Veio a esta ilha, no tempo do Capitão João Roiz da Câmara, um Álvaro Roiz, a que outros chamam Afonso Alvres de Benavides, cavaleiro de África, que procedia dos Benavides, fidalgos de Castela, descendentes da casa e progénia dos marqueses de Fromista em Castela, de que ele tinha seus brasões; e de Castela vieram ter ao Algarve seu pai e avô; e de Aljezur do Algarve se veio ele morar a esta ilha de S. Miguel, já casado, com sua mulher Breatiz Amada, dos quais descenderam estes filhos e filhas. O primeiro foi Pedralvres, o Velho, cavaleiro de África, chamado o Velho, a respeito de seu irmão, que também se chamou Pedralvres, o Moço; porque sendo o Velho absente desta ilha e tido por morto, puseram o mesmo nome ao outro seu irmão que então nasceu. O qual Pedralvres, o Velho, foi casado com Isabel Nunes, do Algarve, filha de um homem natural de Lagos, chamado Foão do Rego, de que houve uma filha, chamada Antónia de Benavides, das mais fermosas e discretas mulheres desta ilha, que foi casada com o licenciado Manuel Mergulhão, filho de Mestre Luís, de que não houve filhos.
O segundo filho foi também chamado Pedralvres de Benavides, cavaleiro de África, onde serviu a el-Rei com dois cavalos, sendo homem de muitas forças e bondade, que foi, por rogos do Capitão, alcaide trinta e três anos na cidade da Ponta Delgada e em toda a ilha, e da governança dela; e casou com Isabel Castanha, filha de João Roiz Badilha, cavaleiro de África, e de sua mulher Caterina Pires, filha de Pero Vaz, por alcunha o Marinheiro, da qual houve um filho, Gaspar Roiz de Benavides, que faleceu solteiro, e uma filha, chamada Breatiz Roiz Benavides, que casou com Amador de Teive , filho de Pero de Teive, de que teve filhos, Gaspar de Teive, que é capitão de uma bandeira da cidade da Ponta Delgada, e casou com uma filha de Manuel Machado e de Lianor Ferreira, chamada Francisca Ferreira; e houve Pedralvres de sua mulher Isabel Castanha outra filha, por nome Solanda Roiz de Benavides que foi casada com Cristóvão Cordeiro, escrivão da alfândega, filho de Sebastião Roiz Panchina e de Violante Roiz. Era Cristóvão Cordeiro homem muito grave e de grandes espritos do qual e de sua mulher Solanda Roiz nasceram os filhos e filhas já ditos na geração dos Cordeiros.
Teve também o dito Álvaro Roiz de Benavides as filhas seguintes: a primeira, chamada Catarina Alvres de Benavides, que casou com Gonçalo Velho Cabral, filho de Pero Velho, irmão de Nuno Velho, já ditos e os filhos que houveram, um dos quais foi Lopo Cabral de Melo.
Outra filha de Álvaro Roiz e de sua mulher Breatiz Amada se chamou Inês Alvres de Benavides, mulher que foi de Afonseãnes Pereira, que diziam ser filho natural do Conde da Feira, que foi pai de D. Diogo, que sucedeu no mesmo condado; o qual D. Diogo era irmão de D. Jorge Pereira, que nesta ilha casou. Do qual Afonseãnes e Inês Alvres nasceu Fr. Manuel Pereira, capelão de el-Rei, vigairo que foi na vila da Ribeira Grande, e ouvidor e visitador, muitas vezes, nesta ilha de S. Miguel e ilha Terceira. Teve mais uma filha, chamada Isabel Pereira, que casou com Sebastião Teixeira, de que não houve filhos; e do primeiro marido, Gonçaleañes, que veio de Portugal, houve uma filha, chamada Inês Pereira, e agora Inês do Espírito Santo, freira no mosteiro de Jesus da vila da Ribeira Grande.
Teve Álvaro Roiz, de sua mulher Breatiz Amada, outra filha por nome Margarida Alvres de Benavides, que foi casada com João Dias, morador junto de Nossa Senhora da Piedade, cuja ermida ele fez, que era homem rico e dos principais e da governança da cidade, de que houve filhos: Pero Dias Carvalho, que casou com Ana Roiz, de que houve filhos, Roque Dias Carvalho e João Roiz Carvalho e Braz Dias Carvalho. E filhas, Margarida Alvres Carvalha, que não casou, e outra que casou com Salvador Daniel, filho de Daniel Fernandes, de Água do Pau, que foi escrivão na cidade da Ponta Delgada.
Teve Álvaro Roiz de Benavides, de sua mulher Breatiz Amada, outra filha, chamada Guiomar Alvres de Benavides, que foi casada com Bertolameu Roiz, pai de Baltesar Roiz, de Santa Clara. Houve a dita Guiomar Alvres, sua segunda mulher, um filho chamado Duarte Roiz que casou com Margarida de Alpoem, filha de Estevão Roiz de Alpoem, de que houve um filho, chamado Gaspar Roiz, que casou segunda vez com uma filha do licenciado Francisco Gavião.
Teve mais Guiomar Alvres, de seu marido, outro filho, chamado Heitor Roiz, que não foi casado, e outro, chamado Estevão Roiz, que se foi desta terra, e uma filha, por nome Estácia Roiz, que faleceu solteira.
Teve mais Álvaro Rodrigues de sua mulher uma filha chamada Isabel Alvres, que foi casada com Estevão Fernandes Salgueiro, cavaleiro de África, de que teve filhos: Diogo Salgueiro, Manuel Salgueiro, Pero Salgueiro e Isabel Salgueira e outros que faleceram. O Diogo Salgueiro casou com uma filha de Joanne Anes Panchina , irmão de Sebastião Roiz Panchina, de que houve uma filha chamada Isabel dos Santos, freira no mosteiro de Jesus da vila da Ribeira Grande; e os mais filhos de Estevão Fernandes faleceram sem filhos.
Teve mais Álvaro Roiz, de sua mulher, outra filha chamada Violante de Benavides, que foi casada com Pero Roiz de Sousa, que morou na Relva, irmão inteiro de Baltasar Roiz, de Santa Clara, e de Isabel Castanha, mulher de Gaspar de Viveiros, o Velho, sogro de Francisco de Arruda; de que houve o dito Pero Roiz, da Relva, um filho, por nome Manuel Roiz de Sousa, clérigo que se foi para o Brasil, e uma filha chamada Guiomar Roiz de Sousa, que casou com João Gonçalves, de alcunha o Cerne, de que houve dois filhos, Gaspar Roiz de Sousa e António de Benavides, homens de grandes espritos e de honra, e uma filha que casou com Gaspar Alvres, e outros filhos e filhas.
Teve mais Álvaro Roiz, de sua mulher Breatiz Amada, outra filha por nome Caterina Alvres de Benavides, que foi casada com Gonçalo Velho Cabral, pai de Lopo Cabral de Melo e dos mais irmãos, já ditos atrás na progénia dos Velhos.
Teve mais Álvaro Roiz outra filha, chamada Breatiz Alvres que não casou.
Teve também Álvaro Roiz, ou, como outros dizem, Afonso Alvres de Benavides, outra filha, chamada Lianor Alvres de Benavides, que casou com Pedralvres das Côrtes, do hábito de Santiago, morador na Fajã, junto de Nossa Senhora dos Anjos, onde tinha sua fazenda, e também na cidade da Ponta Delgada, onde tinha suas casas; a qual Lianor Alvres de Benavides, sua mulher, era irmã de Caterina Alvres de Benavides, mulher que foi de Gonçalo Velho, pai de Lopo Cabral de Melo, e dos mais irmãos já ditos. Da qual Lianor Alvres houve o dito Pedralvres das Côrtes os filhos seguintes: O primeiro filho, Rodrigo Alvres de Rezende, que por morte de um homem se foi desta ilha e casou em Alvor, do Algarve, com Inês Dias, de que não houve filhos; o qual não vinha a esta ilha, senão com licença de el-Rei.
O segundo filho de Pedralvres das Côrtes e de Lianor Alvres foi Estevão Alvres de Rezende, que casou com Maria Pacheca, filha de Fernão Vaz Pacheco, morador em Porto Fermoso, e de Isabel Nunes Cabral, filha de Nuno Velho, irmão de Pero Velho, morador que foi na vila da Alagoa , pai de Gonçalo Velho Cabral e avô de Lopo Cabral de Melo e dos mais irmãos sobreditos. Cujo filho é Pedralvres Cabral, morador na vila da Ribeira Grande, e outros que tenho ditos na geração dos Velhos, e pai de Fernão Dalvres Cabral, tão bom cavaleiro, que indo em Roma por uma rua a cavalo, vendo estar um Cardeal a uma janela, folgou a cavalo diante dele, e tão bem lhe pareceu, que dali por diante lhe fez muitas honras.
Teve também Pedralvres das Côrtes uma filha, por nome Ana de Rezende, que casou com Pero Vaz Pacheco, que se foi para o Algarve e faleceu no mar, irmão de Fernão Vaz, acima dito, de que houve filhos: Diogo Pacheco e Simão Pacheco e Fernão Vaz Pacheco, sacerdote, vigairo que foi em um lugar do Algarve, e Pero Pacheco, que foi à Índia e vindo o fez el-Rei capitão de uma armada da costa.
Teve Pedralvres das Côrtes outra filha, chamada Lucrécia de Rezende, que casou com Jácome das Póvoas, de que houve um filho, chamado António das Póvoas, escrivão na cidade da Ponta Delgada, e outro filho, por nome Jácome das Póvoas, que casou com Maria da Ponte, irmã de Ciprião da Ponte, e uma filha, chamada Aldonça de Rezende, que casou com Paulo Pacheco, filho de Mateus Vaz Pacheco, de Porto Fermoso.
Teve Pedralvres das Côrtes outra filha, chamada Maria de Rezende, que foi casada com Henrique do Quental, filho de Fernão do Quental, de que teve dois filhos que foram para o Brasil, porque mataram um mulato que matou seu pai.
Teve mais Pedralvres das Côrtes outra filha, chamada Guiomar de Rezende, que casou com Simão de Viveiros, filho de Simão de Viveiros, irmão de Gaspar de Viveiros, sogro de Francisco d’Arruda, que vieram da ilha da Madeira, donde eram naturais, e dizem alguns que eram da casa do Capitão da dita ilha.
