Sousa, para a bandeira de Lopo Anes, e António de Matos, para a bandeira de Hierónimo de Araújo, por seu alferes ser falecido.
O segundo capitão-mor, por se escusar Pero da Costa por sua muita idade, foi o capitão Alexandre; o terceiro capitão-mor é João de Arruda, filho de Pero da Costa que dantes era capitão da gente de cavalo, afora a qual há em Vila-Franca e Ponta da Garça seiscentos homens de peleja nas três bandeiras; e na dita Vila, de presídio, pôs o Marquês de Santa Cruz, depois da vitória que houve dos franceses, setecentos e tantos soldados castelhanos, de guarnição em cinco bandeiras. Da Ribeira Seca a um tiro de berço, estava antes do segundo terremoto um recife de areal, pequeno, cercado de rocha e penedia, onde havia dentro na água do mar, perto da terra, dois ilhéus pequenos, pelo que se chamava aquele lugar os Ilheusinhos, que agora estão entulhados de areia, como está todo este lugar até ao porto de Afonso Vaz que está perto, que é um porto de areia, de que agora se serve a vila e nele embarcam e desembarcam, o qual dantes do incêndio segundo, não servia, por terem outro melhor porto dentro na vila, e este fica desviado fora dela. Pegado com este porto, para a parte da vila, está uma ponta de pedra, que dantes era grande e agora mais curta, por estar entulhada da praia e areia; a qual ponta se chama de D. Breatiz, por ter ali dantes e agora suas casas, que escaparam do primeiro terremoto. Esta D. Breatiz foi mulher de Francisco da Cunha e filha natural do Capitão Rui Gonçalves, primeiro do nome. Desta ponta, um bom tiro de besta, vai a ribeira da vila entrar no mar, que vem de riba da serra, junto do nascimento da qual houve um pomar e bosque mui fresco, de que ainda agora há algumas mostras, onde se iam e vão recreiar muitas pessoas da vila; e abaixo, antes de chegar à vila, na entrada dela, havia um rico mosteiro de São Francisco e um fresco pomar, pelo meio do qual entrava esta ribeira, que Ihe acrescentava a frescura. Teve esta ribeira, antes do primeiro mistério, algumas pontes e passadiços, que então se perderam; agora tem uma ponte que se arruinou pelo segundo incêndio e está novamente repairada. Onde esta ribeira entra no mar soía a ser o porto da vila antes do primeiro dilúvio, e, por se danificar com a terra que correu, o passaram adiante, onde agora está a ermida do Corpo Santo, o qual tinha um bom recife onde se serviam de cárregas e descárregas e embarcações com facilidade, o qual serviu de porto até ao segundo incêndio que o danou e entulhou de areia, e cobriu toda uma ponta de pedra que entrava no mar, a que chamavam a Ponta do Peneireiro, parece que por ali perigar um, que nada agora aparece dela, e tudo é areal; como também entulhou outras pontas e calhetas e recifes mais pequenos, que havia perto da costa e a faziam muito fresca, deixando tudo feito um seco areal e sem nenhuma graça, como ao presente se vê. Está esta vila, de pouco tempo para cá , fortificada da banda do mar com muitas cavas em seus lugares necessários, onde não havia rocha; a porta da parte de leste está no porto de Afonso Vaz, para por ela se servirem para ele; daí pela terra dentro a cerca um ribeiro que no Inverno traz alguma água quando chove e, por ser alto como cava, fica a vila daquela parte guardada e defensável até outra porta à entrada da ribeira no mar, onde está o porto velho, pegado com as nobres casas de Jorge Furtado, que ficaram do primeiro terremoto meias arruinadas, e foram de João do Outeiro, rico e poderoso; outra porta está pegada com a ermida do Corpo Santo, onde antes do segundo incêndio era o porto ordinário da vila na entrada da rua que vai ter ao terreiro da Casa da Misericórdia, que é uma sumptuosa casa de edifícios, onde se curam os pobres da vila e de fora; no mesmo terreiro, defronte da porta da Misericórdia, está uma fresca fonte de três copiosos canos de boa água; daí vai também um cano dela sair ao mar, para os mareantes se proverem dela facilmente, no tempo que ali estava o porto que, por se entulhar, está agora um pouco mais acima, à porta da vila, junto da ermida do Corpo Santo. Arriba da fonte está a sumptuosa e fresca igreja do Arcanjo São Miguel, padroeiro de toda a ilha; e ainda que as mais das casas desta vila são de alvenaria e fortes, grande parte delas são, como em algumas partes, de taipa, também mui fortes, por ser ali bom o barro de que se fazem, sem haver outras desta sorte em toda esta ilha. Da parte de leste desta igreja além da ribeira, onde antes do primeiro terremoto estava a vila, está agora um mosteiro da advocação de Santo André, o primeiro que houve nestas ilhas de religiosas da ordem de Santa Clara, ainda que grande e sumptuoso, mais rico em todo género de virtudes que em edifícios e oficinas, onde ao presente servem a Deus com bom exempIo e vida mais de cinquenta religiosas, antre professas e noviças, e com trinta servidores da mesma casa, com que são oitenta pessoas que comem da renda do mesmo mosteiro, que não é pequena, afora muita vizinhança pobre e muitos forasteiros. E da parte de loeste, no outro cabo da vila, está outro rico mosteiro de religiosos da ordem de São Francisco, da advocação de Nossa Senhora do Rosairo, onde haverá ordinariamente dez ou doze religiosos de muita virtude e quase sempre há pregador, que tem o púlpito da vila por provisão de Sua Alteza, em que parece estar esta vila segura dos perigos e castigos, com que dantes foi tão castigada, pois está fortificada e como cercada daquém e dalém da ribeira, não com muros, nem cavas, nem rochas, como tem ao longo do mar, mas com fortíssimos corações religiosos e virtuosos, e com vigias e sentinelas que de dia e de noite a estão vigiando, olhando e guardando, fazendo frequentes sacrifícios e orações a Deus por seus moradores. Junto do mar, pouco desviado da ermida do Corpo Santo, tem um forte com boa artilharia, do qual forte, por espaço de mais de um tiro de berço, para a banda de leste, está uma ponta de pedra e terra, pouco saída ao mar, chamada a Ponta de São Pedro, por razão de uma ermida deste glorioso santo, que dantes do primeiro terremoto havia somente daquela parte da ribeira, no arrabalde em que agora está edificada a vila, no rocio, onde a fonte corre, e a ermida passada mais além para a banda do mosteiro de São Francisco, pelo que os que naquele tempo moravam na vila chamavam àquela ponta de terra Ponta de São Pedro, por estar dali daquela parte a sua ermida; na qual ponta está desde o princípio da ilha a forca e casa feita para ladrões e malfeitores, ainda que poucas vezes deles habitada; e chamam corruptamente algumas pessoas àquele lugar São Pedro o Velho, por ser antiga aquela casa de justiça, que parece uma ermida, a qual ponta servia e serve de embarcação de muita gente, pública e secreta.
