Nesta parte do norte, até à vila da Ribeira Grande, há nas rochas ao longo do mar e pelas grotas e na serra muitas e frescas fontes que correm em todo o ano; e algumas que no Verão secam tornam a abrir e correr, como dantes, com as trovoadas do Inverno. Mas, da Ribeira Grande para o ponente, é costa mais seca e sem tantas águas, começando a ser seca na Ribeira Seca, a qual já disse que estava apartada da vila da Ribeira Grande para o ocidente como um tiro de mosquete, e porque no tempo do segundo terremoto correram por ambas estas ribeiras muitas pedras e areia que tomaram por grande espaço posse do mar e o afastaram da vila, com que a fizeram mais tristonha e melanconisada sendo dantes, com o mesmo mar , mais bem assombrada e alegre; com que se fez um areial tão comprido que, começando da dita vila, vai passando pela Ribeira Seca e correndo ao longo do mar um terço de légua, até se acabar no Morro, que se chamou de João de Outeiro, por ser seu, que é uma ponta pequena, mas grossa, de terra alta, pouco metida no mar, defronte da qual está um baixo de pedra, dentro na água, um tiro de arcabuz apartado da terra, no qual arrebenta muitas vezes o mar e algumas pescam os pescadores de batel, em cima dele. Na rocha talhada e alto do Morro, que está defronte deste baixo, estão umas furnas, em as quais, entrando o mar com o vento noroeste, faz uns grandes roncos e espantosos estrondos, cuidando o povo que se causa isto no baixo e não nas bocas e furnas que digo.
Além do Morro, está um biscoutal de pedras, parte dele estéril e outra prantada de boas vinhas, até chegar ao lugar de Rabo de Peixe, que distará da Ribeira Grande meia légua, chamado assim por estar situado em uma ponta de terra e penedia, que sai ao mar, parecendo rabo de peixe, de que o lugar tomou o nome; ou, como outros, porque se achou ali no princípio, junto do mar, um peixe muito grande, sem se poder saber que peixe fosse, se era baleia ou de outro nome, e pelos mouros, que naquele tempo ali guardavam gado, foi dependurado o rabo dele em um pau e dali a dias perguntando a um de donde vinha, respondeu que do rabo de peixe.
Tem este lugar uma igreja de Bom Jesus, cuja festa principal se celebra o primeiro dia de Janeiro; freguesia de duzentos e vinte e quatro fogos e almas de confissão setecentas e vinte e uma, das quais são de sacramento quinhentas e cinquenta e uma, cujo primeiro vigairo foi Afonso Gonçalves, que chamavam pai dos mulatos, por ter muitos escravos em casa; o segundo, João Luiz; o terceiro, Francisco Alvres; o quarto, António Gonçalves; o quinto, Amador Fernandes, que agora tem este cargo. Dos beneficiados, o primeiro foi Roque Esteves; o segundo, Baltasar do Monte; o terceiro, Herculiano Cabral, o quarto, Gaspar Alvres, que o Bispo Dom Pedro de Castilho passou para a vila da Ribeira Grande, como mudou outros beneficiados de outros lugares, por justos respeitos. Tem esta freguesia duas ermidas: uma de Nossa Senhora, que dantes era a paróquia até que fizeram a que é agora matriz, abaixo, abrigada e acompanhada antre as casas; e outra de São Sebastião, no cabo do lugar, para o ponente. Há neste lugar boas terras de pão, de que tem bom dizimadouro; também fazem pastel os moradores, os mais dos quais lavram em terras alheias, tirando os Monizes e sua família e João Roiz, do Pico da Pedra, e poucas pessoas outras. Tem uma formosa baía, da qual até à vila da Alagoa, que está da banda do sul, há uma légua, onde é mais estreita esta ilha e tem o gigante sua delicada cintura. Tem um poço de água salobra, de que todos bebem por não haver outra fonte; é abastado lugar de peixe, de codornizes e de coelhos, em seus tempos. De Rabo de Peixe a um terço de légua, estão umas Calhetas em umas pontas e arrecifes de pedra, em que se toma muito peixe de tarrafa e se fazem boas pescarias, onde mora Belchior Tavares, sogro de Manoel de Puga, e outros alguns moradores; antes das quais Calhetas, pouco espaço, esta a fazenda e quinta do grão capitão Francisco do Rego, com uma ermida nela de que corta e cinge a ilha, como talabarte em que se dependura a espada do gigante Almourol apegada ao cinto, dali, da banda do norte, com uma ponta nas barrocas do mar, até tornar no mesmo cinto, na parte do sul, na freguesia de Rosto de Cão, junto de São Roque, onde tem outra quinta, que houve em casamento com D. Roqueza, sua mulher, de seu sogro Jorge Nunes Botelho; e somente se antremetem no meio dois cerrados alheios, sendo o mais tudo seu, cingindo a terra de mar a mar, com que fica da serra para ambas as bandas águas vertentes. Até às Calhetas chega a freguesia de Rabo de Peixe e termo da Ribeira Grande; delas a outro terço de légua de rocha, de calhau e biscouto, que todo se corre, , sai pouco ao mar uma ponta de terra, mais grossa que a outra chã, que se chama o Morro de Jácome Dias Raposo, por ser seu, onde está uma ermida de São Pedro, que ali mandou fazer o mesmo Jácome Dias, homem nobre e poderoso, cujas eram aquelas terras, em que tinha sua quinta e moradas, tão ricas que elas sós pareciam um grande lugar povoado, com uma ermida, muito devota, da advocação de Nossa Senhora das Candeias. Foi esta casa tão rica e abastada e de tantos criados e criadas, escravos e escravas, de tantos hóspedes ricos e pobres visitada, que nela sempre acharam bom gasalhado, enquanto Jácome Dias viveu, e depois seu filho, Barão Jácome Raposo, e seu neto, Aires Jácome Raposo nela residiam, que parecia uma corte frequentada de gente de toda sorte, onde se davam muitos jantares e ceias, e faziam grandes e sumptuosos banquetes, sendo amparo de forasteiros e dos vizinhos do lugar dos Fenais, que está perto dela, cujos senhores fizeram em seu muitas grandezas, com seus generosos e liberais ânimos, e movidos com grande caridade e piedade deram grossas esmolas a pobres e despenderam grande parte da sua fazenda em obras-pias; e foi uma das mais ricas e abastadas casas que houve nesta ilha e ainda o pode tornar a ser, se seu senhor, Aires Jácome Correia, tornar à ilha.
O lugar dos Fenais, termo da cidade da Ponta Delgada, dito assim, com letra mudada e corrupta, por haver ali muito feno ou muitos fenais, tem uma igreja da advocação de Nossa Senhora da Luz, cuja festa principal se celebra por dia da Purificação de Nossa Senhora, de Fevereiro; é freguesia de duzentos e vinte e quatro fogos, e almas de confissão setecentas e cinquenta e três das quais são de comunhão quinhentas e cinquenta e três. O primeiro vigairo foi Pero Garcia; o segundo, Sebastião Roiz Panchina; o terceiro, António Neto; o quarto, Francisco Fernandes; o quinto, Luís Cabral, que agora tem o cargo. O primeiro beneficiado foi Pero Fernandes; o segundo, Manoel Teixeira, agora transferido para a freguesia de S. Pedro, da cidade. O primeiro cura é o padre João Alvres, que ora serve. Tem também este lugar bom dizimadouro de trigo e pastel, que granjeiam os moradores; bebem água salobra de um poço e é provido de carne e caça de coelhos e codornizes, a seus tempos; e há nesta parte muitas perdizes, que ainda os caçadores não sabem caçar. Há tanto pescado que muitas vezes provê a cidade dele, quando lá falta, e por costume ou privilégio isento de imposição. Além dos Fenaes, meia légua, toda de biscouto de pedra ao longo da costa e terra chã, estão os Poços, assim chamados por estarem ali uns, onde tem um varadouro de calhau bravo, em que varam batéis; no qual lugar se fizeram já dois navios que botaram e vararam ao mar, e onde o capitão Diogo Lopes de Espinhosa mandou fazer um forte muro de pedra ensossa, para dele se poder seguramente defender a desembarcação aos imigos. Estão ali poucas casas e famílias de homens nobres e ricos, fregueses do lugar dos Fenais, que compreende daqui até às Calhetas, que atrás ficam. Dos Poços para o ponente, vai correndo a costa, baixa e quase rasa, de biscouto raso, bravo e mato baixo e vinhas, por espaço de um quarto de légua até o Morro, que é um pico com uma alta ponta que vai beber ao mar e se chama de Martim Vaz, por haver sido de um homem principal deste nome, que é uma terra grossa, de pão, de mais quantidade de dois moios, pouco mais ou menos, metida no mar e fechada com uma cancela. Logo pegado com ele, para a parte da serra, se chama aquela terra as Capelas, da razão do qual nome há muitas opiniões. São estas Capelas biscoutos, e terras de pão poucas, carecidas de águas, mas abastadas de mato de murtaes, tamujos, louros e árvores de outra sorte; há nelas algumas benfeitorias de pomares e vinhas. Dizem alguns que se chamam Capelas, não porque tenham naquela parte feitas algumas igrejas nem capelas, senão porque um dia de São João fizeram uns homens ali umas capelas, deixando- as por esquecimento dependuradas em uma árvore; quando depois nomeavam aquele lugar, Ihe chamavam as Capelas, pelas que nele deixaram. Outros dizem com mais verdade chamarem estas terras Capelas, porque antigamente eram criações de gado vacum e miúdo; os gados, que algumas vezes nelas pastavam, fugiam outras vezes para elas e lá os mandavam também seus donos, depois de ter feito seu serviço com eles; antre o qual gado iam lá muitas vezes e mandavam seus donos duas vacas toucadas ou printadas de branco pela cabeça, à maneira de capelas, pelo que Ihe chamavam as capelas por assim parecerem com aquela malha branca que na cabeça tinham, denominando, pela beta branca da parte, o todo, como chamamos ao negro, que é todo preto, João Branco, só por os dentes alvos. E, mandando-as seu dono buscar, dizia ao criado: — traze daquela serra as capelas; vamos pelas capelas; pelo que, pelo tempo em diante, dos nomes das vacas tão celebrado antre eles, ficou ao sítio, onde andavam, Capelas por nome. O Morro de Martim Vaz, que está para a banda do mar, mais para o ponente, ainda que por cima é terra lavradia, que dá bom trigo e pastel, seu âmago é pedra, como claramente se vê nele, porque na alta rocha que tem da banda do oriente uma grossa ponta, que ele faz ao mar, se criam bilhafres e muitas pombas bravas; a qual ponta é furada por baixo, fazendo uma abóboda de pedra, de altura de duas lanças e de compridão mais de três, e tão larga que passa por ela um batel emasteado, com um remo de uma parte e uma vara da outra, por não caberem na largura ambos os remos; e da banda do ponente, saindo pela boca dele, está à mão direita um ilhéu maior que uma grande casa sobradada, de altura de três lanças que tem em cima feno, em que se criam grande número de garajaus e se acham muitos ovos deles; onde está antre ele e a terra um grande espaço de mar, com uma espaçosa alagoa, que tem dois canais por onde sai ao pego, um por uma parte do ilhéu e outro pela outra. Ali, naquele grande poço do ilhéu para dentro, se fazem grandes pescarias de batel e de cana, pelos que descem àquele lugar pela rocha, e se tomam muitos cranguejos e apanha marisco naquela pequena enseada; e logo passada uma ponta de terra e rocha mui alta, está uma grande baía em que se acolhem os batéis dos Fenaes, em tempo de tormenta. Possue agora este Morro Jordão de Vasconcelos e Jorge de Lucena e seu cunhado Manoel de Sousa, e Martim Vaz, a terça que ficou de seu avô deste nome. Assim corre a rocha alta, espaço de meia légua, até o lugar de Santo António, da qual rocha dois tiros de arcabuz. antes de chegar ao dito lugar, defronte das casas de Sebastião Luiz, defunto, e de seu filho, Hierónimo Luís — da rocha quase o lível com o mar, saem algumas fontes de água doce, que dizem ser da ribeira das Lajes, que naquele direito se sume na serra; e logo sai uma ponta pequena ao mar, onde está o lugar de Santo António, assim chamado por ter a igreja paroquial do mesmo Santo. No cabo da ponta, está uma ermida de Nossa Senhora do Rosairo, que mandou fazer Álvaro Lopes da Costa, homem nobre e poderoso, cuja foi aquela terra; outra ermida está no princípio do lugar, da advocação da Madre de Deus, a qual mandou fazer um nobre antigo, cujo administrador é Gaspar de Oliveira, neto ou bisneto do mesmo. Tem esta freguesia de Santo António cento e cinquenta e dois fogos e almas de confissão quinhentas e cinquenta e quatro, das quais são de comunhão trezentas e oitenta e duas, cujo primeiro vigairo foi Afonso de S. Pedro, que era frade dos Loios; o segundo, João Roiz; o terceiro, João Soares da Costa; o quarto, Baltasar do Monte; o quinto, Francisco Diniz de Sousa, que agora serve. O primeiro beneficiado foi António de Bastos; o segundo, Manoel Roiz, filho do Bilhafre; o terceiro, Domingos de Crasto. Vivem os moradores deste lugar, que é termo da cidade, por lavrança de trigo e pastel. Dele aos Fenaes haverá légua e meia. Além do lugar de Santo António, pouco espaço na testada da fazenda de Álvaro Lopes da Costa, têm os seus moradores, em meia rocha, uma pequena fonte de água doce de que bebem; e tanto como um tiro de berço mais adiante, na testada da fazenda, que foi de Martim Alvres e que comprou a Rodrigueanes, o Bago, nasce antre o mar na rocha uma ribeira com que moem dois moinhos pequenos como azenhas. Além está a quinta e fazenda que foi do grão Pero Pacheco, fidalgo generoso e liberal, grandioso inventor de todas as festas graves que em seu tempo se fizeram nesta ilha antre os cavaleiros dela, e agora é de Simão Lopes de Andrade, casado com D. Maria, sua neta. Adiante estão as fazendas dos herdeiros de António Alvres e as de Domingos Fernandes Cafatim, que comprou a alguns deles; e logo estão as casas e fazenda de Aires de Oliveira, homem nobre e rico, que deixou à Casa da Misericórdia da cidade da Ponta Delgada; e além a fazenda de Aires Jácome Corrêa, e outra do genro de Aires de Oliveira, e a fazenda de Manoel Vaz que possui agora o Carvalho; e além as terras de Barão Jácome Raposo, que ficaram com outras muitas em outras partes a seu filho Aires Jácome Corrêa. Da freguesia de Santo António até uma grota que está além das casas de Aires de Oliveira, atrás ditas, é rocha alta por espaço de meia légua; sobre a mesma grota está uma ermida de Santa Bárbara, de muita romagem; pouco espaço, pela terra dentro, de Santa Bárbara, é a freguesia de Santo António.
Logo corre alta rocha por espaço de uma légua até o lugar da Bretanha, também termo da cidade, situado em uma ponta grossa e romba de terra, que faz a enseada atrás dita; defronte da qual está um baixo grande, dentro no mar, apartado da terra um tiro de arcabuz, que quando o mar é manso aparece de longe preto, e quando é bravo, parece branco e navio que vai à vela, por causa do mar que arrebenta por cima dele. Chama-se este lugar da Bretanha porque é terra alta e grossa, a que chamavam os antigos alta Bretanha; outros dizem que por morar ali antiguamente e ter suas terras e fazenda um bretão. Tem uma igreja da advocação de Nossa Senhora da Ajuda, cuja festa principal se celebra aos oito dias do mês de Setembro. Há nesta freguesia oitenta e dois fogos e almas de confissão trezentas e doze, das quais são de comunhão duzentas e vinte e seis, cujo primeiro vigairo foi João Alvres; o segundo, Nicolau Domingues; o terceiro, Manoel Curvêlo. Têm os seus moradores a mesma granjearia que os de Santo António, de bom trigo e pastel. Além do lugar da Bretanha está o pico de João Alvres, onde mora Braz Alvres, seu herdeiro, e, deste pico a dois tiros de arcabuz, está a grota de João Bom, que ali vivia e tinha suas terras; além da qual grota, logo pegado com ela, está o pico de Mafra, acima do qual pela terra dentro vai a encumeada das Sete- Cidades; da grota de João Bom a meia légua toda de alta rocha, está o lugar dos Mosteiros, passando primeiro que a ele cheguem pelo pico de Mafra, dito assim por haver nele antiguamente algum homem deste lugar de Portugal, assim chamado, ou por outra razão não sabida, uma faldra do qual chega à grota do João Bom, para a parte do levante, a respeito dos Mosteiros; e abaixo deste pico de Mafra, mais ao longo do mar, está a ponta de Estêvão Dias, homem antigo e honrado do Algarve, e o lombo da Pedra Queimada, e o vale de Afonso Vaz, pegado com a fajã dos Mosteiros, que é uma terra corrida do pico das Sete-Cidades que antiguamente arrebentou, descendo pela rocha, fez abaixo dela esta grande fajã de até dez moios de terra boa, que dá o melhor trigo da ilha, e faz pão sem tufo, como o de Portugal, e bom pastel e melões; onde se fez a povoação e freguesia de Nossa Senhora da Concepção, que tem setenta fogos e almas de confissão duzentas e quarenta e seis, das quais são de comunhão cento e oitenta e duas, cujo primeiro vigairo foi Fernão de Anes, o segundo, Pero Anes; o terceiro, Fernão Gonçalves; o quarto, Francisco de Rovoredo; o quinto, Álvaro Garcia, que agora serve. Segundo alguns dizem, também arrebentaram do pico das Sete-Cidades, ou porventura quebrariam da rocha, quatro ilhéus que estão no mar, apartados da terra um tiro de besta, e passam navios por antre eles e a terra; o mesmo espaço distará um do outro, três dos quais, chegados à terra ou fajã, são maiores, e dois deles como dois cubelos, e o mais distante é só muito maior que os outros três juntos, à feição de igreja ou mosteiro, e por isso se chamou dele ou de todos eles àquele lugar e freguesia, feita na fajã ao longo deles, Mosteiros. Nestes ilhéus, que todos são de tufo, principalmente no maior, de Abril até todo Agosto, todos os anos, criam muitos garajaus, e dali por diante se vão e não aparecem. Antre os quais ilhéus e uma ponta que está para a parte do norte, que se chama do Matos, homem deste nome, está um porto em que varam os batéis, e mais além da ponta Ruiva, defronte da rocha, uma baixa grande, ao mar. Antre o ilhéu grande e a ponta Ruiva, pela rocha, até à ponta dos Escalvados, estão umas grandes concavidades e furnas bem feitas, a modo de igreja ou mosteiros, e daqui ou dos ilhéus que parecem mosteiros, ou de ambas estas coisas, chamam os antigos povoadores àquele lugar os Mosteiros, situado na fajã que tenho dito haver corrido do pico das Sete Cidades .