Este Pedralvres das Côrtes era irmão de Lopo das Côrtes, pai de Simão Lopes de Almeida, morador que foi na vila da Ribeira Grande, e faleceu na ilha do Fogo, sendo Capitão dela, homem de grandes espritos, muito parente do conde de Penela, e tem seu brasão e armas, que não pude saber.
Havia em Óbidos de Portugal dois irmãos, fidalgos, da progénia dos Almeidas e Mascarenhas, chamados Pedralvres das Côrtes, de que já disse, e Lopo das Côrtes; o qual Lopo das Côrtes foi casado com Isabel Mascarenhas, filha de Álvaro Carvalho e de Ginebra de Almeida, moradores que foram na vila de Linhares; a qual Ginebra de Almeida era filha de Fernão Vaz de Almeida, cavaleiro fidalgo, morador que foi no lugar da Carapachena, que é junto de Linhares; o qual Fernão Vaz era irmão de Pero Vaz d’Almeida, veador que foi do Infante D. Fernando, pai de el-Rei D. Manuel. Este Pero Vaz teve um filho, chamado Pero Vaz de Almeida, como seu pai, e uma filha, chamada Marta de Cristo, abadessa do mosteiro de Tomar; e outro filho, por nome Mosem Vasco, alcaide-mor de Linhares; e outra filha, Maria de Almeida, criada da Infanta; e o dito Fernão Vaz de Almeida procederam a dita Ginebra de Almeida, sua filha, e Diogo de Almeida e Tristão de Almeida e Fernão Vaz de Almeida, todos fidalgos da casa de el-Rei e dos Infantes, primos segundos de Isabel Mascarenhas e primos com-irmãos de João de Almeida, conde que foi de Abrantes, pai de D. Jorge de Almeida, Bispo de Coimbra, e do prior do Crato, D. Diogo de Almeida, e de Francisco de Almeida, que foi por viso-rei à Índia, que é o verdadeiro tronco e casa dos Almeidas.
Este Lopo das Côrtes , desta progénia dos Almeidas, casado com Isabel Mascarenhas, houve da dita sua mulher dois filhos, Bertolameu Lopes de Almeida e Simão Lopes de Almeida, que vieram a esta ilha e moraram na vila da Ribeira Grande.
Bertolameu Lopes de Almeida, da governança da dita vila, casou com uma nobre mulher, a que não soube o nome, de que houve estes filhos: o primeiro, Adão Lopes, que casou com Maria Ferreira, de que não teve filhos; o segundo, Gaspar Lopes, casou com Hilária Calva, de que não houve filhos; o terceiro, Baltesar Lopes, faleceu solteiro.
Simão Lopes de Almeida, cavaleiro do hábito de Cristo, casou com Margarida Luís, filha de Amadis da Gama, de Porto Fermoso, da qual teve dois filhos, Pero de Almeida e Salvador de Almeida, que tomou el-Rei D. João, segundo do nome, por seus, e a ambos deu cargos honrosos.
Lopo das Côrtes, pai destes dois irmãos, Bertolameu Lopes de Almeida e Simão Lopes de Almeida, era irmão do avô de Simão de Almeida, filho de João Gonçalves de Leça e de Breatiz Jorge, que agora mora na vila da Ribeira Grande casado com Breatiz Jorge , filha de Custódio Afonso e de Helena de Viveiros, de que tem uma filha chamada Breatiz de Almeida, e vive à lei da nobreza. Têm estes fidalgos as armas dos Almeidas do Regno.
Os Benavides são naturais de Baeça, onde têm bando contra outra geração dos Carvajales e dura hoje em dia a competência deles. Houve um Benavides que fez uma grande cavalgada; quando os Reinos de Castela eram de muitos Reis, indo a Rainha de um destes Reinos com certas damas a folgar, as cativou um Rei mouro, e um destes Benavides a ganhou a força de armas e trouxe a el-Rei, o qual Rei, querendo-lhe dar satisfação, perguntou com que se haveria por pago. Ele respondeu que com um quartel das suas armas. Arrancou então el-Rei de um terçado e cortou do pendão e acrescentou-o nas suas, e por timbre uma touca de rei mouro fogueada, porque as armas que dantes tinham eram umas caldeiras com umas barras atravessadas e agora têm um leão rompente em campo vermelho, só neste quartel, e em outro quartel umas barras de prata com caldeiras em circunferência. Reprovou a el-Rei um conde dar-lhe das suas armas, sobre o qual caso o desafiou o Benavides e o matou em campo; donde dizem procederam os bandos antre as duas gerações. Não sei se foi este o Rei de Navarra, se o de Leão, ou que Rei fosse; ainda que parece ser o de Leão, pois lhe deu das suas armas o leão rompente. Naquele tempo, o de que Sua Majestade agora se intitula e possui, era de mais de vinte Reis.
António de Benavides de Sousa, filho de João Gonçalves Cerne, e de Guiomar Roiz de Sousa, moradores no lugar da Relva, termo da cidade da Ponta Delgada, desta ilha de S.
Miguel, tirou em Castela o seu brasão de linhagem e cota de armas dos Benavides e Rochas que lhe pertenciam; onde diz que os da geração dos Rochas são dos nobres que ganharam a Cárceres , que têm por armas um escudo esquartelado e no primeiro e derradeiro, em prata, em cada um, um leão morado e os outros dois quartéis em ouro, em cada um, quatro barras ou bandas vermelhas atravessadas. E que vêm os desta linhagem de um cavaleiro, senhor da Rochela, de França. O fundamento da geração dos Sousas é em Portugal, onde se chama Sousa, que são grandes homens no Reino e há deles também na cidade e Reino de Toledo. Trazem por armas um escudo de ouro, feito barras vermelhas. Diz mais que os Benavides são mui antigos fidalgos em Andaluzia e linhagem mui honrada; os quais trazem por armas um escudo de ouro e nele um leão vermelho com barras laqueladas de azul e branco; uns põem assim o leão só, e outros da mesma geração põem o leão e mais, em campo de ouro, cinco flores de liz, escacadas de branco e vermelho. Têm também no mesmo escudo, em um quarto dele, de campo verde, dois tiros de campo, encavalgados; tem o elmo de prata guarnecido de ouro; paquife de ouro, prata, azul e vermelho, e por timbre três penachos, um azul, outro verde, outro vermelho.
António de Benavides de Sousa, primo de Manuel Cordeiro de Sampayo Benevides, juiz do mar nesta ilha de S. Miguel, foi à ilha de Santa Maria em socorro, quando ela era tomada dos franceses, de que dizem ser capitão um francês, chamado Sansão; pelo que Sua Majestade lhe fez mercê de o filhar em foro de cavaleiro fidalgo, com quinze mil reis de tença cada ano, pagos na alfândega da cidade da Ponta Delgada; e a seus irmãos, Manuel de Sousa Benavides e João de Sousa Benavides, todos filhos legítimos de João Gonçalves da Rocha, chamado o Cerne, e de Guiomar Roiz de Sousa, por moços da Câmara.
Ao dito António de Benavides de Sousa, mataram de uma bombardada, na defensão do galeão Ascensão, de que era capitão Jorge Aires de Arberto, defendendo-se a duas naus ingresas, defronte da cidade da Ponta Delgada, a que ele socorreu com outra gente da terra, como em seu lugar contarei.
Falecendo ele, seu irmão, Manuel de Sousa Benavides, solteiro, que com ele se achou na dita batalha naval, muito cruel e temerosa por ser de noite, foi ao Reino requerer satisfação de seus serviços e fez-lhe Sua Majestade mercê de o acrescentar a cavaleiro fidalgo, com quinze mil reis de tença, pagos na alfândega da cidade da Ponta Delgada, como tinha seu irmão António de Benavides, defunto. Ao qual despacho não houve, por satisfação de seu serviço, a mercê que lhe foi feita, mas antes replicou, para a todo o tempo requerer justiça.

Houve em Portugal um fidalgo, chamado João Fernandes da Costa, irmão de D. João da Costa, Bispo de Lamego e prior de Coimbra, o qual João Fernandes da Costa teve um filho, Diogo Fernandes Homem, que foi casado com Filipa Nunes Homem, filha de Nuno Gonçalves que foi senhor da Lageosa e de Paços e de Sergueiros. Em tempo do quarto Capitão João Roiz da Câmara, veio a esta ilha Luís Fernandes da Costa, seu neto, natural do bispado de Viseu, e primeiro foi ter à ilha da Madeira, onde casou com Isabel Dias, natural da mesma ilha, mulher honrada e principal da terra; e dela veio para a Vila da Praia da ilha Terceira, onde serviu alguns anos de ouvidor do Capitão, e pelo conhecimento que tinha dele, que era homem fidalgo e ali achou parentes, também fidalgos, como eram Pedro Homem da Costa e outros, por cujo respeito foi aí ter, donde se veio depois, com sua mulher, para esta ilha de S. Miguel e o Capitão lhe deu uma grossa fazenda na Maia, que chamam as Lombas dos Costas, por eles morarem nelas e serem suas. Houve Luís Fernandes da Costa, de sua mulher Isabel Dias, os filhos seguintes: o primeiro, Diogo Fernandes Homem, que casou com Inês de Albernaz, fidalga, filha de João de Albernaz, da qual houve um filho, chamado Diogo Fernandes Homem, que casou duas vezes, uma com uma filha de Simão Lopes , da Maia, da qual houve alguns filhos; e outra vez com uma filha de Gonçalo Dias , de Porto Formoso, de que também houve alguns filhos.
Teve mais o dito Luís Fernandes da Costa, de sua mulher Isabel Dias, o segundo filho, chamado Luís Fernandes da Costa, que casou com Isabel Furtada, fidalga, filha de João de Albernaz, irmão de Inês de Albernaz, mulher de Diogo Fernandes, natural da Graciosa, da qual houve três filhos: o primeiro, chamado João Homem da Costa, que casou na vila do Nordeste com uma filha de Pero Afonso Barriga , de que houve alguns filhos; e o segundo, Amador Furtado, que foi primeiro vigairo do Faial, termo de Vila Franca, e depois vigairo da Maia, onde faleceu. O terceiro filho de Luís Fernandes da Costa, por nome Clemente Furtado, casou nos Fanais da Maia com uma filha de Manuel Vieira, e depois, segunda vez, com uma filha de Belchior Vaz Fagundo , de Água do Pau; e depois casou a terceira vez com Guiomar Alvres, filha de André Martins e de Ana Pires, da Ribeirinha. Teve mais Luís Fernandes da Costa, filho de Luís Fernandes da Costa, duas filhas, uma chamada Maria da Costa, que casou com Estevão Pires, filho de Duarte Pires, da Lomba, termo da vila da Ribeira Grande, de que houve alguns filhos; e outra, chamada Catarina da Costa, que casou com João de Medeiros, filho de João da Mota, de Vila Franca, e de Breatiz de Medeiros, filha de Lopo Anes de Araújo, de que houve muitos filhos. Teve mais o dito Luís Fernandes, filho de Luís Fernandes, uma filha freira, que faleceu no mosteiro da Esperança da cidade da Ponta Delgada.
