Já que Frei Gonçalo Velho, comendador de Almourol que outros dizem de Almourel, foi o primeiro Capitão destas duas ilhas de São Miguel e de Santa Maria, e os primeiros povoadores foram africanos, e alguns disseram haver antigamente um gigante mourisco, chamado Almourol, senhor daquele castelo que tomou o nome dele, ou ele o do castelo, que está junto do grande rio Tejo, acima da vila de Tancos, onde foi guarda de uma formosíssima donzela, chamada Miraguarda, esta ilha de São Miguel se vos pode pintar e fingir como este grande gigante Almourol mourisco, fingido, que está aqui neste espaçoso mar deitado e com perpétuo sono dormindo; porque este Almourol foi um horrendo e espantoso gigante, de grande e espaçosa estatura que, sendo guarda da formosa Miraguarda, no belicoso Regno da afamada Lusitânia, no seu castelo de Almourol, que dele, por ser sua comenda, tomou o nome, depois que a fada Atropos Ihe cortou o fio da vida e por seus antigos anos acabou de cumprir a lei universal da morte, de todos os viventes temida, mas de nenhum escusada, dizem que o enterraram ao longo do rio Tejo, junto do seu castelo, porque por sua excessiva grandura dentro nele estendido, não cabia; e que estando ali quieto, na sua doce pátria e rica comenda sepultado, Ihe aconteceu um desastre depois de morto, como a seu filho Taco vivo em outro tempo acontecido havia, quando por sua altíssima estatura, passando além por aquele lugar, no largo e fundo Tejo se afogou, sendo mancebo, intempestivamente, nele deixando pelo acontecimento de sua intempestiva morte, por herança, o seu nome a uma vizinha vila sua que ali junto estava, que depois, andando o tempo, pelo erro da pronunciação e corrupção ou conversão das letras de Taco, que dantes se chamava, se chamou Tancos. Isto dizem que aconteceu ao filho Taco, sendo ainda seu pai Almourol vivo; mas, depois de morto, do mesmo pai contam que estando seu comprido e grosso corpo na sepultura que dito tenho, veio um dia, no tempo antigo, pelo Tejo, tão crescida enchente que, escarvando a terra de sua recente sepultura, trouxe por suas apressuradas correntes abaixo seu corpo inteiro, o qual, se vivo fora que pudera usar de seus sentidos, de vagar, pelo quase imóvel peso de seu corpo, ou às vezes com alguma pressa, pela que traziam as águas daquele grande e crescido rio quase fora da madre, viera sobre elas, vendo as amenas e saudosas serras, as terras verdes e frescas, os campos cheios de cores e deleitosos prados, as quintas alvíssimas e formosas e aquelas populosas vilas e ricos lugares que de ambas as partes o acompanham. Despedindose primeiramente com imensas saudades do seu castelo e antiga morada e daquele mosteiro da Esperança, da Província de Santo António, que fez Álvaro Coutinho, ali seu vizinho, e da vila de Tancos de aquém Tejo e de Tanquinhos de além Tejo, filho de Taco e neto do grande Almourol, de que vou falando, o qual logo buscara dali a meia légua a sua querida mulher Cardiga, em seus paços, que Ihe mandou fazer aquele grande Fr. António de Tomar, reformador deste convento e parente dos Monizes de Portugal, que com grandes custos fez ali defronte sair o rio da madre para o lançar ao longo desta quinta e deitar um braço pelo pescoço ao redor das casas, já que a amiga não achava, onde podem desembarcar, como abraçando com brando braço de água, nesta triste despedida, o aposento antigo de sua amada; cujos familiares, vendo-o despedir pelo rio abaixo, com lembrança de como este Almourol fora seu senhor, casado com a Cardiga, sua senhora, já morta, deram então grandes gritos, lamentando seu apartamento tão saudoso e seu desastre. E logo dali e meia légua, passando entre as vendas do Bugalho e de Malã, à vista do mosteiro de Santo Ionofre de frades franciscanos, e das duas quintas, que dali a quatro tiros de besta estão de aquém e de além Tejo, uma de António de Sousa, cunhado de Álvaro da Costa, além de uma alagôa grande que faz o rio quando enche, entre outra quinta sua, do mesmo Álvaro da Costa, e a deste seu cunhado, e outra de Francisco Pereira, que está além do Tejo, junto de um mosteiro de capuchos da Província de Santo António, que chamam o Pinheiro, na capela-mor do qual jaz sepultado. D. Aleixo, aio do animosíssimo Rei D. Sebastião, de coração invencível, mais animoso que ditoso. Logo mais além, meia légua, vira da parte de além Tejo, a vila da Chamusca, morgado do grande Rui Gomes da Silva, que foi marquês em Castela e o mais privado do grande Filipe, que é agora o maior Rei da terra; e depois a vila Ulme, e de aquém Tejo a vila Golegã, meia légua do rio para dentro da terra, em meio da qual está um poço que dizem parecer-se com o da Samaritana donde bebe a vila, que ao longo do rio tem a formosa quinta dos Zuzartes Tições; e além viera vendo uma légua de formosíssimo campo, esmaltado com muitas quintas brancas e vermelhas, até chegar à vila de Azinhaga e aos ricos e sumptuosos paços que à beira do rio estão, que primeiro foram do Infante D. Fernando e depois do Infante D. Luís, de grande nome, e depois do Senhor D. António, seu filho; cuja igreja principal está debaixo dos paços, com a capela no Tejo, e a vila fica correndo pelo sertão dentro; e umas vendas junto da água, ficando atrás antes de chegar à vila, um rio de muito pescado, que vem de Torres Novas, onde estão alguns moinhos a que lançam alçapões, quando o Tejo enche, que fazem represar suas águas, por não alagar o fértil campo.
E logo três tiros de besta para baixo, a quinta de André Teles, e além, uma légua e meia de campo até às Barrocas da Rainha, apartadas meia légua do Tejo, em que entra correndo por junto delas um rio pequeno, que se passa em uma barca de grande rendimento, cujo barqueiro tem seu prémio cada novidade de cada um dos lavradores do campo, e a barca certa moeda de real e meio, de cada pessoa que nela passa. E detrás das Barrocas, em que está a venda, vira um mosteiro da Província de S. José, de religiosos capuchos; e logo mais adiante, uma légua e meia de fertilíssimos campos e vinhas até Santarém, mais ilustre vila de Portugal, que cobrou este nome, quando a seu porto aportou o corpo de Santa Eirea, e corrompendo-se pelo longo tempo o nome de Santa Eirea, em Santarém, perdeu o de Scalabis e Cabelicastro que dantes tinha, que se parte em três lugares, o principal, no alto, Marvila, e o primeiro dos dois baixos, chamado a Ribeira e o derradeiro Alfanja, com que fica como uma águia, com o bico na água do rio e duas asas no azeite dos Olivais e o rabo no vinho das vinhas, ou, como outros pintam, com o corpo no pão, os pés no azeite, as asas na carne, o bico no vinho e a água, e o rabo no pescado; porque de tudo isto está rodeada esta vila e muito abastada, onde pudera ver o santo milagre do sacratíssimo e verdadeiro sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, encerrado em uma âmbula, e a igreja dos Apóstolos em que está o crucifixo inclinado e com uma mão despregada da cruz, que fez para prova de uma verdade de que ele somente fora tomado por testemunha; que para mais lustrar, tem defronte, da outra parte do Tejo, as altas torres de Almeirim, de saudosas saídas e coutadas de veados, porcos monteses e todas as caças; e o convento de Nossa Senhora da Serra, da ordem de São Domingos, metido em um ermo, pela terra dentro, uma légua de Almeirim, naquela charneca, onde está o grande Frei Luís de Granada, como descansando do muito trabalho que passou, cavando na vinha de Deus, que é sua igreja, com santo exemplo e copiosa doctrina, por voz fervente e viva, e docta e devota escritura. Ficando de Santarém e da sua parte, duas léguas pelo sertão dentro, a vila do Cartaxo, estende-se o rico campo de Santarém légua e meia, povoada de vinhas e pão, até Porto de Mugem e suas vendas, ao longo do Tejo, e da outra banda, Mugem, lugar outro tanto apartado de Almeirim. Vira mais, meia légua do Porto de Mugem, uma igreja de Nossa Senhora de Alvalada, freguesia ao longo do Tejo, onde no verão é escala dos barcos por causa dos secos do rio, até o qual lugar chega a maré, que são dezasseis léguas de sua foz e boca, onde tem a torre de São Gião; e nestas partes, pelo sertão dentro, até Povos, se Ihe mostrara, ao gigante Almourol, em um braço do mesmo Tejo, por onde vão barcos, um mosteiro de frades de São Francisco, da invocação de Nossa Senhora das Virtudes, onde por dia de Nossa Senhora de Setembro se faz uma feira mui custosa. E a vila da Azambuja e Vila Nova da Rainha, e mais abaixo também no sertão, meia légua do rio, a vila da Castanheira; e defronte da Vila Nova da Rainha, da outra banda do Tejo, ao longo dele, a ermida de Nossa Senhora da Esperança, que fez um Fuão Quental, deixando uma sua quinta, ali pegada, a el-Rei D. João, terceiro do nome; e logo Benavente, pelo sertão dentro, e mais abaixo Salvaterra, aonde estão os paços do afamado Infante D. Luís que tudo depois foi do Senhor D. António, seu filho; e pegado com Salvaterra, um mosteiro de Arrábida, de capuchos da Província de S. José, que chamam Jericó, o qual sendo alvo e lustroso na vida do esclarecido Infante D. Luís, falecendo ele, Ihe fizeram os frades com barro as paredes pretas, como vestindo-o de obscuro dó, pela morte de tal senhor, de tanto nome e fama. Da freguesia da Valada, a seis léguas pelo Tejo abaixo, vira a vila de Povos, da banda de aquém Tejo, que antes de chegar a ela faz uma volta a que chamam o Cabo de Alfim Mar, onde por causa do muito vento que sempre ali venta se alagam muitos barcos; e meia légua abaixo de Povos, Vila-Franca da Rainha, uma das boas comendas de Cristo; entre as quais vilas vira o horrendo gigante uma horrenda quinta que, pelas diabólicas coisas que nela soem acontecer, se chama Quinta dos Diabos; e légua e meia de Vila-Franca a vila de Alhandra, de que é sempre senhor o Arcebispo de Lisboa, e a vila Alverca, pela terra dentro, meia légua do rio onde foi enterrado o Infante D. Pedro, morto na batalha de Alfarrobeira, e a vila da Póvoa, de D. Martinho de Castelo Branco uma légua da Alhandra. E, além Tejo, a vila do Seixal, onde há os melhores vinhos do Regno; e logo abaixo uma formosa quinta que foi de D. Manuel de Menezes, Bispo de Coimbra, e a vila de Alcouchete, quase defronte da Póvoa, onde estão os fornos de vidro e um mosteiro de capuchos; e de aquém Tejo o lugar de São João da Talha e a perigosa boca de Sacavém, dentro do qual braço do Tejo se perdem muitos barcos pequenos e se concertam muitos navios e as grandes naus da Índia; e de além Tejo, duas léguas de Alcouchete, Montijo, boca de um braço, que faz muitos, junto do primeiro dos quais vira a vila da Aldeia Galega, desejado embarcadouro para quem vai de Lisboa para Alentejo; e desta duas léguas pela terra dentro, a soberba torre de Palmela, ao sudoeste de Lisboa; e logo a Lançada e Sarilhos, e outro Sarilhos pequeno; a quinta de Martim Afonso e o lugar da Moita; e dali meia légua e outro tanto de Montijo, a vila de Alhos Vedros que foram dantes verdes; e mais adiante meia légua o Lavradio, freguesia, e a vila do Barreiro, e as freguesias Telhaes e Palhaes, e os moinhos e fornos de el-Rei, coisa rica; Verderena e a vila de Coina, e perto a rica quinta dos religiosos de Belém; o Seixal chamado também Arentela, onde se dão muito bons vinhos de carregação para a Índia, em cuja enseada invernam muitos navios; logo Amora, freguesia; em Corroios outra, em outro braço do rio, e Motela, termo de Almada, onde estão os moinhos e lavadouro de Lisboa; e logo junto Cacilhas, donde começa o vale de Mourelos, de compridão de uma légua, que vai até Caparica; e Azeitão, onde está a famosa quinta de Afonso de Albuquerque, filho do grande Afonso de Albuquerque, e outra quinta dos frades de São Domingos, e outras muitas quintas de boas vinhas e de todas as árvores; e logo a afamada vila de Almada, da qual até Aldeia Galega, que atrás fica, há seis léguas, em que haverá perto de sessenta moendas que moem de maré, e há bons vinhos e muita lenha de pinho, de rama e tronco, que em barcas levam para Lisboa, que está passado o vale de Cavalinhos, onde querem dizer que as bruxas têm seu diabólico comércio. Defronte de Almada e de lá parece o que é, a mais soberba e populosa cidade do universo, que começa em S. Bento, convento de Loios, e quase acaba em Belém e depois de S. Bento, Enxobregas, lugar onde está um convento do Seráfico S.