Tudo o que aqui se dá, dizem os moradores que é o melhor ou ao menos igual com o melhor que a ilha de si produz. Nesta baía e antre estes ilhéus, à sombra da rocha e terra alta, se abrigam os navios de todos os ventos do sueste, até o sul e leste. Este é o pé direito, que eu dizia do gigante Almourol, que tem dentro no mar alevantado, por estarem alevantados nele estes ilhéus, que parecem dedos de seu pé, que, por parecerem igrejas, Ihe deram o nome de religião, chamando-lhe Mosteiros.
Deste lugar dos Mosteiros, a três tiros de besta, está a ponta Ruiva, chamada assim por ser desta cor a terra daquela rocha, e dela aos Escalvados, ou pico dos Escalvados, há um tiro de arcabuz; os quais Escalvados são o fim da ilha, que está ao noroeste, da parte do ocidente, e o rabo da vestidura roçagante do gigante Almourol, como já tenho dito. Logo para a parte do sul, distante dois tiros de besta, está o pé esquerdo do mesmo gigante, armado de ferro, que é o pico das Ferrarias. Por toda a costa da ilha, em torno, há muitos e bons pesqueiros, em que comummente se toma muito pescado de diversas espécies e maneiras, porque, como há muita penedia de biscoutos ao redor de toda ela, seguramente, como se estivessem os homens em suas casas, estão assentados nos penedos pescando e, com muita facilidade e passatempo e pouco trabalho, tomam quase sempre muito peixe; e em algumas partes da costa, onde há moledos, que é uma pedra mole como tufo, há infinitas cracas, que chamam em latim umbilicus marinus, e assim o parece a quem as vê, e no gosto e em todo o mais fazem avantagem às ostras e ameijas e a qualquer outro marisco, e são o melhor marisco de todos os mariscos; há também muitos cranguejos de toda sorte, e uns melhores que todos, mais delicados e limpos que os de Portugal, criados não em lodo, mas em lisos e lavados penedos, a que chamam mouriscos, por serem como uns ginetes de África, mais delicados e ligeiros; e muitas lapas e búzios, e sobretudo as melhores lagostas que se podem achar em todo mundo; e em muitas partes das rochas, assim da banda do norte, como da banda do sul, há infinidade de pombas bravas que nelas criam muitas, das quais tomam os caçadores pombeiros em cevadouros e dá negaça, com que toda a ilha é delas bem provida.
Nesta parte do norte, até à vila da Ribeira Grande, há nas rochas ao longo do mar e pelas grotas e na serra muitas e frescas fontes que correm em todo o ano; e algumas que no Verão secam tornam a abrir e correr, como dantes, com as trovoadas do Inverno. Mas, da Ribeira Grande para o ponente, é costa mais seca e sem tantas águas, começando a ser seca na Ribeira Seca, a qual já disse que estava apartada da vila da Ribeira Grande para o ocidente como um tiro de mosquete, e porque no tempo do segundo terremoto correram por ambas estas ribeiras muitas pedras e areia que tomaram por grande espaço posse do mar e o afastaram da vila, com que a fizeram mais tristonha e melanconisada sendo dantes, com o mesmo mar , mais bem assombrada e alegre; com que se fez um areial tão comprido que, começando da dita vila, vai passando pela Ribeira Seca e correndo ao longo do mar um terço de légua, até se acabar no Morro, que se chamou de João de Outeiro, por ser seu, que é uma ponta pequena, mas grossa, de terra alta, pouco metida no mar, defronte da qual está um baixo de pedra, dentro na água, um tiro de arcabuz apartado da terra, no qual arrebenta muitas vezes o mar e algumas pescam os pescadores de batel, em cima dele. Na rocha talhada e alto do Morro, que está defronte deste baixo, estão umas furnas, em as quais, entrando o mar com o vento noroeste, faz uns grandes roncos e espantosos estrondos, cuidando o povo que se causa isto no baixo e não nas bocas e furnas que digo.
Além do Morro, está um biscoutal de pedras, parte dele estéril e outra prantada de boas vinhas, até chegar ao lugar de Rabo de Peixe, que distará da Ribeira Grande meia légua, chamado assim por estar situado em uma ponta de terra e penedia, que sai ao mar, parecendo rabo de peixe, de que o lugar tomou o nome; ou, como outros, porque se achou ali no princípio, junto do mar, um peixe muito grande, sem se poder saber que peixe fosse, se era baleia ou de outro nome, e pelos mouros, que naquele tempo ali guardavam gado, foi dependurado o rabo dele em um pau e dali a dias perguntando a um de donde vinha, respondeu que do rabo de peixe.
Tem este lugar uma igreja de Bom Jesus, cuja festa principal se celebra o primeiro dia de Janeiro; freguesia de duzentos e vinte e quatro fogos e almas de confissão setecentas e vinte e uma, das quais são de sacramento quinhentas e cinquenta e uma, cujo primeiro vigairo foi Afonso Gonçalves, que chamavam pai dos mulatos, por ter muitos escravos em casa; o segundo, João Luiz; o terceiro, Francisco Alvres; o quarto, António Gonçalves; o quinto, Amador Fernandes, que agora tem este cargo. Dos beneficiados, o primeiro foi Roque Esteves; o segundo, Baltasar do Monte; o terceiro, Herculiano Cabral, o quarto, Gaspar Alvres, que o Bispo Dom Pedro de Castilho passou para a vila da Ribeira Grande, como mudou outros beneficiados de outros lugares, por justos respeitos. Tem esta freguesia duas ermidas: uma de Nossa Senhora, que dantes era a paróquia até que fizeram a que é agora matriz, abaixo, abrigada e acompanhada antre as casas; e outra de São Sebastião, no cabo do lugar, para o ponente. Há neste lugar boas terras de pão, de que tem bom dizimadouro; também fazem pastel os moradores, os mais dos quais lavram em terras alheias, tirando os Monizes e sua família e João Roiz, do Pico da Pedra, e poucas pessoas outras. Tem uma formosa baía, da qual até à vila da Alagoa, que está da banda do sul, há uma légua, onde é mais estreita esta ilha e tem o gigante sua delicada cintura. Tem um poço de água salobra, de que todos bebem por não haver outra fonte; é abastado lugar de peixe, de codornizes e de coelhos, em seus tempos. De Rabo de Peixe a um terço de légua, estão umas Calhetas em umas pontas e arrecifes de pedra, em que se toma muito peixe de tarrafa e se fazem boas pescarias, onde mora Belchior Tavares, sogro de Manoel de Puga, e outros alguns moradores; antes das quais Calhetas, pouco espaço, esta a fazenda e quinta do grão capitão Francisco do Rego, com uma ermida nela de que corta e cinge a ilha, como talabarte em que se dependura a espada do gigante Almourol apegada ao cinto, dali, da banda do norte, com uma ponta nas barrocas do mar, até tornar no mesmo cinto, na parte do sul, na freguesia de Rosto de Cão, junto de São Roque, onde tem outra quinta, que houve em casamento com D. Roqueza, sua mulher, de seu sogro Jorge Nunes Botelho; e somente se antremetem no meio dois cerrados alheios, sendo o mais tudo seu, cingindo a terra de mar a mar, com que fica da serra para ambas as bandas águas vertentes. Até às Calhetas chega a freguesia de Rabo de Peixe e termo da Ribeira Grande; delas a outro terço de légua de rocha, de calhau e biscouto, que todo se corre, , sai pouco ao mar uma ponta de terra, mais grossa que a outra chã, que se chama o Morro de Jácome Dias Raposo, por ser seu, onde está uma ermida de São Pedro, que ali mandou fazer o mesmo Jácome Dias, homem nobre e poderoso, cujas eram aquelas terras, em que tinha sua quinta e moradas, tão ricas que elas sós pareciam um grande lugar povoado, com uma ermida, muito devota, da advocação de Nossa Senhora das Candeias. Foi esta casa tão rica e abastada e de tantos criados e criadas, escravos e escravas, de tantos hóspedes ricos e pobres visitada, que nela sempre acharam bom gasalhado, enquanto Jácome Dias viveu, e depois seu filho, Barão Jácome Raposo, e seu neto, Aires Jácome Raposo nela residiam, que parecia uma corte frequentada de gente de toda sorte, onde se davam muitos jantares e ceias, e faziam grandes e sumptuosos banquetes, sendo amparo de forasteiros e dos vizinhos do lugar dos Fenais, que está perto dela, cujos senhores fizeram em seu muitas grandezas, com seus generosos e liberais ânimos, e movidos com grande caridade e piedade deram grossas esmolas a pobres e despenderam grande parte da sua fazenda em obras-pias; e foi uma das mais ricas e abastadas casas que houve nesta ilha e ainda o pode tornar a ser, se seu senhor, Aires Jácome Correia, tornar à ilha.
O lugar dos Fenais, termo da cidade da Ponta Delgada, dito assim, com letra mudada e corrupta, por haver ali muito feno ou muitos fenais, tem uma igreja da advocação de Nossa Senhora da Luz, cuja festa principal se celebra por dia da Purificação de Nossa Senhora, de Fevereiro; é freguesia de duzentos e vinte e quatro fogos, e almas de confissão setecentas e cinquenta e três das quais são de comunhão quinhentas e cinquenta e três. O primeiro vigairo foi Pero Garcia; o segundo, Sebastião Roiz Panchina; o terceiro, António Neto; o quarto, Francisco Fernandes; o quinto, Luís Cabral, que agora tem o cargo. O primeiro beneficiado foi Pero Fernandes; o segundo, Manoel Teixeira, agora transferido para a freguesia de S. Pedro, da cidade. O primeiro cura é o padre João Alvres, que ora serve. Tem também este lugar bom dizimadouro de trigo e pastel, que granjeiam os moradores; bebem água salobra de um poço e é provido de carne e caça de coelhos e codornizes, a seus tempos; e há nesta parte muitas perdizes, que ainda os caçadores não sabem caçar. Há tanto pescado que muitas vezes provê a cidade dele, quando lá falta, e por costume ou privilégio isento de imposição. Além dos Fenaes, meia légua, toda de biscouto de pedra ao longo da costa e terra chã, estão os Poços, assim chamados por estarem ali uns, onde tem um varadouro de calhau bravo, em que varam batéis; no qual lugar se fizeram já dois navios que botaram e vararam ao mar, e onde o capitão Diogo Lopes de Espinhosa mandou fazer um forte muro de pedra ensossa, para dele se poder seguramente defender a desembarcação aos imigos. Estão ali poucas casas e famílias de homens nobres e ricos, fregueses do lugar dos Fenais, que compreende daqui até às Calhetas, que atrás ficam. Dos Poços para o ponente, vai correndo a costa, baixa e quase rasa, de biscouto raso, bravo e mato baixo e vinhas, por espaço de um quarto de légua até o Morro, que é um pico com uma alta ponta que vai beber ao mar e se chama de Martim Vaz, por haver sido de um homem principal deste nome, que é uma terra grossa, de pão, de mais quantidade de dois moios, pouco mais ou menos, metida no mar e fechada com uma cancela. Logo pegado com ele, para a parte da serra, se chama aquela terra as Capelas, da razão do qual nome há muitas opiniões. São estas Capelas biscoutos, e terras de pão poucas, carecidas de águas, mas abastadas de mato de murtaes, tamujos, louros e árvores de outra sorte; há nelas algumas benfeitorias de pomares e vinhas. Dizem alguns que se chamam Capelas, não porque tenham naquela parte feitas algumas igrejas nem capelas, senão porque um dia de São João fizeram uns homens ali umas capelas, deixando- as por esquecimento dependuradas em uma árvore; quando depois nomeavam aquele lugar, Ihe chamavam as Capelas, pelas que nele deixaram. Outros dizem com mais verdade chamarem estas terras Capelas, porque antigamente eram criações de gado vacum e miúdo; os gados, que algumas vezes nelas pastavam, fugiam outras vezes para elas e lá os mandavam também seus donos, depois de ter feito seu serviço com eles; antre o qual gado iam lá muitas vezes e mandavam seus donos duas vacas toucadas ou printadas de branco pela cabeça, à maneira de capelas, pelo que Ihe chamavam as capelas por assim parecerem com aquela malha branca que na cabeça tinham, denominando, pela beta branca da parte, o todo, como chamamos ao negro, que é todo preto, João Branco, só por os dentes alvos. E, mandando-as seu dono buscar, dizia ao criado: — traze daquela serra as capelas; vamos pelas capelas; pelo que, pelo tempo em diante, dos nomes das vacas tão celebrado antre eles, ficou ao sítio, onde andavam, Capelas por nome. O Morro de Martim Vaz, que está para a banda do mar, mais para o ponente, ainda que por cima é terra lavradia, que dá bom trigo e pastel, seu âmago é pedra, como claramente se vê nele, porque na alta rocha que tem da banda do oriente uma grossa ponta, que ele faz ao mar, se criam bilhafres e muitas pombas bravas; a qual ponta é furada por baixo, fazendo uma abóboda de pedra, de altura de duas lanças e de compridão mais de três, e tão larga que passa por ela um batel emasteado, com um remo de uma parte e uma vara da outra, por não caberem na largura ambos os remos; e da banda do ponente, saindo pela boca dele, está à mão direita um ilhéu maior que uma grande casa sobradada, de altura de três lanças que tem em cima feno, em que se criam grande número de garajaus e se acham muitos ovos deles; onde está antre ele e a terra um grande espaço de mar, com uma espaçosa alagoa, que tem dois canais por onde sai ao pego, um por uma parte do ilhéu e outro pela outra. Ali, naquele grande poço do ilhéu para dentro, se fazem grandes pescarias de batel e de cana, pelos que descem àquele lugar pela rocha, e se tomam muitos cranguejos e apanha marisco naquela pequena enseada; e logo passada uma ponta de terra e rocha mui alta, está uma grande baía em que se acolhem os batéis dos Fenaes, em tempo de tormenta. Possue agora este Morro Jordão de Vasconcelos e Jorge de Lucena e seu cunhado Manoel de Sousa, e Martim Vaz, a terça que ficou de seu avô deste nome. Assim corre a rocha alta, espaço de meia légua, até o lugar de Santo António, da qual rocha dois tiros de arcabuz. antes de chegar ao dito lugar, defronte das casas de Sebastião Luiz, defunto, e de seu filho, Hierónimo Luís — da rocha quase o lível com o mar, saem algumas fontes de água doce, que dizem ser da ribeira das Lajes, que naquele direito se sume na serra; e logo sai uma ponta pequena ao mar, onde está o lugar de Santo António, assim chamado por ter a igreja paroquial do mesmo Santo. No cabo da ponta, está uma ermida de Nossa Senhora do Rosairo, que mandou fazer Álvaro Lopes da Costa, homem nobre e poderoso, cuja foi aquela terra; outra ermida está no princípio do lugar, da advocação da Madre de Deus, a qual mandou fazer um nobre antigo, cujo administrador é Gaspar de Oliveira, neto ou bisneto do mesmo. Tem esta freguesia de Santo António cento e cinquenta e dois fogos e almas de confissão quinhentas e cinquenta e quatro, das quais são de comunhão trezentas e oitenta e duas, cujo primeiro vigairo foi Afonso de S. Pedro, que era frade dos Loios; o segundo, João Roiz; o terceiro, João Soares da Costa; o quarto, Baltasar do Monte; o quinto, Francisco Diniz de Sousa, que agora serve. O primeiro beneficiado foi António de Bastos; o segundo, Manoel Roiz, filho do Bilhafre; o terceiro, Domingos de Crasto. Vivem os moradores deste lugar, que é termo da cidade, por lavrança de trigo e pastel. Dele aos Fenaes haverá légua e meia. Além do lugar de Santo António, pouco espaço na testada da fazenda de Álvaro Lopes da Costa, têm os seus moradores, em meia rocha, uma pequena fonte de água doce de que bebem; e tanto como um tiro de berço mais adiante, na testada da fazenda, que foi de Martim Alvres e que comprou a Rodrigueanes, o Bago, nasce antre o mar na rocha uma ribeira com que moem dois moinhos pequenos como azenhas. Além está a quinta e fazenda que foi do grão Pero Pacheco, fidalgo generoso e liberal, grandioso inventor de todas as festas graves que em seu tempo se fizeram nesta ilha antre os cavaleiros dela, e agora é de Simão Lopes de Andrade, casado com D. Maria, sua neta. Adiante estão as fazendas dos herdeiros de António Alvres e as de Domingos Fernandes Cafatim, que comprou a alguns deles; e logo estão as casas e fazenda de Aires de Oliveira, homem nobre e rico, que deixou à Casa da Misericórdia da cidade da Ponta Delgada; e além a fazenda de Aires Jácome Corrêa, e outra do genro de Aires de Oliveira, e a fazenda de Manoel Vaz que possui agora o Carvalho; e além as terras de Barão Jácome Raposo, que ficaram com outras muitas em outras partes a seu filho Aires Jácome Corrêa. Da freguesia de Santo António até uma grota que está além das casas de Aires de Oliveira, atrás ditas, é rocha alta por espaço de meia légua; sobre a mesma grota está uma ermida de Santa Bárbara, de muita romagem; pouco espaço, pela terra dentro, de Santa Bárbara, é a freguesia de Santo António.
