Esta ilha de São Miguel tem tão grossa e fértil terra, que pelo grande rendimento dela se pode chamar mina de ouro, principalmente pelo que rende em pastel que dá, cuja semente dizem que mandou trazer de Tolosa Rui Gonçalves da Câmara, terceiro Capitão, e outros dizem que o quinto. E os moradores desta ilha, que roçavam os matos e queimavam a madeira, além do trigo que semeavam nas roças, começaram também semear pastel, o que se dava muito forte e viçoso. Somente o trigo em alguns lugares com as névoas se tomava, e como correu a fama do muito trigo e pastel que dava esta terra, acudiu muita gente do Reino a morar nela e haverem dadas de terras, e também muitos castelhanos de Córdova e Sevilha e de outras partes de Castela, à fama do pastel que dantes não havia senão em Tolosa, de França, e traziam mercadorias de toda sorte, alguns dos quais ficaram na terra que agora têm seus netos e bisnetos. Vendo os moradores que se dava bem o pastel e que era grosso o trato, vieram fazer contrato com o Infante D. Henrique
, o que parece não poder ser, antes parece mais certo fazerem o assento e contrato com o Rei, que então era, que Ihes desse a semente do pastel e pedras dos engenhos para o moer, porque madeira não Ihe faltava, por ser muita.
Outros dizem que o engenho feito e a costa segura de cossairos, e que Ihe pagariam dízimo e vintena por Ihes ter segura a costa e dar sementes e engenhos. O qual se paga, hoje em dia, que de cem quintais vêm dez ao dízimo e ficam noventa, e de noventa vem a vintena, que são quatro quintais e meio, e são assim, de cem quintais, catorze e meio, de que houve escrituras e forais, que depois dizem ser escondidos, porque nesta ilha não era como na ilha da Madeira, onde o açúcar alevantava e engrossava muito os homens, e aqui somente estavam viçosos.
Por isso o Infante e el-Rei faziam favores aos moradores, que tinham foral, de Ihe não pagarem dízimo de muitas coisas miúdas, para assim povoarem a terra e não sairem dela. Mas, pelo tempo em diante, desapareceu o foral e contrato antigo, e, por às vezes os oficiais de el-Rei darem mau aviamento de moendas de engenhos aos lavradores, veio cada um fazer em sua fazenda engenho particular à sua própria custa, pelo que cessaram os engenhos de el-Rei, mas o tributo do pastel ficou inteiro de dízimo e vintena para sempre sobre os cansados lavradores. E ainda que de tudo o que entra e sai nesta ilha, vindo de fora do Reino, ou indo para fora dele, se paga de dez um, dos pastéis se paga a el-Rei dízimo, vintena e saída, que vem a ser vinte e quatro por cento, sc., de cento e vinte e quatro se pagam os vinte e quatro e se carregam os cento, que é quase o que se paga a Sua Majestade a quinta parte; quando se carrega pastel, em que entram os direitos do lavrador e mercador, sc., o lavrador paga de sete um, a que chama dízimo e vintena, e o mercador, por saída de dez um. E além destes direitos se paga mais para a Fortaleza, de todo pastel e açúcar que se carrega, a dois por cento; como tudo se contém no foral, escrito no Livro do Tombo da alfândega da cidade da Ponta Delgada, concedido por el-Rei D. João, terceiro do nome, feito aos trinta de Julho de mil e quinhentos e vinte e seis anos, que é o mesmo foral da ilha da Madeira.
Pelo grande rendimento do pastel , pode ter esta ilha nome de minas de ouro, porque as da prata muitos dizem que as têm, pela muita marquesita, que nela se acha, que é sinal de haver prata debaixo da terra, direito da tal escória, ainda que pode não haver prata, havendo marquesita, por não a fitarem bem direito os raios do sol ou da lua nesta terra, para criar, fazer gerar e refinar nas entranhas dela a prata pura e ficarem só nos vieiros das minas a marquesita e escória por cozer e apurar, parecendo prata sem o ser; sendo o pastel mais fina prata ou ouro, sem o parecer, porque, segundo já tenho dito, que dizia João Lopes Henriques, magnífico, prudentíssimo e riquíssimo mercador, um moio de terra das mais fértiles desta ilha, semeada de trigo, dá ordinariamente quinze moios, de que el-Rei tem um moio e meio de dízimo, que vale um ano por outro quinze cruzados, e esta mesma terra, semeada de pastel, faz muitos custos e despesas, e tendo os lavradores quem Iho compre e Ihes dê o necessário para o fazerem, soe a dar trezentos quintais de pastel, do qual el-Rei tem de direitos a quinta parte, que são noventa e tantos quintais, que valem mais de duzentos e cinquenta cruzados.
No princípio, nas terras mais fracas, se dava o pão e deitavam trigo velho fora, para recolher o novo, e as terras do Morro da Ribeira Grande, e algumas outras, todas eram pampilhal bravo e ervilhaca, almeirão, saramago e junça brava, as quais terras vieram a quebrar com fazerem pastelais nelas, dando cada alqueire de terra, cada colhedura, quatro carradas de folha, que passava de quintal cada carrada, tendo uma carrada quintal e meio, e quintal e arroba; o qual se moía na Ribeira Grande em dois engenhos de água que estavam dentro na vila e em outras partes, em engenhos de besta, aos quais levavam o pastel em sebes. E valia naquele tempo a cento e cinquenta e a nove vinténs o quintal, mas agora não dá um alqueire de terra do Morro, e de outras boas da ilha, mais que uma carrada cada colhedura, e o mais dele azouga e se perde e seca. E vale ao tempo presente o quintal em bolos a setecentos réis e a dois cruzados; o quintal granado, que valia a cruzado, comummente, vale agora a três e a quatro, que vêm os ingreses buscar, carregados de roupa e dinheiro, sendo tão caro; e quando valia barato Iho levavam os mercadores desta ilha a Inglaterra, — tanta mudança faz o tempo nas coisas e preços e comércio delas. Como também vale agora um boi dez mil réis, que naquele tempo antigo valia mil réis e menos. E havendo tanta lenha, já agora queimam muitos bosta de boi, arestas, palha de tremoços, bestiagas e silvas. E vale a arroba do azeite, de mais pequena medida, a dois cruzados, valendo dantes e de mor medida a dois tostões e a menos. E um porco, que valia um cruzado, vale agora três mil réis e dez cruzados. A mesma carestia tem a carne, o vinho, o mel e as mais coisas, que por diversas eras e anos tiveram diversos preços, até se empinarem tanto que não há quem lá chegue. O pastel de soca que fica para o segundo ano, depois de semeado, é mais fino e melhor que o do primeiro ano e sobre todo é melhor o pastel de roças novas em terra de mato, novamente roçado e queimado, para se fazer de novo o primeiro pastel nela, e a todo dão quatro ou cinco colheduras, cortando a folha com toucinos , para depois a moerem.
É o pastel um quarto género de alfaces, de que usam os tintureiros para dar cor azul, sobre a qual se dá melhor a cor preta; como diz dele Plínio: — est quartum genus lactucarum glastum vocant, quo infectores lanarum utuntur; o qual, apanhado em folha, se moe nos engenhos que disse, e está em um tabuleiro a massa dele até o outro dia, escorrendo algum sumo, e então são obrigados os lavradores a o embolarem, fazendo uns bolos redondos, cada um quanto podem compreender ambas as mãos no meio, e, depois de embolado, se põe a enxugar em uns caniços ao sol e ao vento, e seco se guarda em casa até o mês de Janeiro, Fevereiro e Março, em os quais o pesam e recebem os mercadores e recolhem em suas tulhas ladrilhadas e retocadas, onde quebrando aqueles bolos, a cada dez quintais, pouco mais ou menos, botam uma pipa de água, com que o trazem trinta dias ganhando grande quentura e virando-o cada dia. Passados os trinta dias por algum espaço de tempo, o viram cada dois dias, e depois o vem a virar o granador, que o grana dois dias na semana até se enxugar, e depois o vendem os da terra aos de fora ou aos da mesma terra; se não vai bem enxuto Ihe dão suas quebras.
Dizem que o primeiro que fez pastel nesta ilha foi um Govarte Luís , estrangeiro, de nação framengo, que viveu em Vila Franca do Campo. As cabras são doidas por pastel e comendo-o endoidecem e morrem, e o pastel as mata; assim que o pastel que dá vida aos lavradores e mercadores, esse a tira às cabras, pois Ihe causa sua morte. Adiante direi mais largo do princípio do pastel nestas ilhas.