Francisco e os paços da Rainha e o mosteiro da Madre de Deus, de freiras capuchas, Santa Clara, Cais da Madeira, Cais do Carvão, o Castelo e a casaria, tão apinhoada que parece ferverem ali as casas e a gente, até muito além do mosteiro da Esperança; onde, se vivo fora Almourol, o borborinho e bafo dela o detivera e muito curta Ihe parecera a idade para desejar de gastar em tal cidade a vida toda. E passando mais abaixo, para defronte da torre velha, chamada São Sebastião, por ser renovada pelo Rei deste nome, de que foi capitão Cristóvão de Távora, vindo por entre o bravo e espesso mato, de muitas antenas, enxárcias e mastos arvorados, se tivera ainda sentido para sentir e vista para ver, não escapara de ficar preso dos doces amores daquela tão forte e guerreira, como formosa e bem assombrada dama, a alta e galharda torre de Belém, se já naquele tempo o grande Rei D. Manuel a tivera fabricada, e ali quisera ser perpétua guarda dos sumptuosíssimos sepulcros dos invictíssimos Reis de Lusitânia, seus senhores, naquele formoso, rico e custoso mosteiro de Belém que para suas sepulturas escolheram. E uma légua afastada da Torre Velha, pela terra dentro, vira a quinta dos Padres da Companhia, chamada Val de Rosal, onde se recolhem em tempo de peste, ou de algum aperto, da cidade de Lisboa, ou se vão ali recreiar pelo tempo das vacações ou de suas enfermidades. Vendo-o assim sobre as águas os frades capuchos da Arrábida, do mosteiro de São José, e os de Santa Catarina de Ribamar se puseram em fervente oração, pedindo a Deus que os livrasse de um tal monstro nunca visto; e os que estavam na Trafaria, da outra banda, areal grande, em degredo que ali aceitam os povos peregrinos e naturais que vêm de fora, degradaram a si mesmos daquele lugar com medo; e as serranas de Oeiras, logo abaixo dos mosteiros, fugindo da praia, deixando juncada de seus cestinhos e despojos que para remédio de sua vida e refeição da natureza enfastiada ou faminta da populosa cidade traziam, metendo-se pela terra dentro, correndo com trémulo temor, se absconderam; e por isso dizem que está a povoação de Oeiras hoje em dia abscondida, sem se poder ver do rio, por causa daquela fugida. Mas as ninfas Tágides como costumadas a ver monstros marinhos, não temendo tanto, todavia com algum temor, vendo vir pelo Tejo o grande vulto do corpo do gigante, se mergulharam nas águas e levantando de quando em quando suas formosas e alvas cabeças, entre os brancos e densos marulhos, com os quais se pareciam, estavam como espreitando e olhando o horrendo monstro que passava, com diferentes opiniões dele, dizendo umas, deve ser isto monstro marinho, outras, não é senão o pai das naus da India, ou dos jungos que lá navegam, ou das grandes urcas de Frandes. Mas outras mais antigas afirmavam que não era senão uma grande serra que, com crescida enchente, as doces águas ao salgado mar, com sua apressurada corrente, levavam. Escondendo então Apolo seu dourado rosto para se ir banhar todo nas ocidentais águas, se a estas ninfas se acabou seu pouco medo, às sentinelas da inexpunhável Torre de São Gião começara o seu, muito grande, porque assombradas do estranho vulto, sem mais divisar nada, logo entenderam, arrepiando-se os cabelos, ser coisa passada que ao mar passava e não armada viva que dele a barra e terra cometesse, e por esta razão não acordaram os companheiros nem assestaram nele a fera artilharia, e ainda que isto fizeram, nada aproveitaram, pois tudo fora ferir uma sombra morta e a mouro morto matál-o. Os cachopos mais antigos que as torres e fortalezas com sua vista o enxergaram e, como eram moços e medrosos, não ousaram ir a braços com ele, antes com o retorno das bravas ondas que neles davam, o afastavam de si quanto podiam; sendo uns penedos que correm ao comprido da barra, da banda de São Gião, em baixa-mar e o maior deles defronte da Torre da outra banda, que é de mais perigo, e não sofrem estar de fora nenhum navio grosso; e na Cabeça Seca, da banda dos Cachopos, areal onde morrem muitos peixes espadas, mortos eles de medo do gigante, não ousaram de cometer seu corpo, com seus penetrantes bicos, ainda que por grande baleia o julgaram, de que são tão contrairos e, posto que o cometeram, só puderam romper sua roupa roçagante que sobre as armas levava, e não armas de prova com que armado o enterraram, mas o temor de coisa nunca no mar vista, Ihes fez embainhar suas espadas.
Passando assim o canal de São Gião e escapando destes perigos, se veio engolfando no grande mar oceano, para esta ocidental parte, este como morto deste gigante Almourol, que foi mouro, mas já cristão tornado, e era muito para ver como diante dele e seu mando, com grandes respingos e couces, Ihe iam fugindo as ondas, como poldras, no grande e espaçoso vale, ou Vale das Éguas, até vir encalhar no braço e baixo das Formigas, que entre estas ilhas correm, e, como era corpo de excessiva grandura e pesado, neste lugar fez assento e aqui se ficou nestas oceanas e salgadas águas o morto sepultado para sempre, tornando-se o corpo terra, nesta terra. Querem dizer alguns que, já dantes alguns anos, vindo outra enchente do mesmo Tejo, de monte a monte, trouxera a estas partes morta a giganta Cardiga, a que depois puseram nome ilha de Santa Maria, que está da banda do sul, perto e ao longo desta, como dito tenho; e por destino de algum fado, depois viera nadando , este gigante, seu marido, a se encostar, como em sepulcro, nas Formigas, baixos braços de sua amada, até depois de morto preso de seus amores; e assim ambos escolheram aqui os seus jazigos, porque na verdade qualquer ilha destas, neste tão comprido e largo mar oceano, não é outra coisa senão uma prisão algum tanto espaçosa, e até, de coisas pequenas, quanto mais das grandes, uma muito estreita e muito mais curta sepultura.
A cabeça deste gigante, que da parte do oriente está encostada, é o morro do Nordeste, e Água Retorta uma orelha que tem para cima, porque, como está como encostado, a outra não aparece; da freguesia de São Pedro, da parte do norte, e do Faial, da do sul, começa o pescoço que se vai estendendo até à Povoação, ficando da outra banda encolhido. A comprida e reverenda barba é Achada Grande estendida até Achada Pequena, que é o cabo dela, que se tornou cã e calva pouco tempo há, quando no segundo terramoto se cobriu de pedra pomes e cinzeiro; os Fenais da Maia, da parte do septentrião, e a Ponta da Garça, da banda do sul, são seus ombros. A Maia e Vila-Franca, os cotovelos de seus braços, e neste esquerdo tem o ilhéu de Vila-Franca, como seu escudo, embaraçado; além dos cotovelos, Porto Formoso e o lugar de S. Lázaro são suas ulnas ou seus braços, cujo fim, encolhido para dentro, são os portos de Santa Iria e de Vale de Cabaços, onde saem para fora suas forçosas mãos, a ponta do pico de Santa Iria com sua Ribeira Grande, da banda do norte, e Água do Pau com sua ponta da Galé, da outra parte do sul. Logo está a delicada cintura cingida com um rico cinto, de Rabo de Peixe até à Alagoa, por onde a ilha é mais estreita. A faldra de sua malha é os Fanais e lugar de Rosto de Cão, ambos termos da cidade, onde o cinto, com que se cinge, acaba de chegar, dando um nó cego da forca, como artificial, com uma figura de rosto de cão, no cabo assentado, com o focinho para o mar e o rabo para a terra, na ponta de guarnição com que filha, prende, açoita e castiga os malfeitores. Do lugar de Santo António até à Bretanha, coxa do pé direito, da banda do norte, e da outra parte do sul, a cidade da Ponta Delgada, Relva e Feiteiras, polpa grossa e forte coxa do seu esquerdo. A ponta da Bretanha e o lugar de Candelária. seus giolhos, e a grota de João Bom e o lugar de São Sebastião, suas pernas; o pé esquerdo, dizem os antigos que era um sítio que agora chamam as Sete-Cidades, que antigamente tinha muito alevantado no ar, mas com o grande peso, dando um grande coice, sacudindo-o, se sumira e estendera pelo mar, tomando posse dele, fazendo a fajã do lugar que se chama Mosteiros, aparecendo-lhe ainda agora as pontas dos dedos daquele pé, feitas ilhéus e penedos, sobre as águas do mar que ali está pisando; o pé direito é o Pico das Camarinhas, que também tinha mui alevantado e depois abaixou e estendendo-o pelo mar e mostrando-o armado com armas de fortes penedos e duro ferro que ali forjou Vulcano, pelo que o povo, de então para cá, chama àquele lugar Pico das Ferrarias; e no meio destes feros e horrendos pés se estende o comprido rabo da opa roçagante que tem vestida sobre as armas, abotoada em algumas partes, do pescoço até aos pés, com botões de altos e grandes montes.