Defronte desta Ponta de São Pedro, pouco mais de um tiro de besta ou de berço, dentro do mar, está o mais formoso ilhéu que há nas ilhas, assim pelo que parece de fora a quem o vê, como por ter dentro em si como uma alagoa de água do mar, que entra nele por concavidades e fendas e por um boqueirão que Ihe foi feito ao picão, para poderem entrar, como entram, barcos e navios de sessenta toneladas para baixo, pouco mais ou menos, para passarem ali seguros o tempo das tormentas e do Inverno. Terá este ilhéu três moios de terra e tem um porto por onde entram navios de cento e cinquenta moios de pão, em uma alagoa que tem dentro, de espaço de dez alqueires de terra, se fora terra a água dela, onde podem caber vinte navios, mas não tem altura para nadarem mais de quatro; tem fendas por onde entra a água mui furiosa e por elas se sorvem algumas coisas de navios que ali se perdem; tinha um boqueirão pela banda de sueste, pelo qual com tormenta entrava muito o mar nele e fazia perigar e perder os navios, que ali estavam acolhidos, o qual já está tapado; tem da parte do sul dois furulhões um muito alto e outro mais baixo; cabe batel entre o mar e eles. Da banda do sudoeste tem uma lapa, com uma casa, onde pode caber fato ou carga de seis barcos e muita gente. Ao redor deste ilhéu, principalmente antre ele e a terra, é lugar onde os navios têm bom ancoradoiro. Havia neste ilhéu muitos coelhos que não há já agora, porque os ratos os desinçaram e achavam os láparos comidos deles pelas cabeças; houve nele também muitas cracas, mas já acabaram, com as muitas mogangas que nele se faziam; tem agora outro muito marisco de cranguejos, lapas, búzios e muito pescado miúdo, principalmente em tempo de tormenta, que ali se recolhe, pelo que se fazem nele grandes pescarias com caniços e tarrafas. Foi este ilhéu de João da Grãa, cavaleiro do hábito de Aviz, pelo pedir ao Capitão Rui Gonçalves, segundo do nome, por ser de sua casa e haver sido seu ouvidor nesta ilha. Agora está ornado com um forte muro que Ihe defende por ali a entrada do mar e tem a boca preparada para nele poderem entrar galés. É povoada Vila-Franca dos Costas, Arrudas, Motas, Colombreiros, Borges, Araújos que são os filhos de Lopo Anes, da parte do pai e Medeiros da parte da mãe, Furtados, Cordeiros, Pontes, Grãas, Correias, Pachecos, Jácomes, Raposos, Freitas, Afonsos, da Praia, Crastos, do Porto, e outra gente nobre, rica e poderosa que com ela, Vila-Franca, por sua nobreza e antiguidade e pelas razões já ditas, pode com muita razão pretender, como pretende, mor lugar e primeira voz, como tem em toda a parte.
Da Ponta de São Pedro corre uma rocha baixa, onde há muitos pessegueiros, por espaço de uma octava parte de uma légua, até à ribeira de Água de Alto, que se chama assim por cair a sua água de um lugar alto; naquela ribeira estiveram quatro engenhos de açúcar, no tempo que as canas dele floresciam, um de Baltasar Pardo, da ilha da Madeira, com companhia de Sebastião Gonçalves, natural da mesma Vila, o qual foi o primeiro engenho de água que houve nesta ilha, porque o primeiro sem água foi de mó de engenho; e acima dele outro de António Fernandes, o Gramático, que fez com companhia de Baltasar de Armenteiros e doutros; mais acima, outro de Gabriel Coelho, em companhia de António de Pesqueira, burgalês, e de Simão da Mota e doutros; estes todos estão desfeitos de tudo, sem haver sinal deles, depois que o bicho das canas prevaleceu; está outro, que foi de Pero da Costa e outros companheiros, e agora é parte dos Crastos, que está desaparelhado e não se usa dele, ainda que as oficinas estão inteiras, em uma fajã mui alegre, cercada de uma rocha baixa, onde houve muitas árvores de figueiras e pereiras e de deleitosas sombras, de que ainda hoje ficou algum sinal e sombra, e um areal pequeno ao longo do mar com um fresca fonte que nasce no pé da rocha.
Por esta ribeira houve muitos e frescos pomares, principalmente um que foi de Jorge Nunes Botelho, em que havia muita fruta de toda sorte e de espinho muito melhor e em mais abundância.
Por esta mesma ribeira acima, como um bom tiro de berço, está a Casa de São Lázaro, de boas oficinas e alguma renda e boas esmolas de toda a ilha, onde de toda ela estão bem tratados e agasalhados continuamente dez e quinze, até vinte enfermos; é agora nova freguesia de trinta fogos e cento e oitenta almas de confissão, das quais são de sacramento sessenta; cujo vigairo é Baltasar Fagundo, bom sacerdote, que foi o primeiro, sem ainda haver outro; cujos fregueses têm trigo e pastel por granjearia.
Vindo da vila, pelo caminho comum por dentro da terra, antes de chegar a São Lázaro, está a grota do Sanguinho, por ter ou haver tido ali algum, perto do mesmo caminho.
Desta ribeira de Água de Alto, onde também há moinho e um pisão, correndo a costa com areal e alguma penedia, no cabo ao longo do mar e de uma baixa rocha para loeste, mais de tiro de berço, está outra pequena ribeira, que se chama a Grota do Barro, pelo ter ali bom e alguma cré, que faz a água dela branca, antre fresco e espesso arvoredo de faias, urzes, louros e algumas figueiras brancas, onde antigamente se achava e sentia uma fantasma que parecia tanger um tamboril, pelo que também se chamava a Grota do Tamborileiro, de cujo tanger alguns caminhantes se assombravam. Logo adiante está uma pequena enseada de areal, que chamam a Pedreira, por ter uma pedra preta donde se tem tirado quase toda a cantaria deste metal, das igrejas, casas, edifícios da maior parte do sul de toda a ilha. Na qual baía está uma fajã, em que agora se tem feito um pomar e vinha, muito fresco.
Saindo desta baia está a Ponta Ruiva, de alta rocha de pedra e terra da mesma cor, donde Ihe ficou o nome; ao pé da qual, junto do mar, se agasalham dois grandes corvos marinhos, de pouco tempo a esta parte, o que não se havia visto até agora nesta ilha.