Teve também Luís Fernandes da Costa, pai de Luís Fernandes da Costa, o terceiro filho, por nome Manuel da Costa, que fez a ermida da Madre de Deus, junto de sua casa, morador na Lomba, termo da Ribeira Grande, e casou com Ana Afonso, filha de Pedro Afonso, da Lomba, irmão de Duarte Pires, o Velho, e de Álvaro Pires, de que houve um filho, chamado António da Costa, que casou muito rico em Sevilha com uma filha do capitão Cardoso, que tinha uma capitania no Perú, e de sua mulher, da geração dos Covilhãos e Almeidas, da qual houve António da Costa alguns filhos, sc., um que agora está no Perú e sucedeu na capitania de seu avô, e teve mais o dito António da Costa uma filha, chamada Ana da Costa, que casou nesta ilha com Diogo Lopes de Espinhosa, feitor que foi de el-Rei, fidalgo muito discreto e virtuoso, cavaleiro do hábito de Cristo, com tença de Sua Majestade, de que tem alguns filhos.
O quarto filho de Luís Fernandes da Costa, o Velho, se chama Gaspar Homem, o qual casou com Breatiz de Macedo, filha de Fernão de Macedo, de que houve estes filhos e filhas: o primeiro, Jorge Homem da Costa, casou em Vila Franca do Campo com Marquesa de Magalhães, de que houve filhos e filhas; o segundo filho, António de Macedo, casou com uma moça órfã ; o terceiro, João Homem da Costa, se foi desta ilha e não se soube mais dele; o quarto, Francisco Homem de Macedo, absente; o quinto, Manuel de Macedo, absente; o sexto filho, Brás de Macedo Homem, bom sacerdote e virtuoso. A primeira filha, chamada Isabel de Macedo, faleceu moça; a segunda, Breatiz de Macedo, casou na vila da Ribeira Grande com Cristóvão Martins, homem nobre; a terceira, Ana de Macedo, casou na vila da Lagoa com Cristóvão de Faria, homem fidalgo, primo com-irmão de António Lopes de Faria, já defunto, que era naquela vila como pai de todos seus moradores.
O quinto filho de Luís Fernandes da Costa, o Velho, chamado Baltesar da Costa, foi casado com Caterina da Ponte, filha de João Roiz, dos Fenais da Maia, e irmã de Manuel Roiz, vigairo do mesmo lugar, de que houve os filhos e filhas seguintes; sc., Sebastião da Costa, que faleceu em S. Lázaro e foi casado com Maria Pereira, filha de Duarte Lopes, da Maia, e de uma filha de Diogo Vaz, da Chada, e depois casou a dita Maria Pereira, mulher de Sebastião da Costa, segunda vez, com António Furtado, cidadão de Vila Franca, de que houve alguns filhos.
Teve mais Baltesar da Costa duas filhas, freiras professas no mosteiro da Esperança da cidade da Ponta Delgada.
O sexto filho do dito Luís Fernandes, o Velho, chamavam Belchior da Costa e casou, a primeira vez, com uma filha de Rui Vaz da Mão, de Vila Franca, de que não teve filhos; e depois casou com Maria Pacheca, filha de Mateus Vaz Pacheco, de que também não houve filhos, a qual, falecido ele, casou com Pero da Ponte, o Moço, do qual segundo marido teve alguns filhos e agora está viúva.
O sétimo filho de Luís Fernandes, o Velho, chamado Francisco da Costa, nunca casou, faleceu solteiro e já de dias. Teve também o dito Luís Fernandes da Costa, o Velho, as filhas seguintes: a primeira, chamada Filipa da Costa, que casou com Francisco de Albernaz, homem fidalgo e parente de Sebastião de Albernaz e de João de Albernaz, de que houve um filho clérigo e beneficiado em Vila Franca, por nome Manuel da Costa; e teve Filipa da Costa outro filho, que chamavam Luís da Costa, que casou na ilha do Faial e houve filhos e filhas. Teve mais Filipa da Costa duas filhas, uma chamada Breatiz da Costa, que foi casada com João Lopes, filho de Álvaro Lopes, de Santo António, de que houve alguns filhos; a outra que casou com Roque Roiz, escrivão da Câmara da vila da Ribeira Grande, filho de Rui Garcia, o Velho, chamam Francisca da Costa, da qual houve um filho que faleceu no Brasil, e três filhas: uma chamada Branca da Costa, que casou com Jorge Mendes, filho de Afonsalvres do Amaral, outra casada com Belchior Manuel, e outra solteira.
A segunda filha de Luís Fernandes, o Velho chamavam Branca da Costa, casou com Álvaro Lopes, de Santo António, do qual houve dois filhos, um chamado António da Costa, que casou com Isabel Castanha , filha de João Fernandes Orelhudo e de Isabel Castanha, de que houve filhos e filhas. Outro filho de Álvaro Lopes e de Branca da Costa se chamava Manuel da Costa, que foi casado com uma filha de João Alvres do Olho, de que houve alguns filhos.
A terceira filha de Luís Fernandes da Costa, o Velho, chamada Isabel Dias, casou com Sebastião de Albernaz, fidalgo, que morou na Lomba da Maia, de que houve um filho, chamado António da Costa, que casou na vila da Ribeira Grande com Caterina Cansada, filha de Diogo Fernandes e de Maria Cansada , de que houve um filho chamado Manuel da Costa, que foi page do conde D. Rui Gonçalves da Câmara, e outros, o qual António da Costa faleceu na Índia. Teve mais Isabel Dias da Costa, de seu marido Sebastião de Albernaz, cinco filhas, sc., Breatiz Nunes, que casou com Rodrigalvres, filho de Rodrigalvres, e neto de Álvaro Lopes, de Bulcão, do qual houve uma filha que casou com João Cassela, homem fidalgo e criado de el-Rei, natural da cidade de Elvas; e outra com André Dias, filho de Marcos Dias, de Vila Franca do Campo; e outra que casou com António da Ponte, da mesma Vila Franca. E depois de viúva, esta Breatiz Nunes casou segunda vez na cidade da Ponta Delgada com António Pires, irmão de Rui Pires, da ilha da Madeira, de que houve alguns filhos. A segunda filha de Isabel Dias da Costa e de Sebastião de Albernaz se chama Ginebra da Costa, que casou com João Vaz, da Chada, de que tem alguns filhos. A terceira filha de Sebastião de Albernaz e de Isabel Dias, chamada Isabel de Albernaz, faleceu sem casar; e outras duas, chamadas Maria da Costa e Ana da Costa, estão ainda solteiras.
A quarta filha de Luís Fernandes da Costa, o Velho, se chamava Breatiz da Costa e casou com João Alvres, dos Fanais da Maia, filho de Álvaro Lopes de Bulcão , de que houve um filho que faleceu solteiro, e uma filha chamada Maria da Costa, de grande virtude, que casou na vila da Alagoa, rica, com António Lopes de Faria, fidalgo e cavaleiro do hábito de Santiago e memposteiro-mor dos cativos, onde agora mora viúva, de que não teve filhos.
As armas dos Costas são um escudo quarteado de vermelho e azul, em cada quarto dos vermelhos tem seis costas brancas, e em cada um dos azuis seis luas de ouro, com seu elmo cerrado e paquife de prata e vermelho, e por timbre um leão de azul com uma partazana na mão direita.

Houve em Portugal um fidalgo, cujo nome não soube, que casou no Paço com Iresa de Sousa, dama da Rainha D. Lianor, natural de Irlanda, donde veio com outra dama da mesma Rainha, de que procedem os filhos de Cristovão Cordeiro e Pedro Alvres Benavides, que foi muitos anos alcaide na cidade da Ponta Delgada; e sucedendo a este fidalgo, marido de Iresa de Sousa, matar um corregedor, estando fazendo audiência, se desterrou do Reino, de Souzel onde morava, para esta ilha, onde primeiro viveu com sua mulher em Vila Franca, depois no Telhal da Lomba da Ribeira Grande, muito rico e abastado. Houveram dois filhos, João de Sousa e Gaspar Vaz de Sousa, os quais mandou seu pai às partes de além, sustentando-os lá muito tempo à sua custa, em serviço de el-Rei; e lá foram armados cavaleiros, em uma entrada que fizeram em um lugar chamado Benahame, onde mataram e cativaram muitos mouros, reinando em Portugal el-Rei D. Manuel.
Gaspar Vaz de Sousa, filho de Iresa de Sousa, a Rainha D. Lianor o mandou levar desta ilha, sendo ainda menino de sete ou oito anos. Criou-se no Paço, até idade de dezoito, e daí foi para Itália, onde andou catorze no exército do Imperador D. Carlos quinto, por seu mestre de campo, ajudando-lhe a haver muitas vitórias de imigos cristãos e mouros, de que mandou a esta ilha três bandeiras para honra de seus parentes, as quais foram entregues a Gaspar de Viveiros, sogro que foi de Francisco de Arruda da Costa, como sabem muitos antigos da cidade da Ponta Delgada. E depois se veio Gaspar Vaz e trouxe ao Reino de Portugal, onde foi criado, a ordem da milícia da guerra, onde dali por diante se começaram a fazer soíças que dantes se não costumavam e ele foi o primeiro que as fez, pelo que el-Rei o fez coronel-mor e neste cargo morreu.
Este Gaspar Vaz de Sousa, e seu irmão João de Sousa, dizem que eram primos, filhos de irmãos, de Martim Afonso de Sousa e de Diogo Lopes de Sousa, abalizados cavaleiros e fidalgos, e a estes pertencem as armas dos Sousas. João de Sousa, irmão deste Gaspar Vaz de Sousa e filho de Iresa de Sousa, casou com Isabel Alvres, mulher nobre, de que houve três filhos, chamados Baltazar de Sousa, Diogo de Sousa e Pero de Sousa, e deixando aparte o mais velho, Baltazar Vaz e Sousa, de que logo direi, seu irmão gémeo, Diogo de Sousa, casou na vila da Ribeira Grande com uma filha de Pedro Afonso e irmã de Duarte Pires, o Velho, e de Álvaro Pires, de que houve alguns filhos.