Mas por haver andado longos caminhos d’antes e dado muitos passeios, está o rabo desta vestidura tão safado que não tem lustros, nem verdura, sendo ela toda verde, pelo que esta parte desta opa. que é o cabo ocidental desta ilha, de todos é chamada comummente, por ser safada e calva, os Escalvados.
João d’Albernaz, fidalgo, veio da ilha do Faial, viúvo, com dois filhos e duas filhas: o primeiro filho, chamado, como seu pai, João d’Albernaz, faleceu no Cabo Verde, solteiro; o segundo, Sebastião Albernaz, casou nesta ilha com uma filha de Rodrigo Anes, o Bago, de Santo António, de que não teve filhos. A primeira filha de João d’Albernaz, chamada Inês d’Albernaz, casou primeiro com Diogo Fernandes da Costa, de que houve um filho, chamado, como seu pai, Diogo Fernandes da Costa, o qual tem doze filhos, cinco machos e sete fêmeas: o primeiro, António da Costa, casou nos Fenais com uma filha de Diogo Afonso Serpa; os outros ainda solteiros; uma das filhas, chamada Inês da Costa, é casada com Manuel Vaz, filho de Domingos Vaz, da Maia; outra, Helena Pereira, casou com Sebastião da Costa, filho de Pero Barriga, da vila d’Água do Pau; as outras são ainda solteiras. Inês d’Albernaz, que viuvou de Diogo Fernandes da Costa, tornou a casar com Duarte Pires, da Lomba da Ribeira Grande, de que houve um filho chamado Duarte Pires Furtado, bom cavaleiro, que casou com Paulina Tavares, filha de João Fernandes e de Maria Barradas, e uma filha que casou com Manuel Garcia, chamada Isabel Furtada, e que tem sete filhos.
Outra filha de João d’Albernaz, chamada Isabel Furtada, casou com Luiz Fernandes da Costa, de que houve filhos, afora os falecidos, um, chamado João Homem da Costa, que casou no Nordeste com uma filha de Pero Manuel e tem três filhos de pouca idade e quatro filhas; outro filho de Isabel Furtada, chamado Clemente Furtado, casou três vezes: a primeira, com uma filha de Manuel Vieira, dos Fenais da Maia, de que tem um filho chamado Manuel Furtado; a segunda, com uma filha de Sebastião Barriga, d’Água do Pau; a terceira vez, casou com uma filha de André Martins, da Ribeira Grande, sem haver filhos d’estas duas, como já disse na geração dos Costas. Outro filho de Isabel Furtada, chamado Sebastião da Costa, é casado com uma filha de João Luiz, da Maia, de que tem três filhos e duas filhas.
Tem mais esta Isabel Furtada, filha de João d’Albernaz e mulher de Luiz Fernandes da Costa, duas filhas, Maria da Costa, casada com Estêvão Pires, filho de Duarte Pires, da Lomba, de que tem dois filhos, António da Costa e Inês Fernandes da Costa; a outra filha de Isabel Furtada, chamada Catarina da Costa, casou com João de Medeiros, em Vila Franca, de que tem uma filha, chamada Maria da Costa.
João d’Albernaz, depois que veio viúvo do Faial, casou na vila da Ribeira Grande com Guiomar Fernandes, mulher que fora de Vultão Vaz, e dela houve a Martim d’Albernaz, que casou com Isabel do Monte, de que teve sete filhos: alguns faleceram e dos vivos, um, chamado Francisco Albernaz, casou com uma filha de Fernão Carneiro e de Ana Fernandes, moradores nos Mosteiros; outro, Antão d’Albernaz, casou com Maria Gonçalves, filha de Pedro Afonso; e duas filhas, uma que faleceu solteira, chamada Hierónima Albernaz, e outra, Inês d’Albernaz, que casou com mestre António, de que tem um filho.
Houve mais Guiomar Fernandes, de João d’Albernaz, quatro filhas, três que faleceram solteiras, e a outra, chamada Aldonça d’Albernaz que casou com Amador de Sousa, de que houve uma filha, por nome Aldonça d’Albernaz.
Têm os Albernazes em seu brasão um escudo partido em quatro partes: a primeira azul e uma árvore de sete pontas de prata, e a outra parte de prata, a árvore azul, assim de sete pontas; e isso mesmo os outros cambados, com sua diferença, com um quadrângulo preto na ponta de cima do escudo, da banda esquerda a quem o vê.
João de Piamonte veio a esta ilha mercador, com mercadoria, com sua mulher Lianor Dias, natural do Algarve, de gente honrada, de que houve filhos: João do Monte, Gaspar do Monte, Amador do Monte, Ambrósio do Monte e Bonifácio do Monte, todos homens esforçados, e muito cavaleiros, e foram à África; e o Amador do Monte, mais que todos, porque fez lá muitas sortes e na Índia, e faleceu solteiro. João do Monte casou na Lagoa com uma mulher nobre, de que houve Simão do Monte e outro, Sebastião de Oliveira, e filhas que faleceram. Gaspar do Monte casou com uma irmã de Duarte Pires, da Lomba, de que houve filhos: Gaspar do Monte, Baltasar do Monte, vigairo que foi de Santo António e depois da Fajã, termo da cidade, e João do Monte, e quatro filhas, sc., Isabel do Monte, mulher de Martim d’Albernaz, e Susana do Monte que foi casada com Pedro Anes, e Breatiz do Monte, casada com Diogo de Morim, e Guiomar do Monte, casada com Francisco Soares, de que tem alguns filhos — Belchior Soares que casou com Guiomar Correia, filha de Sebastião Alvres e de sua mulher Joana Martins, filha de João d’Aveiro, escrivão dos órfãos na vila da Ribeira Grande, e outros filhos e filhas solteiros; João do Monte casou com Isabel Tavares, de que tem muitos filhos: o mais velho, Gaspar do Monte, casou com Inês Fogaça, e uma filha, chamada Francisca Tavares, casou com Gaspar Leão, filho de Manuel Gonçalves Leão, da vila d’Água do Pau, como disse na progénia dos Rochas e Machados.
Vieram a esta ilha dois irmãos, de Guimarães, António Mendes Pereira e João Mendes Pereira, filhos de Fernão Mendes, netos de Afonso Mendes, da casa do Infante, arcebispo de Braga, irmão d’el-Rei; o qual Afonso Mendes serviu a el-Rei nas guerras de Castela, muito bem, pelo que lhe fez mercê de juiz dos órfãos de Unhão, de Guimarães. Seu neto, António Mendes, veio a esta ilha no ano de mil e quinhentos e dezoito, onde casou com Isabel Fernandes, filha de Francisco Fernandes, castelhano, de que houve dez filhos. O primeiro, João Mendes, letrado agraduado, primeiro em leis e depois em cânones e em teologia, que faleceu em Salamanca, homem de grande virtude, o qual, sendo dantes muito lustroso no mundo, deu tal volta, enjeitando tudo, que foi depois mais humilde de quantos eu tenho visto e exemplo de todas as virtudes; e, sendo sacerdote de missa, faleceu dia de Natal, antes de a dizer, o mesmo dia que tinha determinado de a cantar. O segundo, Pero Mendes, bom sacerdote e cantor, o mais velho beneficiado na igreja de S. Sebastião, da cidade da Ponta Delgada. O terceiro, Francisco Mendes Pereira, criado d’el-Rei, cavaleiro fidalgo nos seus livros, e contador que foi de Sua Majestade nesta ilha de S. Miguel e Santa Maria, homem discreto e prudente e de magnífica condição, o qual casou com Isabel da Gama, moça da câmara da Rainha D. Catarina, da geração dos Gamas e dos Velhos, de Portugal. Os Gamas são naturais de Olivença e procedem da geração do conde da Feira. O primeiro chefe deles era um homem principal de Olivença, o qual sonhando uma noite que achava um tesouro em Castela, na ponte de Badajoz, e um castelhano, de Castela, sonhava que achava uma gama, que é uma pedra de mó de moer azeitonas, cheia de grande tesouro; indo o português a buscar o seu a Castela, se encontrou na ponte de Badajoz com o castelhano e praticando ambos, descobrindo cada um seu sonho, dizendo o castelhano que sonhara que em Olivença achava uma gama cheia de tesouro, lhe respondeu o português: — não creiaes em sonhos que são abusão, que também eu sonhei que achava outro tesouro em vossa terra; e tornando-se cada um para onde moravam, o português buscou a gama em sua terra e a trouxe pouco a pouco em tombos, de noite, com um mouro, seu escravo, a sua casa; e abrindo-a, achou tão grande tesouro de ouro e prata e pedras preciosas, que ficando-lhe a maior parte e fazendo serviço da menor a el-Rei, o fez fidalgo de sua casa e foi o princípio dos Gamas que no Reino têm grande nome e grandes cargos. E desta progénia, e primo de Isabel da Gama, é o doctor António da Gama, grande jurisconsulto, afamado por suas obras e escritos, que agora é desembargador do paço. E não tem filhos.