Da muita abundância de vinho de fora e da terra, e de outras coisas diversas, e de alguns antigos costumes que houve nesta ilha, não me atrevo, Senhora, contar com ordem; sem ela, as irei dizendo, como me forem lembrando.
Ainda que em Portugal e Castela, e outras partes, se dá o vinho em terras lavradias, nesta ilha de São Miguel não costumam fazer vinhas senão sobre pedras que, no tempo passado, com terramotos e incêndios de enxofre e salitre, e outros materiais, brotaram de debaixo da terra e correram em ribeiras de fogo sobre a superfície dela, as quais, resfriadas da quentura com que corriam, ficaram feitas pedras e áspera penedia, sobre a qual pelo tempo em diante se criou e nasceu basto e altíssimo arvoredo, o qual roçando depois os moradores desta ilha, por aqueles biscoitais não prestarem para terra de pão nem de outros legumes, prantaram neles vinhas.
Na era de mil e quinhentos, pouco mais ou menos, aconteceu porem fogo a uns bardos dentro nos biscoitos do lugar de Rosto de Cão, o qual se ateou tanto que foi ardendo pelas raízes dos paus e queimando muita madeira, fazendo grande destruição; e por dito de um João Gonçalves, Fadigas por alcunha, homem antigo de mais de cem anos, que o veio dizer à Praça, bradando que se perdia um grande tesouro em deixarem arder aqueles biscoitos, acudiram a isto os oficiais da Câmara da vila da Ponta Delgada, e atalharam ao fogo, fazendo um valado grande, arrancando muita madeira para que não passasse adiante; e por dito deste João Gonçalves Fadigas se prantaram as primeiras vinhas naqueles biscoitais, que então arderam e nada valiam, que agora são um grande tesouro, que ele bradava que neles se perdia.
Foi tido em tão pouca conta o vinho da terra desta ilha, que Jorge Gonçalves Cavaleiro, morador na vila da Ribeira Grande, mandou com ele amassar cal para umas casas que fazia na mesma vila. E agora com o da ilha da Madeira amassam gesso, tanto é o que Ihe deitam.
Nem o vinho da terra se faz bom, senão a poder de gesso, ou com caldeiras do mesmo vinho cozido e deitado com o mais.
Deu esta ilha, em ano de boa novidade, perto de duas mil pipas de vinho, sc., setecentas na cidade, outras tantas na vila da Alagoa, quatrocentas na Ribeira Grande, e as mais no Nordeste e Povoação, e em toda a ilha. Agora, em bom ano, dá quase cinco mil pipas.
Valia o vinho da ilha da Madeira a oito réis a canada; depois a dez e a doze, e no ano de mil e quinhentos e quinze valeu a treze réis; depois foi subindo o preço até cinquenta, sessenta, setenta e oitenta réis, como valeu o ano de mil e quinhentos e oitenta e nove .
Na era de mil e quinhentos e setenta e quatro anos, sendo nesta ilha, na cidade da Ponta Delgada, juiz de fora o licenciado Gaspar Leitão, digno de grandes cargos, se achou por conta, pelo rendimento da imposição da dita cidade que, sem se arrendar, se mandou arrecadar pela Câmara, que saíram desta ilha para fora dela, de vinhos que vieram de outras partes, afora os que ela deu, que foram muitos, doze mil cruzados, convém a saber, seis mil para a ilha Terceira e outras ilhas de baixo, de vinhos que delas vieram, e cinco mil para a ilha da Madeira e mil para Portugal. Foi este ano em que os homens trabalhadores levavam de jornal por dia a dois tostões, dando-lhe a farinha feita, carne e pescado, pedindo um toucinho para cozer na carne, e outro vinho da ilha da Madeira, enjeitando o da terra, afora outras peitas; e, tendo prometido a muitos, iam trabalhar com o primeiro que os ia depois buscar, sem pejo nenhum de faltarem com os outros, tanta pressa havia no trabalho dos pastéis e de outras coisas. Mas nem por isso ficaram mais ricos, porque tudo comiam e bebiam, seguindo ainda a fartura em que esta terra ficou costumada e aforada de seu primeiro princípio, tão abondoso , e farto.
Dizia Rui Fernandes, beneficiado da igreja Matriz de São Sebastião da cidade da Ponta Delgada, que no tempo antigo não se sentia nesta ilha necessidade alguma, e davam trinta codornizes por meio vintém e que, tornando da igreja pelo adro para sua casa, muitas vezes levava na sobrepeliz uma e duas dúzias de galinhas e adens, que entre a muita e crescida erva nele achava. E tanta era a abundância da terra que, no octavário dos Santos, muitas vezes deitavam fora e derramavam o vinho que na igreja ofertavam, da ilha da Madeira, o dia de antes, para recolherem nos potes o que novamente vinha. Era tanta a fartura de todos os moradores desta ilha que não havia quem comprasse coisa alguma, nem se achava pobre a que se pudesse dar uma esmola. Carne de vaca, nem de porco, muitos de fartos a não comiam; até das codornizes se tinha fastio, como os filhos de Israel do maná no deserto, porque dando-as a comer aos moços e criados de casa, choravam e se aqueixavam, dizendo: — sempre nos hão-de dar a comer codornizes. E agora choram, porque ainda os não fartam de cebolas ou abóbora.
Na era de mil e quinhentos e dez valia a canada de mel de canas, da ilha da Madeira, a dez réis, e do de abelhas a vinte.
Valendo o vinho da ilha da Madeira a oito réis a canada, o mercador que o vendia dava a canada do mel de canas a cinco réis, e a de mel de abelhas, que vinha então de Safim, valia a trinta réis.
Na era de mil e quinhentos e quinze, valia a real e meio o arrátel da carne de vaca; vinte codornizes por meio vintém, e outros tantos ovos pelo mesmo preço por que também davam cinco pombas, cinco pardelas e cinco estapagados, que sabiam a peixe, que é o pasto deles e das pardelas; o mel de abelhas a trinta réis a canada, o de canas a vinte e quatro; umas botas, oito vinténs, uns borzeguins lavrados com muita laçaria, cento e cinquenta réis; a carne de chibarro, a real o arrátel; três cavalas, um real; das candeias de cebo, tão grandes como círios, a real cada uma, porque valia uma arroba dele seis vinténs e menos.
Na era de dez e onze, davam um porco gordo da junça por dois tostões, que agora vale três ou quatro mil réis.
Dava esta terra, no princípio, muito linho mourisco e comprido, e não galego, como o de agora; mas as mulheres não faziam caso dele, nem fiavam, e vendo fiar alguma, ou tomar roca na mão, escarneciam dela. Era isto, ou porque o pano de linho, que traziam aqui a vender de Portugal, era muito e barato, ou por o linho da terra ser tão forte que por sua fortidão não tomava fêvara , e por isso acendiam os fornos com ele. Mas, há tanto linho galego e tão bom da mesma terra, que dele e de pano que dele aqui se faz se provê esta terra e outras muitas terras; e está claro, por conta do dízimo que se paga ordinariamente, que só do termo da vila da Ribeira Grande se colhem quatrocentos mil molhos de linho cada ano, afora o mais que se dá em muitas partes da ilha.
Nesta terra não havia muito dinheiro, mas era muita a fartura e a despesa pouca, pelo que com pouco dinheiro era um homem muito rico; como se viu em dois ricos, um chamado Fernão Pires, dos Fenais, e outro Fernão de Anes, da cidade da Ponta Delgada, que, praticando ambos um dia, aqueixando-se o Fernão Pires que não tinha dinheiro, Ihe respondeu Fernão de Anes: — calai-vos, compadre, que aqui tenho na bolsa três tostões para gastar este ano — não abastando agora aqueles para um só dia.
Tão moderados eram os homens do tempo antigo nesta ilha em seu vestir, que Jácome Dias Correia, muito nobre, liberal e rico, e de mui abastada casa, e em todas suas obras de magnífica condição, que seus descendentes herdaram juntamente com sua fazenda, querendo dar uma saia de cetim ou tafetá a uma de suas filhas, o consultou com seus filhos Jordão Jácome Raposo e Barão Jácome Raposo se era bom dar-lha e se murmurariam por isso dele, pois era coisa nova que naquele tempo se não costumava na terra, porque todos vestiam vestidos honestos, sem pompa, nem vaidade alguma, e muitos de pano de míscara , que faziam da lã de suas ovelhas. E neste tempo consultam e julgam os pobres não serem quem são, se não se vestirem de seda, sendo seu tesouro de cobre, pelo que não é maravilha a grande pobreza, fome, miséria e necessidade que há neste tempo de agora nesta ilha, pois não vestem os homens como podem, nem podem como vestem.