Desta ponta se vai fazendo uma enseada de compridão de mais de um tiro de falcão, até à Grota de Três Voltas, toda de areia e terra que no segundo terremoto correu pelas ribeiras que ali saem ao mar de que tomou tanta posse que, onde soía ser mar, é agora terra, onde se vão fazendo lavradas e benfeitorias em repartimentos, aforados por parte do concelho de Vila- Franca; na entrada do qual areal, depois da Ponta Ruiva, vem entrar no mar a grande ribeira da Praia, que dantes foi muito fresca, com uma fajã que estava ao longo dela, de uma e doutra parte, onde havia muita fruta de figos e uvas, do concelho, para quem quer que as queria; onde havia uma povoação de até sete ou oito casais de nobres e abastados moradores, chamados os Afonsos, da Praia. Por esta ribeira arriba um tiro de berço, estava uma antiga e forte ponte, por onde dantes era o caminho do concelho, que enchentes que houve depois do segundo terremoto levaram, como fizeram a todas as pontes desta ilha, sc., a da Ribeira das Tainhas, a de Vila-Franca e esta da Praia, e duas na vila da Ribeira Grande. Arriba do lugar onde esta ponte esteve nesta ribeira, há duas casas de moinhos que com ela moem, de duas pedras cada um, que servem de moendas a Vila-Franca; e da outra banda dos moinhos, que é da parte de leste, está um fresco pomar que é dos herdeiros de Brás Afonso, de toda a fruta, e mais acima outro pomar antigo, em que ainda agora está um alto castanheiro.
Desta ribeira da Praia, que está em uma funda grota, a um tiro de berço, pouco mais, está a Grota da Fontainha, por uma fresca fonte que está nela, onde também antigamente se sentiam fantasmas nocturnas, mais temido lugar por isso dos caminhantes, que todos os que havia naquele caminho. Caminhando mais adiante, ou pela praia junto do mar, pouco mais de um tiro de besta, ou por terra, mais de um tiro de falcão, sai ao mar uma grande ribeira pela Grota de Três Voltas, porque as tem assim chamada, toda coberta de arvoredo de faias, folhados, urzes, louros e outras árvores e ervas verdes, com que ainda que trabalhosa de descer e subir, é mui aprazível aos caminhantes e parece estar aquele caminho armado de rica tapeçaria de verdura.
Da Grota de Três Voltas para diante, espaço de um tiro de arcabuz, se faz outra pequena praia de enseada, que também antigamente foi mar, no cabo da qual sai ao mar por uma fresca grota, ornada de fresco arvoredo, a ribeira chamada Chã e das Lajens, por correr por uma lages rasas, de melhor e mais fresca água que todas as ribeiras desta grande praia, ajudada de muitas e frescas fontes que, das grotas por onde vêm, caem nela.
Pouco antes desta ribeira, começa a subir pela rocha o caminho, onde se faz um grande entulho de grande custo, até sair da ribeira do Pisão ao caminho antigo, junto da Cruz de Água do Pau, que será espaço de um quarto de légua; o qual caminho se abriu pela rocha, por onde antes ia um estreito atalho para gente de pé, e agora, caminho novamente feito pela rocha, se vai continuando com a grande praia, que dantes era mar, para a qual também se fez descida novamente, vindo de Vila-Franca para a vila de Água do Pau.
Da ribeira Chá ou das Lajes um tiro de falcão, fazendo o caminho pela rocha algumas voltas, está a ribeira do Pisão, por estar ali um nela, que antigamente se chamava de Pero Vieira, que arriba do Pisão morava, antre fresco arvoredo. Da ribeira do Pisão até ao porto de Val de Cabaços, corre a rocha mui alta, fazendo um cotovelo por espaço de um tiro de falcão, junto do porto de Val de Cabaços, do qual até a Vila-Franca, atrás dita, são duas léguas.

Esta ilha de São Miguel em que, Senhora, estamos é montuosa e regada de ribeiras, e era logo, quando se achou, coberta de arvoredo, graciosa em sua situação e, por ser húmida com as águas das chuvas e ribeiras e quente do sol, criou tantos e tão espessos arvoredos que com sua sombra conservavam nela esta humidade sempre fresca e durável, com que ela ficou e estava no princípio tão fumosa de tão grossos vapores, sem ter o sol força para os gastar nem penetrar com seus raios, nem os ventos livre entrada para os lançar daqueles lugares sombrios da espessura do arvoredo, que sendo a ilha de Santa Maria achada e descoberta doze anos primeiro que ela, não podia ser vista dos moradores dela, tendo-a tão perto e sendo tão chegada vizinha, como defronte de sua porta. Mas, o que em longíssimos e antiquíssimos anos foi criado, em tão poucos se queimou, roçou e consumiu quase tudo depois de achada que estando ao presente a maior parte de toda a terra escalvada, tomaram os ventos tanta posse dela e é tão lavada deles que levam-na em pó ao mar, e escalvando e ensuando os frutos da terra, a deitaram a perder quase de todo, fazendo mais dano nela que nenhum dos outros elementos; porque ainda que o fogo por baixo fez algum, isto foi por vezes limitadas, quando de anos em anos, por longos intervalos arrebentaram os montes e cobriram de pedra, terra e cinzeiro, algumas partes dela; mas os ventos a perseguiram tanto, depois que a viram calva do espesso arvoredo que Ihe servia de cabelos, com que se ornava e enfeitava, que quase continuamente, e todolos anos, com sua vexação contínua, em um só dia ou em uma só hora, são importuna destruição de quanto ela pelo tempo vai criando, com que fica menos fértil e formosa; sendo, d’antes que escalvada fosse, um riquíssimo e fresco jardim e deleitoso vergel, como um terreal paraíso. Pelo que, o que agora direi dela será muito diferente da pintura que d’antes tinha, e a minha rude linguagem a fará mais feia do que ainda agora parece, mas, por obedecer a vossos rogos e mandado, direi o que dela souber, como a vejo e acho neste presente estado.