O quarto filho de António Mendes, chamado António Mendes Pereira, casou com Breatiz Cabeceiras, neta de João Afonso, do Faial, e de Domingos Afonso. O quinto, Fernão Mendes Pereira, que casou com Hierónima Fernandes, filha de Pedro Anes Freire, de que tem alguns filhos. O sexto, Hierónimo Mendes Pereira, ainda solteiro.
Teve mais António Mendes Pereira três filhas: a primeira, Maria Mendes, casou com João d’Arruda da Costa, de que tem filhos e filhas; a segunda, Violante Mendes, casou com Manuel Favela da Costa, de que tem filhos e filhas; a terceira, Catarina Mendes, casada com o Capitão Alexandre, de que não tem filhos.
João Mendes Pereira, irmão de António Mendes Pereira, casou com Guiomar Botelha de Macedo, bisneta do Capitão do Faial, de que houve os filhos já ditos na geração de Gonçalo Vaz, o Grande. Têm os Mendes Pereiras por armas, em seu brasão, um escudo com campo vermelho e uma cruz de prata florida e vazia; elmo de prata, guarnecido de ouro; paquife de prata e vermelho; por timbre duas asas de anjos, de ouro, e entre elas uma cruz vermelha, e por diferença, um cardo de ouro, florido de azul.
Houve na vila do Nordeste um João Soares, nobre e rico, de grande casa. Foi casado com D. Filipa, natural do Reino, e segunda vez com D. Joana Galvoa, também do Reino, do qual não ficaram filhos; ficou sua fazenda e um morgado, que agora tem Francisco da Costa Homem.
Estevão Chainho, nobre e rico, foi dos primeiros que regeram a vila do Nordeste; de quem ficou Gaspar Chainho e agora António Chainho e Estêvão Chainho, seus netos, e outros deste apelido.
João Gonçalves, da Ponta, chamado assim por ter sua morada junto de uma ponta que está sobre o porto da vila do Nordeste, veio do Reino e foi dos nobres e regedores da dita vila; de quem ficou Francisco Gonçalves, seu filho, e Brás Gonçalves, seu neto, e João Gonçalves, seu bisneto.
João Afonso, antigo e rico, foi dos primeiros que povoaram e regeram a vila do Nordeste; de quem ficaram filhos, Pedro Afonso Gordo, Jorge Afonso, António Afonso, cavaleiro do hábito de Santiago, todos cidadãos de Vila Franca, e destes ficaram filhos que agora regem e governam, onde quer que vivem, como são João da Costa, Pedro Afonso da Costa, e Belchior Manuel, filho de Pedro Afonso Gordo; de António Afonso, ficaram João Afonso Correia, Manuel Dias Brandão, António Afonso Correia, que têm este apelido da mãe, filha de Diogo Dias Brandão, cavaleiro do hábito de Cristo; e outros netos.
Diogo Fernandes Salgueiro foi rico e nobre, de que ficaram filhos na mesma vila, Tristão Fernandes, Pedro Homem e João d’Arruda e alguns netos.
João Lourenço, o Velho, foi nobre e rico, na mesma vila, de que ficaram filhos e netos, João Lourenço, Domingos Lourenço, Jorge Lourenço e Pero Carvalho.
Houve na mesma vila Bernaldim Calvo, homem nobre, de quem ficou Pero Calvo, que ora é cidadão em Vila Franca.
Salvador Afonso, cavaleiro do hábito de Santiago, viveu na mesma vila e foi juiz dos órfãos, de ametade d’esta ilha; ficaram seus filhos, Manuel Afonso, Roque Afonso e alguns netos, cidadãos de Vila Franca.
Houve na mesma vila do Nordeste um João Pires, muito nobre e rico; teve filhos, Roque Pires e Gaspar Pires, e netos, Amador do Monte e Manuel do Monte.
Houve em Vila Franca Afonso Anes do Penedo, pai de João do Penedo, que depois viveu e faleceu na vila da Ribeira Grande; eram fidalgos; e este João do Penedo foi tio de Antão Pacheco, porque era irmão de sua mãe; o qual Antão Pacheco foi ouvidor do Capitão nesta ilha, e no tempo do dilúvio de Vila Franca, tendo o dito cargo, faleceu nela.
Diogo Preto, homem nobre, morou em Vila Franca e era escrivão de toda esta ilha; foi casado com Catarina de Olivença, fidalga, irmã de D. Filipa, mulher de João Soares, fidalgo, atrás dito. Este João Soares tinha uma irmã fidalga, chamada Maria da Costa, que foi mulher de Jorge Fernandes, e teve grande casa no Nordeste, onde pousou o Bispo D. Agostinho e pousava toda a gente honrada. Uma filha de Diogo Preto, chamada Maria Falcoa, foi casada com Diogo Coelho , irmão de Antão Pacheco e depois de viúva casou com António Lopes, da Relva, d’onde procede Manuel Botelho, genro de Joana Tavares, da Ribeira Grande.
Viveu em Vila Franca António de Freitas, escrivão de toda esta ilha, casado com uma filha de Manuel Domingues, de que teve um filho, chamado Gaspar de Freitas, que foi escrivão na Ponta Delgada.
Morava também na Vila Franca Afonso Rodrigues Cabêa, casado com Catarina Fernandes, irmã de António Pacheco; trouxe grande casa de Portugal e assim a teve nesta ilha seu irmão, Luiz Pires Cabêa, que casou na Ribeira Grande, com Filipa Tavares, filha de Fernão de Anes Tavares. Este Afonso Roiz Cabêa casou uma filha com Pero Rodrigues Raposo, irmão de Jácome Dias Correia.
No tempo do Capitão João Rodrigues, veio ter e morar na vila da Lagoa um homem nobre, castelhano, com sua mulher, a que não soube o nome, de que teve estes filhos, sc., Antão Rodrigues, Bartolomeu Rodrigues, do Pico da Pedra, cavaleiro da ordem de Santiago, Francisco Rodrigues Pajoulas, e filhas, a mulher que foi de Gil Afonso Faneca, morador na Lagoa , e Filipa Rodrigues, mãe de João Alvres Examinado, homem principal, discreto e rico, morador na Alagoa , e Catarina Rodrigues, que não casou.
Martim Gomes, morador na Alagoa, homem principal e rico, veio no mesmo tempo do Capitão João Roiz e D. Inês; teve de sua mulher estes filhos: o primeiro, Álvaro Martins, que foi amo do Capitão Rui Gonçalves, filho de João Rodrigues da Câmara, e uma filha chamada Inês Martins, que casou com Fernão Rodrigues, homem principal e rico, morador na vila da Alagoa, de que houve estes filhos, sc., Baltasar Rodrigues, Gaspar Rodrigues, João Rodrigues, Pero Rodrigues e Sebastião Rodrigues, e uma filha, que foi casada com Vasco de Medeiros, filho de Rui Vaz Medeiros, que fez uma capela na Ponta Garça, e outra na vila da Alagoa.
Viveu na Ribeira Grande Rui Garcia, homem honrado e rico, que veio do Landroal, junto de Vila Viçosa. Foi à África e lá se fez cavaleiro, quando foram os Tavares; teve muitos filhos e filhas, muito honrados, de sua mulher Catarina Dias, que veio de Portugal e deixou perto de um moio de terra no Morro ao Esprital da dita vila, que lhe rende, cada ano, cinco moios de trigo.
Viveu na mesma vila Pero Teixeira, muito nobre e rico, casado com Isabel Mascarenhas, fidalga; e Antão Teixeira, seu irmão, casado com uma mulher da casta dos Fanecas, e morta ela, casou com Branca Afonso, irmã de Brás Afonso, da Praia.
Morava também na vila da Ribeira Grande Luís Mendes Potas, homem principal, casado com uma filha de Gregório Rodrigues, chamada Clara Gregória, que veio da ilha da Madeira, gente honrada e que tem brasão.
Morou também na Ribeira Grande João d’Orta que veio de Besteiros, de Tondela, e teve um filho que chamavam Álvaro d’Orta, de que se chama a rua d’Álvaro d’Orta, por ele ser pessoa principal que morava nela; foi casado com Lianor de Paiva que veio do Porto com ele casada, de que tem um filho, chamado António de Paiva, beneficiado na vila do Nordeste, e outro chamado Simão de Paiva, casado com Lianor Cabral, filha de Baltasar Tavares, homem fidalgo.
O pai de Domingos Afonso, do lugar de Rosto de Cão, chamado João Lourenço, ou Pero Lourenço, veio de Portugal a esta ilha. Teve quatro filhos: o primeiro, Salvador Afonso, morador no Nordeste; o segundo, Domingos Afonso, morador no lugar de S. Roque e na cidade da Ponta Delgada, que foi almoxarife; o terceiro, João Lourenço, morador na cidade da Ponta Delgada; o quarto, Francisco Afonso, morador em Vila Franca; todos homens honrados e ricos e bem entendidos.
Afonso Ledo veio de Aljezur, do Algarve, que é arriba de Lagos, e dele procederam os Ledos: um que morreu, por cair de um cavalo, chamado Afonso Ledo, que foi pai de Sebastião Afonso Ledo, morador na Bretanha; o segundo filho de Afonso Ledo, o Velho, se chama João Ledo, morador em Santo António, onde morou seu pai. Teve mais Afonso Ledo, o Velho, algumas filhas, uma delas se chama Hierónima Leda, que casou com Martim Alvres, e outra que casou com Joanne Anes Panchina.
Estêvão Nogueira foi natural da ilha da Madeira, o qual era filho de João Senogueira, valenciano, natural da cidade de Segóvia, do Reino de Aragão, onde estão hoje em dia casados Senogueiras, por ser casa de morgado; e por um homízio que houve, por ajudar a matar o secretairo d’el-Rei D. Pedro, se veio ter à ilha da Madeira e aí se casou.
Estevão Nogueira, seu filho, casou em Lisboa com Guiomar Rodrigues de Montarroio, filha de Vasco Rodrigues de Montarroio, criado da Rainha D. Lianor e muito seu privado, de que houve um filho de grandes espíritos, chamado Bartolomeu Nogueira, que nasceu em Lisboa, com outro que nasceu primeiro na era de mil e quinhentos e vinte; foi baptizado na Sé. Seu pai era cavaleiro da casa d’el-Rei D. João III e ele é cavaleiro fidalgo da casa d’el-Rei D. Henrique e foi capitão de uma bandeira de infanteria na cidade da Ponta Delgada, dezanove anos, e andou por capitão de uma nau de el-Rei D. Sebastião, no ano de setenta e seis; passa de sessenta anos e não tem filho nem filha; tem os dentes todos sãos e tãos bons que corta um alfinete com eles, cada vez que quer, sem nenhum trabalho.