Logo corre alta rocha por espaço de uma légua até o lugar da Bretanha, também termo da cidade, situado em uma ponta grossa e romba de terra, que faz a enseada atrás dita; defronte da qual está um baixo grande, dentro no mar, apartado da terra um tiro de arcabuz, que quando o mar é manso aparece de longe preto, e quando é bravo, parece branco e navio que vai à vela, por causa do mar que arrebenta por cima dele. Chama-se este lugar da Bretanha porque é terra alta e grossa, a que chamavam os antigos alta Bretanha; outros dizem que por morar ali antiguamente e ter suas terras e fazenda um bretão. Tem uma igreja da advocação de Nossa Senhora da Ajuda, cuja festa principal se celebra aos oito dias do mês de Setembro. Há nesta freguesia oitenta e dois fogos e almas de confissão trezentas e doze, das quais são de comunhão duzentas e vinte e seis, cujo primeiro vigairo foi João Alvres; o segundo, Nicolau Domingues; o terceiro, Manoel Curvêlo. Têm os seus moradores a mesma granjearia que os de Santo António, de bom trigo e pastel. Além do lugar da Bretanha está o pico de João Alvres, onde mora Braz Alvres, seu herdeiro, e, deste pico a dois tiros de arcabuz, está a grota de João Bom, que ali vivia e tinha suas terras; além da qual grota, logo pegado com ela, está o pico de Mafra, acima do qual pela terra dentro vai a encumeada das Sete- Cidades; da grota de João Bom a meia légua toda de alta rocha, está o lugar dos Mosteiros, passando primeiro que a ele cheguem pelo pico de Mafra, dito assim por haver nele antiguamente algum homem deste lugar de Portugal, assim chamado, ou por outra razão não sabida, uma faldra do qual chega à grota do João Bom, para a parte do levante, a respeito dos Mosteiros; e abaixo deste pico de Mafra, mais ao longo do mar, está a ponta de Estêvão Dias, homem antigo e honrado do Algarve, e o lombo da Pedra Queimada, e o vale de Afonso Vaz, pegado com a fajã dos Mosteiros, que é uma terra corrida do pico das Sete-Cidades que antiguamente arrebentou, descendo pela rocha, fez abaixo dela esta grande fajã de até dez moios de terra boa, que dá o melhor trigo da ilha, e faz pão sem tufo, como o de Portugal, e bom pastel e melões; onde se fez a povoação e freguesia de Nossa Senhora da Concepção, que tem setenta fogos e almas de confissão duzentas e quarenta e seis, das quais são de comunhão cento e oitenta e duas, cujo primeiro vigairo foi Fernão de Anes, o segundo, Pero Anes; o terceiro, Fernão Gonçalves; o quarto, Francisco de Rovoredo; o quinto, Álvaro Garcia, que agora serve. Segundo alguns dizem, também arrebentaram do pico das Sete-Cidades, ou porventura quebrariam da rocha, quatro ilhéus que estão no mar, apartados da terra um tiro de besta, e passam navios por antre eles e a terra; o mesmo espaço distará um do outro, três dos quais, chegados à terra ou fajã, são maiores, e dois deles como dois cubelos, e o mais distante é só muito maior que os outros três juntos, à feição de igreja ou mosteiro, e por isso se chamou dele ou de todos eles àquele lugar e freguesia, feita na fajã ao longo deles, Mosteiros. Nestes ilhéus, que todos são de tufo, principalmente no maior, de Abril até todo Agosto, todos os anos, criam muitos garajaus, e dali por diante se vão e não aparecem. Antre os quais ilhéus e uma ponta que está para a parte do norte, que se chama do Matos, homem deste nome, está um porto em que varam os batéis, e mais além da ponta Ruiva, defronte da rocha, uma baixa grande, ao mar. Antre o ilhéu grande e a ponta Ruiva, pela rocha, até à ponta dos Escalvados, estão umas grandes concavidades e furnas bem feitas, a modo de igreja ou mosteiros, e daqui ou dos ilhéus que parecem mosteiros, ou de ambas estas coisas, chamam os antigos povoadores àquele lugar os Mosteiros, situado na fajã que tenho dito haver corrido do pico das Sete Cidades .
Tudo o que aqui se dá, dizem os moradores que é o melhor ou ao menos igual com o melhor que a ilha de si produz. Nesta baía e antre estes ilhéus, à sombra da rocha e terra alta, se abrigam os navios de todos os ventos do sueste, até o sul e leste. Este é o pé direito, que eu dizia do gigante Almourol, que tem dentro no mar alevantado, por estarem alevantados nele estes ilhéus, que parecem dedos de seu pé, que, por parecerem igrejas, Ihe deram o nome de religião, chamando-lhe Mosteiros.
Deste lugar dos Mosteiros, a três tiros de besta, está a ponta Ruiva, chamada assim por ser desta cor a terra daquela rocha, e dela aos Escalvados, ou pico dos Escalvados, há um tiro de arcabuz; os quais Escalvados são o fim da ilha, que está ao noroeste, da parte do ocidente, e o rabo da vestidura roçagante do gigante Almourol, como já tenho dito. Logo para a parte do sul, distante dois tiros de besta, está o pé esquerdo do mesmo gigante, armado de ferro, que é o pico das Ferrarias. Por toda a costa da ilha, em torno, há muitos e bons pesqueiros, em que comummente se toma muito pescado de diversas espécies e maneiras, porque, como há muita penedia de biscoutos ao redor de toda ela, seguramente, como se estivessem os homens em suas casas, estão assentados nos penedos pescando e, com muita facilidade e passatempo e pouco trabalho, tomam quase sempre muito peixe; e em algumas partes da costa, onde há moledos, que é uma pedra mole como tufo, há infinitas cracas, que chamam em latim umbilicus marinus, e assim o parece a quem as vê, e no gosto e em todo o mais fazem avantagem às ostras e ameijas e a qualquer outro marisco, e são o melhor marisco de todos os mariscos; há também muitos cranguejos de toda sorte, e uns melhores que todos, mais delicados e limpos que os de Portugal, criados não em lodo, mas em lisos e lavados penedos, a que chamam mouriscos, por serem como uns ginetes de África, mais delicados e ligeiros; e muitas lapas e búzios, e sobretudo as melhores lagostas que se podem achar em todo mundo; e em muitas partes das rochas, assim da banda do norte, como da banda do sul, há infinidade de pombas bravas que nelas criam muitas, das quais tomam os caçadores pombeiros em cevadouros e dá negaça, com que toda a ilha é delas bem provida.
A vila da Ribeira Grande, nobre com seus moradores, rica em suas terras, bem assombrada com seus campos e fértil com seus frutos, está situada de aquém e de além de uma grande ribeira, de que ela tomou o nome, quase no meio da ilha, em uma grande baía da banda do norte, ao pé de uma serra muito fresca : e a ribeira corta a vila em duas partes, de pouco tempo a esta parte, porque até ao ano de mil e quinhentos e quinze não havia da ponte para a parte do ponente mais de duas casas somente.
Mas, veio depois em tanto crescimento, que é agora a maior vila, mais rica e de mais gente que há em todo este Bispado de Angra. Dantes era lugar sufragâneo a Vila Franca do Campo, até que el- Rei Dom Manuel, quatrozeno Rei de Portugal e primeiro deste nome, estando em Abrantes, aos quatro dias do mês de Agosto da era de mil e quinhentos e sete, o fez vila, com uma légua de termo ao redor, contada do Pelourinho dele para todas as partes em redondo.
Um Lopo de Ares escudeiro, criado do Marquês de Vila Real, D. Pedro, o primeiro, porque fora ao Regno com procuração dos moradores do lugar da Ribeira Grande, a este requerimento, pedir a el-Rei Dom Manuel que o fizesse vila, depois de o ter alcançado, veio na era de mil e quinhentos e oito, no mês de Marco, e trouxe a carta de vila, que apresentou aos principais moradores dela e a todo o povo; e no mesmo ano de mil e quinhentos e oito, aos três dias do mês de Abril, estando Rui Gonçalves da Câmara, fidalgo da casa de el-Rei, Capitão e governador da justiça pelo dito Rei nesta ilha, na casa do concelho, sendo para isso requerido por António Carneiro e Rui Tavares, por parte de todo o povo, que com pregão e campa tangida foi junto e chamado, estando presentes o dito Lopo de Ares, escrivão da Câmara, e Tomé Vaz, tabelião público e judicial, ambos de Vila Franca, e João de Aveiro, do dito lugar da Ribeira Grande, deu juramento o dito Capitão a Jorge da Mota, juiz ordinário em Vila Franca e a João do Penedo e António Carneiro, homens nobres, moradores na Ribeira Grande, que escolhessem doze moradores da dita vila, os mais suficientes que em suas consciências achassem ser, para governar e andar na Câmara dela, segundo costume das outras vilas da mesma ilha; elegeram Pero Roiz da Câmara, fidalgo da casa de el-Rei, João do Penedo, Félix Fernandes, António Carneiro, Rui Tavares, Luiz Gago, Pero Teixeira, João Fernandes, Henrique da Mota, Joane Anes Columbreiro, Afonso Jorge e João de Orta; e, dando o Capitão juramento a estes doze, juraram de reger e governar bem a república. Com as mais vozes do povo, saíram por eleitos Félix Fernandes, João do Penedo, António Carneiro, Luiz Gago, Afonso Jorge e Pero Teixeira, os quais seis eleitos elegeram os juízes, vereadores e procuradores do concelho, que o Capitão sorteou, fazendo seus pelouros, como era costume nas outras vilas. E, metidos em três sacos com suas pautas, do Capitão e eleitos, sc., um saco dos juízes; outro dos vereadores e outro dos procuradores do concelho, tirou um minino um pelouro, em que saíram por juízes primeiros, Félix Fernandes e Rui Tavares; e em outro pelouro, vereadores, Pero Teixeira e João Fernandes, uns dizem o Escudeiro, e outros um genro de Preamonte e em outro pelouro, João de Orta, por procurador do concelho; os quais cargos serviram estes primeiros oficiais da Câmara até dia de São João de mil e quinhentos e nove, em que, segundo seu regimento, se tiraram outros para servirem o ano seguinte. E dali a dez anos, na era de mil e quinhentos e vinte, aos quatro dias do mês de Julho, se fez a escritura em que se obrigou Fernão de Alvres, pedreiro, fazer a ponte de pedra junto da praça da dita vila da Ribeira Grande , tão alta que viesse com a praça o andar dela, e o arco de doze côvados de largo em vão e de altura do assento da dita ponte, até ao lume do arco, em vão de doze côvados, e a ponte de largura em vão por dentro de vinte e dois palmos, com seus poiaes e peitoris, e o arco da melhor cantaria que se achasse no termo da vila, e bem lavrado; todo o qual se obrigou a fazer o dito Fernão de Alvres por cinquenta mil reis, que se tinha naquele tempo, em que havia pouco dinheiro, por grande preço. Mas, depois se chamou por algumas vezes ao engano e veio chegar o que custou a ponte a mais de quatrocentos mil réis, em que o Fernão de Alvres perdeu muito de sua fazenda, ficando a ilha toda bem servida, com boa serventia e a vila da Ribeira Grande muito enobrecida com esta e com outra ponte que se fez abaixo, para a banda do mar, primeiro de pau e depois de pedra, mais pequena, com suas casas altas de sobrado, e seus jardins e pomares de diversas árvores fruteiras, e moinhos ao longo da ribeira, que faziam a vila mui fresca e bem servida. E para ser mais nobre, fizeram os moradores uma sumptuosa igreja Matriz, da advocação da Purificação de Nossa Senhora, que vulgarmente se chama Nossa Senhora da Estrela, por estar nesta ilha da parte da estrela do norte.
No ano de mil e quinhentos e sete, fizeram concerto com João de la Peña, mestre de obras, biscainho, Pedro Roiz da Câmara, António Carneiro, Luiz Gago, Rui Garcia, Pero Teixeira. Estêvão Martins João de Orta e Lopo Gonçalves, todos moradores na Ribeira Grande, que ainda então era termo de Vila Franca, mas pretendia e esperava cedo ser vila, aos quatro dias do mês de Junho do dito ano, que havia de fazer o dito João de la Peña a obra de pedraria da dita igreja de Nossa Senhora da Estrela, da feição e grandura da igreja de São Miguel de Vila Franca, por cento e quarenta mil réis e obrigaram-se mandar-Ihe acarretar toda a pedra e lenha necessária para cozer cal, com declaração que haviam de ser as paredes da nave do meio de trinta e seis palmos em alto, as quais, achando-se serem baixas, — de pedras — defeitas, Pero Roiz da Câmara mandou acrescentar nelas duas fiadas à sua custa; e o lajeamento da dita igreja foi arrematado na era de mil e quinhentos e vinte e oito a Fernão de Alvres, pedreiro, com obrigação de fazer e lajear os poiais ao redor, dentro na mesma igreja, tudo por preço de cinquenta mil réis e mais oitocentos réis de alças. A qual era uma só freguesia de setecentos e noventa e quatro fogos e duas mil e oitocentas e treze almas de confissão, das quais eram de comunhão duas mil e cento e quarenta e seis, na era de mil e quinhentos e setenta e seis; mas, depois que o Bispo D. Gaspar de Faria, no seguinte de setenta e sete, criou nova freguesia de São Pedro na Ribeira Seca, seu arrabalde, ficou esta de Nossa Senhora separada por si, e tem setecentos e trinta e quatro fogos e duas mil e quinhentas e oitenta e três almas de confissão, das quais são de comunhão mil e novecentas e quinze. O primeiro vigairo desta vila e freguesia foi Rodrigo Anes, que depois foi vigairo de São Sebastião na Ponta Delgada; o segundo, Frei Amante, que deixou umas casas para os vigairos que Ihe sucedessem, com obrigação de um ofício de três lições por sua alma em cada um ano; o terceiro, Frei Diogo Gusmão, castelhano, que dizem ser frade disfarçado em hábito de clérigo; o quarto, Manuel de Contreiras; o quinto, Frei Vicente; o sexto, Frei Manuel Pereira, que foi muitas vezes visitador e ouvidor do eclesiástico muitos anos e pregador na mesma vila; o sétimo, o Dr. Gaspar Frutuoso, que ora serve os mesmos cargos de vigairo e pregador. O primeiro beneficiado e tesoureiro, na mesma freguesia de Nossa Senhora, foi Inácio Dias; o segundo, António Lopes, e somente estes dois houve no princípio. Depois de acrescentarem outros dois, sc., Francisco Alvres e Vicente Anes, o Bispo D. Rodrigo Pinheiro acrescentou o quinto beneficiado, João Folgado, natural de Vila Franca; e por falecimento de Inácio Dias, primeiro beneficiado, sucedeu o sexto em ordem, Simão Correia Tavares, que depois foi na Beira prior de Rapa e Mangual; o sétimo, Pedro Anes, que sucedeu no benefício de António Lopes; o oitavo, Belchior Manuel, que depois foi vigairo do Faial; o nono, Jorge Fernandes, o Damão, que depois foi beneficiado em Porto Formoso; o décimo, Luiz Anes, que depois, trocando com João Nunes Velho da Câmara, foi vigairo e ouvidor na ilha do Corvo; o undécimo, Miguel Dias que, sendo beneficiado em Porto Formoso, trocou com Jorge Fernandes Damão; o duodécimo, Manuel Tavares Furtado que sucedeu a seu irmão Simão Correia Tavares, prior de Rapa; o décimo terceiro, Manoel Vaz; o décimo quarto, o bacharel Ascêncio Gonçalves, que sucedeu no benefício de Vicente Anes; o décimo quinto, Gaspar Alvres, o Velho, que o Bispo D. Jorge de Santiago acrescentou de novo; o décimo sexto, Ascêncio Gonçalves, o Velho, que sucedeu a Francisco Alvres; o décimo sétimo, Salvador Roiz, que sucedeu no benefício de Gaspar Alvres, o Velho; o décimo octavo, Cristóvão Ferreira, que sucedeu ao bacharel Ascêncio Gonçalves, que fizeram vigairo de Santa Clara, na cidade da Ponta Delgada e depois de São Pedro da Ribeira Seca; o décimo nono, Gaspar Alvres, o Moço, que do lugar de Rabo de Peixe mudou o Bispo Dom Pedro de Castilho para a dita vila da Ribeira Grande; o vigésimo, Baltasar Gonçalves, que sucedeu no benefício de Cristóvão Ferreira; o vigésimo primo, António Roiz, que o Bispo D. Pedro de Castilho acrescentou de novo; o vigésimo segundo, Duarte Lopes, que sucedeu no benefício de Manoel Vaz, defunto; pelo que ao presente tem esta freguesia oito beneficiados. O primeiro cura nela foi Gaspar Alvres, o Moço; o segundo, António Roiz; o terceiro, Mateus Nunes, que agora serve. E o primeiro tesoureiro foi Inácio Dias, primeiro beneficiado; o segundo, Manoel Dias Barroso; o terceiro, Baltazar Gonçalves; o quarto, Agostinho Tavares, que agora serve com muita limpeza e cuidado. E, além dos padres que servem na igreja, o mais do tempo havia nesta vila seis, sete extravagantes. A igreja é de naves e tão grande que depois de feita diziam alguns que era grande pombal para tão poucas pombas, por ser então a gente pouca, mas já agora não cabe nela. Da sua porta principal se vê a maior parte da vila, que tem defronte, e muito grandes e formosos campos de terras lavradias e fertiles e altas terras, montes e vales, e se descobre o mar, com que fica muito alegre, graciosa e bem assombrada, e poucas igrejas se acharão de tão boa vista, nem tão ricas de ornamentos, por ter um pontifical de brocado que os moradores compraram com suas esmolas e mandaram consertar com grande custo, tão rico que em poucas partes dos Regnos de Portugal e Castela se há- de achar seu igual. Tem esta freguesia de Nossa Senhora da Estrela sufragâneo o lugar de Rabo de Peixe e anexas cinco ermidas, sc., de Nossa Senhora do Rosairo, Santa Luzia, Santo André, São Sebastião, Nossa Senhora da Concepção, afora a do Espírito Santo, que é um sprital para pobres e doentes, situado junto da praça, e afora um sumptuoso mosteiro da advocação de Jesus, acima do sprital, não tão rico em edifícios, como em virtudes de nobres e virtuosas religiosas, o qual fez em suas próprias casas Pero Roiz da Câmara. E na era de mil e quinhentos e quarenta e cinco, ele e sua mulher, D. Margarida de Betancor, fizeram partido com Manuel Machado, mestre de obras, filho de Afonso Machado, de Ihe fazer uma capela de abóbada, com seu coruchéu alto e um portal da igreja do Bom Jesus do dito mosteiro, por oitenta e cinco mil réis, aos dezasseis dias do mês de Março do dito ano, e obrigou-se o dito Pero Roiz dar toda a pedra e cal e as mais coisas necessárias para a dita obra. Depois de caído com o tremor da terra, tornou a refazer grande parte dele seu filho, Henrique de Betancor de Sá; em que há quinze religiosas de véu preto e dez noviças. O qual parece que, estando antre a vila e a serra, que a está ameaçando com fogo e fumo, estão suas religiosas com sua religião e virtudes detendo os montes que não corram sobre ela. Teve este mosteiro boas rendas de que perdeu muita parte por se cobrirem suas terras de pedra pomes no segundo incêndio, que contarei a seu tempo. São da ordem de Santa Clara observantes e dão obediência aos frades de São Francisco.