Se não eram então os homens curiosos nos vestidos, a curiosidade que neles Ihe faltava punham nos cabelos, porque costumavam trazer cabeleiras postiças, as quais pela semana tinham curadas, loiras, formosas, guardadas e imprensadas, para trazerem por festa aos domingos e pelas Festas.
Um Fernão d’Álvres, medidor das terras, que fez fazer a ponte da Ribeira Grande, por Ihe ser encarregada por arrematação, faleceu de idade de cento e dez anos; era de catorze quando veio a esta terra e viveu nela noventa e seis anos sem nunca cortar o cabelo, mas com o mesmo com que nasceu o enterraram.
O primeiro homem que nesta ilha se trosquiou foi um Estêvão Fernandes, morador na vila da Ribeira Grande, e por isso Ihe puseram nome o Trosquiado, donde ficou esta alcunha a seus filhos e netos e mais descendentes, porque naquele tempo e dantes todos traziam o cabelo comprido e as barbas rapadas; somente cortavam na testa, por desafrontar o rosto, o cabelo que Ihe dava pelos ombros. O que o trazia mais comprido, esse se tinha por mais galante, e os que não tinham bom cabelo o compravam a outros e traziam cabeleiras postiças por galanteria e as levavam por festa, aos domingos e dias santos, à igreja. A um Domingos Pires, sobrinho , de Estêvão Martins, da Ribeira Grande, davam um vestido pelo seu cabelo e não o quis dar por se prezar muito dele. Costumavam os homens curar os cabelos como as mulheres costumam, trazendo-os toda a semana metidos em coifas e copados dentro nelas, para no domingo sairem com eles loiros, copados e louçãos. Isto usavam também alguns homens nobres, porque António Carneiro e Sebastião Álvares de Abreu, fidalgos e discretos, tinham cabeleiras postiças, que eram então grande primor pelo costume da terra. Não se usavam sombreiros; somente costumavam os honrados trazer barretes de cantos e os outros do povo carapuças dos panos que vestiam quando iam os dias de guarda à igreja, porque pela semana traziam carapuças de linho, onde traziam os cabelos imprensados, e havia alguns que nem ao domingo os queriam tirar delas, pelo que, na vila da Ribeira Grande, um Afonso Pires, meirinho dos clérigos, quando alçavam a Deus, andava pela igreja apanhando-lhes das cabeças as coifas por perdidas, sem Ihe dar outra pena.
Quando o Bispo D. Duarte dava ordens, o clérigo ou moço que tomava o cabelo aos que se prezavam mais dele, para Iho cortar por cima e ficar danificado, se punha a grande perigo, porque houve homens tão tomados, corridos e agastados disso, que determinavam de se vingar depois do clérigo ou do moço que Iho cortara tanto.
Assim como os homens no tempo antigo eram singelos no vestido e costume das cabeleiras assim o eram na verdade e justiça singela que usavam; porque ainda, nesta ilha, na era de mil e quinhentos e vinte, ambos os juízes que se costumam fazer em cada vila, estavam assentados na seda e juntamente faziam audiência, e aquele que ouvia as partes, mandando alguma coisa, perguntava ao parceiro que estava junto dele se mandava bem no que dizia, e dizendo-lhe de sim, respondia ele que fosse avante, que bem mandava. Como aconteceu na era de mil e quinhentos e vinte, na vila da Ribeira Grande, a um Gonçalo Anes Bulcão, morador no lugar de Rabo de Peixe, e a Pero Teixeira, que morava na dita vila, o qual teve treze ou catorze moios de terra lavradia de pão e outros tantos ou mais de criação, e, sem casar filho nem filha, veio depois a pedir pelas portas esmolas, sendo de 80 anos quando faleceu; em tão breve vida teve tão grande mudança que chegou de extremo de riqueza a extremo de pobreza, não gastando nada com os filhos, nem em demandas, senão em comer e beber e levar boa vida, procurando só o presente, sem Ihe lembrar o porvir. Da mesma maneira, foram muitos muito ricos nesta terra, que deixaram seus filhos muito pobres.
Um Fernão do Afonso, natural da Serra da Estrela, deixando lá sua mulher com quatro filhos, veio a esta ilha, onde havendo uma dada do Capitão na Achadinha, da banda do norte, foi o primeiro homem que ali fez casa e prantou pomar e vinhas, por espaço de sete anos, os quais passados, foi buscar sua mulher que não queria vir com ele, dizendo que a queria trazer para as ínsuas do mar desterrada; mas, louvando-lhe ele a fertilidade desta terra, a persuadiu vir para ela, onde viveram muito abastados na sua dada, já dantes beneficiada por ele. E, não tendo naquele tempo potes, nem talhas, nem outra louça, se serviam de cabaças em seu lugar e de bacios e escudelas de pau, e o mais grave bacio que tinham era de pau de sanguinho, com um corte dentro no meio, como talho de carniceiro, em que cortavam a carne; e no mesmo punham muitas vezes de comer ao Capitão Rui Gonçalves, primeiro do nome, quando ia à Achada, servindo-se com cabaças, que se davam naquele tempo muito grandes. Se as mulheres ou filhas dele e dos outros Ihe quebravam alguma, escondiam os pedaços dela pelos não verem seus maridos, como neste tempo, quebrando uma rica porcelana da Índia, se abscondem os testos dela, para que se não soubesse a grande perda que se fazia em uma cabaça. E não somente serviam de água, mas de cozer nelas carne, cortados os colos, e postas um pouco debaixo da terra ou sobre ela, barradas ou cercadas de barro e pondo o fogo ao redor delas. Esta era a louça de que então se servia a mais da gente, porque traziam pouca de Portugal e escassamente vinha a esta ilha um navio de ano em ano. Faziam isto alguns por se enfadarem de comer came assada. Seria isto na era de 1501 e de 1502. Também então, com haver tanta madeira de cedro e de outras muitas árvores, por haver falta de oficiais, careciam de caixas e em muitas casas tinham o pão em um cesto dependurado.
Naquele tempo, não tinham os homens outro passatempo, nem exercício em que se desenfadar, senão em jogar os mancais de ferro, ou a pela, ou em correr as pedras, que se costumava muito nesta ilha, pondo certo número delas em um lugar e dali as havia um de passar a outro, uma e uma, enquanto o outro fosse e tornasse a uma parte ou lugar fora daquele em que a aposta se fazia; e se chegava primeiro, antes que aquele as acabasse de mudar, ganhava o prémio, e, se depois, perdia. Estando muita gente vendo aquele jogo, dizendo uns: — tendes aqui tantas pedras, bem as podeis mudar ante que o outro chegue, e ganhar-Ihe. Um Mateus Mendes, na vila da Ribeira Grande, com andar devagar, mas por aturar muito no andar mudando as pedras, ganhava muitas apostas destas. Este era o desenfadamento que então tinham, sem gastar o tempo em murmuração de vidas alheias, como alguns fazem, cuidando que para isso Ihe são dados os domingos e dias de festa.
Também se desenfadavam em ver pelejar touros na praça ou em algum campo tapado, onde os ia ver muita gente, fazendo seus donos aposta, com condição que nenhum falasse ao seu touro, ainda que o visse covardo, o que não podendo alguns deixar de fazer, se armavam às vezes grandes brigas e jogos de cutiladas.
Os coelhos pardos, que mandou trazer o Capitão Rui Gonçalves da Câmara, primeiro do nome, e os pretos que fez vir a esta ilha Tomé Vaz Pacheco, morador que foi em Porto Formoso, multiplicaram tanto, que destruíram as searas; dos quais tomavam e tomam grande número os caçadores, com cães e furão, e com candeio e fios, pelo que valiam no princípio quase de graça e depois vieram a valer três por meio vintém, e pelo tempo adiante dois; e depois três por um vintém, até que chegaram a dez e a vinte réis cada um, e agora comummente os dão a este preço e a mais.