O terceiro filho de João de Sousa, chamado Pero de Sousa, casou na Maia com Violante Lopes, irmã de Simão Lopes, de que houve alguns filhos.
Teve mais João de Sousa de sua mulher Isabel Alvres cinco filhas: — a primeira, Isabel de Sousa, casou com Pedreanes, cavaleiro, antecessor de João Roiz Galego, que morou em Rabo de Peixe, de que teve um filho, chamado Baltazar Vaz, que faleceu no dilúvio de Vila Franca. A segunda casou com Simão de Santarém, escrivão em Vila Franca, em cujo dilúvio também faleceu com os filhos que tinham. A terceira, Catarina de Sousa, casou com Pero Lourenço, o Velho, que viveu na Ribeira Grande, de que houve alguns filhos. A quarta, Violante de Sousa, casou com Gonçalo Anes, que foi alcaide em Vila Franca e faleceu no dilúvio dela. A quinta, Guiomar de Sousa, acabou solteira no mesmo dilúvio.
Baltasar Vaz de Sousa, filho mais velho de João de Sousa e Isabel Alvres, sua mulher, e irmão dos ditos Diogo de Sousa e Pero de Sousa, foi homem de grandes forças, como direi, quando tratar de alguns forçosos que houve nesta ilha; e casou com Lianor Manuel, filha de Manuel Domingues, irmão de Catarina Manuel, mulher de João Afonso, do Faial, e de Simoa Manuel, mulher de António de Freitas, que foi escrivão em Vila Franca, da qual houve três filhos e seis filhas: — O primeiro filho, chamado João de Sousa, casou com Inês Antunes, filha de António Gonçalves e de Guiomar Francisca, de que houve alguns filhos. O segundo, Gaspar Vaz de Sousa, homem de grande ânimo e força, casou com Margarida Pais, de que não tem filhos.
O terceiro filho de Baltazar Vaz de Sousa, chamado Nuno de Sousa, discreto e esforçado cavaleiro, casou a primeira vez com Caterina de Moura, irmã do padre António de Moura, da Ponta Delgada, de que houve duas filhas: uma chamada Hierónima de Sousa, que casou com Braz do Rego, filho de Manuel do Rego, de que tem alguns filhos. E a outra, Breatiz de Sousa, casada com Baltesar do Monte, filho de João do Monte. Casou Nuno de Sousa, segunda vez, com Francisca de Paiva, filha de Pero de Paiva e de Francisca Ferreira, de que tem alguns filhos e filhas, uma das quais casou com um filho de João Alvres Rodovalho.
Das filhas de Baltazar Vaz de Sousa, a primeira, Isabel Vaz de Sousa, casou com Jordão da Ponte, homem fidalgo, da ilha da Madeira, dos Tavares. A segunda, Breatiz de Sousa, foi casada com Aires Pires do Rego, de que houve um filho, chamado Gaspar do Rego , de que já disse; e outro, mais velho, muito esforçado, que morreu na Índia, depois de ter conquistado uns povos de gentios, e outro mais moço, chamado Rui de Sousa, grande cavaleiro, que faleceu solteiro; e uma filha, Jerónima do Rego, casada com Bento Dias, bom soldado, do hábito de Santiago. A terceira, D. Simoa, casou com Henrique de Betancor da Câmara, fidalgo, de que houve os filhos que direi quando tratar dos Capitães desta ilha, de que ele é muito chegado parente. Outras três filhas de Baltasar Vaz de Sousa foram freiras professas.
Em Setembro do ano de mil e quatrocentos e noventa e nove chegou Vasco da Gama da Índia a Portugal e pelo novo descobrimento daquelas partes, que ele fez, acrescentou el-Rei D. Manuel a seus títulos outros muito famosos, como são — Senhor da Conquista, Navegação e Comércio de Etiópia, Arábia, Pérsia e da Índia.
Vendo este Rei a grande mercê que Deus lhe fizera em descobrir a Índia, para assentar nela feitoria e pregação da Lei Evangélica e reformação dos cristãos que lá houvesse, e para trazer em conhecimento dela os gentios, mandou todo o necessário em uma grossa armada e dez naus e três navios redondos, de que ia por capitão-mor um fidalgo, chamado Pedralvres Cabral. E partindo de Belém a nove dias do mês de Março de mil e quinhentos, aos catorze de Março houve vista das Canárias e aos vinte e dois passou pela ilha de Santiago, e aos vinte e quatro de Abril, que foi derradeira octava de Páscoa, foi vista terra que era costa oposta à de África e demorava a loeste; e reconhecida pelo mestre da capitânia que lá foi, mandou Pedralvres surgir em um porto que por ser bom lhe pôs nome Porto Seguro, e viram os portugueses que era aquela terra muito viçosa de arvoredo e fresca, com muitas águas e abastada de muitos mantimentos e de muito algodão. Pedralvres meteu ali um padrão de pedra com uma cruz e por isso lhe pôs nome Terra de Santa Cruz e depois se perdeu este nome e lhe ficou o do Brasil, por razão do pau brasil. Desta terra, mandou Pedralvres logo cartas a el-Rei, por um Gaspar de Lemos, em uma sua caravela, como se conta no primeiro livro da Índia, que fez Fernão Lopes de Castanheda, no capítulo trinta e um.
El-Rei D. João, de Boa Memória, terceiro do nome, depois de dar na costa do Brasil a Jorge de Figueiredo uma capitania de cinquenta léguas de terra, fez mercê de juro de outras tantas léguas a Pero do Campo Tourinho. E mandando el-Rei a Baltazar Vaz de Sousa, desta ilha de S. Miguel, que o fosse servir na terra do Brasil, se foi ter à capitania deste capitão Pero do Campo, com outras pessoas desta terra. E um dia, estando ele e um João Fernandes Lordelo, também daqui natural, e outras cinco ou seis pessoas, em Porto Seguro, que é da dita capitania de Pero do Campo, e vendo o Lordelo que estavam ao longo da praia quinze ou dezasseis brasis, quietos, sem fazerem mal a ninguém, disse a Baltazar Vaz: — estes perros me têm mexericado com o Capitão, que eu ando dizendo que lhe hei-de pôr fogo à casa; agora mo hão-de pagar. Respondeu-lhe Baltazar Vaz, como era valente homem: — tendes razão de o sentir muito; enxotemo-los daqui. E logo o Lordelo lhe fez um tiro com uma besta, que passou um brasil de banda a banda. Vendo eles isto, deram um grande grito por sua língua, a que acudiram trezentos brasis e fizeram tiro, e como eram muitos e os portugueses sete ou oito, fugiram todos; e Baltazar Vaz, com uma adarga e uma lança na mão, fez o campo a alguns; porém era tudo nada para com eles, porque ali foram tantas as frechas sobre ele, passando-o de parte a parte, que caiu morto, encostado a elas; e um seu parente, que era muito valente homem, vendo-o morto, lhe resistiu tanto com tiros de besta e lança, que feriu dois ou três, e matando um, morreu também ele, todo frechado; e o Lordelo foi ferido em uma perna. E como ele não estava benquisto na terra e tinha dito que havia de pôr o fogo à casa do capitão, sucedeu assim, que se acendeu em a casa do dito capitão, onde se perdeu muita fazenda, sem se saber donde se causara. Entenderam que por o que tinha dito o Lordelo, ele o pusera; o qual, sabendo que punham boca nele, se acolheu para a Baía de Todos os Santos e lá foi preso e esquartejado por mandado do capitão, por se provar mandar pôr o fogo a sua casa. E desta maneira acabaram estes dois naturais desta terra, na do Brasil e tão longe da sua. Suas armas são as dos Sousas do Regno.

Pero Esteves Rocha e Machado, natural de Viana, não a de Alvito, pai de Afonso Anes Rocha, veio ter à ilha da Madeira e dali a esta ilha, por fazer lá um certo homízio de morte. Fez seu assento na Praia, junto de Vila Franca, onde tinha duas Lombas suas, que houve de dadas, em que fez muita fazenda com que viveu rico e abastado, e teve grande casa e muita família.
Do dito Pero Esteves Machado e Rocha nasceu Afonso Anes Rocha e outro que foi para a ilha Terceira, pai de Gaspar Gonçalves, o grande Machado, que era avô de Frei Manuel Cardoso, guardião que foi muitas vezes nestas ilhas, e de Gaspar Gonçalves Dutra e Machado, e outros homens de sorte e nome na Vila da Praia e S. Sebastião, na ilha Terceira. Do dito Pero Esteves Rocha descendeu outro filho que foi para a ilha de Santa Maria, donde são os Fontes e a mulher do Capitão Velho, a derradeira neta da Maia; por onde D. Luís de Figueiredo de Lemos, agora Bispo do Funchal, também tem parentesco com os Rochas Machados, na ilha de Santa Maria.
E nesta ilha, de Pero Esteves Machado e Rocha descendem a mulher de Jorge Furtado, e a mãe de Diogo Vaz Carreiro, e a mulher de Gaspar Pires, de Água do Pau, sogro de Miguel Lopes e de Amador Coelho, e a mãe de Manuel Vaz e Adão Vaz, clérigos, e a mãe dos Quentaes, da cidade da Ponta Delgada.
Afonseanes Rocha e Machado teve muitos netos: — Duarte Pires, e Álvaro Pires, e Adão Lopes, pai de Cristóvão Moniz, e a mulher de Amador da Costa, e João Alvres, sogro de António Lopes de Faria, e a mãe de Manuel Roiz, vigairo dos Reis Magos, e a mulher de Gaspar do Monte, e a de Manuel da Costa e de Diogo de Sousa, e a de João Gonçalves Caldeira e Brás Afonso da Praia, e André Afonso, pai que foi das duas abadessas que foram no mosteiro da Esperança, da cidade da Ponta Delgada. E desta geração procedeu a família dos da Praia e outras muitas.