A freguesia de São Pedro da Ribeira Seca que se desmembrou da vila da Ribeira Grande e distará dela um tiro de mosquete para a parte do ocidente, com uma ermida da Madre de Deus, que fez Manoel da Costa, junto da sua quinta, tem cento e noventa e um fogos, e seiscentas e oitenta e três almas de confissão, das quais são de comunhão quatrocentas e noventa. O primeiro vigairo foi Luís Cabral; o segundo, o bacharel Ascêncio Gonçalves, que agora tem o dito cargo. Há nela muitos homens honrados e boas terras que se chamam do Morro, por um alto que está junto do mar, assim chamado, e outras duas lombas em que têm as mesmas granjearias que os da Ribeira Grande, com que uns e outros fazem soma ao presente de novecentos e vinte e cinco fogos, e três mil e duzentas e sessenta e seis almas de confissão, das quais são de comunhão duas mil e quatrocentas e cinco. Nestas duas freguesias há muita gente de armas; primeiro houve quatro bandeiras de duzentos e cinquenta homens em cada uma, sc., três na vila e uma em Rabo de Peixe, cujos capitães foram: o primeiro, Rui Gago da Câmara, e seu alferes António de Sá, seu primo, e sargento, Pero Lourenço; o segundo, João Tavares, e seu alferes, o primeiro, Gaspar de Braga, o segundo, Ciprião da Ponte, o terceiro, Baltasar Tavares, que depois foi capitão da mesma bandeira, o quarto alferes dela, Sebastião Jorge Formigo; o terceiro, Gaspar do Monte, e seu alferes, Diogo de Morim, seu genro. Em Rabo de Peixe, foi capitão Fernão de Anes e alferes, Brás Raposo, seu genro. Por falecimento de Gaspar do Monte sucedeu em seu lugar João do Monte, seu filho, e por falecer Diogo de Morim ficou por alferes Nuno de Sousa, da Ribeira Seca. Na segunda eleição que mandou el-Rei fazer foi o Capitão Manoel da Câmara à casa do concelho da Ribeira Grande e elegeu outros capitães a vozes, em que foi eleito por capitãomor Rui Gago da Câmara, e Lopo Dias Homem, por capitão; da segunda bandeira, Pero de Paiva, seu alferes, Simão de Sousa, sobrinho, sargento, António Cansado; Nuno de Sousa, capitão da gente da Ribeira Seca, seu alferes Ciprião da Ponte, sargento, Estêvão Pires; e em Rabo de Peixe, por capitão de outra bandeira, João Roiz, do Pico da Pedra, e seu alferes Bertolameu Roiz, seu irmão, e sargento, Amador de Sousa; e foi eleito por sargento-mor, Duarte Privado. Dos que agora servem direi adiante. Também poucas vilas haverá de tão boa serventia de água e moendas, porque tem dentro em si seis moinhos, cada um de duas pedras, melhores e que melhor moem que todos os da ilha e Portugal, nos quais o Capitão tem de renda perto de trezentos moios de trigo cada ano, em que vão fazer os da cidade suas farinhas; e é abastada de pão, carnes, pastel, linho e legumes, tem criações de gados, ainda que depois do incêndio segundo falta de lenha. Chega o dizimadouro dela , uns anos por outros, a render três contos para el-Rei, pouco mais ou menos, e o dízimo do linho a quarenta mil molhos. Nela se davam os melhores melões de toda a ilha ou iguais com os da fajã dos Mosteiros, o que se perdeu com a alforra que caiu depois do segundo terremoto desta ilha. E muito mais nobre e rica fora, se os senhorios das suas terras viveram nela. Os moradores não são tão ricos como honrados e nobres, por perderem muito de suas fazendas com fianças e invenções de canas de açúquere que o bicho comeu, como a hera de Jonas. O porto de Santa Eiria pela costa ser brava, não presta a esta vila para navios, nada se carrega nele e só serve de batéis; e para saída de seus frutos e carregação de seu trigo se serve do porto da vila da Alagoa, que Ihe está julgado por sentença do Regno.
Esta vila, tão bem situada antes do dilúvio segundo, com trazer depois a ribeira nos Invernos muitas águas de enxurro, com pedra e madeira do mato, atupiu a sua foz e levou ao mar a maior parte e acravou a menor, derribando e assolando duas ruas principais e uma menos principal, em que levou ao mar perto de duzentas casas, as mais delas sobradadas, e o melhor da vila, com que ficou sem lustro e com uma só ponte de madeira que depois fizeram, e já a tornou a levar a ribeira quatro ou cinco vezes, e com grande custo se tornava a reedificar cada uma vez destas; mas se a ribeira assolou as casas e pontes, não caiu tanto cinzeiro por esta parte que deitasse a perder as terras. Contudo os homens honrados, não podendo reedificar suas casas, nem sanear estas quebras e perdas, como cada um melhor pôde, se arredaram os mais para fora da vila, perto das suas lavranças, em que granjeiam de tal modo que com todo o trabalho passado vivem à lei da nobreza, com seus cavalos na estrebaria e suas casas abastadas. E ainda esta vila é a mais bem servida, abastada e farta de toda a ilha e tem muita granjearia para homens trabalhadores e pobres porque, além de seus jornais e empreitadas, em diversas maneiras de serviço, recolhem-se nela em cada um ano cinco mil pedras de linho, que eles lavram e granjeiam, das quais se vendem as três mil para fora e por os da cidade da Ponta Delgada mandarem moer aos moinhos dela há na dita vila mais de cinquenta homens que os servem neste trabalho, com duas bestas cada um, levando por cada um alqueire meio vintém, que em cem carregas somam cada dia seis mil réis, que ao cabo do ano valem seis mil cruzados que, com quatro mil do linho, vêm a montar dez mil cruzados. Mais colhem também quatrocentos e, pelo menos, trezentos moios de favas, das quais vendem mais de duzentos, e muita junça, em que mandam engordar porcos de toda a ilha; além do que ganham em carretos de lenha para a vila e de carros da cidade para a dita vila, e dela para a cidade, em pastel que acarretam e outras coisas; com que está averiguado valerem os serviços destes homens, uns e outros, em sua granjearia, mais de vinte mil cruzados cada um ano, e tudo isto de homens pobres e nenhuma coisa dos que governam a terra, porque se não prezam disso. Pelo que parece que em nenhuma terra do mundo se acharão homens mais isentos que os pobres dela que, como têm quatro sacos de trigo, duzentas abóboras, dez alqueires de favas e algumas cebolas, com dois cabos de alhos e um porco à porta, e cada um tem sua casinha, ou própria ou de foro, sem sentir necessidade alguma, têm-se por mais fortes e ricos que todo mundo. Mas, a gente honrada e da governança é mais macia, porque não são arreigados em raiz e suas lavouras não Ihe abastam tanto conforme ao estado de suas pessoas. Além das águas que tem esta vila, da ribeira e levadas dela, que somente servem para a lavagem de roupa, e outras muito longe de que bebem os que moram ao longo delas , há algumas fontes que estão perto, acima da vila. A fonte de que se tirou a água do chafariz ou fonte da vila, que nela se bebe, sai perto de umas pedras brancas ; era muito boa água até ao terremoto e incêndio que aconteceu nesta ilha o ano de mil e quinhentos e sessenta e três, porque devia de ter seu nascimento em alguma concavidade limpa; achavam-se nela as condições que se requerem a uma boa água, quase nascia com o rosto ao sol, era delgada e fria, sem nenhum sabor, e assim satisfazia com sua bondade a quem a bebia, porque se bebia dela o que a vontade pedia e nada embaraçava o estômago nem impedia as mais obras da natureza. Mas, com o terremoto que disse, que teve a força toda perto da mesma fonte, detrás da serra de Vulcão, arruinou-se a terra, abrindo-se em muitas partes e rebentou o biscouto de pedra fervida para a mesma parte da fonte, muito perto, e parece claro que para a dita fonte e concavidade do monte se abriram comissuras e veias de pedra hume e enxofre, que inficionaram e corromperam a dita água, que agora é grossa e cheira a lodo, e muitos anos depois do terremoto fedia a enxofre e se sentia nela fedor de pedra hume. Desta mesma água se deu um cano para a freguesia da Ribeira Seca, de que bebem os seus moradores porque com a quentura do enxofre vem como cozida.
Acima desta vila está perto um pico, que se chama Monte de Trigo, por o parecer posto na eira; logo mais para a parte da serra, o lugar onde esteve uma sumptuosa fábrica em que se fazia pedra hume, como adiante direi; e mais pela terra dentro, quase ao pé da mesma serra, perto de meia légua da vila, antre a dita Ribeira Grande e a Ribeirinha, estão aparecendo na terra umas furnas pequenas, chamadas por isso Caldeiras, de que adiante direi. Sobre a Ribeira Seca, da banda da serra, está um pico chamado do Sapateiro, porque foi dum oficial deste ofício, de que correram duas ribeiras de fogo no tempo do segundo terremoto, de que depois contarei, uma delas pela Ribeira Seca, que tem este nome por não chegar a água que por ela desce abaixo ao mar e secar de todo no Verão, ainda que algumas vezes traga enchente no Inverno.
Da ponta de Santa Clara começa correr a costa com rocha baixa para o noroeste, até uma pequena ponta ao mar, que se chama a Ponta de Baltasar Roiz , em que se acaba a compridão da cidade. Vai logo além alevantando a rocha mui alta, e fazendo urna baía, na qual está o lugar da Relva, meia légua da cidade, ao longo da rocha, como no outro caminho que há pela terra dentro até o mesmo lugar estão feitas as quintas de Francisco Ramalho, de seu sogro Afonso Anes, de João de Arruda da Costa e de João Roiz Ferreira, e casas de outros moradores, como de Lisboa até Belém, que quase tudo é a mesma cidade. Tanto vão em crescimento as gentes nesta terra, que tudo pode sustentar, ainda que alguns com algum trabalho, como em todas as outras acontece.
No caminho, pela terra dentro, que digo haver da cidade até o lugar da Relva, está, saindo da cidade, a fazenda que foi do licenciado Manuel Garcia, letrado em leis, homem de grandes espíritos, assim nas letras, como no governo da terra, fazendo o que entendia ser proveito dela, sem temer nem dever. Logo adiante está a quinta de Francisco Ramalho, toda cercada de alto muro, dentro da qual tem seus ricos aposentos e todas as coisas com grande ordem, seu pombal e tanque, para beberem os bois e cavalos e mais bestas de serviço, de que tiram água para lavar roupa quase todo o ano, ao qual vem água de fora do caminho e dele vai também para um fresco pomar, em que aproveita toda. Entrando por umas varandas na sala, dela vão ter à cozinha, da qual saindo a um páteo, vão subindo por uns degraus, até entrar em uma câmara de hóspedes, a qual está ladrilhada de tijolo, sobre uma tão grande cisterna que levará cem pipas de água limpa, de que bebem os de casa e muitos de fora e, quando falta no tanque, que leva mais de cem pipas de água, também dela se tira água para granar muita soma de pastel, na tulha que ali tem pegada; a água da qual cistema se colhe por canos dos telhados das casas, e detrás da torre dos hóspedes está um chafariz, que da cisterna corre, para os criados de casa tomarem água para beberem, sem irem por diante devassar as casas; e em um canto dos granéis, para a banda do levante, tem outra cisterna que leva oitenta pipas de água. Tem também três engenhos, com seu campo de caniços e sua tulha muito grande, em que grana o seu pastel, de que fará mil quintais cada um ano, e dois grandes granéis, um para trigo e outro para cevada e centeio, na lójea dos quais tem dois engenhos e guarda neles toda a fábrica da abegoaria de seu serviço. Tem casa de galinhas e outra de porcos. Fecha-se todo este circuito por dentro, como uma fortaleza; até os seus criados e escravos, que dormem na lójea da sala, fecha de cima do sobrado, com uma régua de pau que vai calando pelo meio da parede abaixo até dar em um dos couces da tranca, de tal maneira que de nenhum modo se pode abrir, senão se quebrarem a tranca com machados; e de cima fica fechada aquela régua dentro em um almário que ele pela manhã abre ou manda abrir para os criados saírem ao serviço. Debaixo de toda a cozinha tem um vão em que recolhem os carros e sebes, para que não apodreçam com as chuvas do Inverno, nem fendam com as calmas do Verão; porque a mais abegoaria de todas as casas se lança e ajunta em um lugar onde apodrece, que depois vale muito para as terras, onde manda deitar perto de cem carradas dele.
Perto, da outra parte do caminho para o norte, está a quinta de Afonso Anes, seu sogro, que agora é de herdeiros. Mais adiante, em um alto, está a quinta de João de Arruda da Costa, de grande casaria e oficinas, com um fresco pomar, em que se aconteceu criar um passarinho que iam muitos ver por maravilha, porque, estando no ninho com os filhos, não se alevantava ainda que passassem junto dele e, se alguém Ihe chegava o dedo, o mordia com o bico, sem se bolir do ninho; tanto pode o amor maternal, — arriscava sua vida pela de seus filhos. É este João de Arruda grande cavaleiro e amigo de Deus e da virtude. Mais além, junto do lugar da Relva, está a quinta e fazenda de João Roiz Ferreira, da progénie dos Reis de Escórcia, da grande casa de Drumond, bom cavaleiro e homem de grandes forças e valentia.
O lugar da Relva cobrou este nome, porque no tempo antigo havia por ali boa erva, e onde a costuma haver chamam todos nesta terra, comummente relva; e os moradores da cidade mandavam deitar para aquela parte, naquele campo, seus gados, por se achar nele boa comedia para eles, dizendo aos moços e pastores que levassem os bois à relva, onde os mantinham e criavam; e como dantes era sua relva, agora é seu termo. E, depois que se edificou o lugar e deixou de ser relva, Ihe ficou este nome que dantes tinha. É freguesia da advocação de Nossa Senhora das Neves, cuja festa se celebra a cinco dias de Agosto. Tem cento e trinta e sete fogos e almas de confissão quatrocentas e quarenta e sete, das quais são de comunhão trezentas e trinta e uma. O primeiro vigairo nela foi Álvaro Anes; o segundo, Simão Gonçalves; o terceiro, Hector Tenreiro; o quarto, António Lobo; o quinto, João de Contreiras; o sexto, António Neto; o sétimo, Sebastião Roiz Panchina; o octavo, o licenciado Francisco Leal, que agora serve. Há neste lugar poucos homens que lavrem herdades suas e todos se governam de lavoura, por serem boas terras, mas já não tanto como são as da cidade. Nele reside, o tempo do Verão, o muito nobre fidalgo João de Melo, cavaleiro do hábito de Cristo, genro de Francisco de Arruda da Costa, casado com sua filha Maria de Arruda da Costa, que foi ao Reino, pela cidade, em nome de toda esta ilha, dar obediência ao muito alto, poderoso e católico Rei D. Filipe. Tem este lugar, em baixo, na rocha, uma fonte de água doce de que bebe o povo, que se chama a Fonte do Contador, porque Martim Vaz, que teve este cargo em todas estas ilhas, vivendo ali, Ihe deu lustro com o mandar concertá-la em baixo, quase ao lível do mar, onde corre ou nasce, e o caminho que pela alta rocha a ele descemos.