Não somente aproveitaram as vinhas para darem, como dão, muito vinho, o melhor do qual é o da Povoação Velha, mas aproveitam e servem agora as vides delas de lenha para os fornos; e entre elas, nos biscoitos, em fajã de terra, estão prantados muitos, grandes e riquíssimos pomares de toda sorte de fruta de espinho, extremada de boa, em grande quantidade, e de outras muitas frutas, maçãs, peros, peras, albricoques, damascos, fruta nova e várias enxertias, marmeleiros, pessegueiros, melocotões, amoreiras, figueiras de diversas sortes, e todas mui baratas. E depois do dilúvio de Vila Franca, na terra que sobre ela correu, se prantaram muitos e ricos pomares, de que se carregavam navios de maçãs, pêssegos e outras frutas para a ilha Terceira e outras ilhas de baixo; como também se levavam para lá, das riquíssimas hortas desta ilha, muitos e bons melões, os mais finos dos quais eram os da vila da Ribeira Grande.
Em toda a ilha há infinidade de abóboras, cebolas e alhos, e vária e extremada hortaliça, a melhor da qual é a do termo da cidade da Ponta Delgada, onde se dão nabos tão grandes, cada um como a cabeça de um homem, e iguais a jarras de quarta de arroba, que vêm de Sevilha com azeite, e alguns maiores. Um Bartolomeu Roiz da Serra achou em uma sua horta um rabão mais grosso que um homem e, colhendo-o, o achou oco por dentro, com um vão tão largo que bem podia passar um menino de três anos por ele; também achou em um seu pomar uma maçã tão grande que, ajuntando ambos os palmos das mãos arcados, tocando as pontas dos dedos umas com outras, enchia a maçã aquela concavidade delas; de que se espantou muito um António de Macedo, corregedor com alçada nesta ilha, a quem a ele deu, dizendo que estudara em Paris, Bolonha e Salamanca e correra muitas terras, e nunca vira nem tal cuidara ver, como aquele pomo. Pelo que foi esta ilha uma das mais frescas, fértiles, abastadas, baratas, fartas e viçosas terras que se podia achar no mundo todo. E ainda agora, como afirmam não somente os naturais, mas confessam os estrangeiros que nela moram, a sua esterilidade é mais fértil que a fertilidade de outras muitas terras.
Não cria esta ilha serpentes, cobras, lagartos nem lagartixas, nem animais peçonhentos, nem feros, nem raposas; e, os mais venenosos e feros que cria, são aranhas e formigas, pelo que pode cada um dormir descansado em qualquer lugar e caminhar seguro por qualquer parte.
Não havendo cágados nesta ilha, somente trouxeram a ela uns para um filho de Pedro Roiz da Câmara, que se fazia ético, o qual, indo para se curar em Portugal, foi tomar embarcação a Vila Franca e pousando em casa de João da Grã, Ihe ficaram nela dois cágados que levava para comer, por conselho dos médicos, e Ihe esqueceram ao embarcar, dos quais, um João Dias Mourisco, ali vizinho, comeu um pelo achar em uma horta sua que estava defronte; e o outro que ficou, mandou João da Grã deitar em um seu jardim que tinha na mesma Vila Franca, acima da cadeia, e cuidando que era morto por não aparecer, o achou seu filho, de João da Grã, a cabo de mais de quarenta e quatro anos que era ali lançado. Estes cágados se criariam bem nesta terra por esta experiência que se achou, como se criam doninhas e infinidade de ratos.
Na era de mil e quinhentos e dez, havia nesta ilha um Lopo das Cortes , o qual, querendo comer mel fresco de abelhas, mandava a um seu filho, chamado Bertholameu Lopes, pai de Adão Lopes, que morou depois dentro na dita vila, junto da bica velha, que derramasse o mel que tinha em casa em umas cabaças e fosse buscar outro fresco ao sanguinhal, nas tocas e buracos das árvores e sanguinhos, onde as abelhas criavam muito. Tanta fartura havia de tudo nesta ilha, sem indústria nem trabalho de seus moradores.
Ordinariamente, qualquer ilha nova em seus princípios depois de achada, parece um paraíso terreal e é fértil em tudo, quando dantes de povoada se deitam nela as sementes das coisas necessárias à vida humana, e Ihe dão espaço em que se criem e cresçam e possam multiplicar para uso e mantimento dos povoadores vindouros. Assim foi esta ilha de São Miguel que, sendo achada na era de mil e quatrocentos e quarenta e quatro anos por Gonçalo Velho, comendador de Almourol, enviado pelo Infante D. Henrique, de gloriosa memória, a seu descobrimento, que depois foi Capitão dela, dali a cinco anos, que foi na era de mil e quatrocentos e quarenta e nove, com licença de el-Rei D. Afonso, quinto do nome, tornou a mandar deitar muito gado de toda a sorte e outras sementes nela que multiplicaram tanto, que quando dali a pouco tempo a vieram a povoar, faltava a fome a seus primeiros povoadores para tanto mantimento quanto nela achavam, principalmente de gado de toda a sorte e de pescado, como agora direi.
Em diversas partes desta ilha, foi deitado gado entre o espesso mato dela; em partes, deitaram carneiros e ovelhas, e em outras, bodes e cabras, em outras, porcos e porcas, e em outras, cavalos e éguas, asnos e burras. Tudo multiplicou tanto entre o basto arvoredo, com os bons pastos que havia de erva e rama, que quando vieram os primeiros povoadores, dali a alguns anos, achavam grandes manadas deste gado em toda ela, e muito mais nas partes onde o deitaram; pelo que havia tanta fartura nesta terra, que não se cortava naquele tempo carne nos açougues, nem os havia, mas cada um fazia açougue em sua casa, tomando os bois, carneiros e cabras, e mortos os dependuravam à porta em uma árvore, e dali partiam e comiam quanto queriam, até que começava a ter mau cheiro e então deitavam o que sobejava da rez fora, em alguma grota ou apartado de casa.
Na Lomba da Ribeira Seca, termo da Ribeira Grande, houve uns homens honrados e forçosos, chamados os Fanecas de alcunha, que eram João Gonçalves, Rui da Ponte, Pero da Ponte, João Velho e seu pai deles, os quais, perto de suas casas, matavam cada um sua vaca e a dependuravam à porta, e todos os que passavam e queriam cortar, levavam a que Ihe contentava; e, como cheirava mal, não curavam de a salgar, mas cortando-a por riba, pelos pernis, a iam deitar por uma grota ou rocha abaixo, ou na ribeira aos cães.
Havia nesta ilha, logo no princípio de seu descobrimento, tão grandes malvas como árvores, nas quais dependuravam também os bois e vacas que tomavam, e dali repartiam a carne delas pela maneira sobredita, o que queriam e a quem a queria, e assim se proviam de carne sem haver mais açougue, senão o que cada um tinha à sua porta; de modo que não tinha preço a carne de toda a sorte, e de graça a comiam, e pouco era isto, se aproveitaram o que sobejava, mas deixavam apodrecer e perder muita por razão da grande multidão do gado, cuidando que nunca faltaria, e também por haver pouco sal na terra.
E outra se perdia no mato, onde matavam algum gado, para somente se aproveitarem das peles. Os mais dos homens, então, se prezavam de fragueiros e monteiros, e aqueles que eram mais valentes traziam do mato as reses que tomavam para si e para seus vizinhos.
Depois, passados alguns anos, veio a valer a carne quase de graça, e mais além algum tempo se começou a cortar a quatro, seis e sete ceitis o arrátel e por discurso do tempo se foram alevantando os preços.
Afora o gado bravo que andava na serra, outras reses e bois já mansos se iam dos povoados, das casas de seus donos, metendo-se pelo mato, sem saberem tornar nem os poderem achar, porque eram tão bastas as árvores que em muitas partes um cão não podia passar por entre elas, nem por debaixo delas; e muitas vezes se andava grande espaço de terra, sem porem os homens os pés no chão, senão por cima das árvores, que estavam verdes, deitadas e alastradas umas por cima das outras; não porque os ventos as tivessem derribadas, senão por se tecerem os ramos de través uns com os outros, com que ficavam liados e cobriam toda a terra, pelo que não havia caminho senão por cima delas, e alguns bois se perdiam e andavam a serra três e quatro anos.
E depois os machos das pernas deles cresciam tanto que faziam volta, e Ihe vinham fincar nas canelas das pernas, da banda de detrás, fazendo com aqueles machos uns vãos entre os mesmos machos e as canelas, na volta que davam, por onde caberia um dedo da mão de um homem e por onde se poderiam prender como por um tornel ou argola de ferro, e em vez de crescerem aquelas unhas e machos para baixo, cresciam tanto que viravam para cima e se fincavam nas pernas e canelas.