Veio Estêvão Nogueira, depois de viúvo, a esta ilha, onde morou primeiro em Vila Franca e depois se passou a Ponta Delgada, trazendo consigo este seu filho, Bartolomeu Nogueira, homem grave, discreto e prudente, e como tal foi eleito por procurador dos povos desta terra.
Partiu desta ilha aos negócios dela aos vinte de Março do ano de 1579, e aos vinte e oito do dito mês, às oito horas da manhã, estavam ancorados em Belém. Ao domingo, trinta do dito mês, às quatro horas, acabando el-Rei D. Henrique de cear nas casas de Manuel Soares, que estão acima dos Moinhos do Vento, em Lisboa, em alevantando a mesa, se assentou em giolhos e beijando-lhe a mão lhe disse: — Senhor, a mim me chamam Bartolomeu Nogueira e venho a Vossa Alteza, enviado pelas Câmaras e povos da ilha de S. Miguel, a coisas do serviço de Deus e de Vossa Alteza e bem dos povos da ilha. Ao que logo respondeu: — Mas antes estou informado que não vindes senão muito contra meu serviço e i-vos . Vendo ele que o não queria el-Rei ouvir, com muito silêncio tirou uma carta do peito, onde a levava, e beijando-a disse: — Senhor, esta carta me deu o corregedor da comarca que a desse na mão a Vossa Alteza, por ser de coisas que são do serviço de Deus e de Vossa Alteza. Respondeulhe : — Dai-a ao escrivão da comarca. Tornou a beijar a carta e metendo-a no peito se alevantou, fazendo duas mesuras de vagar com o giolho no chão e dizendo: — Senhor, o tempo descobrirá se venho em serviço de Vossa Alteza ou não; e saber-se-á a verdade da falsa informação que a Vossa Alteza foi dada. E saiu-se fora para a sala, onde lhe disse o meirinho do paço: — Ora viestes cá em forte hora. Ao que ele respondeu: — Foi ela forte pelas informações falsas de que Sua Alteza está cheia, mas o tempo descobrirá a verdade. E como ele disse isto algum tanto agastado, lhe tornou o meirinho em reposta que ele lhe não dissera o tal, senão por estar disso muito pesaroso e que assim o eram todos os que estavam presentes. E com isto se pôs a cavalo e se foi para casa, ficando todos louvando seu ânimo .
Ao primeiro dia de Abril, logo foi falar com D. Leão, padre da Companhia de Jesus e confessor de el-Rei, e com Jorge Serrão, também padre da Companhia e doctor na sagrada teologia, aos quais ambos deu conta do que passara com Sua Alteza e lhe mostrou os apontamentos que das Câmaras levava para requerer, e outras coisas particulares, relevantes e necessárias ao bem comum desta ilha, que lhes eles ouviram muito bem e louvaram todas, e o consolaram, prometendo-lhe que el-Rei o ouviria e mandaria fazer justiça.
Depois o ouviu el-Rei e mandou ter muita conta com ele, em maneira que alcançou justiça em os mais dos negócios que pôde tratar e requerer, no tempo que nisso gastou em Lisboa, desde treze de Março até vinte e quatro d’Octubro, que se foram as casas e el-Rei para Almeirim, onde também andou nos requerimentos desde vinte e seis d’Octubro de mil e quinhentos e setenta e nove até o derradeiro de Maio de mil e quinhentos e oitenta. Foi casado primeiro com Maria Manuel, filha de Pedro Afonso Barriga, da vila do Nordeste; depois casou com Margarida de Matos, filha de André da Ponte de Sousa, de Vila Franca, e de Isabel do Quental, filha de Fernão do Quental; e de nenhuma tem filhos.
Casou Estevão Nogueira segunda vez com uma mulher da geração dos Barbosas de que houve filhos, como já tenho dito.
Veio a esta ilha Jácome das Póvoas Privado, de nobre progénia, pai de António das Póvoas Privado, moradores na cidade da Ponta Delgada.
De João Privado nasceu Aldonça Rodrigues Privada e de Aldonça Rodrigues e Fernando Anes das Póvoas, moradores que foram na sua quinta de Real, termo de Barcelos, nasceu Rui das Póvoas, morador que foi na cidade do Porto, e dele nasceu Jácome das Póvoas Privado, pai de António das Póvoas Privado, casado na cidade da Ponta Delgada, que vive à lei da nobreza e tem as armas dos Privados que são as seguintes, de que tem seu brasão: — o escudo de ouro, com quatro barras vermelhas, lançantes, e uma flor de liz azul em cima, antre as pontas das duas barras vermelhas, que de cima começam; elmo de prata, guarnido de ouro; paquife de ouro e vermelho; e por timbre um grifo de vermelho, com o bico, asas e unhas de ouro.
Também veio a esta terra e viveu na vila da Ribeira Grande, Diogo Privado, filho de Violante Brandoa, filha de João Brandão e de Ana d’Armim, da geração dos Privados, Brandões e Coutinhos. E por vir de Vila Real por um homízio, mudou aqui o sobrenome, chamando-se Diogo Martins; teve muitos filhos nobres, moradores todos na vila da Ribeira Grande, como Duarte Privado, agora juiz dos órfãos na dita vila, e outros que sempre se trataram à lei da nobreza e têm as mesmas dos Privados.
Branca Afonso de Drumondo, filha de D. João de Drumondo, senhor de Escubal, em Escórcia, era mãe de Gonçalaires Ferreira, o Velho, da Casta Grande, da ilha da Madeira, e irmã de Gonçalo Aires Ferreira, que foi companheiro de João Gonçalves Zargo, seu parente, primeiro Capitão da ilha da Madeira, no descobrimento d’ela; e este Gonçalo Aires Ferreira era tio de Gonçalaires Ferreira, da Casta Grande, da dita ilha; o qual Gonçalaires Ferreira, filho de Branca Afonso, é sobrinho de Gonçalaires Ferreira de Drumondo que descobriu com o primeiro Capitão a ilha da Madeira, foi o que em nome da ilha da Madeira foi assentar o partido dos quintos da dita ilha com el-Rei D. Manuel, que está em glória. E este mesmo Gonçalo Aires, filho de Branca Afonso de Drumondo, foi pai de Diogo Rodrigues, o Cavaleiro, também morador na ilha da Madeira e teve mais três filhas, duas legítimas e uma bastarda; das legítimas, uma d’elas se chamava Joana de Frias Escórcia e a outra, Helena Ferreira; e a bastarda, Ana Ferreira, a qual filha bastarda foi casada com o licenciado Lopo Dias, na ilha da Madeira; e do dito Diogo Roiz, cavaleiro, filho do dito Gonçalaires, nasceu d’entre ele e Catarina Alvres, sua mulher, o bacharel Gonçalaires, que ora reside na vila da Ribeira Grande, desta ilha de São Miguel, por mestre de gramática, com provisão d’el-Rei. O qual Gonçalo Aires Ferreira, filho da dita Branca Afonso, sendo possuidor de muita fazenda, rico e abastado na ilha da Madeira, onde se chama a ribeira de Gonçalo Aires, antre Santiago e Nossa Senhora das Neves, da banda de levante, indo pela cumieira da serra até Nossa Senhora do Monte, onde se chama Corujeira, para o norte, parece por se criarem ali muitas corujas, correndo para onde se chama a ponta do Pargo, n’esta fama e estado faleceu, de idade de cinquenta anos, pouco mais ou menos; e antes de seu falecimento , estando o dito Gonçalo Aires na Corujeira, detrás de Nossa Senhora do Monte, no Verão, dormindo à sombra de uma árvore, que se chama cornozaleiro que dá fruta à maneira de ferrobo, e a árvore é semelhante à ameixieira, dizem que ouviu uma voz, sem ver pessoa nenhuma, que lhe dissera: — Gonçalo Aires, alevanta-te e vai para casa e faze testamento. O que ele fez e d’ali a trinta dias falecera; e estando doente, por o povo da ilha da Madeira conhecer dele ser tal, tão nobre e virtuoso como ele era, determinaram pedir a Deus com procissões, sendo seu serviço, lhe desse vida para remédio e sustentação da dita ilha, como ele até ali tinha feito; mas Deus, como sabedor de todas as coisas, o levou para si, para lhe dar mais prestes os prémios de seus merecimentos.
Este Gonçalo Aires teve três irmãos que na dita ilha habitaram com ele, todos homens de muito nome e estimados na conta de suas pessoas. Um deles havia nome Manuel Afonso Ferreira de Drumondo, outro Belchior Gonçalves Escórcia e outro Baltasar Gonçalves Escórcia Ferreira, dos quais foi povoada a ilha da Madeira e se intitularam em nome da Casta Grande, por descenderem de tão nobre casta e alta progénia, como foi de Ana Bela, Rainha de Escórcia, como o vi por brasão passado pelos Reis de Portugal e aprovado, descenderem da dita casa de Drumondo, em Escórcia. Estes ditos irmãos eram sobrinhos do primeiro Gonçalaires, companheiro de João Gonçalves Zargo, primeiro Capitão que foi na ilha da Madeira e todos eram parentes.