Afonseanes Rocha Machado, filho de Pero Esteves Machado e Rocha, teve um filho chamado Pedro Afonso Rocha, o qual casou com Margarida Afonso, de que houve dois filhos e quatro filhas. O mais velho dos filhos, chamado Duarte Pires da Rocha, casou com Ana Fernandes, filha de Fernãdafonso de Paiva, de que houve filhos: Francisco Pires da Rocha, homem antigo, curioso e muito prudente, que serviu de juiz e vreador muitas vezes, na vila da Ribeira Grande, casado com Ana Tavares, filha de Henrique Tavares, de que tem nobres filhos e filhas; vive à lei de nobreza e tem grande família; um seu filho, António da Rocha e outro, Manuel da Rocha, estão em casa, ambos solteiros; tem duas filhas, Apolónia Tavares, casada com Gabriel Pinheiro, nobre e rico mercador, e Ana Fernandes, por casar. O segundo filho de Duarte Pires, chamado Sebastião Pires de Paiva, é falecido, de que ficaram nobres filhos, de duas ou três mulheres com que casou. E o mesmo tem Estevão Pires da Rocha, seu irmão, de duas mulheres com que foi casado. Teve mais Duarte Pires a Simão Pires, mui valente homem e bom judicial, que casou com Breatiz Furtada, da Graciosa. Casou Duarte Pires da Rocha, segunda vez, com uma nobre mulher , de que houve a Duarte Pires Furtado, bom cavaleiro e valente homem, casado com Paulina Tavares, filha de João Fernandes e de Maria Barradas, e a mulher de Manuel Garcia .
O segundo filho de Pedro Afonso se chamou Álvaro Pires, teve filhos, João Roiz e Manuel Roiz da Rocha, que viveu na Lomba da Ribeira Seca, e uma filha que casou com João Roiz, do Pico da Pedra, chamada Inês Alvres de que tem filhos e filhas.
Das filhas de Pero Afonso, a mais velha se chamou Maria Afonso, casou com Diogo de Sousa, irmão de Baltasar Vaz. Teve filhos, Gaspar de Sousa, bom cavaleiro, músico e discreto, pai de Simão de Sousa e Amador de Monte; e uma filha, chamada Guiomar de Sousa, muito discreta, que foi casada com Manuel Vaz, da Ribeirinha; outra com Cristovão Pires. A segunda filha de Pero Afonso se chamou Breatiz Pires; foi casada com João Gonçalves Caldeira, natural da cidade do Porto, homem honrado, e houveram filhos, Belchior Gonçalves, que foi casado com Maria Mendes, irmã dos Amaraes, e a Pero Afonso Caldeira, casado com uma filha de Vicente Anes Bicudo ; e filhas, Maria Gonçalves, mulher de Belchior do Amaral. A terceira filha de Pero Afonso se chamou Isabel Pires, mulher que foi de Gaspar do Monte e teve estes filhos: Gaspar do Monte, falecido; e João do Monte que casou com Isabel Tavares, filha de Baltesar Tavares; e filhas: Isabel do Monte, mulher de Martim de Albernaz, de que teve filhos e filhas; e Suzana do Monte, sogra de Adão da Silva e de Baltesar do Amaral; o marido se chamou Pedreãnes, rico mercador, foi juiz e vreador na vila da Ribeira Grande muitas vezes. E teve outros filhos machos e outra filha que foi casada com Diogo de Morim, de que não teve filhos; e outra casada com Francisco Soares, tabelião, de que tem nobres filhos.
E também houveram Baltesar do Monte, vigairo que foi no lugar de Santo António e agora na Fajã, termo da cidade da Ponta Delgada.
A derradeira filha se chamou Ana Afonso, mulher que foi de Manuel da Costa, já defunto.
Fernão Dafonso de Paiva, cujo nome verdadeiro foi Fernão de Paiva, era natural da Bouzela, termo de Viseu. Veio a esta ilha no tempo do Capitão João Roiz da Câmara; tinha em sua terra um irmão, chamado Pero de Paiva, em cuja casa estava, por ser mancebo e órfão de pai e mãe, e seu irmão Pero de Paiva ser rico e honrado. Um fidalgo de nome, seu vizinho, ia muitas vezes à caça ao campo e depois de se enfadar, ia-se a tomar cabritos ou cordeiros, por muitas vezes, do gado de Pero de Paiva, cujo irmão, Fernão Dafonso de Paiva, tinha já com ele passado palavras sobre isso; e vendo que o fidalgo não deixava seu uso de rapina, cavalgando um dia em um cavalo do irmão, foi ter entre as cabras e ovelhas com o fidalgo, e vindo a brigar ambos, lhe atirou Fernão de Paiva, do cavalo, com uma azagaia, ferindo-o tão mal, que daí a três dias faleceu; então se passou à ilha da Madeira, bem provido do necessário, aonde lhe mandou o irmão, Pero de Paiva, mais provimento de dinheiro; e na ilha da Madeira casou com Breatiz Pires Delgada, irmã de Pero Delgado, parenta dos Delgados da Ponta do Sol e do Caniço. E por respeito da morte do fidalgo, mudou Fernão de Paiva o nome, chamando-se Fernão Dafonso somente, sendo dos Paivas; e seu irmão, Pero de Paiva, está sepultado na cidade de Viseu. Estando assim Fernão Dafonso casado na ilha da Madeira, por causa de um criado que trouxe consigo e tornou a mandar a sua terra, que deu novas aonde ele ficava, foi sentido e perseguido pelos parentes do morto, que de lá mandaram as culpas que tinha, e então se passou a esta ilha e se veio morar no lugar da Ribeira Grande, por não vir ter a ele navegação e ser aldeia e sertão e estar nele mais encoberto; onde houve uma dada pegada com o dito lugar, cuja largura começava donde está a casa do Espírito Santo, indo para cima até às casas de Henrique de Betancor, endireitando à Ribeira Grande, e daí, indo pelos chãos de Lopo Dias Homem, correndo por junto do pé do Monte de Trigo, e chegava ao assento de Rui Gago da Câmara, onde vivia Manuel Vaz, e daí descia para o mar e ia ter ao assento de Pero Dias, da Chada , pelo que eram muitos moios de terra; e no Morro, além donde vive Francisco Tavares, teve nove moios de terra, que mercou com dinheiro que trouxe, os quais vendeu depois e comprou outra fazenda, além do lugar de Santo António, onde agora têm ainda alguns herdeiros sua parte.
Teve este Fernão Dafonso quatro filhos e seis filhas. O primeiro filho, chamado João Fernandes Paiva, morou na vila da Ribeira Grande, onde foi escrivão; casou com Caterina do Monte, de que houve uma filha, chamada Breatiz do Monte, que casou com Gaspar de Sousa, filho de Diogo de Sousa, de que houve três filhos: Simão de Sousa, Manuel de Sousa, e Amador do Monte. Havia então uma Francisca Pires, viúva, que fora casada com Gaspar Lopes, de que houve um filho, por nome Lopo Dias Homem, cavaleiro do hábito de Santiago, que casou com Leonor Carvalha, colaça do Conde de Vila Franca. E era esta Francisca Pires natural de Viseu, irmã ou parenta mui chegada, daquele grande e afamado cavaleiro João Homem. Com ela casou, depois de viúva, João Fernandes, de que houve cinco filhos e três filhas. O primeiro, Pero de Paiva, escrivão na mesma vila e muito bom cavaleiro, que casou duas vezes e tem nobres filhos e filhas; da primeira mulher, chamada Francisca Ferreira, filha de João de Braga, irmã de Pero de Braga, pai de Gaspar de Braga, houve Manuel de Paiva que casou com Suzana Pacheca, e dois que andam na Índia em serviço de el-Rei, Custódio de Paiva e Ascêncio de Paiva; e outro filho, chamado Fr. Salvador, bom religioso e letrado no convento de Tomar, e três filhas, a primeira, chamada Francisca de Paiva, casou com Nuno de Sousa, um dos capitães das ordenanças da vila da Ribeira Grande, a segunda, Maria Ferreira, casou com Ciprião da Ponte, alferes que foi da bandeira de seu sogro, Pero de Paiva, a outra é ainda de pouca idade. Casou segunda vez Pero de Paiva com Antónia Fernandes, da cidade da Ponta Delgada, de que tem algumas filhas meninas. O segundo filho de João Fernandes, Manuel Fernandes, casou com Isabel Brandoa, filha de Diogo Martins Marques. O terceiro, Gaspar Fernandes, casou com uma filha de João Lopes Passo-largo. O quarto, Baltesar de Paiva, dantes vigairo na ilha de Santa Maria e agora na vila do Nordeste. O quinto, Belchior Homem, que anda na Índia de Castela, onde está casado e rico. A primeira filha, Maria de Paiva, foi casada com Pero Tavares, filho de Rui Tavares, por cujo falecimento casou com o licenciado Sebastião Velho Cabral. A segunda Margarida de Paiva, casou com Duarte Privado, sargento-mor da milícia e juiz dos órfãos na vila da Ribeira Grande, de que tem cinco filhos nobres e discretos, criados do Conde de Vila Franca, D. Rui Gonçalves da Câmara, Capitão desta ilha, dois casados e três solteiros, e duas filhas, uma chamada Lianor de Paiva, que casou com Duarte Tavares, e outra, Maria de Paiva, casada com António Ribeiro, filho de Lourenço Vaz, da cidade. A terceira filha de João Fernandes de Paiva, chamada Catarina de Paiva, faleceu moça; e as mais que disse têm nobres filhos e filhas.
Outro filho de Fernão Dafonso de Paiva, chamado Diogo Fernandes, foi escrivão da Igreja e casou com Mécia Cansada, de que houve filhos: Gaspar Cansado, sacerdote, beneficiado que foi na igreja de S. Pedro da cidade, e agora cura de Santa Clara. E António Cansado, genro de André Travassos. E Miguel de Paiva que casou na Água de Alto. E outros dois filhos que faleceram na Índia de Portugal. E filhas: Caterina Cansada, que casou com António da Costa, filho de Sebastião de Albernaz, fidalgo; e outra filha, chamada Lianor de Paiva, mulher que foi de Pedro Afonso da Costa, muito nobre e discreto, que foi morador no Nordeste. Os outros dois filhos de Fernão Dafonso de Paiva não houveram filhos, por não casarem.
Das seis filhas, a mais velha se chamou Guiomar Fernandes e casou duas vezes, a primeira com Vultão Vaz, irmão de Pero Vaz, lealdador-mor primero dos pastéis que foi nesta ilha, do qual houve Manuel Vaz, que viveu na Ribeirinha, e uma filha, por nome Breatiz Vultoa. E do segundo marido, chamado João de Albernaz, fidalgo, natural da ilha do Faial, parente de Pero Roiz da Câmara, houve a Martim de Albernaz, que casou com Isabel do Monte. E outras que faleceram, uma das quais, chamada Aldonça de Albernaz, foi casada com um irmão de João Ledo, de Santo António.