Os touros bravos tomados com um laço e presos a um pau ou árvore, três ou quatro dias, sem Ihe darem de comer, assim os amansavam, para se servirem deles, e depois sofriam a carrega esfaimados; e os que não podiam ter estes da terra mandavam comprar bois mansos à ilha de Santa Maria, para fazerem seu serviço e lavoura.
Os porcos do monte eram tantos e tão bravos que davam grande trabalho aos monteiros.
Havia infinidade deles além da cidade da Ponta Delgada, para aquela banda de Santa Clara, até a casa de Francisco Ramalho, onde os iam montear os moradores de Vila Franca, levando mantimento em seus batéis para alguns dias, nos quais, fazendo salga neles, se tornavam com muitos para a mesma Vila. Mas, muito mais número deles havia na ribeira da Salga, da banda do norte, onde parece que deitaram alguns no princípio, e lá iam da vila da Ribeira Grande e de outras partes muitos homens a montear e, fazendo grande matança e salga neles, se tornavam para suas casas, providos para muitos dias.
Não se aproveitavam em muitos anos nesta terra cabeças e fressuras, nem tripas, nem miúdos alguns de qualquer outra rês, tanta era a fartura nela.
Também se achavam grande número de asnos bravos, principalmente na concavidade das Sete Cidades, onde se acolheram do lugar donde primeiramente os desembarcaram, com as unhas muito crescidas, tão ferozes que se enviavam à gente como bravos touros e mais dificultosos eram de tomar que eles; porque o touro, esperando-o em uma vereda por onde passava, Ihe deitavam um laço ou Ihe cortavam uma perna, e assim o tomavam e se aproveitavam dele. Mas os asnos, por entre as alagoas das Sete Cidades e ao redor delas e por entre o arvoredo espesso, se Ihe cortassem as pernas, não aproveitariam para nada, pois Ihe não podiam comer a carne, como a do touro que jarretavam; pelo que era tão dificultosa de tomar esta caça que não havia coisa tão forte de tomar como eles, porque mais facilmente se tomava um porco montês ou um touro. E, na verdade, muita experiência temos todos que os animais desta sorte, ainda que tenham outra figura, sempre foram duros e maus de domar, donde vem que ainda agora melhor se atreve um cão filhar um touro que um asno, porque o touro, se não acerta ferir com o corno , não Ihe faz mais mal, mas os asnos bravos mordiam muito com os dentes e magoavam muito mais com os coices. E desta maneira os pregadores que ladram com a palavra de Deus e doutrina do Evangelho mais asinha convertem e filham com ela um nobre e discreto que um baixo e rudo.
Já pelo tempo mais adiante, valeu o gado mais. Um Afonso Anes, da Ribeira Grande, tinha um vaqueiro, chamado Fernão Pousado, a que dava a guardar o gado de meias; o qual, querendo-se ir para Portugal, o partiu com seu amo e vendeu dele a Rui Garcia, pai de Roque Roiz, escrivão da Câmara da dita vila, vinte vacas prenhes e muito grandes, por vinte cruzados.
Um Gonçalo Fernandes, da Ribeira Grande, de quarenta porcas parideiras, de que havia muitos e grandes e gordos leitões, mandando vender à vila alguns a dez réis cada um, muitas vezes os tornavam a levar para casa, por não achar quem os comprasse. E porque a carne dos porcos do monte sabia a baga de louro e sanguinho, ainda que eram muito gordos, mandava cevar com trigo os que se haviam de comer em casa, sem Ihe dar a comer outra coisa, e com isto os engordavam. Mas, os filhos e netos dos que levavam esta vida e tinham este viço são agora nesta terra como o filho pródigo fora da casa de seu pai, que muitas vezes desejam de se fartar de pão dos farelos que agora os porcos comem, quanto mais do trigo que então comiam.
João d’Outeiro, da Ribeira Grande, tinha um curral de gado nas Feiteiras, e era tanto o leite, que de contínuo tinham na cafua os pastores cinco e seis cestos grandes de leite escorrido, porque deitavam feitos debaixo dos cestos e o leite em cima a escorrer, o qual davam a comer aos porcos e às galinhas; e, para ordenhar às vezes as vacas em um dia, deitavam o leite dos outros dias fora.
Um vizinho de Jorge Afonso, da Relva, tendo um monte grande de cevada em sua eira, por não ter granel em que a ter, passados alguns dias, estava por cima toda nascida e verde, onde acharam nela um pequeno buraco e, olhando por ele o que estava dentro, saiu um porco de monte, e após ele outro e outros, até quatro, tantos eram naquele tempo, que se vinham às eiras; e atentando a concavidade donde saíram e comiam e dormiam, dentro acharam a cevada muito sã, que parecia ser àquela hora debulhada, senão só a que estava nascida na côdea de cima, a qual com as raízes e rama entrapou e fez coberta como de palha, com que defendia a água da chuva à que debaixo estava. E veio depois tempo em que um porco de dois e três anos, cevado, de chiqueiro, valeu por grande preço um cruzado, que agora valerá três e quatro mil réis.
As lavouras e debulhas, ordinariamente, se faziam nesta ilha com gado vacum, mas quem o não podia haver, lavrava, gradava e debulhava com os asnos, éguas e cavalos, de que também havia muito grande quantidade; dos quais se acharam mais principalmente no pico dos Ginetes, pela qual razão, afora as outras já ditas, parece que Ihe ficou este nome.
Na era de mil e quinhentos e dezassete e dezoito valia o arrátel de carne de vaca a real e meio; e tanta era a fartura até ali em todos os moradores, que não havia quem comprasse coisa alguma, tudo quase tinham sem dinheiro. E carne de vaca e de porco, muitos de fartos a não comiam. E era tão gordo o gado que uma porca dava doze canadas de manteiga. Abasta que naqueles primeiros anos, quase todos, matando uma rês, a dependuravam e dela comiam, e como Ihe sentiam bafio, a deitavam aos cães e tornavam ao mato buscar outra; desta maneira, e não nos açougues, se proviam de carne. Era tanta abundância na terra que, havendo na Ribeira Grande um carniceiro, chamado João Garcia, esfolava as reses e deitava fora as cabeças e mais miúdos para quem os queria levar, sem haver quem os levasse; e uma Inês Gonçalves, viúva, foi a primeira que nesta ilha aproveitou os pés dos bois, por causa da graxa, que saía das canas dos tutanos delas, para a candeia; e o mais se dava aos cães.
Deitava o carniceiro então os miúdos fora, por valer a carne tão barata que dava a quatro ceitis o arrátel; agora muitos não têm miúdos para comprar os miúdos, quanto mais a carne.
Havendo aqui no tempo antigo pouca louça, coziam a carne em cabaças, e às vezes cozinhavam um carneiro e uma cabra, ou carne de vaca, cozendo-a e assando-a na pele, fazendo uma fogueira na terra, e depois de muito quente, faziam uma cova nela, e embrulhando a carne do gado que matavam na mesma pele, a metiam na cova, tornando-a a cobrir com a cinza e rescaldo da fogueira, e tornando a fazer outra fogueira em cima, assim se cozia.
O pescado de toda a sorte, chernes, peixe escolar, peixe galo, crongos, gatas, gorazes, pargos, garoupas, abróteas, sargos, salmonetes e outras sortes, lagostas, lagostins e cavacos, muito dele era tanto nesta terra, que do porto de Santa Eiria levavam seves cheias em carros carregados dele à vila da Ribeira Grande. E agora tudo é miséria, parece que até o mar, e não tão somente a terra, se fez estéril e nega o que soía a dar de si com grande abundância.
Depois de achada esta ilha. mais de cinco anos, não havia homem que tivesse hanzolo . Costumavam fazer uma isca grande de carne, amarrando a uma linha e atando a linha a uma vara de ginja, por não haver ainda canas nesta terra; desta maneira pescavam, e era tanto o peixe que então matavam, e mais dele sem hanzolo, que agora com ele.
Um Lopo Gonçalves engordava os porcos com o pescado que Ihe sobejava do muito que pescava na boca da ribeira da vila da Ribeira Grande, onde vivia.
Depois, era o pescado tanto e tão barato, que ninguém o queria comer salgado, do qual mandavam deitar fora as gamelas cheias, quando vinha outro fresco. Na era de mil e quinhentos e dezasseis, comprou um João Lourenço, na Maia, noventa gorazes por três vinténs, que agora vale cada um daquele tamanho, pelo menos, um vintém. Mas naquele tempo não havia dinheiro na terra.