Já tenho dito que a ilha de Santa Maria está em trinta e sete graus de altura do polo ártico, e esta de São Miguel Ihe fica da banda do norte, em trinta e oito graus norte e sul com ela, ficando a de Santa Maria norte e sul da Povoação, e com Vila-Franca noroeste sueste doze léguas da Povoação, de terra a terra; e está leste oeste com a terra de Setúvel, por linha recta do morro dela, que é chamado o morro do Nordeste; e demora a terra de Setúvel a leste duzentas e cinquenta léguas, que é costa de Portugal, que corre norte a sul o cabo de Espichel com o cabo de São Vicente. Da banda do sul Ihe fica a ilha de Santa Maria, desta mesma comarca e governação das ilhas dos Açores, cuja cabeça e governo tem assento na ilha Terceira, onde está a Sé, e cabido, e ela também está estendida no mesmo rumo de leste oeste, ainda que uma ponta da parte do levante tem lançada para o nordeste e a outra da parte do ponente está para o noroeste; é de comprido de dezoito léguas e de largura duas e meia, a partes, e em algumas, uma, que é no meio dela, onde a fazem mais estreita duas baías grandes que tem, uma da parte do sul, de uma ponta que se chama da Galé até à ponta de Santa Clara, da cidade da Ponta Delgada, e outra, da parte do norte, da ponta da Bretanha até à dos Fenais da Maia; em torno, ao redor, tem trinta e seis léguas, pouco mais ou menos. Assim fica o lançamento desta sua compridão leste oeste e a ponta da parte do oriente pende ao nordeste, e a outra do ocidente demora ao noroeste; cuja altura da parte do norte é trinta e oito graus, e ainda que junto da terra, em torno, seja mui cheia de baixos, uma légua ou menos afastado da costa é mui limpa; em todo o seu circuito tem alguns portos e estâncias em que muitos navios podem seguramente ancorar, mas não invernar. Tem esta ilha baixo, onde se fazem grandes pescarias, que está nordeste sudoeste com o porto da vila do Nordeste, afastado da terra por espaço de três léguas; do qual baixo , até às mesmas Formigas, há distância de oito léguas; e o porto do Nordeste está com as Formigas nor-noroeste e su-sueste e haverá dez léguas entre o dito porto e elas; as quais , com a ponta de Álvaro Pires, que é a ponta de leste da ilha de Santa Maria, estão nordeste e sudoeste afastadas sete léguas da mesma ponta, ficando da mesma ilha de Santa Maria quase ao nor-nordeste. Também na era de 1577, quarenta léguas ao norte da mesma vila do Nordeste, vindo um navio novo da pescaria, dando à bomba, tocou como em terra, de modo que abriu todo, cuidando os marinheiros que dera em alguma baleia, e deitando o barco fora com toda a gente, por verem que era um penedo, foram no barco ter à Galiza e depois a Aveiro, sua terra; dali a dois anos ou três, veio a dar no mesmo penedo uma nau de franceses ou ingleses e perdeu-se nele à vista de outra nau sua companheira, a qual tornando para sua terra, deu notícia daquele baixo que, de então, se começou a pôr em algumas cartas de marear, no dito rumo de quarenta léguas ao norte da vila do Nordeste desta ilha de São Miguel, e se chama a Baleia, por cuidarem os primeiros que o viram ser baleia; outros Ihe chamam Sirte ou Scopulo.
Começa a compridão desta ilha da ponta do porto da vila do Nordeste, assim chamada por ter o rosto a este vento, e de modo que o seu contrairo vento, desta ponta, e o nordeste, junto do morro alto que, de vinte e trinta léguas ao mar, primeiro se vê dos navegantes que vêm do oriente, situada no Lombo Gordo, em uma lomba que se chama de Salvador Afonso, em um lugar não mui chão, mas de boas casas e devotas igrejas, lugar alegre, de frescos pomares, com claras ribeiras, mas estéril de vinho. O qual lugar do Nordeste fez vila el-Rei D. Manuel, de gloriosa memória, e o separou da jurisdição de Vila-Franca, como conta o docto cronista Damião de Goes, na quarta parte de sua Crónica, no último capítulo, e, como mais claro e particularmente parece pela carta de mercê, passada de motu próprio, estando el-Rei em Lisboa, feita aos dezoito dias de julho do ano de mil e quinhentos e quatorze, por o lugar do Nordeste estar sete léguas da dita Vila-Franca, no que os moradores do dito limite recebiam detrimento, em irem a ela pelas coisas de justiça, por caso dos maus caminhos e ribeiras que havia do dito lugar à dita Vila, e havendo respeito ao gasto e despesa que entre si fizeram nos ditos caminhos e terras que aproveitaram, e a como o dito lugar ia em mor crescimento do que soía ser, dando-lhe por termo aquela terra que ela dantes tinha por limite. Não se sabe quem fossem nela os primeiros oficiais da Câmara, porque o livro dos oficiais do primeiro ano, que foi o ano de mil e quinhentos e quinze, não se acha; somente um só oficial se sabe que parece que fazendo em Câmara, o ano de quinze, a um Diogo Preto almotacé, ele não quis servir, e o ano de dezasseis saiu por juiz este Diogo Preto, e pedindo confirmação, para os oficiais servirem, ao corregedor, que era Hierónimo Luís, não quis ele confirmar o Diogo Preto, dizendo que refutara servir de almotacé o ano d’antes, e mandou expressamente que dessem juramento a Francisco Afonso, que o ano passado servira de vereador, o dito primeiro ano de quinze, como se vê pela carta de confirmação; pelo que no segundo ano de mil e quinhentos e dezasseis, depois de ser o Nordeste vila, saíram no pelouro por juízes, este Francisco Afonso e João Pires, e por vereadores, Lopo Vaz e Henrique Afonso, e um Pero Gonçalves por procurador do concelho. Da qual vila, até uma ponta que se chama os Escalvados, que está ao noroeste, junto do lugar dos Mosteiros, é a compridão desta ilha, como dito tenho. Tem a vila do Nordeste uma freguesia do bemaventurado São Jorge, em que há cento e oitenta e dois fogos, e almas de confissão quinhentas e oitenta e quatro, das quais são de comunhão quatrocentas e quarenta e quatro, povoada de nobre gente, Costas, Afonsos, Manuéis, Correias, Carvalhos e outros nobres apelidos; cujo primeiro vigairo, sendo lugar, foi um Fernão d’Alvres, que caindo no mar, de um penedo junto da vila, das mais seguras pedras de pesqueiros que há naquela costa, por este desastre Ihe deu o nome que agora tem, Penedo do Clérigo, o qual em seu tempo serviu sem ter beneficiados.
O segundo vigairo, depois de feita vila, foi Aires Carvalho, sendo seu beneficiado João Luís, que também serviu de tesoureiro; ao qual Aires Carvalho, indo-se para Portugal, sucedeu por serventia um Álvaro Anes; o terceiro vigairo foi Pedreanes, irmão de Lopo Anes de Araújo, e teve por seus beneficiados o mesmo João Luís e Alvareanes; falecido Pedreanes, sucedeu por espaço de tempo Diogueanes, até que faleceu, caindo de uma ladeira da ribeira de Guilherme, tendo em sua vida por beneficiados os mesmos João Luís e Alvareanes e um Simão Vaz que com ele veio da cidade do Porto e para lá tornou depois, onde dizem ser cónego; em cujo lugar ficou Manuel Gonçalves, de Vila-Franca; e ido este, sucedeu Manuel Garcia, natural da mesma vila; e falecido João Luís, teve o benefício outro natural, Domingos Afonso, e neste tempo serviu Amador Furtado; em seus lugares sucederam Tomé Vaz, de Porto Formoso, e Vicente Pinheiro; e depois da morte de Tomé Vaz, Frutuoso Coelho; e falecido Alvareanes, António de Paiva, da Ribeira Grande; e em lugar de Vicente Pinheiro, o padre Diogo Fernandes, natural da mesma vila do Nordeste, e logo Baltasar de Paiva; e no de Frutuoso Coelho, Manuel Fernandes, da Ponta Delgada; e depois serviu um benefício novo, um Cristóvão Francisco, da mesma cidade, que agora está tresladado para ela, na igreja de São Pedro, da Calheta de Pero de Teves. Falecido Diogueanes, vigairo, houve a vigairaria Frei Francisco Diniz de Sousa, que serviu muitos anos, ao qual sucedeu Baltazar de Paiva, que era vigairo da igreja Matriz da Vila do Porto, da ilha de Santa Maria, depois de passado Francisco Diniz para o lugar de Santo António; assim que somente tem ao presente esta vila do Nordeste, vigairo e três beneficiados, tendo d’antes quatro. Foi primeiro cura nesta vila Manuel Fernandes e depois Manuel Roiz.