Outra filha se chamou Caterina Fernandes, mulher que foi de Joanne Anes Colombreiro, primo com-irmão da mulher de Luís Gago; houve filhos, Baltesar Jaques, Gaspar Pires e Fernão de Anes. E filhas, uma que casou com João Lourenço, de Nordeste, e outra, chamada Breatiz Delgada, que foi casada com Lopo Dias Homem e faleceu sem filhos.
A terceira se chamou Helena Fernandes, foi casada com Pero Vaz, lealdador; teve filhos: Belchior Vaz, clérigo, e Pero Vaz, sogro de António de Aveiro; filhas, Maria Vaz que casou com Gonçalo Velho, e vive em Almada, e Isabel Vaz, mulher de Luís Tavares.
A quarta filha se chamou Margarida Fernandes e casou com Vasco Afonso, de que houve um filho, chamado João Gonçalves, pai de Nicolau de Paiva, e uma filha, Mécia de Paiva, mulher que foi de Francisco Sodré.
A quinta filha se chamou Ana Fernandes, casou com Duarte Pires da Rocha, de que houve os filhos que já disse, que todos têm nobres filhos.
A derradeira filha, chamada Francisca Fernandes, casou com João Ferreira, do qual houve filhos: Gaspar Ferreira, que mataram os mouros em Arzila, sendo atalaia. E outra filha, que casou com João Ferreira, de que houve um filho chamado Sebastião Ferreira, que agora é benemérito vigairo da igreja principal de S. Sebastião, da cidade da Ponta Delgada, cujo pai, depois que lhe faleceu a mulher, residiu em Arzila, em serviço de el-Rei. Têm estas progénias as armas dos Rochas, Machados e Paivas, do Regno.

Por não dilatar isto para diante, continuarei logo contando os heróicos feitos e grandes serviços que fez à Coroa o Grande Capitão Francisco do Rego de Sá, o qual, sendo mancebo, foi servir a el-Rei no cerco da ilha da Madeira, em companhia do capitão-mor Sebastião de Sá, e por ele capitão-mor lhe requerer na dita ilha que cumpria a serviço de Sua Alteza ir por capitão do galeão S. Dinis, em que fora por capitão D. Francisco de Almeida, por se passar ao galeão S. João, de que fora por capitão Pantaleão de Sá, que ficou na dita ilha, por Sua Alteza o haver assi por seu serviço, ele, Francisco do Rego, vendo quanto importava ao serviço de el- Rei ir no dito galeão, o aceitou. E por partir da dita ilha, que estava roubada e falta de mantimentos, lhe custou três vezes mais do que lhe custara se partira do Reino, e logo se fez prestes em dois dias, com muitos soldados e mantimento, tudo à sua custa, e foi por capitão do dito galeão às ilhas das Canárias e a Cabo Verde até tornar ao Reino. E no caminho lhe faleceu muita gente com os féberes do Cabo Verde; ele veio muito mal tratado dos ditos febres, sem receber de Sua Alteza nenhum ordenado, nem mercê.

No ano de sessenta e nove, Sua Alteza houve por seu serviço que ele fosse em companhia do capitão-mor Jorge de Lima, quando veio às ilhas a buscar as naus da Índia, por capitão da nau Nossa Senhora da Guia, para o qual ele se fez prestes de mantimentos e soldados, para o ir servir. E estando para partir, o barão de Alvito, veador da fazenda, lhe disse e escreveu uma carta que mandava Sua Alteza que ficasse para ir a correr a costa, por ter novas de cossairos e se passasse logo para o galeão S. Paulo, que tinha já mantimentos; ao qual se passou, por a dita nau ir para a Malagueta. Na passagem, gastou muito por fazer duas despesas, e depois Sua Alteza lhe mandou outra provisão para que fosse correr a costa por capitão do navio Misericórdia, onde se tornou a passar. E por neste tempo morrerem em Lisboa de peste, Lisuarte Peres de Andrade, provedor dos almazens , lhe mandou da parte de Sua Alteza desistisse da dita viagem, por a gente fugir do dito mal e nas naus morrerem; e por ele estar ainda esperando o que dele mandava Sua Alteza, D. Martinho Pereira, veador da fazenda, lhe mandou da parte de el-Rei que se podia ir para onde quisesse, pois o tempo não dava lugar para o ir servir e haver três meses que estava esperando mandado de Sua Alteza, em tempo de tanto perigo, e sustentar os soldados que tinha para o servir, tudo à sua custa, no que gastou muito de sua fazenda e se foi para sua casa.
Estando ele nesta ilha de S. Miguel, onde é morador, na força da peste, por lhe parecer que do Reino não podia vir armada às ilhas, por a muita peste que havia em Lisboa e haver falta de gente e Sua Alteza estar longe para socorrer estas necessidades, com o zelo que tinha de o servir, vendo que era chegada uma nau da Índia e nas ilhas não andava armada, ele se foi oferecer à ilha Terceira, trinta léguas, onde morava João da Silva do Canto, que servia de provedor das armadas nas ditas ilhas, com um navio armado à sua custa de mantimentos e artilharia, com oitenta soldados e marinheiros de sobresalente , e comprimento para a dita nau se prover do que houvesse mister. E o dito provedor mandou logo após ele um recado que a seguisse e acompanhasse, dando-lhe regimento do que havia de fazer na derrota, o que ele fez com brevidade e diligência. Chegando à costa, logo escreveu a Sua Alteza e a D. Martinho Pereira da vinda da dita nau e que visse o que mais mandava dele. E Sua Alteza lhe escreveu que logo fosse em busca de D. Francisco de Menezes, capitão-mor, e o acompanhasse e fizesse o que lhe ele mandasse, o que ele fez, e tudo à sua custa, sem receber nada da fazenda de Sua Alteza. E o encontrou e com ele arribou à barra de Lisboa, com tempos contrairos. E estando no rio com a armada, veio nova ao dito capitão-mor que vinham duas naus da Índia de arribada e ele capitão-mor se meteu na caravela de Francisco do Rego e as foram buscar, as quais acharam quinze léguas ao mar e as levaram ao porto; e na vigia que Francisco do Rego teve na guarda das ditas naus, tomou muito cravo e canela, que se delas tirou escondido, que todo foi entregue a Simão Cabral, em que deu à fazenda muito proveito.
Sua Alteza lhe mandou por uma sua carta que tornasse às ilhas, com mais duas caravelas da armada, e fizesse o que lhe mandasse o dito João da Silva do Canto; e por lhe a ele parecer ser mais serviço de Sua Alteza ir com sua gente embarcada com o dito capitão-mor, por lhe faltar gente, se embarcou com ele com setenta pessoas, sem nenhum soldo, nem mantimentos de Sua Alteza, tudo à sua própria custa.
E porque a dita armada veio ter a esta ilha de S. Miguel, o dito capitão-mor lhe deu licença que ficasse em sua casa, por vir muito mal disposto, onde ficou. E por neste tempo virem novas da ilha da Madeira ao dito capitão-mor de como Jacques Soria, cossairo de França, com sua armada, tinha tomado muitos navios sobre a dita ilha, esperando a armada do governador do Brasil, D. Luís, para com ele pelejar, e ter mais por novas de outros cossairos da Rochela andarem pelo mar roubando e dizerem que havia de ir ter com ele, lhe escreveu uma carta, em que lhe pedia que, com a mais brevidade que pudesse, fizesse prestes um navio armado e a melhor e mais gente que pudesse, porque cumpria assi muito a serviço de Sua Alteza, por as novas que tinha; o que ele logo fez, e em três dias, com muita diligência, se aviou e foi para o dito capitão-mor com um navio de cento e vinte tonéis, com oitenta homens e muitos parentes seus, e o acompanhou até o porto de Lisboa, levando a nau capitânia da Índia. E tudo fez à sua custa, em que gastou muito do seu, porque não tão somente gastou nas ditas viagens, mas também gastou muito na cidade de Lisboa com a gente que tinha, a que dava de comer e todo o necessário para consigo os ter, esperando assi alguns meses, por mandado de el-Rei, com um galeão e um patacho seus, em que o havia de ir servir.
Sua Alteza lhe mandou que se não fosse de Lisboa, que se queria servir dele, pelo que lhe foi necessário mandar uma nau sua às ilhas a buscar-lhe mantimentos e provimento. E estando carregada a dita nau, com o temporal que sucedeu, se fez em pedaços na costa e importava a perda mais de três mil cruzados.
Seu pai, Gaspar do Rego Baldaia, vendo isto, lhe fez logo prestes uma caravela, fornecendo-a de mantimentos, artilharia e muitos soldados, e lha mandou ao Reino, para com ela servir a el-Rei, e, chegando a dita caravela a Nossa Senhora da Guia, na entrada da barra de Lisboa, encontrou um ladrão com que pelejou, e o ladrão a tomou e lhe matou o capitão com vinte e cinco homens; em a qual ia o provedor da fazenda Francisco de Mares. E Sua Alteza mandou visitar a Francisco do Rego por D. Martinho Pereira, pela dita perda.

No ano de setenta e um, o mandou el-Rei de armada às ilhas, em companhia de João de Mendonça , capitão-mor, e Bernaldim Ribeiro, dizendo-lhe por uma carta fizesse o dito serviço com o seu galeão, à sua custa; e ele o fez e levou as naus da Índia, daquele ano.
No dito ano, lhe tornou Sua Alteza a mandar que fosse com o dito galeão, à sua custa, com Bernaldim Ribeiro Pacheco, a correr a costa do Reino, o que ele fez, e achando-se apartado da armada, com tempo que lhe deu, tomou duas naus ingresas que levou a Lisboa, e foram presos no Limoeiro e entregues a Simão Cabral, por mandado de el-Rei, que lho agradeceu.
O ano de setenta e quatro, vindo Francisco Nobre, por capitão-mor da armada, ter a esta ilha de S. Miguel, a justiça da terra lhe requereu da parte de Sua Alteza fosse tomar umas três naus de cossairos, em que entrava a nau Príncipe, que estavam surtos daí cinco léguas, fazendo aguada; ao que respondeu que iria, mas com condição que havia Francisco do Rego de fazer uma nau e ir em sua companhia pelejar com os ditos cossairos, porque estava com um galeão muito pequeno e não tinha mais que uma caravela e zabra, em sua companhia.
Vendo Francisco do Rego de Sá o que ele, capitão-mor, e a terra lhe pedia, armou logo uma nau à sua custa e gente, e acompanhou ao dito capitão-mor, e todos juntos foram buscar aos cossairos com os quais pelejaram e lhes mataram muita gente.