Indo da Relva, para o ponente, espaço de dois tiros de arcabuz, está uma pequena ponta ao mar, chamada do Feno, pelo haver nela. Adiante, meia légua, está a Rocha Quebrada, que pouco há quebrou, com que se fez uma enseada e entrada ao mar na terra, não muito grande; antes dela, estão na rocha algumas fajãs que são ou foram de Gaspar do Rego Baldaia e têm algumas vinhas. Dali a um quarto de légua está a grota que se chama da Figueira, por haver tido em si uma; e logo junto está a ponta Aguda, assim dita pelo ser a rocha que faz; desta ponta Aguda a um quarto de légua está a Cruz de Monte Gordo, que é uma terra grossa, onde de muito tempo a esta parte está uma cruz arvorada, fazendo ali a rocha uma ponta ao mar, que se chama a ponta da Cruz, defronte da qual estão no mar uns baixos. Adiante está outra ponta, que chamam das Feiteiras, por haver nela muitos feitos, que tem uns ilhéus ao mar, muito pequenos, antre os quais e a ponta passam barcos; onde estão as terras que foram de D. Fernando e de D. Guiomar de Sá, sua mulher. Dali a mais de um quarto de légua está um porto em que saem batéis, por cuja razão se chama o porto dos Batéis, no qual já se fez antigamente uma nau muito grande; e arriba, na terra, está o lugar das Feiteiras que cobrou este nome por haver nele muitos feitos, em uma terra mais baixa e rasa, muito bem assombrada que se quer parecer nesta parte com a da ilha da Madeira, cuja freguesia é da invocação de Santa Luzia; tem noventa e dois fogos e almas de confissão quatrocentas e duas, das quais são de comunhão duzentas e oitenta, a cujo primeiro vigairo não soube o nome; o segundo foi André Fernandes; o terceiro, Domingos Afonso, que agora tem este cargo. Os fregueses vivem por lavouras de trigo e pastel. Mora ali alguma gente nobre, principalmente o generoso fidalgo Jorge Camelo da Costa Cogumbreiro, casado com D. Margarida, filha de Pero Pacheco, e, ainda que não tem filhos com que gastar o seu, é tão grandioso e liberal que setenta moios de trigo que terá de renda cada ano, assim ali, como no lugar dos Mosteiros, afora os muitos que recolhe de suas searas, de que alguns anos paga ao dízimo doze, catorze moios, quase todos gasta em sustentar parentes e parentas honradas e com muitos hóspedes que nunca Ihe faltam e em muitas esmolas que ele e sua mulher fazem a pobres. Fez no mesmo lugar uma igreja da advocação de Nossa Senhora de Guadelupe, tão alta e rica e sumptuosa, com uma capela de abóbada tão bem lavrada e ornada, que bem se parece obra dela com quem a mandou fazer, em que gastou mais de três mil cruzados, com que está honrado e amparado e dando lustro àquele lugar, enriquecendo-o com suas obras pias, suprindo todas as faltas, enobrecendo-o com sua presença, ajudando-o com seu favor, sendo pai de todos sem ter filhos e finalmente não poupando nada do seu por valer e enriquecer a todos; pelo que é sua casa um rico hospital de pobres, um farto gasalhado de ricos, um refúgio de caminhantes, uma pousada geral para hóspedes.
Tem este lugar uma pequena ribeira de boa água, com que de presa ou tanque já moeu e pode moer uma azenha, que corre pelo meio dele e sai ao mar junto ao porto dos Batéis.
Das Feiteiras a três quartos de légua para loeste, sai ao mar uma pequena ribeira, ao longo da qual, pela terra dentro, dois tiros de espingarda, está a freguesia que o povo chama de Nossa Senhora da Candelária ou das Candeias, que é da advocação da Purificação; junto da qual ribeira, para a banda do ponente, está uma ponta ao mar, que chamam a ponta do Camelo, do nome de um homem assim chamado, que ali morava. Tem este lugar quarenta e um fogos e almas de confissão cento e dezanove, das quais são de comunhão cinquenta e sete; cujo primeiro vigairo foi Brás Pires, pai de João Loução; o segundo, Francisco Fernandes; o terceiro, Manuel Dias Barroso; o quarto, Domingos de Crasto, que agora serve. Os moradores vivem por lavoura de trigo e pastel e alguns se aproveitam da lenha que trazem dali perto, da concavidade das Sete-Cidades. Adiante, meia légua, está a fresca e bem acabada ermida de Nossa Senhora do Socorro, que fez um Diogo Gonçalves; dali a um quarto de légua, está a ponta chamada de Pero de Moura, por haver morado ali um homem deste nome. Mais adiante, outro quarto de légua, está a nova freguesia de S. Sebastião, cujo primeiro vigairo é Gaspar Carvalho. Tem setenta e oito fogos e almas de confissão trezentas e vinte e quatro, das quais são de comunhão duzentas e dezanove; todos vivem de lavoura de trigo e pastel, pelo modo que os passados. Está esta freguesia em uma formosa, fresca e bem assombrada várzea, amparada dos ventos da banda do mar com o pico dos Genetes, chamado assim ou por ele ter uma selada no meio, como sela e diante por ser levantado como arção de sela e detrás outro; e por ser assim selado no meio, como genete, se chama pico dos Genetes, mais que por nele se criarem genetes. Da banda da serra, com o mato de frescas faias e outras árvores, é o pico dos Genetes de Aires Jácome, e achando-se nele uns olheiros donde, metendo-Ihe um braço dentro, sai deles um ar e bafo quente. Antre este pico e o das Ferrarias, estão duas pontas ao mar, que alguns chamam pontas do Mendo, por antigamente morar ali um fidalgo chamado Mendo de Vasconcelos, onde se mata muito pescado de toda sorte e podem chegar ao longo delas navios e batéis, que ali fazem ricas pescarias com que abastam de peixe muito bom a cidade da Ponta Delgada e outras partes da ilha.
Da Várzea ou freguesia de S. Sebastião a quatro tiros de besta para loeste, está o pico de Marcos Lopes Anriques, que chamam das Camarinhas, por ter árvores desta fruta no seu cume; chama- se também pico das Ferrarias, porque no tempo passado, antes de ser descoberta esta ilha, sendo tão alto junto com o mar que o fazia alcantilado, arrebentou e lançou de si para a parte do mar uma ribeira de fogo, que se meteu tanto pelo mesmo mar, que ocupou dele grande espaço, ficando onde dantes era mar um espaçoso e largo cais de biscoutos, ao longo da costa, tanto como três tiros de besta, que tem de largura, e dois de compridão, entrando na água salgada; ficando esta ponta de pedra baixa e rasa. Ao pé deste pico junto do dito cais, para a banda de leste, sai uma formosa ribeira, de água tão quente que nela se pelam leitões, coze peixe e escascam lapas, que ali se criam nas pedras; a qual ribeira se cobre com a maré cheia, mas com ela vazia mostra bem sua grandeza, doçura e quentura; é tão grande que pode com ela moer uma azenha e suspeitam alguns que vai das Sete-Cidades, dali meia légua; e ainda que as alagoas que há na concavidade das Sete-Cidades sejam de água fria, por debaixo da terra, em alguns vieiros de enxofre ou salitre, parece que se vai aquentando e cobra fogo, e por isso ao longo do mar sai quente. Os biscoutos de pedra que deste pico correram são tanto mais pesados que outros que há em muitas partes desta ilha, que no peso e forma parecem as escórias do ferro que nas ferrarias se acham, pela qual razão puseram a este lugar, e ao cais de biscouto de pedra que dele correu, este nome de Ferrarias. Donde parece que, além de haver naquele alto pico muitas veias de enxofre, marquesita e pedra hume, por ventura algum salitre, há também veia de ferro e outros líquidos metais, como se pode ver no biscouto que ali correu e na diferença que tem no peso de todos os outros biscoutos da ilha, os quais parecem ter todos alguma mistura dos ditos metais, principalmente de marquesita e ferro, de que este biscouto das Ferrarias tem maior parte; e no mar defronte destas Ferrarias se fazem as melhores pescarias da ilha, onde se tomam meros, chernes, crongos e muitas maneiras de pescados.
Antre o pico das Ferrarias e os Mosteiros, estão no calhau, junto do mar, duas fontes pequenas, uma na grota de Rui Vaz e outra no pé da rocha das Ferrarias. Para loeste, dois tiros de besta, estão os Escalvados, que são uma pequena ponta escalvada por cima, sem criar em si erva, pelo que se chamam aqueles lugares dela os Escalvados, onde é fim e topo da ilha, da parte de loeste, ainda que fica voltando já do sul para o noroeste; e este é o rabo da opa roçagante do grande gigante Almourol, ficando o pico das Ferrarias, que é o seu pé esquerdo, armado de ferro, porque dos Mosteiros direi depois quando tratar da costa da banda do norte, como logo contar quero, tornando-me ao Nordeste, que é a cabeça donde pela parte do sul comecei a contar a figura de seu corpo .
Quando, Senhora, comecei a contar a descrição desta ilha pela costa do sul, disse o que sabia da vila do Nordeste; agora, começando dela por diante, irei dizendo a costa do norte, por cuja parte não há porto nenhum de que se use para carregação alguma. Os portos que tem são somente para batéis e, com bons tempos, para pescar, mais que para outra serventia, porque por terra, com carros e bestas se serve toda a banda do norte para a do sul, de uma parte para a outra, pelo meio dela, por ser terra mais chã e assentada; a mais por uma banda e outra, por ser mais fragosa, se serve de longe e leva tudo por batéis, mais pela banda do sul, que tem o mar mais brando e navegável que pela do norte, onde poucas vezes e com poucos tempos se navega, por a costa ser brava.
Segundo tenho dito, do Topo a meia légua, correndo a costa ao mesmo vento nordeste ou norte, está a vila do Nordeste; a qual ponta ou topo se chama Topo do Nordeste porque os que vêm do oriente para esta ilha, a primeira coisa que dela vêem e topam com a vista é esta ponta dela, que é mui alta terra e rocha, e por isso se chama Topo. Nesta costa, afastado da vila um tiro de espingarda, sai ao mar uma grande ribeira chamada do Guilhelme, porque antigamente morou ali um framengo deste nome; nela estão os moinhos desta ribeira, e daí por diante leva todo o rosto ao norte. Logo, correndo a costa da banda do norte para loeste, está um baixo de pedra no mar, pouco apartado da terra, que se chama a ponta da Moreia, porque é ali calhau e há nele muitas moreias. Logo mais adiante, meia légua, está a ponta ou lomba dita de S. Pedro, que é uma igreja deste glorioso Príncipe dos Apóstolos, freguesia de quarenta e um fogos e cento e oitenta e uma almas de confissão, das quais são de comunhão sessenta; cujo primeiro vigairo foi Marcos Fernandes, e o segundo Francisco Vaz, que ora serve; onde sai uma ribeira ao mar, nesta ponta de S. Pedro, que se chama ribeira das Lájeas, por correr por elas. E adiante, meia légua dela, corre outra, por uma muito alta e cavada rocha, chamada — Dispe-te que suas, porque quem a acaba de passar de uma parte a outra, vai já tão encalmado e suado com descer e subir por suas íngremes ladeiras, que é necessário despir-se para desafrontar, desencalmar e tomar ar, descansando; e da ribeira do Guilhelme até esta, é a freguesia de S. Pedro, em que os moradores fazem suas lavouras costumadas de trigo e pastel, ainda que pouco.
Desta ribeira e grota de — Dispe-te que suas, que está duas léguas do Nordeste, onde acaba seu termo, adiante logo, meia légua para loeste, está outra grande ribeira, chamada da Mulher, porque deitaram ali fora de um navio uma mulher que vinha doente para parir, e no mesmo lugar pariu; outros dizem que a deitaram com um moço pequeno, em sua companhia, por ela vir enferma e rogar muito que a deitassem em terra, que se não atrevia ir mais pelo mar, onde a acharam depois uns vaqueiros que por ali perto andavam com seus gados, na Algarvia: outros dizem que aparecia ali uma mulher de noite, como fantasma, que espantava os caminhantes. Mas outros contam por mais certo que esta era a mulher que fugiu da ilha de Santa Maria com seu amigo e um companheiro, um dos quais morto pelo outro, e depois, enforcado na Povoação Velha, por isso e por furtar o fato de três em três dias e queimar as casas de palha e feno que os primeiros povoadores ali faziam, vendo-se a mulher desamparada de um e de outro, fugiu pelo pico da Caldeira, que está antre a Povoação e o Faial e dali pela encumeada, atravessando a serra direita ao norte, foi ter ao pico da Vara, onde nasce esta ribeira, que corre para a banda do norte, chamada da Mulher, pela acharem depois nela uns dos primeiros descobridores da ilha, indo também descobrindo a serra pelo mesmo caminho, que estava escalvado e coberto de cinzeiro e pedra pomes, que parecia haver caído quando arrebentaram as Furnas; e pela acharem naquela ribeira, Ihe puseram nome ribeira da Mulher, o que dizem ser mais verdadeiro. Sai esta ribeira da Mulher no meio de uma enseada pequena. Antre esta ribeira da Mulher e a de — Dispe-te que suas, que atrás fica, e pela terra dentro, corre uma lomba, que se chama Algarvia, antre a freguesia de S. Pedro, que se chama o Nordeste Pequeno, e a Chada Grande que foi de Antão Roiz da Câmara, e tem este nome Algaravia, porque a possuiu um algaravio, o qual, falecendo sem filhos, deixou a sua mulher por sua universal herdeira, e viúva viveu nela muitos anos, por cuja causa, em sua vida e depois de sua morte, se chamou e chama aquela sua fazenda a Algarvia. Por seu falecimento, veio ter a lomba a poder de Antão Roiz da Câmara, e agora a possuem seus herdeiros e alguma parte dela os que a eles a compraram.
Meia légua da ribeira da Mulher sai ao mar a ribeira do Folhado, por nela se cortar uma árvore deste nome, a maior, mais comprida e grossa que se achou da banda do norte; e logo está o topo de Pero Roiz da Câmara e nele um guindaste, onde se carregava e carrega algum trigo; e perto dele a ribeira do Machado, de muita água e grandes ladeiras, em que houve antigamente uma serra de água, com que se fazia muita madeira para navios e outras coisas; e por um fragueiro esconder junto dela um machado, sem mais o poder achar nem atinar com ele, Ihe ficou este nome. Da qual ribeira do Machado até à de — Dispe-te que suas, que atrás fica está o lugar da Chada Grande, que se chamou assim porque é uma lomba grande e muito chã, onde agora tem uma freguesia da advocação de Nossa Senhora da Graça, cuja festa principal se celebra a vinte e cinco dias do mês de Março, em dia da Anunciação de Nossa Senhora. Tem trinta e dois fogos e almas de confissão cento e trinta e duas, das quais são de comunhão noventa e duas, cujo primeiro vigairo foi Martim Roiz; o segundo, Simão Pires; o terceiro, Gaspar de Crasto Baldeiras, que agora serve a dita vigairaria. Atrás desta ribeira do Machado, pela terra dentro, está a Feiteira que é uma grande quantidade de terra dos herdeiros de Henrique de Betancor de Sá, que viveu na vila da Ribeira Grande. Tudo por aqui, junto com a Algarvia, foram terra de pão e depois cobertas de pedra pomes e cinzeiro no tempo do segundo terramoto desta ilha, e já descobertas com levadas de água o tornam a ser. Chamase Feiteira, por ser terra de muitos feitos. Dali a dois tiros de arcabuz, está a ribeira do Cachaço e dela a um tiro de escopeta a ribeira da Aventura, a razão de cujos nomes é esta: na ribeira do Cachaço se criou e andava um grande e formoso cachaço, o qual sendo por muitas vezes monteado, de todos escapava, fazendo antre os monteiros campo como leão, pela qual fama, ajuntando-se de propósito certos homens, bons fragueiros e ligeiros, com cães e meias lanças, deram nela com o cachaço, o qual, vendo-se muito seguido deles, saiu da sua ribeira, fugindo ele, e eles após ele, o foram tomar e matar na ribeira da Aventura, e por ser a sorte tal, Ihe puseram nome ribeira da Ventura, pela que tiveram da vitória do cachaço que pôs nome à outra donde o lançaram fora. Outros dizem por outra razão chamar-se ribeira da Ventura porque, indo ela com enchente, saltando um homem um salto grande por ela, Ihe disseram outros: — muito vos aventurastes; ventura foi passardes. Antre estas duas ribeiras está uma lomba, chamada de Martim Gomes, porque foi deste homem, da vila da Alagoa. Da ribeira da Ventura a dois tiros de arcabuz para loeste, está outra que se chama a ribeira da Salga, muito grande e comprida, chamada assim por um navio deitar ali fora uma quantidade de sal para os moradores daquela banda, e mais certo tem este nome porque os antigos moradores destas partes iam ali fazer matança de porcos monteses, por haver naquela ribeira muitos e lá os matavam e salgavam; e nela está um moinho.
Desta ribeira da Salga até à do Machado, que atrás fica, é a terra também muito chã e mais pequena que a Chada Grande; pela qual razão quem primeiro foi a ela e a achou Ihe pôs nome Achadinha ou Achada Pequena, em respeito da outra Grande, onde está uma freguesia da advocação de Nossa Senhora do Rosário, cuia festa principal se celebra a oito dias de Setembro, em que há quarenta e três fogos e almas de confissão cento e vinte e três, das quais são de comunhão sessenta e uma; cujo primeiro vigairo é Pero Vieira, que ainda agora serve o cargo. Também os moradores deste lugar vivem de suas lavouras.
Da ribeira da Salga, a um tiro de escopeta, está a ribeira Seca, assim chamada porque no Verão se seca e nenhuma água tem, mas no Inverno leva muita. Da parte do oriente, está um guindaste do Capitão, pegado com a mesma ribeira, e logo uma ponta muito grande que entra pelo mar, direito ao norte, quantidade de seis moios de terra, chamada ponta dos Fenais da Maia, por diferença doutros Fenais da cidade, porque nela em baixo havia muito feno e ainda agora o há, mas não tanto; e ali do caminho para cima está o lugar que chamam os Fenais da Maia, termo de Vila Franca. No princípio, antes de ser freguesia, iam os seus moradores ouvir missa à Maia. Tem o lugar destes Fenais uma freguesia dos Reis Magos, paróquia, em que havia muitos e nobres fregueses. Agora têm setenta e dois fogos e almas de confissão duzentas e setenta e cinco, das quais são de comunhão cento e oitenta e três. O primeiro vigairo foi Bernardo de Froes; o segundo, João Nunes da Câmara; o terceiro, Manuel Roiz Machado; o quarto, é agora Manuel Fernandes. Há nesta freguesia gente nobre e rica, e tem a mesma granjearia que os outros lugares, seus vizinhos.
Desta ponta dos Fenais a dois tiros de arcabuz, corre uma pequena ribeira que se chama da Doida, por morar ali uma mulher de pouco siso; e dela a meia légua, está o pesqueiro, chamado de Lopo Gomes, porque morou ali este rico homem. Logo um tiro de escopeta mais além, sai ao mar a ribeira Funda, que cobrou este nome por ter grande altura de ambas as partes, pelo que também se chama grota Funda, da qual até à ribeira da Salga se estende a freguesia dos Fenais da Maia, de que agora disse.