Às vezes tomavam no princípio muito peixe de toda a sorte com pregos dobrados; e outras vezes sem pregos e sem hanzolos, senão somente com as mãos tomavam peixes que andavam à borda de água. E tomou-se já tanta sardinha, na Ponta Delgada, sendo vila, que o bacio, que cada um dos que iam comprar levava, Iho enchiam delas os pescadores por um real, e davam seis cavalas ao real; afora outras baratezas que seria longo processo de contar e, por não enfadar, as calo.
Um pargo grande e qualquer peixe gordo, só das ventrechas dele se aproveitavam, do mais não fazendo caso, como também o não faziam das miudezas de toda carne. Veio tempo que já não queriam comer em muitas casas carne de vaca, porque a tinham por ruim e grosseira, enfastiados dela, como os filhos de Israel do maná, no deserto, e não comiam senão galinhas, cordeiros, pombos, mélroas, pardelas e outras aves que agora direi.
Costumam dizer os ignorantes, ouvindo alguma coisa dos segredos de filosofia e efeitos da poderosa natureza, que Ihe não cabe em seu entendimento: — ó grande mentira de filósofos; ao que eu não sei dar outra mais certa resposta, senão dizendo: — ó grande parvoíce de néscios, pois não alcançam que há muitas coisas sobre seu baixo entendimento que Ihe ficam tão altas, que nem com altíssimas escadas, de ordenados e compassados degraus de razões e claras demonstrações, podem lá subir, para descobrir do alto, empinados, o que do chão, rasteiros, ver não alcançam. Donde se conhece o seguro descanso que é tratar e comunicar com sábios, e o grande trabalho que é conversar e falar com néscios; porque o sabedor entende a razão do que se diz e fica satisfeito, e o ignorante e tosco, sem nunca se satisfazer, reprende o que não entende e fica desta maneira o filósofo douto com o néscio atado ao pé, que é o maior trabalho que pode ter nesta vida. Digo isto para refrear as línguas de alguns que em algum tempo ouvirem algumas coisas que agora contar quero, que terão por impossíveis porque as não viram. Aos quais responderei que quem as viu era de tão boa consciência e tão verdadeiro como eles, e se não houvéssemos de crer senão o que se vê com os olhos, muito tempo há que fora já destruída a república humana. O que agora contarei das aves domésticas e bravas que houve nesta ilha entre os espessos arvoredos dela, ainda que parece impossível, são coisas vistas, tratadas e palpadas por pessoas graves e dignas de fé, como irei dizendo.
Estava esta ilha, logo quando se achou, muito cheia de alto, fresco e grosso arvoredo de cedros, louros, ginjas, sanguinho, faias, pau branco e outras sortes de árvores; e em alguns lugares estavam espaços de serra cobertos somente de cedros e outros de louros, outros de ginjas, outros de sanguinhos e alguns de teixos, outros de pau branco e outros de faias, como foi o Faial, que tomou este nome das faias de que estava povoado. Entre estas árvores, havia em alguns lugares malvais, de tão altas e grossas malvas, como qualquer das árvores suas vizinhas, em as quais dependuravam um boi ou uma vaca morta, e ali a esfolavam e partiam para comer; o mesmo faziam aos porcos e carneiros. E de algumas malvas menos grossas faziam temões, arados e cangas. Nem se deve ninguém espantar disto, pois maiores coisas há no mundo, como pudera contar muitas, mas só uma lembrarei: que em Maluco há canas de grande altura, cheias de excelente água, de grossura de três palmos, de que bebe o Rei e a gente, e são pelo pé cortadas, levadas a terras muito longe, por mar e por terra, e têm meia pipa de água cada uma, que se gasta canudo e canudo, sem água nunca minguar delas; que é maior coisa que haver malvas grandes nesta terra, como houve no tempo antigo. Um Pero Gonçalves Carreiro, fidalgo dos Carreiros de Portugal, dava testemunho que havia muitas e à sua porta tinha uma em que dependurava as reses que no mato tomava, o qual também afirmou que na praça de Ponta Delgada, antes de ser vila e cidade, junto do lugar onde esteve o pelourinho velho, defronte da cadeia dos presos, vira estar algum tempo uma malva tão alta como uma grande árvore, com tronco tão grosso como uma pipa; e era homem verdadeiro, como ainda hoje muitos vivos sabem dele.
Algumas aves havia nesta terra bravas, e outras vieram de fora, de muitas maneiras. Depois que trouxeram a ela galinhas domésticas, multiplicaram tanto, que enchiam os campos. Um Gonçalo Fernandes, morador na ribeira do Salto, junto da vila da Ribeira Grande, trazia tantas que não Ihe sabia conta e eram tantos os ovos, frangos e frangas, que de serem muitos perdiam o valor, porque quando mandava vender alguns à vila, dando trinta ovos por meio vintém e a três e quatro réis cada frangão, muitas vezes os tornavam para casa, por não se achar quem os comprasse; e em sua casa se aconteceu achar-se uma tina cheia de ovos, que contados foram oitocentos e oitenta. Estes eram dos que se apanhavam por casa somente, porque no campo, entre o arvoredo, se perdiam muitos, de que não faziam conta. E algumas vezes, por folgar, um seu filho, Pedro Gonçalves, com outros filhos de seus vizinhos, coziam caldeiradas deles, e esburgando-os depois de cozidos atiravam com eles uns contra os outros, em tão pouca estima os tinham, e tantos eram, que usavam então deste jogo com ovos muitas vezes, como em dia de entrudo usam neste tempo do jogo das laranjadas, sendo um só dia no ano. Porque então tanta era a fartura que todos os dias eram dias de entrudo; e depois veio a coresma faminta, da fome que agora há, em que todos jejuam. Enchiam as suas galinhas aquele campo todo da ribeira do Salto até o pico da Murta, da parte da vila da banda do ponente, e da banda do oriente até a eira do Picão, e da banda do norte até as rochas do mar, porque era em si um mar de galinhas. E quando queriam tomar algumas, para irem vender, as iam ameijoando, até as agasalhar por feitais e murtas e pés de cepos, que queimaram nas roças já feitas, e sendo noite, depois de estarem ameijoadas, iam com uns grandes cestos de vimes, pondo-os em cima das moutas, e assim as tomavam debaixo e iam vender a dez réis cada uma, tão baratas que não sei qual era mais trabalho, se o ameijoá-las, se tomá-las nas moutas, se levá-las à vila, se torná-las a casa, quando assim tão baratas não achavam quem Ihas comprasse, estando agora em tempo que nem muito caras e magras se pode achar quem as venda. Valia finalmente então mais o trabalho de as ameijoar e tomar, que o proveito e riqueza de as vender e lograr. Tudo foi então assim farto e tudo vai agora faminto, e muitos dos que gozaram daquela fartura provam agora desta fome e pobreza. Não Ihe vejo consolação a sua miséria, se não se for a com que um João de Abrantes, barbeiro e pedinte pelas portas, se consolava, que havendo alcançado deste bem naquele tempo, pedindo depois esmola, dizia:— se agora sou pobre, já fui rico; se agora sou velho, já fui mancebo; se agora morro de fome, já fui farto. Conhecia o bem passado e o mal presente, e a volta da Fortuna já virada, e tinha peito forte e duro para estar no baixo e áspero, como o teve brando e mimoso para passar os mimos e regalos que prestes passam e desandam, pondo os altos nos baixos e os baixos nos altos, fazendo a mosca leão e o leão mosca, o cônsul plebeu e o plebeu pretor, a Bajazeto estribeiro e ao pastor Tarmolão grão senhor.
Havia, como disse, sítios de terra, como esta, onde estas galinhas andavam, que tudo era loural, ginjal e outros faial e outras partes de cedros e muitas lombas de pau branco, outras tamujais e murtais, que se dividiram em dadas logo no princípio, algumas pelos primeiros Capitães Gonçalo Velho, comendador de Almourol, e João Soares de Albergaria, seu sobrinho; e, sendo ele absente, pelo primeiro almoxarife destas ilhas, Gonçalo de Teves, em tempo de Gonçalo Rois e de Pedro Anes de Alpoem, juízes ordinários em Vila Franca, por mandado e carta da Infanta D. Beatriz, mulher do Infante D. Fernando, comendador de Cristo destas ilhas e pai de D. Diogo, que depois foi Duque de Viseu, por ele então ser de pouca idade e o dito João Soares não ter ainda sua capitania confirmada, se deram outras dadas no lugar da Ponta Delgada e no de Água do Pau, estando presentes Gonçalo Roiz, juiz ordinário, e Nuno Gonçalves, seu genro, Vasco de Torres, Antão Fernandes e António Anes, e outros, aos dezasseis dias do mês de Abril de mil e quatrocentos e setenta e dois anos, delas de duzentas, delas de cento e trinta passadas de largura, direito para a serra, quanto os possuidores pudessem romper com condição que a cortassem até cinco anos, que chamam sesmaria por algumas razões, e desta palavra — semo — italiana, que quere dizer — dividir e desbastar — porque para isso davam as terras, deixando o caminho necessário para o concelho; e, da banda do mar, oitenta passadas, para canadas e pasto dos gados que se houvessem de criar.