No ano de setenta e cinco, estando ele, Grão Capitão, nesta ilha de S. Miguel, veio ter aqui Vasco Lourenço Carracão, capitão de uma nau da Índia e pediu ao feitor da dita ilha a provesse de mantimentos e artilharia e gente, porque não pudera tomar a cidade de Angra, sendo a armada de Sua Alteza ida para o Reino, de que era capitão-mor Pero Correia de Lacerda; e por lhe o feitor não dar os homens e artilharia e pólvora e munições, que lhe pedia, ele, Grão Capitão, por entender ser serviço de el-Rei e ver o perigo em que a dita nau estava, por andar só, lhe deu muita gente feita a soldo e parentes seus, à sua custa, com também fazer uma caravela de armada, com que acompanhou a dita nau da Índia até o Reino. E deu à nau munições, artilharia e pólvora e toda a gente necessária, sem o feitor da dita ilha a nada disto acudir, o que fez com muito gasto e despesa e risco de sua pessoa.

No ano de setenta e seis, estando ele nesta ilha de S. Miguel, el-Rei escreveu uma carta ao doctor Diogo Alvres Cardoso, corregedor da correição destas ilhas, e outra carta a ele, Grão Capitão, que lhe mandou o corregedor a esta ilha de S. Miguel, trinta léguas duma ilha à outra, em a qual lhe mandava se fosse logo ver com o dito corregedor e fizesse tudo o que lhe mandasse da sua parte; e isto com todo segredo e que não o soubesse pessoa nenhuma, e de assi o ele fazer lho agradeceria muito, por cumprir muito a seu serviço, o que vendo ele, fretou logo uma caravela, dizendo que ia em romaria a Nossa Senhora de Guadalupe, à Terceira, e em vindo da romaria se foi ver com o corregedor, a quem deu a carta de el-Rei, e lhe ficou na mão, por Sua Alteza assi o mandar.
O corregedor lhe mostrou outra carta do mesmo Rei, escrita a ele corregedor, em que lhe mandava a lesse a ele, Grão Capitão, e lhe dissesse da sua parte que armasse dois navios para guarda da costa de todalas ilhas, assi dos navios que a elas vêm, como dos que delas partem. E que todos os navios que achasse, franceses e ingreses, parecendo-lhe serem de mau título, metesse no fundo e não desse vida a nenhum, e das fazendas lhe fazia mercê, para ele e sua soldadesca, dizendo mais que desta fazenda não pagasse direitos nas alfândegas; e que se fosse descoberto este segredo por ele, lhe mandaria cortar a cabeça e que não houvesse medo se em algum tempo o mandasse prender nos seus castelos e fortalezas, porque seria parte de o fazer dos grandes homens do seu Regno.
O corregedor assentou com ele, Grão Capitão, vendo os muitos cossairos que andavam nas ilhas, que armasse logo. E tomando uma fermosa caravela que estava no porto de Angra se vieram a esta ilha de S. Miguel, onde logo puseram em ordem a dita armação.
O corregedor lhe mandou dar uma nau que no porto estava, vianesa, foi à fortaleza de que era Capitão D. Rui Gonçalves da Câmara, para lhe dar a artilharia necessária e munições e pólvora, por Sua Alteza assi o mandar, e que disso não houvesse autos púbricos , senão entre eles, corregedor e Grão Capitão, o praticassem e assentassem. O ouvidor do Capitão lhe defendia a artilharia, e lha não queria dar, pelo que o corregedor se ajuntou em Câmara e com os da governança assentaram darem-lhe a artilharia e munições, e pondo bandeira na porta da alfândega da feitoria, a modo de almazém, com muito dinheiro, e tambores tocados pela cidade, com pregões que diziam: quem quiser assentar-se em soldado nesta armada que faz Francisco do Rego de Sá, paga mil reis por mês, vá-se assentar à porta da alfândega, onde está a bandeira e muito dinheiro.
Armados os ditos navios e matalotados e postos em ordem de guerra, se embarcou o corregedor com ele para o pôr na Terceira, donde partiu e se foi na volta do mar, correndo as ilhas todas e fazendo seu ofício de capitão-mor o melhor que sabia e podia; onde andou quatro meses de armada e se encontrou com muitos cossairos com que pelejou, e lhe aconteceram bons sucessos e com uma nau que trazia dezoito remos por banda, de cujo sucesso escreveu a Sua Alteza.
Em todo o tempo que andou de armada, que foi até chegar D. Pedro de Almeida, se não tomou navio, nem roubou, nem fez agravo, porque os amparava com sua armada, trazendo-os aos portos das ilhas, para onde vinham; e como D. Pedro de Almeida, capitão-mor, chegou às ilhas Terceiras, com a sua armada, que eram duas naus e duas caravelas, as que trazia, se foi a ele, oferecendo-lhas para o que fosse necessário ao serviço de el-Rei.
E por o capitão-mor lhe dizer que trazia a armada convalescente e por saber que havia quatro meses que ele, Grão Capitão, andava de armada, em que trazia trezentos homens à sua custa, com os gastos e fretes das naus, lhe pedia se fosse desarmar, o que ele fez.
Estando já desarmado nesta ilha, lhe veio uma carta de el-Rei, em que lhe mandava que se ajuntasse com D. Pedro de Almeida, capitão-mor, com a sua armada, e andasse debaixo de sua bandeira todo o tempo que ele cá andasse, e tirasse a bandeira que trazia e assi fosse ao Reino com sua armada.
E por estar desarmado e a artilharia entregue à fortaleza, a tornou a pedir ao Capitão da dita ilha, a qual lhe não quis dar, de que tirou um estromento , de agravo e se fez prestes em uma nau ingresa que trazia tomada, e com gente e convalescente artilharia da mesma nau se foi à Terceira, com o capitão de Viana que encontrou, onde o corregedor, o doutor Diogo Alvres Cardoso, veio a seu bordo e lhe deu conta como D. Pedro de Almeida era partido e os capitães que deixara andavam divisos com o seu capitão-mor, e que fora para os prender e os não pudera acolher em termos para isso, e lhe pedia acudisse a isto, porquanto andavam antre as ilhas diferentes.
Ao que ele foi, com o capitão de Viana em sua companhia, e achou as duas zabras, de que era capitão Gaspar Pereira e Diogo da Silveira; para que os mandou vir a seu bordo e lhes perguntou por seu capitão-mor, e eles responderam que não tinham capitão-mor, nem o conheciam; a que ele respondeu: Nem a mim conhecereis por capitão-mor, pois rejeitais a Cristóvão Juzarte Tição, tão bom fidalgo: de ambos de dois vêde qual quereis que seja capitãomor? Porque eu vos obedecerei, até encontrarmos o nosso capitão-mor. E eles elegeram a ele, Grão Capitão, e o foi.
E com vento sudoeste rijo que lhe deu, foram ter sobre Angra, onde em amanhecendo encontrou o galeão francês Príncipe do Mar, de quinhentas toneladas, com o galeão S.
Lourenço, de el-Rei, e uma caravela do Cabo Verde e outra de Sanaguá, o que tudo o cossairo trazia tomado. E as zavras de el-Rei amanheceram dele, Grão Capitão, três léguas detrás da ponta dos Altares, e ele, só, foi após o ladrão, o qual lhe foi largando o galeão de el-Rei, que trazia tomado com as mais caravelas, às quais não tinham ainda feito dano algum; e dando-lhe caça todo o dia, ia alijando o ladrão muitos cofres encourados, pipas, quartos, rumas de balaios, e os batéis e fogão, mas, ele ao ladrão e ambos, andaram às bombardadas toda a tarde daquele dia, matando-lhe o Grão Capitão muita gente e assi à sua lancha, a vista da ilha Terceira; e dando-lhe o ladrão muitas bombardadas, antre elas lhe deu com uma espera ao poio da verga, que se ia a nau ao fundo e dando com ela à banda, lhe botou um coiro, com que piedosamente se sustinha a nau sobre a água e os seus mantimentos e pipas andavam a nado dentro na nau. E assim andou todo dia pelejando, e com uma hora da noite chegou o vianês e as zavras a ele, e todos foram à nau francesa até o outro dia, que amanheceu uma zavra para o sul, outra para o norte, sem o capitão de Viana, nem os mais, fazerem nada; e por se a sua nau ir ao fundo, atirou um tiro de recolher e se virou na volta desta ilha de S. Miguel, por ser a mais perto terra e favorável ao vento, onde botou os rombos das bombardadas e tábuas necessárias à sua nau, por estar mui desroçada.
Nisto lhe vieram cartas do provedor da ilha Terceira, como era chegada a nau da Índia, derradeira, de que era capitão D. Luís de Almeida, que fosse para a acompanhar até o Reino, como fez, e de caminho, por entender ser serviço de el-Rei, prendeu os capitães das zavras e os entregou presos, aos quais Sua Alteza mandou punir, como já tenho contado, e a ele prometeu de fazer grandes mercês.

No ano de setenta e sete, o mandou el-Rei a estas ilhas por capitão do galeão S. Lourenço, em companhia de D. Jorge de Menezes, seu capitão-mor, o qual o mandou ao Reino com duas naus da Índia: em os quais serviços tem gastado mais de quarenta mil cruzados, com muitos trabalhos e riscos de sua pessoa, gastando sua fazenda e mocidade.