O primeiro capitão da ordenança de guerra foi Gaspar Manuel, que ainda é vivo e morador agora em Vila- Franca do Campo, feito pelo Capitão Manuel da Câmara; em cujo lugar sucedeu Jorge Fernandes que, por ser velho, foi depois feito por eleição terceiro capitão Baltasar Manuel. O primeiro alferes foi João Lourenço, o Moço por alcunha, por haver outro João Lourenço, mais velho, no tempo de Gaspar Manuel em que não havia sargento. E vindo a ser capitão Baltasar Manuel, saiu também na eleição, por sargento primeiro, João Afonso Correia, e por alferes segundo Pero Carvalho, que é filho do alferes passado João Lourenço; em cuja capitania, na dita vila e seu termo, pode haver cento e setenta homens de armas e já teve mais gente, porque antes do segundo terremoto que aconteceu nesta ilha, tinha ela e seu termo duzentos e vinte vizinhos.
É terra de pão e algumas criações, e mato de boa madeira, principalmente de cedros, em que alguns de seus moradores têm boa granjearia. As peles do gado cabrum são ali mais estreitas que de toda a ilha, por causa das ladeiras e grotas em que as cabras pastam e comem os ramos de alto dependuradas, alevantando sempre a cabeça para as partes altas onde os acham, principalmente agora, depois que pelo segundo terremoto se cobriram os pastos de pedra pomes, não comem senão rama. Com o incêndio do segundo terremoto que disse, se cobriu toda aquela comarca de cinza e pedra pomes, em muita altura, que como o vento, quando abriu a terra, era ponente, foi causa desta pedra pomes, que do centro saiu e se alevantou no ar, com a força do fogo, correr mais para aquela banda e fazer ali mais dano caindo sobre ela; mas os moradores e senhores das fazendas tiraram logo muitas ribeiras de água, com as quais, não com pequeno trabalho, as limparam, de tal maneira, que agora se recolhe, cada um ano nesta vila e seus termos, até seiscentos moios de pão, e cada vez ao diante se irão recolhendo mais. Era terra muito delgada, mas com a invenção do tremoço com que a outonam, engrossou já tanto que é tida em muita conta; não tem outras mais granjearias que as ditas, para sustentar seus moradores, e, se se faz algum pastel, é pouco. Serve-se de toda a ilha por batéis e barcos e carregam de trigo alguns navios no verão e outros tempos do ano. Tem da banda do sul porto limpo para ancorar, mas muito trabalhosa serventia para batéis e carros, por uma ladeira de um comprido lombo íngreme e defensável de imigos e cossairos, que só por ele podem subir, por ser aquela parte desta ilha, por todalas bandas do mar, de altas e talhadas rochas bem cercada; e da parte da terra, de ásperas e umbrosas serras e sarrados matos, donde as sobreditas águas continuamente estão correndo; mas, se por causa das serras e porto, a vila está segura, não está o mar daquela costa, por andarem muitas vezes cossairos espreitando e esperando os navios que vão para fora e doutras partes vêm para esta ilha, por todos irem demandar o alto morro que está perto dela, que é, como disse, a primeira coisa que se vê, quando vêm do oriente.
Tem esta vila somente um termo, que é o lugar da freguesia de São Pedro, pela costa do norte, como direi quando dela falar adiante. O porto desta vila está distante dela quase um quarto de légua, para a banda do sul e, pela volta que a terra vai fazendo, fica fronteiro ao leste. Dali vai correndo a costa de alta rocha ao su-sudoeste, por espaço de um tiro de espingarda, até uma ponta, pouco metida no mar, chamada de uma mulher que ali morou a Ponta da Marquesa, ficando atrás em uma lomba uma ermida de Nossa Senhora de Nazaré e uma lomba de Gaspar Soares, porque foi de um homem assim chamado, por onde corre uma ribeira, chamada a ribeira da Ponta, por ter uma, ou por morar ali um Diogo da Ponte, da qual vai descendo até ao mesmo porto da vila do Nordeste. Da Ponta da Marquesa corre a costa tanto como meia légua ao sudoeste, passando pela lomba de Rui Garcia e pela lomba do Meio, donde corre uma ribeira, do Trosquiado, um homem assim chamado, porque se trosquiava sempre e não deixava crescer o cabelo, que chamam Lomba do Meio, por estar entre a de Rui Garcia e a lomba e ribeira dos Cambos; entre a ponta da Marquesa e a dos Cambos faz ali a terra uma grande baía de meia légua, que tem uma praia de areia, a que chamam as Prainhas, onde se acolhem os navios das tormentas e ventos su-sudoeste, sudoeste, oeste e noroeste; e para todos estes ventos e quase todos os outros, tirando o norte e sul, é este muito bom porto e limpo e seguro abrigo; onde também está uma fajã de terra de pão, de António Afonso, senhor do Lombo Largo, sogro do licenciado António Camelo; e logo adiante uma ponta, que se chama o Lombo Gordo, onde é o topo da ilha, como um cunhal dela, que se chama Topo ou Morro do Nordeste, que estará de Água Retorta um quarto de légua. Na rocha da ponta do Lombo Gordo nasceu uma árvore tão grande como uma romeira, que nunca se pôde saber que árvore era, nem de que espécie, a qual tinha as folhas como de pau branco e de cor de ouro, e dava umas maçãs de pau, como bugalhos, que regoavam; por cuja causa chamavam dantes àquela ponta ali a Árvore Formosa, que durou naquela parte muitos anos e já é consumida.