Vestida estava esta ilha de diversas árvores de várias cores e cheiros, a cuja sombra se criavam as galinhas, e em cujos ramos pousavam muitas aves; e a cobiça dos homens foi tanta que o que Deus, mediante a natureza, Ihe deu em tantos anos, em um dia de roça, ou em uma hora de fogo, tudo brevemente Ihe despiram, esbulharam e desfizeram de tal modo que com razão se aqueixara com as palavras de David, como se fora homem, dizendo: — Vi o mau alevantado como os cedros do monte Líbano, em passando ou virando a cabeça e tornando a olhar, já não aparece fumo do que nalgum tempo era; tudo aqui foi e não é, pois foi quando ninguém se lograva dele e, depois que era e o viram, tão prestes desapareceu que era e não é, como se nunca fora. Secou-se a hera de Jonas e a era dos anos, que já foi e nunca virá, nem será, e,se vier a ser, será como empréstimo que quem empresta não cobra, e se cobra não sempre, e se sempre não todo, e se todo não tal e se tal inimigo mortal; pois, sobre estas tais courelas de terras e pequenas coisas, inventaram os homens entre si compridas demandas, litígios e brigas e forjam e tecem grandes e diabólicos ódios, urdidos pelo demónio.
Um João Afonso, morador na Relva, trazia ao redor de sua casa tantas galinhas que, quando se espantavam de alguma gente que viam, pareciam bando de estorninhos, e se quisera buscar os ovos que punham em um pomar que tinha, se se puderam ensacar, enchera cada dia um saco.
Houve outra maneira de galinhas bravas nesta ilha, que se chamavam galinhas de Guiné.
Parece-me que primeiro vieram de Guiné à ilha da Madeira, e de lá as mandou trazer a esta terra Rui Gonçalves da Câmara, quinto Capitão e segundo do nome; as quais multiplicaram tanto que por debaixo do arvoredo havia grandes bandos delas, que eram algum tanto mais pequenas que as domésticas e pintadas de preto, branco e cinzento, com as cristas mais pequenas, pelo que pareciam ter os pescoços e cabeças mais agudas, e eram mais perinaltas que as nossas e por isso corriam mais ligeiras, mas voavam pesadamente, como as outras caseiras; punham os ovos pardos, e, deitando-os às galinhas mansas, os tiravam e depois de saídos não queriam seguir a mãe que os tirava e morriam. Era tanta a multidão delas que entravam nos povoados e nas casas e se iam aos poleiros ajuntar e comer com as galinhas mansas e ali as matavam. Um Frei Estêvão, vigairo de Água do Pau, se ia às vezes com seus moços ao campo, onde a cosso as tomavam, pondo um moço em uma parte, outro em outra, e outro em outro cabo, alevantando-as, voavam elas, indo ter onde os outros estavam, já cansadas, e correndo após elas, como pousavam no chão, as tomavam.
Especialmente, houve muitas na lomba da Correia, da parte de Vila Franca, e na ribeira da Praia, onde as iam montear com cães, pondo-se alguns da banda da ribeira e outros de outra, e enxotando-as de uma banda para a outra, tornando-as a cossar de cá para além, assim cansadas, não podendo voar se emboscavam por os ramos e ervas, onde com os cães tomavam muitas; até que vieram a perder-se de todo.
As derradeiras galinhas, destas de Guiné, que se tomaram nesta ilha, foi entre os Fenais e Rabo de Peixe, arriba das Calhetas, junto dos biscoitos de Jácome Dias Correia, as quais tomou um Manuel Tavares que foi um grande caçador e pescador de pesqueiros e o melhor besteiro que houve nesta terra; tomou-as, cevando-as primeiro alguns dias, e ali se acabaram, porque não havia mais que aquelas que ele então tomou, em toda a ilha, havendo dantes tantas que faziam grandes bandos como de estorninhos. Voavam pouco como as perdizes que no primeiro voo cansam logo, mas corriam muito.
Posto que muitas aves vieram aqui de fora a esta terra, nela se acharam algumas maneiras de pombos, como naturais dela, uns pretos que chamavam pombos da serra, que matavam às trochadas com paus e aguilhadas e com lanças, nos paus e nas árvores, tão tolos eram, pela pouca comunicação da gente, que tudo esperavam; estes eram da terra. Outros houve cinzentos, que chamavam torcazes, que eu cuido serem naturais, mas alguns dizem que vieram depois aqui de fora, porque dantes os não havia, e multiplicaram tanto que agora há aí muitos, nas Furnas e na serra sobre a Povoação Velha. E há tão grande número deles na Achada e Fenais da Maia, que cobrem as terras como entra Março, e às vezes fazem perda nas novidades de trigo e linho, derribando as paveias no campo. Estes sempre foram mais recatados e dificultosos de caçar e tomar; mas os pretos, indo-os a caçar, atirando-lhe do pé da árvore com a besta a um, derribando aquele, os outros que na árvore estavam, olhando abaixo para aquele que caía, se deixavam estar quedos e tornando a atirar a outros e a derribá-los mortos, os que ficavam em cima da árvore faziam o mesmo, deixando-se estar tolamente, até que o besteiro matava deles quantos queria.
Pero Gonçalves Carreiro, morador na cidade da Ponta Delgada, indo à serra, pondo uma capela de ramos verdes na cabeça, os pombos Ihe vinham pousar nela, e ele tomava os que achava gordos e os magros soltava. 0 mesmo faziam outros muitos, onde estavam, à ermida de São Brás, junto da fortaleza da cidade da Ponta Delgada, antigamente, uns zimbros, em que pousavam muitos pombos; e algumas mulheres que por ali moravam os iam tomar com laços, escolhendo os mais gordos deles, e deixando os mais magros, como se foram escolher algumas galinhas do seu poleiro, e eles esperavam sem fugir e se deixavam tomar pelo pouco uso da comunicação da gente; pelo que chamavam os de Portugal aos homens das ilhas — pombos das ilhas — por serem confiados como eles, ainda que vissem e entendessem o laço dos maliciosos, se deixavam enganar, sem se querer apartar do engano que Ihe faziam. Uma Beatriz Vaz, viúva, da vila da Ribeira Grande, tinha à sua porta um azevinho onde muitos pombos iam dormir como galinhas em poleiro, e de noite, ela e as filhas, com candeia, tomavam e matavam os gordos e deixavam os magros.
Um Lopo Gonçalves, que morava no Morro da Ribeira Grande, por ser dos primeiros que vieram a esta terra, pondo-se nu entre o mato com os braços estendidos, vinham os pombos a pousar nele e ali escolhia os que pareciam melhores e mais gordos, e os magros deixava. Tão pouco uso tinham os pombos da gente, que nunca viram, que parece parecerem-lhe os homens árvores e por isso pousavam neles.
A mãe de Roque Roiz, escrivão da câmara da vila da Ribeira Grande, e outras mulheres ao redor de sua casa, que tudo era mato, punham um laço em uma cana com que tomavam facilmente os pombos pretos, que chamavam da serra, escolhendo os gordos e soltando os magros.
Por muitas vezes, um Gonçalo Fernandes, vizinho da Ribeira Grande, saía de sua casa, todo enramado e coberto de ramos e se metia em um loural e mato de outras árvores, e, deixando-se estar quedo e agachado, vinham os pombos e pousando ao redor dele, com as mãos os tomava, e, se via que eram gordos, metia-lhe os dentes na cabeça, deixando-os cair no chão, e soltava os magros, tornando para casa com trinta ou quarenta deles. Na vila de Água do Pau, um Manuel Álvares matou um dia outros tantos com a besta. As mulheres e moços, com laços postos em canas compridas, tomavam muitos, escolhendo os gordos e soltando os magros. E estando muitos em um pau ou ramo, tomando-se um deles, se chegava logo outro àquele lugar donde o outro caía. As pombas bravas também eram tantas nas rochas que não tinham conto nem preço, e quando se vendiam era quase de graça.