Este Grão Capitão Francisco do Rego de Sá, havia tomado a voz de D. António, nesta ilha, o ano de oitenta; em a qual ilha teve provisões para ser governador dela, e depois de proceder nisto, lhe escreveu o dito D. António que o fosse buscar a Aveiro, onde o esperava, o qual fez uma caravela de armada e nela embarcou muitos mantimentos para ir onde lhe mandava e levou em sua companhia cento e vinte espingardeiros, todos homens e a mor parte parentes, levando sua ordem de desembarcação sc., capitão, alferes, sargentos, cabos de esquadra. E foram ter sobre a barra de Buarcos, donde fez seu sinal, como lhe era mandado pelo dito senhor. E por de terra lhe não responderem conforme ao sinal que levava, andou um dia e uma noite esperando se lhe respondiam de terra com o sinal esperado. E por lhe suceder tempo travessia, se foi na volta do mar sobre a barra de Aveiro; tornou ao outro dia, e por se lhe sarrar a barra foi ter sobre os Cavalos do Porto, onde esteve perdido e o mestre e marinheiros despidos, sem camisa, para se botarem ao mar; o que vendo ele, Grão Capitão, mandou fazer fogão e que assassem e comessem todos, que o tempo era próspero, sendo travessia, e mandou ao seu piloto, José Gonçalves, que fosse na volta do mar, o que foram; e ao outro dia, em amanhecendo, se acharam sem vista de terra, como quinze léguas, e mandou governar na volta dela ao nordeste, por o piloto dizer que estava areado, na qual volta vieram tomar o rio de Âncora, que é em Caminha, e já metidos tanto à terra, se acharam em um rio, que é o de Caminha, correndo do rio de Âncora para Caminha aquela costa, onde tiveram grã tormenta, porque contínuo a há nela, mormente aos que nunca por ali passaram, porque nem ele, nem piloto, nem soldado, não se acharam por aquelas partes, onde houveram vista da Însua, que é Galiza, que estava já a este tempo por Sua Majestade, e os soldados castelhanos lhes capeavam com as capas para a banda onde haviam de lançar o leme, com os quais sinais governavam; dando tão grandes mares no navio que lhes lançava o pedaço do bordo fora, os livrou Deus, até que se puseram antre a Însua e a terra, e logo vieram ao seu navio muitos barcos carregados de gente castelhana, que estava ali de presídio, na dita Însua; e entraram no navio que estava já despejado de cartas e papéis que lhe podiam fazer nojo, e botado ao mar a bandeira, tambor e todo o que podia fazer dano de obrigação de os prenderem. Tinha o Grão Capitão dito a João Roiz, que depois foi escrivão dos órfãos em Vila Franca, que se fizesse mercador do navio, por respeito de vinte moios de trigo que ele levava e de muitas carnes, assi de porco, como de vaca, e dissesse que aquela gente toda eram estudantes que iam para os estudos e outros iam com apelações para o Regno; e que agasalhasse a dita gente castelhana e lhe desse de todo o melhor que havia no navio a comer; e chamasse por ele, Grão Capitão, que andava em trajos de marinheiro, em diferente nome, como que fosse marinheiro, e o mandasse a terra buscar pão fresco, o que fez. E o dito Grão Capitão foi no barco com este nome, com quatro homens; e chegando a terra, que estava com grande concurso de gente em Caminha, esperando para saberem novas, e os sobreditos, tratando de buscar escápula, lhe diziam que era navio que vinha das ilhas carregado de trigo e que os levassem a uma casa de estalagem para remediarem a vida e comerem uns bocados, o que foram levados; e à meia-noite disse ele, Grão Capitão, ao estalajadeiro que lhe buscasse quatro azémalas que os levassem a Viana, três léguas dali; buscadas, partiram para lá e foram ter com Álvaro Roiz de Távora, capitão que foi da armada vianesa, a tomar língua e conselho do que devia fazer, o qual lhe foi mostrar a casa do Marquês de Sarria, Conde de Lemos, que estava presidente por Sua Majestade naquela parte; e foi ele, Grão Capitão, levado ante ele, em uma manhã bem fria e velosa, mal vestido, pelo que lhe relevava em tal tempo, e pelo dito Conde de Lemos lhe foi perguntado quem era, com pouca ou nenhuma cortesia, parecendo-lhe ser marinheiro, ao que, cheio de cólera, o Grão Capitão lançou mão a uma cadeira de espalda e chegando-a para junto do Conde, lhe foi respondendo: A mim, me chamam o Grão Capitão Francisco do Rego de Sá, sou fidalgo nestes Reinos de Portugal e as coisas do coração de el-Rei D. Sebastião, que Deus tem em glória, e de seu gosto, por mim as mandava fazer. Servi até agora de governador da ilha de S. Miguel por el-Rei D. António, e por entender que não procedia bem e conhecer a Sua Majestade por Rei, direito sucessor dos Reinos de Portugal, e que não podia escapulir ao dito povo e ilha, senão com lhes dizer que queria ir buscar ao dito senhor D. António para saber só dele a verdade, e sabida tornar à ilha a dar-lhes a razão da certa verdade que seria por mim sabida, pedindo-lhes me fizessem prestes uma caravela à custa de minha fazenda, o fizeram debaixo deste juizo; mas o respeito por que o fizera em este modo fôra para vir dar menagem a Sua Majestade e para salvar-me e remediar-me a não perder vida e fazenda; e o que mais estimava e tinha em mor contia eram os muitos serviços que tinha feito à coroa deste Reino. Não foi isto parte para deixar o Conde de Lemos de mandar um juiz comissairo à caravela, três léguas de distância, a tomar informação do conteúdo; mas enfim lhe foi tomado todo o que foi achado na dita caravela ser seu, sem até hoje lhe ser tornado. E a ele, Grão Capitão, foi mandado pelo Conde de Lemos, sob pena de forca, que não saísse de Viana.
Por culpas que Sua Majestade teve do Conde de Lemos, foi mandado a D. Diogo Anriques, nobre castelhano, que fosse às ditas partes por governador e que o dito Conde de Lemos fosse desposto e recolhido a suas terras a Galiza.
O qual D. Diogo Anriques, falando com ele, Grão Capitão, como o ouviu nomear por Sá, lhe perguntou que parentesco tinha com a condessa Délada, D. Isabel de Sá; e por lhe dizer o Grão Capitão que era sua tia, prima com-irmã de sua mãe D. Margarida de Sá, lhe fez muitas honras e lhe deu a ordem para sair daquele trabalho em que estava, com lhe dar cartas para Sua Majestade e para seus secretários de favor, e pela ordem que lhe dera o dito governador, D. Diogo Anriques, comprou um macho e um asno, com que caminhou por arrieiro deles até Coimbra.
Depois de chegado, mandou um homem seu a Tomar, onde estava Sua Majestade, com as cartas que levava de D. Diogo Anriques encaminhando-as ao Conde, camareiro-mor, seu parente, para que as desse a Sua Majestade e a seus secretários a quem iam; e logo lhe foi respondido por D. Cristóvão de Moura e Gabriel de Sayas e D. Diogo de Córdova, estribeiromor, por cada um sua carta, em que lhe diziam que fosse seguro e sem temor nenhum, porque Sua Majestade o desejava ver e conhecer. Com o qual recado se foi a Tomar, já limpo e deixados os trajos vis, com que até ali chegara de arrieiro. E D. Diogo de Córdova com o dito conde o levaram a Sua Majestade e ele disse: Senhor, a mim me chamam o Grão Capitão Francisco do Rego de Sá, que há mais de vinte anos que sirvo à coroa deste Reino, de capitão de galeões e de capitão-mor, trazendo as naus da Índia a Portugal, debaixo de minha bandeira; e fui governador da ilha de S. Miguel, em nome de D. António e o alevantei por Rei com uma bandeira na mão; e por entender que Vossa Majestade era o direito sucessor destes Reinos de Portugal e por eu ter um pedaço de fazenda e os meus serviços, que tenho feito, valerem mais que todo, disse ao povo da dita ilha que queria vir em busca do D. António , por sabermos onde estava com verdade; mas era tudo isto para me poder vir da mesma ilha de S. Miguel, donde era governador eleito, porque se com este engano não viera, não me deixaram vir. Eu também humanamente tinha feito contra o serviço de Vossa Majestade tanto quanto pudera fazer; mas o coração, que tive para servir aos Reis passados e ao senhor D. António, tenho para servir a Vossa Majestade no que me mandar.
Foi-lhe respondido por Sua Majestade: “Doi-vos muchas gracias por ello, y hizistes-lo como mui buen cavallero”. Falai com D. Cristóvão de Moura, que ele vos dirá o que eu quero.
Beijou-lhe então as roupas.
Foi ter com D. Cristóvão de Moura e contando-lhe o que tinha passado com Sua Majestade, respondeu-lhe: Vêdes que bom Rei temos, que merecendo-lhe Vossa Mercê cem mil forcas e cuitelos, lhe perdoa suas culpas; sabei conhecer e servir tal Rei; i-vos agasalhar. E tiveram-no quatro anos, sem o deixar vir a sua casa.
Depois de chegado Sua Majestade a Lisboa, lhe mandou fazer mercê por D. Cristóvão de Moura de 200 cruzados, para ajuda de custo, na mão do tesoureiro-mor do Reino, que lhos deu. E por o prenderem, por respeito de ingreses, por certas naus que lhes tomara no mar por mandado de el-Rei D. Sebastião, que está em glória, e por ele se não poder valer nem ajudar das provisões do dito Rei, por respeito de Sua Majestade as mandar pôr em segredo na mão do doutor António da Gama, desembargador, e requererem os ingreses agravados que o prendessem na cadeia, lhe foi necessário fugir da prisão e menagem em que estava em sua pousada, e se foi a Madril, setenta e tantas léguas de Lisboa, a Sua Majestade, a fazer-lhe querela de suas culpas, e contando-lhe como quebrara a menagem, lhe fez mercê de lhe perdoar, o quebrantamento dela, e de cinquenta mil reis de tença, com o hábito de Cristo, que ele já tinha recebido de el-Rei D. Sebastião, até o prover duma comenda de 150$ reis e mil cruzados em um alvitre para a Índia e licença para se servir para esta ilha, onde chegou no ano de oitenta e quatro.
E estando aqui, lhe chegou a cinco do mês de Fevereiro de oitenta e sete um treslado de uma portaria que Sua Majestade mandou passar por Francisco Sarrão, secretairo do Estado de Sua Majestade que assi dizia: El-Rei, Nosso Senhor, havendo respeito aos serviços que Francisco do Rego de Sá, fidalgo de sua casa e morador na ilha de S. Miguel, tem feitos nas armadas, e gastos que nelas fez, servindo sempre de capitão de naus e navios seus, com gente à sua custa, e no ano de setenta e cinco socorrer com artilharia e soldados a nau S. Mateus que vinha da Índia e a pelejar com uma nau francesa, há por bem de lhe fazer mercê de cinquenta mil reis de tença cada ano, com o hábito de Cristo que já tem; os quais cinquenta mil reis de tença lhe serão pagos no almoxarifado da ilha de S. Miguel, e os haverá até ser provido nas ordens de uma comenda de cento e cinquenta mil reis, estando hábil para ela. E sendo provido da dita comenda, largará os ditos cinquenta mil reis de tença, que começará de vencer de dezasseis de Abril do ano de mil e quinhentos e oitenta e quatro, em que Sua Majestade lhe fez esta mercê, da qual lhe mandou passar esta portaria, havendo outro si respeito à informação que houve de como ele foi à dita ilha, donde não tornou por achar sua fazenda desbaratada e estar pagando suas dívidas e estar muito prestes para o serviço de Sua Majestade. Em Lisboa, aos dez de Dezembro de mil e quinhentos e oitenta e seis.