Logo adiante, corre uma ribeira, que se chama dos Cambos, chamada assim porque não se podendo descer um homem que ia por ali perdido, fez uns cambos de pau, com que desceu ao calhau pela rocha abaixo. Mais adiante está uma ponta ao mar, pequena, onde está uma fajã de Francisco Fernandes, sogro que foi de Matias Lopes de Araújo, da vila de Água do Pau; da qual fajã até à ponta de João da Costa será uma légua, ao pé da qual está outra fajã de moio e meio de terra de pão, do mesmo João da Costa, filho de João Afonso.
Dela para trás vai virando a terra para o nordeste, tudo em rocha mui alta, onde não há mais que duas descidas abaixo ao calhau, onde se chama a Água Retorta, e duas ribeiras, uma chamada do Arco, porque furou a terra para ir para o mar e ficou um arco nela, e outra se chama a ribeira de Água Retorta, porque se vai retorcendo em voltas. Ali na terra, em cima daquelas altas rochas, está um ajuntamento de moradores, até dez casais, da freguesia do Faial, onde entre eles tem sua fazenda João Roiz Cordeiro, cidadão de Vila Franca do Campo.
Daí para o sul, que será mais de quarto de légua, corre a costa ao noroeste, fazendo uma enseada ou baía de mais de meia légua, antre a ponta de João da Costa e outra que está logo além do Faial; estando depois da ponta de João da Costa uma altíssima rocha, direita ao prumo e talhada, que dizem ser a mais alta de toda a ilha, que se chama o Bode, por cair algum dela abaixo, donde caem também pedras , que mataram ali um moço e feriram dois, que por baixo passavam; e, para contar isto melhor, somente ao longo da costa, digo que da vila do Nordeste, correndo rocha alta, ao porto da dita vila, que é desembarcadouro em penedia brava, e uma calheta em que somente cabe um barco, há mais de dois tiros de escopeta, e do dito porto pela costa adiante, até chegar à costa do sul, tem muitos e bons surgidouros.
Do porto há, outro tanto espaço de rocha alta, uma grande e alta ponta, chamada da Marquesa; da Ponta da Marquesa vai fazendo a rocha uma enseada, de compridão de uma légua, até ao Morro, que é uma alta rocha, como cunhal da ilha, testa do Lombo Gordo, dentro da qual enseada, toda cercada de penedia, ao lível do mar, meia légua, quase no meio dela, vai beber no mar uma ribeira, que somente corre no inverno, chamada dos Cambos; além da qual ribeira, contíguo com ela, está um pequeno areal, de areia miúda e preta; e logo vão umas fajãs pequenas, que dão trigo e pastel, até entestar com o Morro já dito.
Este Morro é uma soberba serra que se chama o Lombo Gordo, que vai morrer e acabar em uma rocha muito alta, da banda do levante, chamada dos mareantes o Morro ou Topo, em que bate o mar uma légua da vila do Nordeste; e o mesmo Morro vai pela terra dentro, e crescendo cada vez mais, e alevantando-se até ao Pico da Vara, que é o mais alto monte da ilha, que por outro nome se chama toda aquela serra alta dos Graminhais, ao pé dos quais está a Lomba de São Pedro e a Algarvia, da banda do norte, e o Faial, e a Povoação Velha, da banda do sul.
Do qual Morro para diante, vai voltando a costa, de alta rocha e calhau grosso e miúdo, a lugares ao lível do mar, onde quando o mar se embravece chega ao pé da dita rocha meia légua até ao passo que se diz da Gorda, por passarem por cima de uma ponta de pedra, alando-se por uma corda de uma banda para outra. Junto do qual passo, quase apegados com ele, estão dois penedos altos, de modo de pedra queimada, que chamam os Ilheusinhos, onde há um bom surgidouro, o melhor que há por aquela banda do norte, dali até à Maia.
Dos Ilheusinhos, correndo a rocha alta e calhau ao longo do mar, pela mesma maneira dita atrás. até espaço de meia légua para o sul, está uma boa fajã de Simão da Ponte, com caminho de pé e de bestas, pela rocha arriba, que dá bom pão e pastel; junto da qual fajã, um tiro de besta, dobrando já a costa para a parte do sul, está uma grota chamada a Grota Funda; e apegado com ela, um tiro de pedra, está uma fonte de tão grossa água como a coxa de um homem, que nasce em meia rocha, ao pé de uma fajã pequena; acima da qual fajã e da outra atrás dita está uma povoação de gente, de até dez ou doze casais, que se chama Água Retorta, por respeito da fonte que pela rocha cai em voltas, e são da freguesia do Faial.
D’Água Retorta, que parte com o Lombo Gordo na banda do ponente, se começa o termo de Vila-Franca, porque ali fenece o do Nordeste; e dali para o ponente vai começando a costa do sul, correndo a rocha direita e mui alta, e tão íngreme que em muita parte dela não poderão andar cabras, ao lível com o mar, de calhau miúdo; ao pé da qual rocha, além meia légua, está uma fajã grande de Baltasar Manuel, de até dois moios de terra, muita parte da qual semeia de pão e a mais ocupada de mato, urze, murta e faia; e correndo a mesma rocha para loeste, a modo de enseada pouco curva, por espaço de um tiro de espingarda, está na mesma rocha uma veia de pedra branca da largura de oito côvados, desde o pé da rocha até o meio, que será altura de tiro de um bom berço, que se chama o Risco do Bode, que outros chamam Risco do Manaia, pelo ele ver, vindo do Reino para esta ilha, em tempo de cerração, sem ter vista a ilha, e pela brancura do Risco, julgar ser a ilha; e indo a descobri-la junto da costa, donde depois dizia o mesmo Manaia, vindo do Regno:— levo pela proa o Risco do Faial; e tão bom piloto era nesta travessa, que assim o fazia como dizia.