Adiante três tiros de besta, está outra ribeira pequena, que chamam a grota do Preto, por morar nela um homem não muito branco, e agora se chama a ribeira de Luiz Fernandes da Costa, que morou ao longo dela, em cima da rocha; da outra banda dela estão os moinhos da Maia, além a ribeira dos Vimes, por prantarem ali os primeiros no princípio da povoação desta ilha, que agora se chama também ribeira do Salto, por ter um, muito grande, donde cai. Junto está a ponta dos Moinhos, que sai pouco ao mar e tomou o nome destes seus vizinhos; da qual, a dois tiros de arcabuz, corre outra ribeira que se chama de João de Viana, por morar ao longo um homem, assim chamado; depois outra grande ribeira, chamada de Lopo Dias Homem porque morava ali um deste nome, avô de Lopo Dias Homem, da vila da Ribeira Grande. Além está o lugar da Maia, que se chama assim porque o principiou e começou e primeiramente morou nele uma mulher, chamada Inês Maia. Defronte de seu porto, tem um baixo grande de pedra, ao longo do qual varam batéis, em um bem assombrado porto, de mediana baía, acompanhado atrás pela rocha, ao lível do mar, de muito marisco e frescas fontes de água doce, como as há também no caminho por cima da terra.
A Maia é um lugar bem assombrado, situado todo em uma ponta de terra chã como fajã, com suas bem compassadas e começadas ruas de casas telhadas, por se fazer nela telha.
Tem uma igreja, paróquia da advocação do Espírito Santo; haverá nesta freguesia setenta e oito fogos e almas de confissão trezentas e sete, das quais são de comunhão duzentas e vinte, cujo primeiro vigairo foi João Garcia, irmão de Pero Garcia, dos Fenais da cidade; o segundo, Belchior Homem; o terceiro, Vicente Carneiro; o quarto, Afonso da Senra; o quinto, Amador Furtado da Costa; o sexto, Aleixo Francisco; o sétimo, Francisco de Magalhães, que agora serve. O primeiro beneficiado foi Sebastião Gonçalves; o segundo, Miguel do Quental, que mudou o Bispo Dom Pedro de Castilho para Vila Franca do Campo, da qual, por este lugar estar longe, muitas vezes procurou ser vila e para isso repetia, porque moraram e moram nele homens muito honrados; era necessário ter jurdição por si, pelo muito trabalho que passavam e passam os seus moradores em atravessar a serra, indo às audiências a Vila Franca. Mas não houve o efeito , se não fora o incêndio segundo, com que empobreceu a terra, que não tem agora outra granjearia senão lavouras em terras de rendas e madeira e telha, e as terras de pão não dão o que soíam, por se atupirem, sem poder ter modo para as poderem alimpar e granjear, pelo pouco poder dos vizinhos. É abastado de alguma fruta e pescado. Há nesta freguesia cinco ermidas: Nossa Senhora do Rosairo; S. Sebastião; S.
Pedro; Santa Catarina; e outra, também de Nossa Senhora do Rosairo, na Lomba Grande, perto das casas de Clemente Furtado, que tem cargo dela.
Além do porto do lugar da Maia se faz logo uma ponta longa ao mar, ponteira ao noroeste, em que está um comprido pesqueiro, chamada por isso a ponta do Pesqueiro Longo; e, tornando a voltar à terra, dela para o sul espaço de um tiro de arcabuz, está uma pequena ribeira, chamada das Canas, porque tem um canavial ao longo da rocha a qual se chamou do Godinho, quando junto dela morava um António Godinho, e agora se chama também ribeira das Lajes, porque tem muito lajedo descoberto; da qual a um tiro de escopeta está a grande ribeira, dita a Gorriana, porque no princípio morou ali um homem que de alcunha chamavam o Gorriana, da qual até à Grota Funda, atrás dita, é a freguesia do Espírito Santo do lugar da Maia; e perto sai ao mar uma ponta, chamada de São Brás, por estar ali em um alto outeiro uma ermida deste Santo; e defronte, no mar, tem esta ponta três pontinhas de baixo, que se chamam o pesqueiro do Demo, por ser naquela parte a costa brava e temerosa, com que vai aquela rocha fazendo curta enseada, onde sai uma pequena ribeira, chamada de Tomé Vaz, que ali morava e mandou fazer a ermida de São Brás, atrás nomeada. Adiante faz uma ponta, chamada de Amadis da Gama, que ali morava e tinha sua fazenda, da qual ponta até outra adiante, de António de Brum, se faz uma formosa enseada de praia de areia e no meio dela está o lugar do Porto Formoso, pelo que nele tem, que era limpo e o melhor que havia da banda do norte, onde se fizeram já e vararam alguns navios e carregaram muitos trigo, mas agora, depois do segundo terremoto desta ilha, está atupido de terra, que correu e tomou posse do mar, onde já pasta gado. Tem este lugar uma igreja paróquia da advocação de Nossa Senhora da Graça, cuja festa principal se celebra por dia da Purificação de Nossa Senhora, a dois dias de Fevereiro. É freguesia de quarenta e seis fogos e almas de confissão cento e setenta e cinco, das quais são de comunhão cento e vinte e cinco. O primeiro vigairo foi Duarte Lopes; o segundo, Pero Coelho; o terceiro, Baltasar Dias Cachafares; o quarto, Gabriel Lourenço; o quinto, Rui Lopes Pereira; o sexto, António da Mota; o sétimo, João de Teve, que agora serve. O primeiro beneficiado foi Francisco Gomes; o segundo, Miguel Dias; o terceiro, Jorge Fernandes Damão; o quarto, Francisco Roiz, que o bispo D. Pedro de Castilho mandou para São Pedro, da cidade. Moram neste lugar os Pachecos, nobre e antiga geração nesta terra; granjeiam os seus vizinhos lavrança em terras de renda e em alguma madeira do mato, que tem não muito longe. Adiante está a ponta do Porto Formoso ou de Pero Vaz, que ali morou, onde António de Brum tem algumas terras, com que se acaba de fazer a baía, atrás dita, do dito porto que era o melhor de toda a ilha. Logo em espaço de um tiro de mosquete, está uma ribeira seca, que foi de um homem chamado Mateus Vaz; e, um tiro de arcabuz mais avante, está um ilhéu pequeno, em que esteve escondido um homem homiziado, por morte doutro, alguns meses, e um Gil Afonso, que rastejava os homens pelo faro, o foi buscar à vila do Nordeste. Fugindo-lhe o homiziado dela, se escondeu neste ilhéu; e tornando o Gil Afonso pelo faro até ali, o perdeu, sem atinar mais com ele, não suspeitando que Ihe ficasse no ilhéu, em que o outro se meteu a nado, por estar cercado de água. Mas agora, com areia que depois correu, está em seco e já tem entrada pela banda da terra, fazendo-se adiante uma grande ponta ao mar, com três ilhéus pequenos no cabo, que por isso se chama a ponta dos Ilhéus ou dos llhéus da Ladeira da Velha, ali perto, que foram de Mateus Vaz; e quase nela está a ribeira do Limo, dita assim por criar nas suas águas muitos limos, onde há um moinho em que moem os moradores do lugar de Porto Formoso. Estava abaixo do caminho uma fonte, que parecia de vinagre temperado com água, a qual se cobriu com terra que quebrou e correu da serra no tempo do segundo terremoto que aconteceu nesta ilha. Logo perto está uma grota e ribeira pequena, chamada a grota do Mel, por quebrar nela um quarto de mel, em um carro em que ia; e desta ribeira do Mel até a Gorriana, que atrás fica dita, é a freguesia do lugar de Porto Formoso, termo de Vila Franca do Campo; da qual ribeira para o ponente se começa o termo da vila da Ribeira Grande e vai subindo para cima a grande Ladeira da Velha, chamada assim porque é tão comprida e íngreme que, se alguma velha a subia ou descia, fazia muitos pousos. Mas outros afirmam ter este nome, porque no tempo antigo morou ali uma velha, viúva, a qual vendeu depois aquela fazenda, ficando à velha o nome dela sem a propriedade. Logo está uma pequena ponta, chamada de Santiago, e a grota do Sombreiro, porque o vento levou um dia um sombreiro da cabeça a uma mulher que por ali passava, ou porque faz um salto junto do mar, como sombreiro; pegado com esta grota, está a fajã do Bulhão, que dá muito trigo e algum pastel, chamada do Bulhão por ser de um homem deste nome; e vai continuando uma baía com a fajã de Mateus Vaz, em que estão as fresquíssimas, claras e doces fontes do calhau do Ferreiro, em que se fazem ricas pescarias.
Adiante, sai ao mar uma ponta de terra, sobre a qual tinha um homem, chamado o Picão, sua eira, pelo que se chama a eira do Picão, que também foi do Bulhão, e ao longo da água está um ilhéu e bom pesqueiro, em que pescam de cana. Logo se seguem as prainhas de areia, de um tiro de mosquete de comprido ao longo da água do mar, com que se vai misturar alguma doce das fontinhas da alta rocha; depois a ribeira do Salto, que tem um na rocha, donde a água de alto cai, junto do qual salto está uma pedreira donde tiram muita e boa pedra de cantaria, quase branca, que serve para edifícios. No cabo desta ribeira, ao longo do mar, está um topo de terra, alto, onde está uma tufeira de que tiram muito tufo para chiminés e outras coisas; adiante, dois tiros de besta, a ponta do Esguicho, assim dita por ter feição de esguicho, e, quatro tiros de arcabuz mais avante, o porto de que se serve a vila da Ribeira Grande, chamado o porto de Santa Eiria, que tem dentro em si um pequeno ilhéu, em o qual um homem muito honrado e rico, chamado João do Outeiro, e seu enteado Pero Roiz Raposo, que tinham ali parte de suas fazendas, andavam determinados e mui afervorados de fazer uma ermida da dita Santa, porque então se entrava nele a pé enxuto, ainda que agora se não possa lá ir senão a nado; e depois resfriaram deste propósito, mas, pelo que queriam fazer e era notório a todos, ficou este nome de porto de Santa Eiria ao porto e ao pico pegado com ele e a uma ponta que ali faz a terra ao mar, a que também absolutamente chamam a Ponta de Santa Eiria, porque da Bretanha até ela não há outra maior; outros dizem que um homem de fora quisera fazer neste pico uma ermida de Santa Eiria e por isso tinha este nome, posto que depois se fosse daqui sem a fazer; porque para este porto se descia pela rocha deste pico, por um caminho estreito, fragoso e perigoso. Aos vinte do mês de Maio de mil e quinhentos e vinte e cinco, sendo juntos na casa do concelho da vila da Ribeira Grande, o licenciado António de Macedo, corregedor nesta ilha, António Carneiro, Diogo de Sousa, juízes ordinários, e Fernando Anes e Álvaro de Orta, vereadores, e Álvaro Gonçalves, procurador do concelho, e João de Abrantes e Álvaro Afonso, procuradores dos misteres, e muitos homens da governança da dita vila, praticando neste caso, antre todos foi acordado de se fazer o caminho deste porto de Santa Eiria, cortando o pico da fajã de cima direito ao dito porto e varadouro dos batéis, para se poder carregar trigo e outras coisas nele, pois não se sofria a descida pela rocha e caminho de pé; logo foi arrematado a um Fernandalvres, o Grande, chamado Gram Pele, dito assim por diferença de outro, do mesmo nome, que tomou a partido a ponte da dita vila, ambos moradores na Ribeirinha, em cento e vinte mil réis; mas depois chegou a mais de duzentos mil, porque para se fazer se ajuntou a ribeira do Salto com a Ribeirinha e elas juntas levaram a terra ao mar, que os homens iam cavando, com que se abriu um alto pico pelo meio e se fez o caminho de carro que agora tem, obra que parece de Romanos. De princípio se chamava o porto do Macedo, por respeito do corregedor António de Macedo que procurou que se fizesse. Depois se chamou porto de Santa Eiria, pelas razões já ditas, como a nobre e populosa vila de Santarém se chamou primeiro Scalabis e Cabilicastro, e por vir ter a seu fundo pego de nadadores o corpo de Santa Eiria, se chamou Santa Eiria, mas depois, corrupto o vocábulo por discurso do tempo que tudo muda, foi chamada como agora, Santarém. Para a parte do sul do porto, pela terra dentro pouco espaço, perto deste porto e pico de Santa Eiria, está uma ermida de S. Salvador, junto das casas de D. Catarina Ferreira, mulher que foi de Antão Roiz da Câmara, chamadas assim porque esteve nelas muito tempo viúva, depois da morte de seu marido; e para o ponente o pico do Ermo tem o nome como ele é, e o arco da Regueira, porque vai por ali um grotelhão de água, quando chove. E daí a três tiros de arcabuz a Pedrinha, que é um ilhéu pequeno dentro na água, donde pescam de cana; e, dele a outro tanto espaço, a Ribeirinha, de boas e frescas águas, bem avizinhada de gente, ao longo da qual tem sua rica quinta Rui Gago da Câmara, parente do Conde, Capitão desta ilha; chamada assim, com nome diminutivo por ser mais pequena que a Ribeira Grande, sua vizinha, que está além dela, para a parte do ponente, um quarto de légua. Mas, antes que diga desta vila e da lomba da Ribeira Seca, que dantes era uma só freguesia, quero dizer as lombas que do Nordeste até ela estão pelas faldras da terra, antre a serra e o mar, em que se dá muito trigo e pastel e todo o género de ligumes .
Afora as lombas que atrás ficam, no termo do Nordeste, além e aquém da freguesia de S.
Pedro, termo da dita vila do Nordeste, indo para o ponente, pela banda do norte, estão estas. A lomba da Algaravia, do termo do Nordeste, que parte do nascente com a ribeira de — Dispe-te que suas e do ponente com a ribeira da Mulher. A lomba da Feiteira parte da ribeira da Mulher até à ribeira do Folhado. A lomba dos Chadãos parte com a ribeira do Folhado e com a ribeira do Moinho. A lomba da Chada Grande parte com a ribeira do Moinho e com a ribeira do Machado. A lomba de el-Rei, que foi sua e agora é dos herdeiros de Manuel Alvres, corregedor que foi da Corte, parte com a ribeira do Machado e com a ribeira da Fonte, donde bebe a Achadinha. A lomba da Chadinha, que foi de Fernão Dafonso, parte com a ribeira da Fonte e com a ribeira do Cachaço. A lomba da Terça da Capitoa D. Filipa parte com a ribeira do Cachaço e com a ribeira da Aventura e com a grota dos Lagos. A lomba da Salga parte com a grota dos Lagos e com a ribeira da Salga. O espigão de Fernão Vieira, parte com a ribeira da Salga e com a grotinha de Manuel Vieira. A lomba Grande parte com esta grotinha e com a grotinha de Álvaro Lopes. A lomba de Álvaro Lopes parte com esta grotinha e com a ribeira Seca. A lomba do lugar dos Fenaes parte com a Ribeira Seca e com a grotinha do lugar. A lomba de João Lourenço, que é agora dos herdeiros de António Lopes de Faria, parte com a grotinha do lugar e com a grotinha do Furão; chamou-se Furão este homem por um dia ir à caça com o vigairo dos Fenaes da Maia, por nome Bernardo de Froes, que Ihe deu o furão na mão, enquanto armou a rede à boca da cova, dizendo-lhe que tivesse mão, que Ihe não fugisse, ele o apertou tanto que quando Iho pediu, para o meter na cova, Iho deu morto, pelo que tomou este nome daquele homem que aí morava. A lomba de Cristóvão Lobo parte com a grotinha do Furão e com a grotinha de Estêvão Alvres de Rezende. A lomba de Estêvão Alvres e Hector Barbosa parte com esta grotinha e com a grotinha da Criação. A lomba de Lopo Dias parte da banda do nascente com a grota dos Vimes e do ponente com a ribeira de Filipe. Outra lomba de Lopo Dias parte da banda do nascente com a ribeira de Filipe e da banda do ponente com a grotinha da Fonte da Maia. A lomba da Maia parte da banda do nascente com a grotinha da Fonte e da banda do ponente com a grota da Cruz. A lomba de António de Brum parte da banda do nascente com a grota da Cruz e da banda do ponente com a ribeira da Gorriana. A lomba da Terça parte do nascente com a Gorriana e do ponente com a ribeira das Lajes. A lomba dos Pachecos parte do nascente com a ribeira das Lajes e do ponente com a ribeira de Tomé Vaz. A lomba de Pero Dias parte do nascente com a ribeira de Tomé Vaz e do ponente com a ribeira de Belchior Dias. A lomba do Porto parte do nascente com a ribeira de Belchior Dias e do ponente com a ribeira Seca. A lomba de António Pacheco parte do nascente com a ribeira Seca e do ponente com a ribeira do Limo, onde estão os moinhos do Porto Formoso. A lomba da Ladeira da Velha parte do nascente com a ribeira do Limo e do ponente com a grota do Sombreiro, da qual até a lomba da Ribeira Seca, termo da vila da Ribeira Grande que já disse, pela banda do norte, vão muitas lombas pela serra de que não faço menção, por não fazer longo processo, e da Ribeira Seca, por diante, não há mais lombas.
A nobre e populosa cidade da Ponta Delgada, tão célebre com generosos e poderosos moradores; tão rica, provida e abastada com diversos comércios e grossos tratos de mercadores riquíssimos; tão fortificada com fortaleza, baluartes e cubelos; tão acrescentada com custosos edifícios e casaria; tão religiosa com sumptuosos templos e mosteiros; tão visitada e acompanhada dos naturais da terra; quase sempre tão frequentada de navios e infinita gente forasteira, em todo o tempo — primeiro foi solitário ermo, saudoso lugar e pobre aldeia, e depois pequena vila, a que agora é grande, rica, forte e tão afamada cidade, quase furtando a bênção a Vila-Franca primaz e por ocultos juízos da Divina Providência herdando o seu morgado; e a que dantes era sujeita e sufraganha a outra vila é ao presente quase feita senhora, a que vão obedecer todas as vilas e lugares de toda esta ilha.