De Belchior Gonçalves Escórcio, um d’estes quatro irmãos que vieram de Escórcia à ilha da Madeira, descendeu João Gonçalves Ferreira que n’esta ilha de São Miguel se chamou da Serra d’Água, o qual veio da ilha da Madeira a esta de São Miguel, no tempo de uma grande peste que deu na dita ilha da Madeira, em uma casa d’esta Casta Grande dos Ferreiras, onde uma irmã de João Gonçalves Ferreira vivendo na ilha da Madeira, muito rica, em uma sua quinta com grande casa, onde tinham tantos escravos, que lhe não sabiam o nome, mandando-lhe uma pedra de linho fino, a mandou guardar com outro, e daí a algum tempo, fazendo-a tirar por uma escrava, d’antre o outro, em o tirando e descobrindo, deu mal de peste na escrava que o tirara e daí em os mais da casa; e depois se ateou no porto da cidade do Funchal e por toda a ilha da Madeira, que foi causa de se despovoar quase toda a terra, e esta foi a razão porque os mais dos grandes e principais homens se desterraram da ilha da Madeira e se foram, uns para as Canárias, e outros para outras partes, antre os quais, o dito João Gonçalves Ferreira, da Casta Grande, se veio a esta ilha de São Miguel com sua mulher Catarina Afonso e toda sua família, e com muitos escravos e escravas, vacas e muita fazenda de dinheiro, baixela de prata e muita tapeçaria, e se aposentou na vila da Ribeira Grande, perto, fora da vila, onde comprou terras em que mandava fazer sua lavoura. Aconteceu um domingo ir à igreja com sua mulher e filhos e escravos, de que andava bem acompanhado, e estando ouvindo missa se alevantou o fogo em sua casa e lhe queimou toda sua fazenda, de tal sorte que quando acudiu era tudo ardido, e acharam, depois do fogo apagado, as pranchas de prata da baixela, e outras peças que se fundiram; pelo que se veio morar abaixo à vila, em umas boas casas que comprou sobre a ribeira, junto da ponte, onde mandou fazer um engenho de serra d’água, como os da ilha da Madeira, com seus escravos e um João Lourenço, seu criado, que era mestre do dito engenho e endereçava os escravos.
Este João Gonçalves Ferreira, da Casta Grande, da Casa de Drumonde e da progénia dos Reis de Escórcia, teve de sua mulher Catarina Afonso três filhos legítimos e três filhas. O primeiro se chamou Afonso Gonçalves Ferreira, viveu na cidade da Ponta Delgada, sempre rico, com escravos e escravas e senhor de bons ginetes, que levava alguns à destra, quando saía em jogos de canas, com suas mochilhas de veludo e seus ricos arreios; casou com Grimaneza Luiz, filha de João Roiz, escrivão, homem mui principal e de nobre progénia, da qual houve três filhos e três filhas. O primeiro filho, Manuel Ferreira, faleceu solteiro; o segundo, João Roiz Ferreira, que agora é capitão de uma bandeira, casou com Maria Lopes, filha de João Lopes, de que tem filhos e filhas; o terceiro faleceu moço. A primeira filha, chamada Isabel Ferreira, casou com Diogo Gonçalves Correia, fidalgo, sobrinho do bisconde de Ponte de Lima e do bacharel Diogo Pereira, fidalgo, que foi desta ilha de São Miguel, ouvidor do Capitão muitos anos, dos Correias do Regno, que têm este apelido pelas razões ditas, quando tratei de Jácome Dias Correia, na progénia dos Gagos; da qual Isabel Ferreira e Diogo Gonçalves Correia nasceram dez filhos, faleceram seis, e os vivos são estes, sc., a primeira, chamada Grimaneza Ferreira d’Escórcia, que casou com Afonso de Goes, mestre da capela da cidade da Ponta Delgada, extremado não somente no canto e voz e engenho, mas em todas suas coisas, natural de Campo Maior, de Alentejo, filho de Gil Fernandes Caiola e de Joana Dias Mexia, dos de Castela, prima de Afonso Mexia veador que foi na Índia da fazenda e escrivão d’ela em Portugal, que está sepultado em São Domingos, em Lisboa, em uma rica capela à qual avinculou um morgado de mais de duzentos moios de renda; e o dito seu pai, natural da cidade de Elvas, foi casado três vezes: a primeira com uma irmã de Pero Lopes da Silva, feitor que foi de Frandes e embaixador de Castela; e a segunda, com outra nobre mulher; a terceira, com a dita Joana Dias Mexia, das quais todas houve vinte e tantos filhos e filhas; por cuja causa se veio o dito Afonso de Goes para esta ilha, com Francisco de Mesquita, casado com D. Francisca, filha de João Sotil, prima do mesmo Afonso de Goes, que tem seus brasões de muita nobreza, assim de uma, como da outra parte; o qual tem cinco filhas e um filho, afora três filhas e dois filhos que lhe faleceram, da dita Grimaneza Ferreira; e o dito Gil Fernandes Caiola, seu pai, foi por muitas vezes juiz e vreador da dita cidade de Elvas, que tem quatro mil vizinhos, e em Campo Maior, que tem mil e quatrocentos. A segunda filha de Diogo Gonçalves Correia e de Isabel Ferreira, chamada Maria Correia de Drumonde, casou com o doctor Gaspar Gonçalves, de tanto nome e fama na medicina , que quando o chamam para curar algum enfermo, se diz comummente que chamam a saúde; de que não tem filhos.
Outro filho de Diogo Gonçalves Correia e de Isabel Ferreira se chama Miguel Correia de Drumonde, o qual logo em moço mostrou nesta ilha o que havia de ser em homem, porque cometeu coisas grandes que os mais valentes, de madura idade, não ousam cometer; e sendo de quinze anos se foi para a Índia de Portugal com D. Henrique Gonçalves de Miranda, sobrinho do Cardeal, filho de D. Violante, que ia por capitão do Malabar, quando foi para lá, por Viso-rei, D. Luiz de Taíde , da primeira vez; do qual Viso-rei foi desejado e pedido ao dito capitão do Malabar, o qual lhe respondeu que o não levava por pagem, senão por filho, prezando-se muito dele, e tanto que quando os seus lhe queriam pedir alguma mercê, por sua intercessão a alcançavam. Chegado o dito Miguel Correia de Drumonde à Índia, a primeira cousa em que se achou foi na guerra e cerco que o Hidalcão pôs a Goa, onde se deu um combate que durou três dias, e não se via no campo senão sangue e fogo; ali fez o dito Miguel Correia muitas avantagens, indo diante do Viso-rei, que tomou por sua guarda a ele e outro de seu seio; ia Miguel Correia com uma rodela de aço em um braço e a espada na mão, cometendo os imigos, e por o verem os mouros bom soldado se inclinaram muito a ele, acometendo-o com maior fúria, antre os quais veio um alto de corpo e lhe tirou com uma escopeta, cujo pelouro lhe deu na rodela e saltando no nariz lhe caiu aos pés, sem lhe fazer nojo, e ele com muito ânimo e ligeireza arremeteu ao mouro e lhe tirou a vida, e por ser o mouro grande o levou pelas coxas e, revirando-o, o acabou. No qual fragante soltaram os mouros um touro afim de matar o Viso-rei, e Miguel Correia, dando um salto d’entre os outros, fez tal sorte que matou o touro, o que vendo o Viso-rei, o levou nos braços, dizendo: — hei por bem de vos alevantar por cavaleiro, com toda a solenidade que se deve a tais cavaleiros, porque nos maiores encontros sempre fizestes sortes de cavaleiro extremado, e el-Rei vos está devendo mercês.
A segunda cousa notável, antre outras muitas que não conto, em que se achou Miguel Correia de Drumonde, foi desta maneira. Mandando o Viso-rei D. Luiz de Tayde uma galé tomar outra de mouros, em a qual o capitão português pôs outros capitães em suas estâncias, e porque o capitão de uma estância da dita galé tardou ao embarcar, o capitão da galé, vendo que não vinha, perguntou se estava dentro na galé Miguel Correia; dizendo-lhe que sim, o fez capitão da estância que o não tinha, não tardando muito espaço de vir o capitão daquele lugar, e vendo que o tinha o dito Miguel Correia, lhe disse: — senhor, sois muito moço para esse lugar; ao que respondeu Miguel Correia: — se quereis saber se sou moço, chegai para cá e sabe-lo-eis, porque sou tão bom fidalgo como vós. Ao que acudiu o capitão da galé e os pôs em paz, ficando o Miguel Correia no lugar, por capitão daquela estância; e chegando a galé dos mouros, pelejou varonilmente, e da sua estância, com um montante nas mãos, saltou na galé dos contrairos e fez grande estrago neles, até os acabar de vencer; mas d’ali o trouxeram quase todo atassalhado de feridas, com as armas metidas pelo corpo, de tal maneira que na primeira cura que lhe fizeram, se gastou grande parte de um toucinho em mechas. Além de outras coisas notáveis que fez na Índia, como foi um desafio que teve com um valente soldado e o venceu nele, e rendeu outra vez em um caminho, a dois arrenegados e os levou presos a uma fortaleza. Agora dizem alguns que está casado, muito rico, na China; outros que em outra parte da Índia.
O segundo filho é Gabriel Ferreira, de tanto ânimo que, se acertara de ser são, fora dos melhores soldados de muitas partes.
A segunda filha de Afonso Gonçalves Ferreira se chamou Constança Roiz Ferreira, que casou primeira vez com Sebastião Fernandes, neto de Afonso Anes, dos Mosteiros, que tinha seu morgado; a segunda vez, com Francisco Correia, e de nenhum houve filhos.
A terceira filha faleceu moça.
O segundo filho de João Gonçalves Ferreira, da Serra d’Água, se chamou Pero Gonçalves Ferreira, o qual casou com Francisca Velha Falcoa, de que teve uma filha e dois filhos.
O terceiro filho, chamado Baltasar Gonçalves Ferreira, foi sacerdote de missa e faleceu na ilha da Madeira.
A primeira filha de João Gonçalves Ferreira, da Serra d’Água, se chamou Catarina Escórcia, a qual casou na Ribeira Grande com Francisco Afonso das Côrtes, de que houve dois filhos e duas filhas, sc., Manuel Ferreira e o licenciado Simão Pimentel, pregador, que teve o púlpito da cidade e depois o de Vila Franca, por provisão d’el-Rei, muitos anos; a primeira filha se chamou Isabel Ferreira, que faleceu solteira, e a outra Ana Escórcia, que foi casada com Diogo Dias Brandão , que morou na Ponta da Garça.
A segunda filha de João Gonçalves Ferreira, da Serra d’Água, se chamou Inês Ferreira, que casou com André Martins, do Morro da Ribeira Grande, de que houve um filho, chamado Domingos Ferreira, que na Índia de Portugal é capitão do mar, e outros filhos.
A terceira filha de João Gonçalves Ferreira, da Serra d’Água, se chamou Lianor Escórcia, a qual não foi casada.
O avô de Isabel Ferreira e pai de Grimaneza Luiz, mãe de Isabel Ferreira, sogra do doctor Gaspar Gonçalves, se chamava João Roiz Cavão, escrivão da Câmara, o qual era parente do avô dos filhos de João Fernandes Raposo, que morou acima do mosteiro de Santo André.