Ao pé do qual Risco, ou vieiro de pedra, nasce uma fonte pequena, de boa água doce; deste Risco branco caem muitas vezes pedras em tempo de chuva, com que correm muito perigo os que por ali caminham pelo pé daquela rocha; do qual Risco até às Formigas que estão ao su-sueste, há dez léguas, demorando-Ihe o Risco a elas ao nor-noroeste. Deste Risco branco corre a rocha direita ao noroeste, assim altíssima por espaço de um tiro e meio de escopeta até ao Faial, com uma baía que ali faz antre as duas pontas já ditas, no meio da qual está o dito lugar do Faial, situado em uma aberta, antre uma grande ribeira, da banda do oriente do lugar, logo passada a Rocha do Bode, ao pé dela, e uma levada que dela sai da parte do ocidente, com que moe um moinho, de que se servem os moradores do mesmo lugar do Faial, assim chamado por ser antigamente aquele vale coberto de muitas faias e altas, com raras sombras de brandos vimes, e outras espessas de verdes árvores, regadas não somente com a ribeira e levada, mas com muitas deleitosas e claras fontes que das ladeiras daquela montosa terra se vêm meter nelas até se misturarem suas doces águas com as salgadas do mar vizinho, em um bom porto que tem, pelo qual sobe muito pescado pelas correntes da ribeira acima, além da grande quantidade de eirós, que ela em si cria, das quais coisas todas está o lugar tão bastecido, como das muitas faias de que tomou o nome, o qual já é termo de Vila-Franca do Campo, de quem ela elege, a seus tempos, homens que a governam. Tem uma igreja, da invocação de Nossa Senhora da Graça, cuja festa principalmente se celebra a oito dias de Setembro; terá toda a freguesia trinta e sete fogos e almas de confissão cento e catorze, das quais são de sacramento oitenta e oito, e já teve mais; cujo primeiro vigairo foi um Rodrigo Anes Barabam, alcunha imposta porque, quando dizia a Paixão, só este vocábulo Ihe entendiam; o segundo, um frade francês, da Ordem de S. Domingos, a que não soube o nome; o terceiro João Afonso, que depois foi vigairo da Fajã; o quarto, Jorge Fernandes, o Damão; o quinto, Belchior Manuel; o sexto, Amador Travassos; o sétimo, Amador Furtado; o octavo, Roque Coelho de Medeiros; o nono, Manuel de Magalhães; o décimo, Hierónimo de Brum, bom sacerdote que agora serve. Além do que tem de renda, possue também um rico pomar de muitas fruteiras, principalmente de árvores de espinho, de muitas laranjas, cidras, limas e limões de talhada e de sumo, que têm pelos melhores da ilha; o qual Ihe deixaram os antigos e nobres moradores, de que descendem os do presente tempo. Dista do Nordeste três léguas, e alguns moradores deste caminho são desta freguesia; e ainda que o porto é mais que de serventia de batéis, poucas vezes surgem nele navios, por não servir para abrigo, nem ter carregação alguma. Os vizinhos dele, que são nobres e ricos, lavram pão e algum pastel; e tudo é muito bom, mas abasta para pouco mais que para seus moradores; tem madeira, que alguns granjeiam e mandam vender a caixeiros, a Vila-Franca e à cidade.
Está este lugar assentado em um campo de oito até dez moios de terra, cercado de montes, quase de meia légua de altura de todas as partes, senão do sul, donde fica o mar, o qual campo parece que em algum tempo foi mar e com enchentes se atupiu de terra.
No monte, da parte do oriente, está a roça de Pero de Freitas, onde roçam mato para semearem pastel e trigo; descendo dela para a banda do sul, está uma grota que se chama o Campo dos Alhos, porque havia ali muitos bravos, a qual grota, em tempo de inverno, toma muita água e toda corre para o Faial, com que dá muito trabalho aos moradores dele; e apegado com a grota, da banda do mar, fica o Pico Alto do Bode, que já disse, de criações de gado, e rocha mui alta de pedra vermelha, queimada, como coisa que em outros tempos ardeu; e dela caiem as pedras que disse, no caminho que vai do Nordeste e Água Retorta, ao longo do mar, e da fajã de João da Costa, que será de moio e meio de terra, e dá trigo, pastel e cevada, e criam-se nela muitos coelhos.
No Faial, vem da serra pela banda do nascente a grande e formosa ribeira que cria muitos eirós, pela qual com o mar bonança entra muito pescado e já por ela entraram batéis até um poço que teve vinte e cinco palmos de comprido e outros tantos de largo e está tão longe do mar como um jogo de barreira, e pelo meio do campo vai a outra ribeira da mesma serra, de muito boa água; e antre uma ribeira e outra está a igreja e alguns casais e benfeitorias de pomares, hortas e latadas, e o mesmo está bem ao pé da serra onde nascem as ribeiras, as quais saem com suas bocas ao mar e quando crescem com as invernadas e força das águas, enche tanto a do Campo dos Alhos, que se ajunta com a outra e dá tanto trabalho ao povo que quase alaga todo o lugar; e o campo por algumas partes, dá bom pastel e trigo.
Indo para o ponente pela terra, se sobe uma grande ladeira, quase de meia légua de subida, até chegar a uma roça que se chama o Saragaço, por criar n’algum tempo esta erva, ou porque é fria por ser muito alta e os ventos estragarem ali tudo e só servir para criação de gado. Subindo mais acima está um pico, que se chama o Pico da Cruz, onde está uma, arvorada, por onde partem os limites da Povoação e Faial, do cume do qual se descobre muita parte do mar e da terra e dali descem para a Povoação Velha, que está do Faial meia légua.
Todas as serras por cima daquelas rochas, de uma e doutra parte deste lugar, são criações de gado vacum e cabrum onde também há porcos monteses; e poucos tempos há que por ali se deixavam tomar pombos torquazes com laços que Ihe lançavam nos pescoços, sem eles fugirem da gente, como se tomavam no tempo antigo, logo quando esta ilha foi achada.
Tomavam também muitos com laços que Ihe armavam nos carreiros dos carros em que se tira o trigo para as eiras, do restolho; donde se fazem algumas searas por entre aqueles matos que são ventoreiros e se tornam muito algumas vezes das muitas névoas que ali caem.
Os primeiros habitadores do lugar do Faial foram João Afonso, o Velho que das Grotas Fundas, junto da Ponta da Garça, onde seu pai povoou primeiro, foi ter ali com outros seus irmãos, Sebastião Afonso, e Diogo Afonso, o Moço; e os filhos dele e seus genros, todos, gente principal e nobre, fizeram nobre aquele povo. O filho mais velho de João Afonso se chama Gaspar Manuel e outro Baltasar Manuel. O Gaspar Manuel casou com Clara Afonso, filha de Salvador Afonso, da vila do Nordeste, de que houve três filhos, que estão casados, dois em Vila-Franca com duas filhas de Sebastião Jácome, morgado que foi de seu pai, e outro ainda solteiro; o Baltasar Manuel casou com Breatís Vaz, filha de Martim Vaz, homem rico, principal do Nordeste, de que houve dois filhos, que estão casados na vila de Água de Pau. O Sebastião Afonso, irmão de João Afonso, o Velho, casou, em Vila-Franca com Constança Rafael, de que houve três filhos e duas filhas, todos ali casados, no Faial. E Diogo Afonso, outro irmão de João Afonso, o Velho, casou no mesmo Faial com Breatís Gonçalves, de que tem uma filha, por nome Francisca Jorge, casada com Pero Cordeiro. E João Afonso, o Moço, terceiro irmão , de João Afonso, o Velho, casou na vila de Água de Pau com Brázia, Vaz da geração dos Fagundos, de que houve onze filhos, entre machos e fêmeas; os mais deles são moradores no Faial, um dos quais é Baltasar Fagundo, vigairo de S. Lázaro, termo de Vila- Franca; e sua filha é também Constança Afonso, mulher de Bartolomeu Jácome, morador na vila da Ribeira Grande, que sucedeu no morgado a seu pai, Sebastião Jácome. Afora Gomes Fernandes e outras pessoas nobres que povoaram e povoam o dito lugar do Faial.