Assim são as vezes das coisas, que o discípulo vem a saber mais que seu mestre, e o criado vem a ser melhor que seu amo, o capitão senhor e o inferior superior; e quem antes obedecia vem a ser obedecido daquele que primeiro o mandava e temido de quem dantes o suprimia, como os irmãos de José no Egipto, porque Egipto e desterro é este mundo em que vivemos; egiptanos e vagabundos somos os filhos dos homens nele; hoje são uns Reis, amanhã se vêem vassalos: um dia são privados, outro logo desterrados; um tempo, empinados, venerados e estimados, outro tempo abatidos, anihilados e desprezados. Bom exemplo temos disto no que, Senhora, desta cidade irei contando.
Alguns anos depois do descobrimento e povoação desta ilha, era vila somente Vila–Franca do Campo e a cabeça de toda ela, sem haver outra, senão alguns lugares, como suas aldeias, em que havia juízes pedâneos e alcaides, e seus moradores eram obrigados a ir a ela todos os dias de festa principais, em que havia procissões solenes. E, como no lugar da Ponta Delgada moravam homens nobres e poderosos, onde tinham grossas fazendas e herdades de boas terras, que os Capitães desta ilha Ihes deram, sendo ricos e prósperos. não estavam muito contentes por os obrigarem a ir a Vila Franca muitas vezes, em diversos sucessos; alguns dos quais, a que pude saber os nomes, eram Nuno Gonçalves Botelho, pai de Jorge Nunes e Diogo Nunes Botelho; Fernão Gonçalves, o Matoso; Rui Lopes da Silva; Pero de Teves; Fernão do Quental; Francisco Dias Caiado; João da Castanheira; Pero Jorge; João Gonçalves, o Tangedor; Álvaro Pires, procurador; João Alvres do Olho; Fernão de Lima e outros muitos; — todos os quais, indo a Vila Franca pelas festas em que eram obrigados, foram uma em que deram uma tocha, para levar na procissão, a Pero Jorge, pai de Hierónimo Jorge, e pondo-se um Antão Pacheco, pai de Pero Pacheco, de Vila Franca, detrás dele com outra tocha, com ela, ou por descuido ou por malícia ou zombando, Ihe pingou um tabardo novo, que ele levava vestido, como então se costumava, ; e olhando o Pero Jorge para trás, vendo-se pingado, levando o capuz por cima da cabeça, arrancou logo sua espada contra quem Iho pingara, com que se armou um grande arruído, ajuntando-se, como em bandos de parte a parte, muita gente, onde houve alguns feridos e se desordenou a procissão. Pero Jorge e os da Ponta Delgada que eram da sua parte, por carregarem todos os de Vila Franca sobre eles, tiveram trabalho, indo-se recolhendo até ao porto, onde se recolheram em três barcos em que haviam ido; e chegados neles à sua freguesia se amotinaram e ajuntaram todos os moradores do lugar da Ponta Delgada, e se ajustaram antre si de não obedecer a Vila Franca e procurar fazer a Ponta Delgada vila, para o qual, fazendo sua petição, mandaram logo ao Reino, secretamente, a Fernão Jorge, ainda solteiro, irmão de Pero Jorge, ambos filhos de Jorge Velho e de Africanes, uns dizem que por via da Terceira, onde foi buscar embarcação, outros afirmam que desta ilha direito ao Regno, em uma caravela carregada de cevada, com pretexto de a ir vender a Lisboa. De qualquer modo que seja, ele foi dissimuladamente, sem se saber ao que ia, por terem jurado todos os deste acordo de o terem em segredo até serem providos, porque, além dos de Vila-Franca serem contra isso, também o era um corregedor, chamado o Maracote que então nesta ilha residia com alçada. Mas, soando- se e suspeitando- se este negócio, perguntou uma pessoa a Pero Jorge se era verdade o que se suspeitava, que já era partido um homem para o Regno; respondeu, assoprando na mão somente, como se dissera: — eu tenho juramento e não posso dizer que é ido; mas dava a entender, com o sopro na mão, que já o vento o levava pelo mar para esse feito que houve efeito, porque dali a um mês tornou o dito Fernão Jorge com a petição despachada a requerimento de tantos homens honrados e provisão de el-Rei, em que veio provido por vila o lugar da Ponta Delgada, mercê concedida por el-Rei D. Manuel na era de mil e quatrocentos e noventa e nove. E logo como chegou Fernão Jorge com este alvará, com grande segredo e pressa, foi chamado da Ribeira Grande, donde morava, Pero Roiz da Câmara, que então era logo-tenente do Capitão Rui Gonçalves da Câmara, seu irmão , que ao tal tempo era no Regno; e fez eleição e pelouros de oficiais da Câmara. Saíram no primeiro pelouro, por primeiros juízes, Nuno Gonçalves Botelho e João da Castanheira, sogro de Fernão do Quental, e por primeiro vereador, João Gonçalves, o Tangedor, assim chamado porque tangia bem viola, o qual era pai de Tareja Gonçalves, mulher de Francisco Dias Caiado; e por segundo vereador, Pedro Afonso Castelhano, sogro de Gaspar de Viveiros, chamado castelhano por ser casado com uma mulher castelhana; e por procurador do concelho, João Dias Caridade, pai de Pero Dias Caridade. O primeiro assento desta primeira eleição fez Pero de Teves, sem ser escrivão, senão por ser homem hábil e dos mais principais da terra. O que sabido pelos moradores da Vila-Franca, com muita pressa puseram embargos a ser Ponta Delgada vila, diante de Pero Roiz da Câmara, o qual Ihes respondeu não sabia que Ihes fizesse, porque os da Ponta Delgada andavam com suas varas alevantadas e já Ihes não podia valer. Dali por diante, sempre tiveram diferenças os da Ponta Delgada com os de Vila- Franca, como os da Alagoa com Água do Pau, em tanta maneira que uma vez foram os da Ponta Delgada pôr uma bandeira junto de Vila-Franca, com armas, tambor e mantimento; até os moços de ambas estas vilas antre si, quando se encontravam, tinham crua guerra. Rompendo-se depois o primeiro alvará de vila, que trouxe Fernão Jorge, por ser passado em papel, mandou o mesmo Rei D. Manuel passar outro em pergaminho, feito na vila de Abrantes, onde então estava, aos vinte e oito dias de Maio da era de mil e quinhentos e sete, com uma légua de termo ao redor, com que alargou e fez seu limite além da Relva, Feiteiras, Mosteiros, Santo António e Fanais, e depois se acrescentou a Candelária, S.
Sebastião e Bretanha, os quais lugares pelo tempo em diante se fizeram e são sufraganhos à mesma vila da Ponta Delgada, que el-Rei D. João III, do nome, fez cidade, de seu motu próprio, a dois dias do mês de Abril da era de mil e quinhentos e quarenta e seis, estando em Almeirim e Gaspar do Rego Baldaia na corte, que por esta mercê Ihe foi beijar a mão e de lá mandou o alvará no ano em que caíram a festa de Corpus Christi e a de S. João ambas em um dia.
Com a qual nova começaram os moradores da cidade negociar dali por diante a cavalo, em que pareciam bem pelas ruas e praças, e se fizeram muitas festas, agradecendo a el-Rei a mercê que Ihes fizera.
Esta cidade da Ponta Delgada é assim chamada por estar situada junto de uma ponta de pedra de biscouto, delgada e não grossa como outras da ilha, quase rasa com o mar, que depois, por se edificar mais perto dela uma ermida de Santa Clara, se chamou ponta de Santa Clara; antre a qual ponta e a da Galé se faz uma grande enseada, já dita, de compridão de três léguas. Tem um quarto de légua de comprido, e de largo, no meio do corpo dela, um bom tiro de escopeta; começa sua compridão na casa dos herdeiros do magnífico Baltasar Rebelo, da parte do oriente, e acaba em casa do esforçado e forçoso que foi Baltasar Roiz, de Santa Clara, ou ainda além, da banda do ponente; e, posto que no princípio e fim tenha só uma rua, pelo meio tem três, quatro, cinco e seis, atravessadas de norte a sul, em sua largura, com mais de dezasseis notáveis ruas, afora muitas azinhagas e becos e outras ruas menos principais e cursadas. Quase em todas elas há casas sumptuosas e ricas, sobradadas e muito altas, mas poucas de dois sobrados, e há paços, de fidalgos e homens poderosos, bem lavrados, afora os que agora começa o senhor Conde, quase no meio dela, e todas as casas tão fortes e edificadas com a melhor alvenaria que se pode achar em muitas partes, caiadas por dentro e por fora, que parecem fortalezas. Muitas das quais são tão notáveis e lustrosas que fora razão passar por elas, nem por seus donos, com silêncio; mas, por não causar fastio, com tantas particularidades, deixo as mais delas, somente fazendo menção das coisas mais notáveis que enobrecem esta cidade, na qual, afora duzentos e oitenta soldados da Fortaleza, há mil e quinhentos e sessenta e quatro fogos e cinco mil e quatrocentas e setenta e cinco almas de confissão, das quais são de comunhão quatro mil e duzentas e trinta e seis, em três igrejas paroquiais, que há nela. A primeira da parte do oriente, é a do Príncipe dos Apóstolos, S.
Pedro, que tem trezentos e trinta fogos e mil e cento e trinta almas de confissão, das quais são de comunhão oitocentas e oitenta e uma, cujo primeiro vigairo foi Estêvão Alvres Tenreiro; o segundo, Hector Tenreiro; o terceiro, João de Contreiras; o quarto, o ilustríssimo senhor licenciado Luís de Figueiredo, agora Bispo do Funchal; o quinto, Manuel Sanches, mestre em artes e bacharel formado em teologia; e beneficiados: o primeiro, Hector Tenreiro; o segundo, Pedro Anes; o terceiro, António Tenreiro; o quarto, Diogo Fernandes, capelão; o quinto, Fernão Gonçalves; o sexto, Francisco Fernandes; o sétimo, António Dias; o octavo, Gaspar Cansado; o nono, João de Bastos; o décimo, Francisco Rodrigues, transferido do Porto Formoso; o undécimo, Manuel Teixeira, transferido dos Fanais; o duodécimo, Cristóvão Francisco, transferido do Nordeste; o décimo tércio, Francisco Lopes; o décimo quarto, Lucas Gonçalves; o décimo quinto, Bartolomeu Cardoso; o décimo sexto, Pero de Matos; o décimo sétimo, Francisco da Cunha; e tem agora oito beneficiados. Lucas Gonçalves foi o primeiro cura nela; o segundo, António Gonçalves; o terceiro, o dito Lucas Gonçalves; o quarto, Diogo Domingues; o quinto Francisco Lopes, que também é beneficiado proprietário.
Está esta freguesia em um alto, junto do mar, onde se estão vendo da sua porta principal os navios ancorados e os que vêm à vela, e quase toda a cidade diante de si; com que é mui aprazível e muito mais será a nova que agora se ordena melhor, de naves, no mesmo lugar, cuja capela-mor se acabará cedo. Há nesta freguesia três ornadas ermidas: uma da Madre de Deus, que mandou fazer Diogo Afonso Columbreiro e fizeram fazer sua mulher Branca Roiz e sua filha Isabel Carneira, em um monte, de que descobre grande parte do mar e da terra; outra, pouco para o norte, de S. Gonçalo, ambas de muita romagem, e outra, de Nossa Senhora da Natividade, onde os pretos da cidade têm sua confraria. Pouco espaço adiante, para a parte do ocidente da sua Matriz, está a segunda freguesia em ordem, e primeira e mais principal em fábrica e edifícios e número de fregueses. É a igreja à advocação do mártir S. Sebastião, na praça da mesma cidade, defronte da casa da Câmara, junto do porto e alfândega, pelo que sempre é acompanhada e frequentada de muita gente, e poucas igrejas haverá em tão bom lugar situadas; é de bom grandor de naves e muito alta, com uma alta e graciosa torre do relógio, junto da capela-mor, da banda do norte, e outra fortíssima, ainda não acabada, para os sinos, pegada com a fronteira da porta principal, da parte do sul; com ricas capelas de uma e outra parte, antre as quais, no cruzeiro, da banda do mar, está ricamente feita e ornada a capela do Santíssimo Sacramento, com uma riquíssima confraria de ricos, devotos e curiosos confrades, que a têm provida de bons ornamentos e das mais ricas peças de toda a ilha; além das outras, que há na mesma igreja, todas bem providas e servidas. Sendo vereadores nesta cidade, quando era vila, Sebastião Barbosa da Silva e Gaspar de Viveiros, foi arrematada a obra de pedraria da dita igreja de S. Sebastião em um conto e trezentos e cinquenta mil reis, a um mestre Lupedo, que veio de Portugal, o qual recebeu logo cem mil reis a esta conta e foi buscar sua mulher ao Regno; e não querendo ela vir com ele, mandou de lá muita pedraria de mármore para os portais e peares, com um Afonso Fernandes, para trabalharem por ele, até tornar do Regno; mas, não podendo vir, por Ihe acontecer um desastre, na era de mil e quinhentos e trinta e três anos, a treze dias de Janeiro, sendo vereadores na dita vila da Ponta Delgada Álvaro Lopes, o Cavaleiro, morador em Santo António, e Manuel de Matos, filho de Fernão do Quental, e juízes ordinários, Amador da Costa e Gaspar Camelo Pereira, e procurador do concelho, Fernão Vaz Cabêa, e procuradores dos misteres, Afonseanes e Álvaro de Miranda, se tornou a abrir o lanço e fez-se arrematação a Estêvão da Ponte e a Afonso Machado, pelo sobredito preço. E Nicolau Fernandes, que era extremado oficial, e seu irmão André Fernandes lavraram a obra dos portais e peares; a obra de alvenaria, fizeram, Estêvão da Ponte e Brás da Ponte, seu irmão; e da carpintaria Diogo Dias e Pero Fernandes, da cidade, e Diogalvres, de Água do Pau, a que foi arrematada.
Um poço de água salobra que estava no adro da igreja pequena, que se fez junto da porta travessa da banda do norte, de que dantes, quando não tinham fonte, bebiam os moradores da Ponta Delgada, fazendo-se depois maior a igreja, como agora está, ficou dentro nela; de cuja água se servem para a regarem no Verão e para outras necessidades. A obra de madeira do retábulo da dita igreja, deu o provedor da fazenda de el-Rei, Duarte Borges de Gamboa, a fazer ao imaginário Francisco Teixeira, e a obra de pincel e de ouro ao pintor Fernão de Matos.
Há na dita freguesia de S. Sebastião mil e vinte e quatro fogos e almas de confissão três mil e quinhentas e setenta e nove, das quais são de comunhão duas mil e setecentas e quarenta.
O primeiro vigairo foi Diogueanes, que viveu muitos anos; o segundo foi Columbreiro, chamado Rodrigueanes Soeiro, pai de João Dias Soeiro e avô do licenciado Diogo Dias Soeiro; o terceiro, Pero Gago Bocarro também Columbreiro, filho de Luiz Gago, o qual teve a igreja muitos anos; o quarto, Sebastião Ferreira, bom sacerdote e grande cantor, que agora tem o dito cargo. Dos beneficiados nela, foi o primeiro, Rui Fernandes que faleceu de cem anos; o segundo, João Roiz, que também foi tesoureiro; o terceiro, Gaspar Roiz, mestre do padre Aleixo Roiz, da melhor voz contralta que houve nas ilhas; o quarto, João da Rua, irmão de João Dabelas, feitor; o quinto, Gomes Pires, natural de Guimarães; o sexto, António Lobo; o sétimo, Diogo de Paiva; o oitavo, Sebastião Ferreira; o nono, Simão Gonçalves; o décimo, João Roiz Machado; o undécimo, Pero Mendes Pereira; o duodécimo, Pedreanes Mago; o decimo tércio, João Soares da Costa; o décimo quarto, João Cordeiro; o décimo quinto, Manuel Gonçalves; o décimo sexto, Afonso da Senra; o décimo sétimo, Francisco Dias Caiado; o décimo octavo, Gaspar Carvalho; o décimo nono, Alvareanes Freire; o vigésimo, João de Betancor de Sá; o vigésimo primo, João Alvres; o vigésimo segundo, Miguel Dias Morim; o vigésimo tércio, Pero Roiz Sarmento; o vigésimo quarto, Manuel Pires de Lima; o vigésimo quinto, Roque Coelho Medeiros; o vigésimo sexto, Pero de Araújo, o Velho; o vigésimo sétimo, o licenciado Beraldo Leite de Sequeira, que foi ouvidor do eclesiástico em toda esta ilha; o vigésimo octavo, Bertolameu Cardoso; o vigésimo nono, Belchior Furtado, capelão de el-Rei e da Fortaleza; o trigésimo, André Barbosa. Tem ao presente dez beneficiados ordinários e um tesoureiro; agora o é o padre Manuel Fernandes, que sucedeu a outros. O primeiro cura foi João Soares da Costa, como coadjutor do vigairo, com a quarta parte das ofertas; o segundo, António Gonçalves, também coadjutor; o terceiro, Gaspar Marreiro, coadjutor; o quarto, Baltasar de Paiva, já primeiro cura, com ordenado de quinze mil reis; o quinto, Nicolau Domingues; o sexto, Manuel Teixeira; o sétimo, Alvareanes Freire; o oitavo, Luiz Cabral; o nono, Miguel Martins; o décimo, Manuel Pires de Lima; o undécimo, Francisco Dias Caiado; o duodécimo, Gaspar Manuel; o décimo tércio, Manuel Fernandes Pepino; o décimo quarto, Francisco de Araújo; e o décimo quinto, João de Gouveia, que ambos juntamente agora têm este cargo. O primeiro mestre da capela, com ordenado de el-Rei, foi Sebastião Ferreira; o segundo, Afonso de Goes, que agora tem este cargo, com tão boa capela, como se pode achar em uma sé de grosíssima renda.
Há nesta freguesia quatro ermidas anexas; a primeira de S. Brás, mudada de junto da fortaleza, a par da fonte; a segunda, das Chagas; a terceira, do Corpo Santo, dos mareantes, bem fabricada e provida; a quarta, da Trindade que o generoso fidalgo António de Sá mandou fazer, como oratório, dentro do circuito de suas casas.