Teve João Roiz Cavão, de sua mulher Isabel Gonçalves, muitos filhos e filhas: o primeiro filho foi Belchior Roiz, escrivão que foi da Câmara, muitos anos, na cidade da Ponta Delgada, e pai do doctor João Roiz, pregador do Cardeal e seu visitador, e depois visitador do Arcebispo de Lisboa.
O segundo filho se chamou Bartolomeu Roiz que faleceu solteiro.
A primeira filha, Margarida Roiz, casou com Diogo Vaz Carreiro, irmão de Pero Gonçalves Delgado, de que houve filhos e filhas.
A segunda filha de João Roiz Cavão, chamada Guiomar Roiz, casou com um homem nobre, de que teve filhos e filhas.
A terceira filha se chamou Grimaneza Luiz, que casou com Afonso Gonçalves Ferreira, como já tenho dito. A quarta filha, Ágada Roiz, casou com Rui Vaz Badilha, de que houve um filho que faleceu menino. A quinta filha, Constança Roiz, que casou com um homem que a levou para Portugal, de que tem um filho bom pregador.
A sexta filha, Maria Roiz, casou com António Gonçalves, dos Poços, de que houve um filho e uma filha que estão casados e moram nos mesmos Poços.
A sétima filha, D. Isabel, casou primeiro com Diogo Fernandes, e a segunda vez com Ibonel de Betencor, filho de Gaspar Perdomo, e de nenhum dos maridos teve filhos.
Teve este João Ferreira um filho natural que trouxe da ilha da Madeira, chamado Gaspar Gonçalves, que faleceu no mandado de Deus, sendo casado com uma irmã de Francisco Afonso das Côrtes, de que teve dois filhos.
Teve mais João Gonçalves Ferreira uma filha natural, que trouxe da ilha da Madeira, chamada Branca Gonçalves, que foi casada com Afonso Delgado, e faleceu na vila da Ribeira Grande, sem ter dele filhos e dantes foi casada com Bartolomeu Fernandes, filho de Fernão d’Afonso de Paiva, irmão de João Fernandes, escrivão do eclesiástico, de que houve uma filha, que casou com Baltasar Dias de Mendonça, natural do lugar de Santo António.
Têm os Ferreiras, no escudo de suas armas, o campo d’ouro e três faixas ondadas de vermelho, e por diferença uma brica azul e n’ela um M de prata; elmo de prata, aberto, guarnecido de ouro, e paquife de ouro e de vermelho; e por timbre meio libréu de vermelho com sua coleira de ouro.
Veio também a esta ilha, de Portugal um Gaspar Ferreira, homem nobre e discreto que teve aqui as rendas d’el-Rei e fez as nobres casas que agora são do grão capitão Francisco do Rego de Sá e de sua mãe D. Margarida de Betencor. O qual Gaspar Ferreira não sei se era parente destes outros Ferreiras acima ditos, porquanto têm diferença nas armas de seus brasões. Teve este Gaspar Ferreira, de sua mulher Isabel de Braga, uma filha que trouxe de Portugal e um filho natural, chamado Baltasar Ferreira, muito valente homem e o mais forte cavaleiro sobre um cavalo, que quantos houve nesta ilha, o qual casou com Isabel Furtada, filha de João Luiz e de Francisca Furtada, de que houve os filhos seguintes: o primeiro, Gaspar Ferreira, que casou com uma filha de Manuel Martins, escrivão dos cativos; o segundo filho, chamado Baltasar Ferreira, valente homem, ainda solteiro; o terceiro, Belchior Furtado, bom sacerdote e grande cantor, músico e discreto, capelão da Rainha D. Catarina. Teve também Baltasar Ferreira, de sua mulher Isabel Furtada, duas filhas: a primeira, Francisca Furtada, casou com um irmão de Hércules Barbosa; a segunda, Inês Ferreira, casou com Manuel Cabral, filho de Nuno Gonçalves Botelho e neto de Jorge Nunes Botelho, de que tem muitos filhos.
Teve Gaspar Ferreira uma filha natural, chamada Leanor Ferreira, que casou, primeira vez, com Fernão Lourenço, de que houve filhos, Cristóvão Ferreira, beneficiado que foi na vila da Ribeira Grande, e Fernão Lourenço que casou com Leonor da Fonseca, e uma filha, chamada Breatiz Ferreira que casou com Manuel Pires, de que tem muitos filhos.
E outra, por nome Isabel Ferreira, que casou com Hércules Barbosa, lealdador-mor dos pastéis, de que tem muitos filhos. E casou segunda vez com Manuel Machado, mestre das obras d’el-Rei, de que teve uma filha, chamada Margarida Machada, que casou com Gaspar de Viveiros, morgado; outra, por nome Francisca Ferreira que casou com Gaspar de Teve, homem de grandes espíritos, capitão de uma companhia na cidade da Ponta Delgada.
Teve mais Gaspar Ferreira, de sua mulher Isabel de Braga, uma filha que disse atrás vir de Portugal, chamada Catarina Ferreira, que casou primeira vez com António Furtado, de que não teve filhos; e a segunda vez com Gaspar do Rego, filho de Aires Pires do Rego, de que houve uma filha, chamada Breatiz de Santiago, freira professa no mosteiro de Jesus, da vila da Ribeira Grande.
Casou Gaspar Ferreira, segunda vez, com Francisca Furtada, de que não houve filhos.
Tinha em seu brasão um escudo com o campo de vermelho e quatro faixas de ouro, e por diferença uma brica azul e nela um anel de prata, elmo de prata, aberto, guarnecido de ouro, paquife de ouro e de vermelho, e por timbre uma ema com uma ferradura de ouro no bico.
Veio a esta ilha, de Portugal, da cidade de Viseu, Afonsalvres do Amaral, e casou na vila da Ribeira Grande com Isabel Fernandes Correia, filha de Vasco Fernandes e de Caterina Correia, homem abastado que serviu aqui de meirinho do eclesiástico, muitos anos. Era homem grande de corpo, grave, discreto, muito gracioso e apodador, que viveu sempre rico, e teve grande curral de gado vacum, com seu pastor que o pastorava na vila da Ribeira Grande.
E, segundo se mostra por um estromento autêntico, era fidalgo da geração dos Mendes, Amaraes e Vasconcelos, porque era filho legítimo de Jorge Mendes de Vasconcelos, morador que foi no Couto de Baixo, o qual era filho de Lopo Pais Cardoso, que foi homem fidalgo da casa d’el-Rei, muito rico, que sempre viveu à lei de fidalgo, trazendo consigo continuamente três a quatro homens a cavalo, e por ser da dita qualidade, foi casado com Ginebra Mendes de Vasconcelos, filha legítima de João Mendes de Vasconcelos, comendador de Langoiva, e neta de D. Mem Roiz de Vasconcelos, mestre que foi de Santiago e bisneta de Gonçalo Mendes de Vasconcelos, alcaide-mor de Coimbra e senhor de muitas terras; o qual Gonçalo Mendes foi casado com D. Tareja, neta d’el-Rei D. James d’Aragão, e d’antre ambos nasceram três filhos, sc., Rui Mendes de Vasconcelos, morgado de Figueiró dos Vinhos e Pedregão, e o dito D. Mem Roiz de Vasconcelos, mestre de Santiago, e o dito João Mendes de Vasconcelos, comendador de Langoiva, pai da dita Ginebra Mendes, d’onde descende o conde de Penela e D. Diogo de Sousa, Arcebispo que foi de Braga, e D. Guiomar Coutinha, condessa de Cantanhede; e por linha direita o dito Jorge Mendes de Vasconcelos, do Couto, que de sua mulher Branca Soares d’Andrade houve dois filhos, o primeiro Afonso Alvres do Amaral, o segundo, Manuel de Vasconcelos, o qual ficou em Portugal, onde vive à lei de fidalgo; e seu irmão Afonso Alvres do Amaral se veio da cidade de Viseu a esta ilha, em tempo do Capitão Rui Gonçalves da Câmara, segundo do nome.
Teve Afonsalvres do Amaral, de sua mulher Isabel Fernandes Correia, quatro filhos e uma filha. O primeiro Baltasar do Amaral, serviu também de meirinho do eclesiástico nesta ilha e de almoxarife; casou duas vezes, a primeira com Isabel Nunes, viúva, e não teve filhos; casou segunda vez com Breatiz do Monte, filha de Pedro Anes, mercador, e de Suzana do Monte, moradores na Ribeira Grande, de que não tem filhos. O segundo filho de Afonsalvres do Amaral, chamam Belchior do Amaral, casou com Maria Gonçalves, filha de João Gonçalves Caldeira e de Breatiz Pires, moradores na Lomba da dita vila, não tem filhos nenhuns, vive honradamente e é homem discreto e bom cavaleiro. O terceiro filho de Afonsalvres, chamam Cristóvão de Vasconcelos, bom cavaleiro e de grandes espíritos, casou com Breatiz Correia, filha de Miguel Vaz e de Isabel de Sousa, de que não houve filhos; casou segunda vez com Susana Afonso, filha de Jorge Afonso e de Inês Rois, da Ponta da Garça, de que não teve filhos, nem ainda os tem da terceira mulher com que casou, chamada Maria Vieira, filha de Manuel Vieira, morador no lugar dos Fenais da Maia. O quarto filho de Afonsalvres, chamado Jorge Mendes, casou com Branca da Costa, filha de Roque Roiz, escrivão que foi da Câmara da Ribeira Grande, e de Francisca da Costa; tem três filhas, duas solteiras e a mais velha, chamada Ana da Costa, casada com Rui Privado, filho de Duarte Privado, juiz que foi dos órfãos na dita vila, e de Margarida de Paiva, de que tem filhos de pouca idade.