Este lugar do Faial, como disse, está em uma aberta ou vale, antre dois picos, sc. o pico que está da parte do oriente, por onde vão do lugar para a rocha do Bode, e o Pico da Caldeira, por ter no meio uma alagoa de água, como caldeira, que já secou, depois que para fazerem sementeiras foram roçando aquelas terras os donos delas. Acima da qual rocha do Bode estão umas terras, que se chama, uma parte Atalhada e outra, o Perú; delas de pão, e algumas de criações, são dos herdeiros do dito João Afonso e outros, sc. o Pico Grande e o Labaçal, de Sebastião Afonso e seus herdeiros; e outras, de Diogo Afonso, chamadas as Lombinhas e o Poço, apegadas ao Sargaço, que os vizinhos dali chamam Sarragaço, que é um pasto de erva comprida e verde, que está arriba do Pico da Caldeira, dentro pela terra, partidas desta maneira.
De Água Retorta, donde agora mora João Roiz, pessoa nobre, até o Faial, pela terra dentro, estão estas fazendas:—junto de Água Retorta, está o Lombo dos Bardos e o Juncal e Roça Grande, em cima da rocha, e a Fajã do Calhau, ao pé da rocha, junto do mar, e a Fajã do Louro no meio da rocha, que dá muito pastel, e a Rocinha que está sobre o lugar do Faial, dependurada em cima da rocha, e outra fazenda, que se chama a Lapa, terra que também dá trigo, e outra chamada o Guindaste, dependurada sobre a ribeira que corre ao lugar; e arriba dela a Couvinha, que dá também novidade e tem criações, e outra que se chama, as Quebradas, acima da Couvinha, ao longo da mesma ribeira, onde há muitas comedias de gados e muitas frescas fontes; e outra fazenda, terra chã, mais acima, que dá pão, chamada os Moios das Quebradas; e logo acima outra terra de comedia de gado, que por ser mais alta se chama a Cumieira. Todas as quais fazendas, que serão uma légua de terra, partindo com Francisco Fernandes, sogro de Matias Lopes, até o lugar do Faial, foram de João Afonso, o Velho, e agora são de mais de vinte e cinco seus herdeiros, que partem pela banda do norte com os herdeiros de Domingos Afonso, sogro do licenciado Bartolomeu de Frias.
Passado o lugar do Faial, por riba, pela serra, vão continuando as terras de criações do dito Domingos Afonso, de Rosto de Cão, que são Cú de Judas, por ser lugar remoto; e outra lomba, chamada a Lomba da Erva e o Espigão do Caminho, ao pé do Pico Verde, donde nasce a ribeira principal do Faial e outros ribeiros, como é o Labaçal; e outra do Espigão, de Francisqueanes, e outra do Cerrado da Feiteira, e outras que vão dar nela.
Logo partindo com Domingos Afonso estão para a parte do ponente as terras de criações de Pero Roiz Cordeiro, de Vila-Franca, e de seus herdeiros; cuja fazenda é o Cerrado do Labaçal, que é pelas Lombinhas e logo parte com ele João Afonso, o Moço, onde tem o Pico das Cabras e o Pico Longo, até sobre a cumieira da Povoação; e após esta ribeira do Sargaço, parte Nuno Gonçalves, filho de Domingos Afonso e tem ali terras, que chama Perú. E logo além, parte com Nuno Gonçalves, outro herdeiro, que se chama António Fernandes, cujas terras chamam Atalhada e o Cerrado dos Cortiços; e com António Fernandes, da parte do sul, Sebastião Afonso, terras que se chamam o Pico Grande e o Cerrado das Silvas, e outra lomba, chamada o Touril; e mais chegado para o mar, perto do Sarragaço, tem Diogo Afonso a Lomba do Paço, que vai partindo com o Pico da Caldeira, acima do qual está o Sarragaço. Assim que está o lugar do Faial antre os dois picos altos, o da banda de leste não dá pão, mas é terra de criações, e o da parte do ponente dá muito trigo e algum vinho nas ladeiras; e com isto e com o pomar muito grande que está em cima do lugar, pela terra dentro, no cabo da fajã, de muitas árvores e frutos de espinho, que os antigos moradores deixaram para os vigairos do lugar, que pelo tempo fossem, está este lugar muito fresco.
Logo com Diogo Afonso e Sebastião Afonso, do Faial, subindo para o Pico da Caldeira, é aquela subida de Mateus Dias, da geração dos Jorges, que descenderam de Jorge Velho, dos primeiros povoadores desta ilha. E descendo do mesmo Pico da Caldeira, donde se chama a Lomba do Alcaide, está a fazenda de João de Arruda da Costa e de seus herdeiros, que é muito grande, da ribeira de Santa Bárbara, com todo o lugar do mar à serra, onde agora prantam muitas vinhas. Além da lomba do Pumar, e abaixo do Pico do Louro, em outra lomba, chamada do Cavaleiro, sobre a Lapa; as quais lombas todas são na Povoação Velha, da fazenda de João de Arruda, que descendeu dè Gonçalo Vaz, o Grande, e de seus herdeiros, que agora as aproveitam melhor que os antigos, prantando nelas pumares e muitas vinhas que dão o melhor vinho da ilha. As partilhas das quais terras não conto, nem contarei mais outras em particular, por evitar prolixidade. E entendei, Senhora, que pela ordem que contei as ditas, estão mais por dizer em toda a ilha, que são de diversos donos e têm diversos nomes, assim os picos e as terras, como os senhores delas. Só em soma irei apontando alguma vez alguma coisa destas, brevemente. O caminho por esta parte será uma légua do Faial à Povoação Velha; é espaço fragoso e trabalhoso. Mas, tornando ao que ia contando, pela costa, ao longo do mar, onde, fazendo uma grande baía, corre a costa ao noroeste, dali se torna a correr ao sudoeste, até uma pequena ponta que se chama a Cagarra, por se haver visto ali alguma destas aves. Naquela ponta está uma fajã, de até doze alqueires de terra, que dá muito bom pão; e dali torna a correr ao noroeste até à ribeira da Povoação. E logo saindo do Faial tem a terra uma ponta que sai pouco ao mar e antes de a dobrar está um passo, onde bate o mar na rocha, que é causa de se não poder passar por ali mais adiante. E todo o mais caminho é de calhau, até junto da Povoação, em que está um areal tão grande, como uma boa carreira de cavalo; com que fica também o caminho de uma légua, ao longo do mar, se o passo, que tenho dito, desse lugar para caminhar por ele, ao pé daquela rocha tão alta.