A terceira freguesia, novamente feita, de Santa Clara, antes de ser acrescentada, tinha sessenta e dois fogos e almas de confissão duzentas e noventa e sete, das quais eram de comunhão duzentas e três. O primeiro vigairo foi o bacharel Ascêncio Gonçalves; o segundo, Francisco Fernandes, a quem o ilustríssimo Bispo D. Pedro de Castilho acrescentou os fregueses, que tirou de S. Sebastião, partindo a freguesia pela rua da Cruz; e tem agora duzentos e dez fogos e setecentas e sessenta e seis almas de confissão das quais são de sacramento seiscentas e quinze.
Teve o primeiro cura Rui Martins Furtado; o segundo, Gaspar Cansado, que ora serve em que tem anexa e apartada bom espaço uma ermida de Nossa Senhora da Piedade, que junto da sua quinta mandou antigamente edificar João Dias Caridade.
Há também nesta cidade um rico mosteiro da advocação de Nossa Senhora da Concepção, de boas oficinas e religiosos de boa vida e exemplo, da ordem de S. Francisco, onde ordinariamente residem quinze religiosos professos, dos quais são onze sacerdotes de missa, quatro leigos e seis noviços e dois serventes seculares.
Entre os quais sempre há alguns pregadores que têm o púlpito da cidade, por especial provisão dos Reis deste Regno, que além de com sua santa doctrina serem mestres das almas, com o seu conselho, favor e presença, foram sempre e são como pais da Pátria, e à porta do mosteiro dão cada dia suas esmolas a pobres. A qual também se enobrece e favorece com dois insignes mosteiros de religiosas de Santa Clara, todas mulheres de aprovada virtude, um da advocação de Nossa Senhora da Esperança, onde estão vinte e cinco religiosas de véu preto e cinco noviças, à obediência dos mesmos religiosos, o qual mandou fazer a Capitôa D. Filipa Coutinha, mulher do Capitão Rui Gonçalves da Câmara, segundo do nome, onde ambos têm sua sepultura , outro, da advocação de Santo André, à obediência do Bispo, que à sua custa mandou fazer e dotou Diogo Vaz Carreiro, e sua mulher Breatiz Camela, principalmente para suas parentas pobres, que sempre fossem vinte, e faltando uma se recebesse em seu lugar outra, qual seus administradores ordenassem, de que ao presente é padroeiro o licenciado António de Frias, casado com uma sobrinha da dita, Breatiz Roiz, onde agora residem vinte e seis freiras professas e cinco noviças.
Se estes mosteiros, no espiritual, ajudam muito as almas, com seus sacrifícios, orações, doctrina, conselho e exemplo, não menos é enobrecida e ajudada, no temporal, esta nobre cidade, com um Sprital e Casa de Misericórdia que junta tem, para que juntamente os irmãos da Casa remem ambos os remos, e ajudem e sirvam aos enfermos e sãos.
A Rainha D. Lianor, mulher que foi de el-Rei D. João, segundo do nome, e irmã de el-Rei D Manuel, foi uma muita virtuosa e católica cristã e não se contentando fazer, como fazia em sua vida, muitas e grandes esmolas a pobres, ordenou como também, depois de sua morte, fossem muitos pobres providos em suas necessidades, e para isso instituiu a insigne confraria da Misericórdia nestes Reinos, sendo ela Regente d’eles, no tempo que el-Rei D. Manuel, seu irmão, era ido a Castela com a Rainha, princesa D. Isabel, sua mulher, a fazerem- se jurar por Príncipes d’aqueles Reinos; para a qual confraria el- Rei D. Manuel deu de juro, cada ano, de esmola, um conto de reis para sustentação de órfãos, e quinhentos mil reis para outras obras-pias. Dali por diante, à imitação desta confraria, se instituíram outras e fundaram Casas de Misericórdia em muitas partes de Portugal e nestas ilhas, não havendo tais confrarias em nenhuma parte do mundo, nem em Castela, senão as que em Portugal então, de novo, se fundaram; e ainda que na cidade de Angra depois disto se fundou uma Casa de Misericórdia, onde se curam muitos enfermos e fazem muitas obras-pias, nesta cidade da Ponta Delgada está fundada esta Casa da Misericórdia, não tão rica de edifícios mortos, mas riquíssima de corações vivos e acesos em muita caridade, com que se servem e curam os enfermos, e agasalham e provêm os pobres nela, pelos irmãos da Casa, com tanta diligência, amor, fervor e cuidado, e sobretudo com grande despesa e gasto de suas próprias fazendas, que não duvido, senão que os bens que nela se fazem defendem esta terra dos graves castigos, que porventura por seus pecados merecem seus habitadores. E esta Casa de Misericórdia é bóia que sustenta em peso toda esta ilha, para que se não vá ao fundo; ainda que não tivesse outra coisa mais que esta Casa, esta é a maior nobreza das nobrezas e maior grandeza das grandezas, que enobrece esta nobre cidade da Ponta Delgada, e por ela fica enobrecida e engrandecida toda a ilha; e para ser mais nobre, agora se vai edificando uma sumptuosa e custosa igreja da advocação do Spirito Santo, por outra que tem, com uma capela de S. João Batista, ser muito pequena. Por os moradores desta cidade gastarem tão largo nesta Casa e, sendo senhores, se fazerem criados e escravos dos pobres dela, Ihe acrescem com esta misericórdia e humildade todos os bens a montes, e parece que Deus, agradecendo-lhe o que fazem, os está servindo a eles pelos proveitos que Ihe dá em suas novidades, granjearias e comércios, porque, além de Ihe frutificar bem a terra, a tem defensável com uma inexpugnável fortaleza, provida de mui grossa e furiosa artilharia, e de muitas munições de guerra, e dentro uma cisterna que leva mil e duzentas pipas, e ordinariamente tem mais de oitocentas de água boa e sã, por ser mui batida do ordinário que com um caldeirão cada dia tiram dela. Está situada esta Fortaleza sobre o porto principal, com outro porto e forte cais ao pé dela. Tem porto e alfândega, junto dele, que se mudou para ela depois de passada a subversão de Vila-Franca do Campo, onde então estava, em que há despacho das saídas das mercadorias da terra e das entradas das que vêm de fora; juiz do mar e contador; e residem os feitores e oficiais de el-Rei, e todas as justiças nela fazem seu principal assento, como são govenadores, corregedores, juízes de fora e ouvidores do Capitão; além de ser lustrosa e enobrecida com a presença dos Capitães da ilha, quando estão na terra.
O porto dela é de boa ancoragem e sempre frequentado de muitos navios, principalmente no Verão, que trazem muitas mercadorias de vários Regnos de fora e levam as da terra, além de outros que de diversas partes passam por ele, de caminho; e muito bom, com dois custosos e fortes cais, que servem de muro, e um deles de despejos de mercadorias com que se reparte em dois; e, para servir melhor, se quebrou debaixo de água uma pedra de rocha, que estava no meio dele, com que dantes perigavam os navios, ao entrar; vendo fazer isto, com gatos e grandes torquezes e tesouras de ferro, e com jangadas de pipas e madeira, disse um castelhano — que Ihe valesse Deus, pois até as pedras, debaixo do mar, não estavam seguras. E muito menos seguros se acham os ladrões, quando se vêem atados e justiçados no pelourinho, que está sobre o cais, defronte dele. Tem bom e espaçoso carregadouro, e ainda que é a costa brava, e não rio, não correm os navios perigo, se não se descuidam, porque, quando faz vento que para estar nele Ihes é contrário, com se fazerem à vela se asseguram.
Pela boca deste porto da cidade entram todas as mercadorias, de diversas partes de fora, para a alfândega, e dali correm e se repartem para todos os mais lugares; da qual, como de estômago, se provê todo o corpo da ilha. Saem, cada ano, por pelouros, três vereadores e um procurador do concelho que a governam com quatro procuradores dos misteres, para ajudarem a requerer as coisas que pertencem ao povo, e dois almotacés, cada três meses. O juiz de fora e o ouvidor servem por provisão, de três em três anos; têm escrivão e meirinho perpétuos, que agora são Pedro Homem e Vasco Caldeira, que de aução nova demandam perante seu ouvidor e se tratam seus casos e auções, ante ele, também de agravo. O juiz tem seu alcaide e serve de juiz dos resíduos em toda a ilha, em absência dos corregedores, e de corregedor na de Santa Maria. Havia juízes ordinários da terra, antes que os de fora viessem.
Há nesta cidade, na Relva, Fajã, Rosto de Cão e seus termos mais chegados, mil homens de armas, debaixo de quatro bandeiras. Os primeiros capitães das ordenanças foram João Velho Cabral, Pero Pacheco e Pedralvres Benevides; mas outros dizem que os primeiros foram Jorge Nunes Botelho, Mendo de Vasconcelos, Gaspar do Rego e Rui Velho; e depois foram Francisco de Arruda da Costa, João Roiz Camelo, Manuel Alvres, Bartolomeu Nogueira, Pero Castanho; Nuno Barbosa, João de Melo, João de Arruda da Costa, Gaspar de Teve Benevides e Gonçalo Tavares. E no lugar de Rosto de Cão é capitão Manuel da Costa, filho de Amador da Costa, e no lugar da Relva, João Roiz Ferreira.
Das quatro bandeiras que havia na cidade, cada uma de duzentos e cinquenta homens, fez o governador Ambrósio de Aguiar uma para a Fortaleza, de cem homens, de que era capitão Rui Vaz de Medeiros, e estas cinco bandeiras dividiu o governador Martim Afonso de Melo em sete, de que foram capitães os seguintes: João de Melo, capitão, teve duzentos homens; alferes, Francisco de Melo; e sargento, seu irmão Brás de Melo, ambos filhos de Roque Gonçalves Caiado.
Gaspar de Teves, capitão de duzentos homens; alferes, António Afonso; sargento, João Rebelo.
João de Arruda da Costa, capitão de cento e cinquenta homens; alferes, Manuel Pavão; e sargento, João Velho Cabral, neto de Rui Velho.
João Roiz Ferreira, capitão de cento e vinte homens; alferes, António Lopes Falcão; sargento, Afonso Gonçalves Ferreira, filho do dito capitão.
Brás Raposo, capitão de duzentos homens; alferes, Afonso de Goes; e sargento, Gaspar Camelo.
Gonçalo Tavares, capitão de cento e cinquenta homens; alferes, Ambrósio Nogueira; sargento, Pedro Furtado.
Rui Vaz de Medeiros, capitão de cem homens; alferes, Bento Dias; sargento, António Carvalho; segundo alferes, Manuel Serrão; e sargento, Fernão do Quental. O primeiro sargento-mor foi João Fernandes de Grades, que veio com o Capitão Manuel da Câmara, quando trouxe a artilharia a esta ilha; o segundo, Francisco de Osouro da Fonseca; o terceiro, Manuel Serrão, que serviu em sua absência; o quarto, Simão do Quental; o quinto, Manuel Correia, que agora tem este cargo. Aos alferes antigos não pude saber os nomes; depois direi os dos capitães, alferes e sargentos que ao presente há, assim na cidade, como em toda a ilha.
Há aí também, nesta cidade, um conselheiro, capitão do número, como mestre de campo, que veio a esta ilha com o Conde Capitão Rui Gonçalves da Câmara, por mandado e provisão de el-Rei, com seu ordenado, que pagam, como ao sargento-mor, as imposições da cidade e vilas, chamado Cristóvão de Crasto, homem de grande curiosidade e engenho, que agora reside na dita cidade.
Vivem nesta cidade muitos homens fidalgos, honrados e poderosos, de boas rendas de quarenta moios para baixo, muitos para cima, até chegar a trezentos moios, cada ano. Teve Gaspar do Rego Baldaia trezentos e sessenta e seis moios de renda, tantos moios quantos dias o ano tem, afora muita renda de foros e dinheiro; seu filho, o grão capitão Francisco do Rego de Sá teve o mesmo, mas pretendeu servir a el-Rei e tem condição larga, com que gastou muito em coisas que sucederam no mar, andando por capitão; fez os sessenta e seis moios pouco mais ou menos de foro sobre sua fazenda, e ainda Ihe ficam foros a ele e a sua mãe, D. Margarida de Sá, trezentos moios. Mas, como ele é largo de condição, não Ihe abasta todo o mundo. Muitos têm muitas rendas, além das granjearias de suas lavranças, de muito trigo e pastel, e foros e outras inteligências que têm alguns com mercadores, que passo agora com silêncio, porque de todos eles e dos da ilha toda farei adiante particular relação. Há nesta cidade uma fonte da melhor água de toda a ilha, e por tal julgada, ainda que nela se acham fontes e ribeiras de frescas águas, bebendo dantes água salobra de um poço que depois ficou dentro na igreja Matriz de S. Sebastião. Dantes se servia com algumas atafonas que antigamente o Capitão Rui Gonçalves, segundo do nome, mandou fazer, e outras que consentiam na mesma cidade; agora tem a serventia das moendas, trabalhosa e quase insofrível dos compridos caminhos até à Ribeira Grande e Água do Pau, onde estão os moinhos; mas é tão populosa cidade e de gente tão rica que com tudo pode, ainda que muito Ihe custa, e a tem cercada ao redor de muitas quintas e pomares, afora os frescos jardins que dentro em si tem. Nela há poucas carnes para tanta gente, pelo que a mais dela se mantém a maior parte do tempo com pescado, de que há, com muitos batéis de pescaria, grande abundância.
Tornando à costa dela adiante da entrada da cidade, depois da casa de Baltasar Rebelo, passadas algumas ruas, que vão da principal dar no mar, está um pequeno porto de cascalho , em o qual se lava roupa e se cortem carros novos, depois de ferrados; e junto está o poço de Duarte Borges de Gamboa que, sendo provedor da fazenda de el-Rei, ali mandou fazer, para se granar o pastel com água dele. Adiante está um torno de água, tão grosso como um braço, que se descobre com a maré vazia, e se suspeita ser fonte ou parte de alguma ribeira. Logo está uma ponta pequena ao mar, de penedia, à maneira de cais, abaixo da igreja paroquial de São Pedro, onde embarcam e desembarcam algumas pessoas para irem a outras partes da ilha e fora dela.
Mais adiante estão outras baías e calhetas pequenas, em que com maré vazia lavam roupa; e logo o porto da cidade , com dois cais de cantaria e suas escadas de serventia; e por um estar no meio do porto, faz de um dois, no de leste entram os navios, e no de loeste entram e vão batéis, e está o Pelourinho que disse; e para ambos entram por uma barra. Sobre o cais, da banda do levante está a alfândega com muitas oficinas e ameias, e, da banda da terra, está um peitoril, com sua porta, como muro, com suas bombardeiras, que aparta a praça da cidade de ambos os portos ou do porto dela; no primeiro dos quais, onde entram os navios, parece correr uma ribeira de água quase doce que ali com a salgada se mistura, ainda que por mais certo se tem ser água do mar que com a enchente se sume pela terra e com a vasante torna a sair dela, já menos salgada; e no segundo estava um chafariz grande como tanque, onde tomavam água os mareantes e lavavam roupa, procedido de outro que com a frescura das muitas bicas está ornando a Praça, o qual mandou fazer um Micer Bernardo.
Além está uma ponta de penedia rasa e delgada, de que tomou a cidade este nome; e logo a ermida do Corpo Santo, em que os mareantes têm sua rica confraria, e em outra ponta, defronte dos paços de António de Sá que foram de D. Fernando, antre ela e a Fortaleza, está outro porto de areia, que se fez com grandes gastos, e um cais de tão grande penedia de pedra ensossa, que quase cada uma custou, posta nele, como pedra preciosa, cinco, seis cruzados, fazendo um porto para por ele se servir a mesma Fortaleza, começando da porta direito a leste; no pé da qual esteve uma ermida do mártir São Brás, que já agora está mudada a outra parte, junto da Fonte; e dentro na Fortaleza, que está bem provida de furiosa e temerosa artilharia, está um grande poço de água salobra e uma cistema, que já disse, muito custosa, formosa e boa, e de muito artifício, que dentro ordenou fazer-se o insigne mestre de campo Agostinho Inhiguez, que nesta ilha governou a gente de guerra, que nela ficou para a conquista da ilha Terceira, que leva as mil e duzentas pipas de água, já ditas, que se toma dos telhados das casas que dentro tem; e fora dela outro poço. Além, pouco espaço da Fortaleza para loeste, está uma ponta que se chama a Ponta dos Algares, porque saem ali dois com suas bocas, por dentro dos quais se caminha grande caminho por baixo da terra, por cujo vão parece que correu ribeira de pedra de biscouto, em outro tempo, não sabido, nem visto.
Defronte da qual ponta está um baixo, antre o qual e a terra passam barcos, e logo está uma pequena baía de areia, defronte das casas do generoso e em tudo grandioso Francisco de Arruda da Costa, merecedor de grandes coisas, toda por sua indústria e com grande custo seu cercada de muro e cubelos, com sua porta para o mar, tudo muito defensável, e pegado com a porta, chamada de Santa Clara, por estar ali a igreja paroquial desta Santa, onde se acaba a principal costa da cidade, que ainda chega à outra ponta de Baltasar Roiz. Antre a qual ponta e a da Galé , fica a grande baía de três léguas de comprido; e pelo não ser mais que isto e não fazer um longo processo, deixo de contar as mais particularidades e grandezas que há nesta cidade. Finalmente nela está o corpo dos negócios, riquezas, habitações e comunicações de todo o trato e contratos de toda a ilha; e residem os mercadores mais ricos de mil, dois mil, três, até cento e duzentos mil cruzados de fazenda , que têm comércio em Portugal, Castela, ilha da Madeira, Canárias, Frandes e outras partidas; e se negoceiam os negócios desta ilha por um modo tão bom, chão e verdadeiro, que segundo nas partes estrangeiras não há nenhuma que de seu igual Ihe faça avantage.
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