A filha de Afonsalvres do Amaral, por nome Maria Mendes, casou duas vezes, a primeira com Pero Vaz, mercador, que faleceu em Itália, sem ter filhos; a segunda, com Belchior Gonçalves Caldeira, filho de João Gonçalves Caldeira e de Breatiz Pires, de que houve muitos filhos e filhas, dos quais são vivos dois filhos e uma filha; dos filhos, o primeiro, Bartolomeu do Amaral, casou com Francisca Carneira, filha de João Lopes e de Simoa Tavares, da qual tem um filho e uma filha; o segundo filho de Maria Mendes foi para as Índias de Castela, solteiro; uma filha que faleceu, chamada Isabel Correia, casou com Francisco Fauste, castelhano, que veio à vila da Ribeira Grande no tempo que se fazia a pedra hume, por mandado d’el-Rei, por mestre d’ela, e indo com o provedor Francisco de Mares para Lisboa, o mataram os franceses em um navio com o dito Francisco de Mares e com outros, e lhe ficou um filho, pequeno; a outra filha de Maria Mendes, chamam Breatiz de Vasconcelos, casou com Fernão d’Afonso, morador na Chada Pequena, de que houve alguns filhos; todos vivem ricos e abastados, com cavalos na estrebaria e escravos, à lei de nobreza, e são bons cavaleiros e dos da governança da terra. E por parte dos Mendes de Vasconcelos, têm também as suas armas, que são um escudo preto com três faixas barradas e contrabarradas de preto e de vermelho, com sua diferença.
Houve nesta ilha um afamado pregador e grande letrado, da ordem de São Hierónimo, parente dos Amarais, chamado Frei António do Amaral, que com provisão d’el-Rei e bom ordenado pregou muitos anos nesta terra e principalmente na cidade da Ponta Delgada, onde residia o mais do tempo; era homem de muitas letras e virtudes, de grande gravidade, com que curou muitas almas e fez muitas pazes e amizades entre ânimos diferentes, e edificou a muitos com sua doutrina e bom exemplo; homem que todos temiam nesta terra, porque não era aceitador de pessoas. Todos têm as armas dos Amarais do Regno, afora as dos Mendes e Vasconcelos, que tenho já ditas.
Antes do dilúvio de Vila Franca, poucos anos, em tempo do Capitão Rui Gonçalves da Câmara, pai de Manuel da Câmara, veio a esta ilha de S. Miguel um Gregório Roiz Teixeira, com sua mulher Isabel Afonso, homem honrado, dos Teixeiras da Ilha da Madeira, parente dos Capitães de Machico, e aposentou-se na vila da Ribeira Grande, da parte do norte, o qual houve de sua mulher os filhos seguintes: O primeiro, chamado Gregório, faleceu solteiro; o segundo, Duarte Gregório, casou com Catarina Martins, filha de Estêvão Martins, morador na mesma vila da Ribeira Grande, da casta dos Martins, o qual Duarte Gregório foi muito tempo escrivão na dita vila, e teve filhos, Gregório Roiz Teixeira, homem honrado, da governança e virtuoso, que casou com Simoa de Moraes, filha de Gonçalo Afonso, morador que foi na Ribeira Seca, honrado e abastado, e não houve filhos.
O segundo filho de Duarte Gregório, por nome Belchior Rodrigues Teixeira, discreto e aprazível e de grandiosa condição, dos principais da governança, casou com Maria Gonçalves, filha de mestre João, da qual não teve filhos e faleceu em Lisboa.
O terceiro filho de Duarte Gregório chamam Baltazar Roiz Teixeira, dos principais e da governança e virtuoso como seus irmãos, casou com Guiomar Alvres, filha de Lopo Dias Homem e de Guiomar Alvres, sua mulher, da qual tem alguns filhos.
Teve mais o dito Duarte Gregório uma filha chamada Catarina Gregória que foi casada com João Gonçalves, filho de Vasco Afonso, da qual houve alguns filhos, Nicolau de Paiva e outros.
A segunda filha de Duarte Gregório chamam Brázia Gregório, que foi casada com Amador de Sousa, que faleceu em Rabo de Peixe, onde morava, filho de Diogo de Sousa, homem honrado, da governança, da qual teve alguns filhos.
A terceira filha de Duarte Gregório, chamam Ginebra Gregória, que foi casada com Gabriel Coelho, filho de André Afonso, da Praia, de que não houve filhos.
O terceiro filho de Gregório Roiz Teixeira chamam João Gregório que foi da governança na vila da Ribeira Grande, casado com Maria Pires, da ilha de São Jorge, de que houve alguns filhos, e um, por nome Manuel Roiz, mora na vila do Nordeste, onde casou honradamente, e é lá dos principais da terra e da governança d’ela.
Teve mais o dito Gregório Roiz uma filha, que trouxe consigo da ilha da Madeira, casada com João Fernandes Lordelo, valente homem que faleceu no Brasil com Baltazar Vaz, sendo capitão Pero do Campo, e teve alguns filhos.
A segunda filha de Gregório Roiz Teixeira chamavam Clara Gregória, também casada da ilha da Madeira, quando veio seu pai, com Luiz Mendes Potas, que era homem fidalgo e foi da governança da vila da Ribeira Grande, de que teve alguns filhos, um dos quais, por nome Baltasar Mendes, foi beneficiado em Vila Franca do Campo e bom clérigo, e outro casado, Gaspar Mendes, casado com Magdalena Delgada, filha de Gonçalo Vaz Delgado, morador na Ribeira Grande — irmão de Pero Gonçalves Delgado da cidade da Ponta Delgada —, e de Catarina d’Almeida, filha de Pero Teixeira.
Teve mais Luiz Mendes Potas outra filha que casou com Pero Lourenço de Sousa, morador na Ribeira Seca, termo da Ribeira Grande, cavaleiro de África, e da governança da mesma vila, de que não tem filhos.
Outra filha foi casada com Gaspar Dias, da Ribeira Chã, termo da Vila Franca, de que teve alguns filhos, dois dos quais foram para as Índias de Castela, e uma filha, chamada Crisóstoma de Lordelo, que casou com Gonçalo Coelho, filho de Gabriel Coelho.
A terceira filha de Gregório Roiz Teixeira se chamava Brázia Gregória, e casou no Nordeste com Cristóvão Fernandes, homem honrado, da governança, da qual houve alguns filhos, um dos quais, chamado Diogo Fernandes, é sacerdote, beneficiado na mesma vila do Nordeste.
A quarta filha de Gregório Roiz Teixeira, por nome Catarina Gregória, casou com Pero Vaz, o Mestre, que curava por virtude e veio a esta ilha da de Santa Maria, e lá teve irmãos e parentes, gente honrada; o qual Pero Vaz foi primeiro casado com Guiomar Alvres, irmã de Catarina Correia, da Alagoa, mãe de Simão Correia, da qual primeira mulher não houve filhos machos.
Teve Pero Vaz, mestre, da dita Guiomar Alvres, primeira mulher, uma filha, chamada Guiomar Alvres, que foi casada com Lopo Dias Homem, do hábito de Santiago, de que houve um filho que faleceu mancebo, e três filhas, uma chamada Francisca de Figueiredo, casada com Baltazar Tavares, filho de João Tavares, morgado de seu avô Rui Tavares, de que tem filhos, Leonel Tavares, Baltasar Tavares; a outra, chamada Margarida de Figueiredo, é casada com Jorge Roiz, de que tem filhos; a outra, chamada Guiomar Alvres, casou com Baltasar Roiz Teixeira, como atrás fica dito.
Houve também o dito Pero Vaz, da primeira mulher, uma filha, chamada Ana Pires, que casou com André Martins, homem honrado, da casta dos Martins, morador no termo da Ribeira Grande, a qual, falecido ele, esteve depois muitos anos entrevada, de que teve oito filhos muito virtuosos, sc., duas filhas que casaram, uma com Clemente Furtado, e outra com António da Costa, filho de João Lopes, uma que faleceu, e duas ainda solteiras, e três honrados filhos, sc., Manuel Vaz, que casou na ilha de Santa Maria, e João Feio e António Martins, solteiros.
Depois de viúvo Pero Vaz, o Mestre, casou segunda vez com Catarina Gregória, de que houve um filho, chamado João Roiz, Panelas de Pólvora, muito valente homem, que na Índia, em serviço d’el-Rei, ganhou este apelido, como adiante direi.
Houve mais Pero Vaz, da segunda mulher, uma filha, chamada Francisca Feia, que casou com António de Braga, irmão de Pero de Braga, cidadão do Porto, pai de Gaspar de Braga, da Ribeira Grande, da qual houve dois filhos, sc., João Ferreira de Braga, que casou na Índia, muito rico, homem de que os governadores fazem muita conta e vai agora por capitão, por três anos, do navio do trato para Sofala; e outro chamado Pero de Braga, que também casou na Índia, onde andam em serviço d’El-Rei, homens de muito preço que imitaram bem seu tio, João Roiz Panelas de Pólvora. Houve mais Francisca Feia, de seu marido António de Braga, duas filhas, uma chamada Joana Ferreira, que casou com João Roiz Carreiro, muito nobre, filho de Bertolameu Roiz, da Serra, de que houve muitos filhos, um dos quais, chamado António de Braga, é frade capucho na Índia, onde faz santa vida; e a outra filha de Francisca Feia se chama Petronilha de Braga, mulher de muita virtude, casou com Manuel Vieira, dos Fenais da Maia, nobre e rico e abastado.
Outra filha teve Pero Vaz, da segunda mulher, casada com Gaspar Pires, da Achada, de que teve alguns filhos.
A quinta filha de Gregório Roiz Teixeira, chamada Branca Afonso, foi casada com Gaspar Martins, home da governança, da qual houve uma filha que casou com João Roiz Cernando, de que teve filhos: um, Gaspar Roiz, casou na cidade com uma filha de Francisco Barbosa; outro casou na ilha da Madeira, na Calheta; e outro solteiro; e três filhas, uma casada com Lourençaires, filho de Rui da Costa, morador na cidade da Ponta Delgada, de que houve filhos; e outra casou com Francisco Pires Paiva, filho de Sebastião Pires, da Ribeira Grande, de que tem filhos; e outra casou com um filho de Francisco Lobo, da cidade.
Teve mais Gaspar Martins outra filha de Branca Afonso, sua mulher, chamada Simoa Martins, que foi casada com António Alvres, escrivão na Ribeira Grande, de que houve muitos filhos e um deles, por nome Amador Alvres, serve o ofício do pai, na mesma vila.
Teve mais Gaspar Martins, de sua mulher Branca Afonso, um filho chamado Simão Roiz, que casou com Concórdia Afonso, enteada de Pero Teixeira, filha de João Afonso, que foi escrivão na vila da Alagoa.
Teve Gaspar Martins outro filho, clérigo, que está na ilha da Madeira, e outro chamado João Roiz, que casou na vila d’Água do Pau.
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