Também se acharam nesta ilha pardelas, estapagados e garajaus; os estapagados eram tão grandes como pombos torcazes ou frangas, brancos pela barriga e pretos pelas costas, tinham pouca coisa o bico retorto na ponta.
Eram tantas as pardelas e estapagados que em casa de um Manuel Fernandes, o Tosquiado de alcunha, uma véspera de Páscoa, tomaram setecentas, entre umas e outras, das quais vendeu seu pai a um Álvaro Dorta duzentas por duzentos réis, a real cada uma. E sua mãe mandava chamar as vizinhas que Ihe viessem depenar as pardelas, com condição que Ihe deixassem a pena e levassem a carne. O qual Manuel Fernandes, com outros, ao pico da Murta, ia fazer fogueiras, pondo-se o sol, atravessando um pau na ribeira e deitados outros de per alto postos em baixo, encostados ao pau que tinham atravessado, com que ficava feita uma grade onde as pardelas cegas com o fogo se tivessem, caindo ali, e não fossem pela ribeira abaixo; e os cães que levavam, indo pelo pau atravessado, tomavam as pardelas que na grade embarravam e uma e uma as deitavam fora da água, tão destros andavam neste ofício; trazia cada cão seu chocalho, para que os caçadores de noite fossem tomar a caça onde os ouvissem.
Têm as pardelas esta qualidade que ainda que caiam fora do fogo com que se encandeiam grande espaço, vendo a fogueira, vão direito a ela, e ali as tomavam. São pretas como corvos, mas têm o corpo pesado como patas, e têm o bico revolto como gavião; depois de depenadas, de feição de adem. Das novas se fazia mais azeite, não fazendo mais que depená-las e esfolálas e da pele se fazia mais quantidade por ser tudo gordura e a carne não se aproveitava. Indo tomar as novas nas covas onde estavam, logo Ihe iam com a mão ao pescoço e Iho apertavam, para que não deitassem o azeite fora, porque se Iho não apertavam elas o deitavam logo todo pela boca fora, que parece criá-lo dentro em si, além do que Ihe tiravam da pele quando a derretiam. Estando os caçadores em casa e acertando de bolir com os chocalhos, logo os cães eram espertos e se alevantavam olhando para eles, parecendo-lhe que já queriam ir caçar às pardelas, como costumavam, e algumas vezes não podendo trazer tantas, com carros as iam buscar ao mato.
O mesmo Manuel Fernandes, com seu pai Estêvão Fernandes e um João Jorge, todos da Ribeira Grande, em uma noite, véspera da Ascensão, mataram sete mil e seiscentas, afora outras muitas que apanharam outros caçadores o dia seguinte, onde ficaram embrenhadas pelas moutas e buracos da terra, porque são aves que se não alevantam de dia, ainda que as deitam a voar e logo caem no chão, pelas cegar o ar claro. A pena delas é tão boa como a das patas, e ainda melhor. Não comem senão peixe. Sendo novas, não cria um casal senão outro; parece que criarão muitas vezes no ano, pois tanto multiplicam. Era tanta a gordura nelas que um Salvador Fernandes e seu cunhado Manuel Fernandes faziam delas, cada dia que iam ao mato caçá-las, uma jarra de três canadas de azeite, entre o que deitavam pela boca e da gordura da pele delas, que esfolavam. E um Bartolomeu Roiz Cariboino, morador no Telhal da Ribeira Grande, com Sebastião Vaz, mulato de Baltasar Vaz de Sousa, foram à caça delas uma noite na ribeira da Praia, com fogueiras, onde tomaram mil e setecentas.
Um João Gonçalves, o Grande, caçador de pardelas, pelo que se chamou João Gonçalves Pardela, e um seu filho que chamavam depois Gaspar Gonçalves, o Pardelinha, por herdar este nome do pai, uma noite no pico da Murta, depois de ter a fogueira feita, choveu tanta água que Iha apagou, e ele andou resguardando dois tições para a tornar a reformar, não fazendo senão assoprar e roçar um tição ao outro, por se Ihe não apagarem; ali caíam as pardelas sobre ele e sobre os tições, com que tomou grande soma delas e pelas caçar sem fogueira, com os tições somente, se maravilhavam todos, dizendo: — assim tomou este tantas pardelas — e dali Ihe ficou chamarem-lhe João Gonçalves Pardela. Cada dez pardelas, ordinariamente, davam uma canada de azeite e mais as caçavam por ele, que por elas.
Ainda que tomavam no tempo antigo tanto número de pardelas, e na ribeira da Praia, da banda de Vila Franca, matavam em uma noite dez mil estapagados, há anos que são desinçados, assim eles como as pardelas. Dizem que desapareceram depois que houve nesta ilha furões que as degolavam todas nas covas, como fazem às galinhas nos poleiros; e de maravilha se acha alguma em alguma rocha. E na verdade parece que as não matavam, mas elas mesmas se matavam a si, caindo nas fogueiras, principalmente em tempo de névoa, em que com a claridade e fumo do lume desciam mais número delas, e não podendo os cães tomar todas, ficavam muitas embrenhadas pelas tocas da terra, cuidando que ali estavam seguras; mas ao outro dia outros caçadores vinham carregados delas e em uma só cova achavam vinte, trinta ovos, não porque pusesse uma mais de dois, senão porque punham muitas no mesmo lugar e se encovavam em uma mesma cova, da qual tirando às vezes uma e tornando a meter a mão achavam outra, e aquela fora, tiravam outra, até vinte e trinta.
Na entrada de Fevereiro, vinham os estapagados do mar à terra a limpar suas covas, e dali se retinham os dias que não vinham e depois tornavam no mês de Março, em que pondo seus ovos, se deitavam em choco. E as pardelas vinham do mar a criar à terra da entrada de Maio.
Uns e outros, dizem alguns, que não criavam mais de um pintão; outros afirmam que dois. Os estapagados, em chocar e criar, punham três meses, Março, Abril e Maio, e as pardelas punham cinco, Maio, Junho, Julho, Agosto e Setembro. Eram tão gordos os filhos que cada onze, doze, treze, davam uma canada de graxa, e às vezes, quando as traziam do monte, vinha correndo delas o azeite pelo caminho, ou pela boca ou porque arrebentavam de gordas, e enchiam os fatos dos caçadores, os quais pareciam lagareiros que andam em lagar de azeite; e por se Ihe não vasar pela boca, às vezes Ihe atavam os pescoços, e em caldeiras e panelas as derretiam, como uma banha de porco, e ficava no mato grande ruma de carne delas perdida, depois de tirarem o azeite dela. No tempo que estavam em choco, eram as velhas mais gordas que antes que chocassem matavam-nas na cova com cães de busca e eram tantas que ainda que fossem dez caçadores, uns após outros, pelo mesmo lugar, no mesmo dia e em muitos dias a reo , nos dois meses que chocavam, Maio e Junho, e dentro nos outros dois meses depois de criadas, Agosto e Setembro, sempre achavam que tirar e cada um dos caçadores enchia seu saco, em que trazia setenta ou oitenta, noventa, cento.
É de notar que em Maio e Junho era a matança das velhas nas covas e fogueiras, para comer, e em Agosto e Setembro, para azeite. Estas aves, estapagados e pardelas, dizem que no inverno andam muitas em África, onde parece que se vão recolher naquele tempo, por ser terra quente, e no verão vêm criar a outras partes, e não em África, por ser lá a areia em que costumam criar tão quente que Ihe gora os ovos de tal maneira que não criam pintãos, pela qual razão vêm cá criar em outras terras mais temperadas, onde a areia ou terra temperada Ihe não gora os ovos.
Um Pero Gonçalves, da Ribeira Grande, ia muitas vezes a caçar pardelas e com quatro achas que acendia matava setecentas, oitocentas juntas; e eram tantas as que caíam que quase matavam o lume por se cegarem com ele, e tinha trabalho de ter mão nelas e tomá-las antes que se metessem na fogueira, as quais não sentiam cair senão quando as viam com a claridade do lume e os cães davam com elas, por cairem caladas. Mas os estapagados como vinham bradando logo eram sentidos. Valiam oito, nove, dez pardelas meio vintém, que eram do tamanho de grandes frangas.
Nas Prainhas, arriba da tufeira da ribeira do Salto, termo da Ribeira Grande, tinha Gonçalo Fernandes, pai do dito Pero Gonçalves, uma terra que Ihe deram, da banda da dita vila, de mato maninho, com condição que a roçasse dentro em quatro anos, e começando-a de roçar não toda a reo, porque não podia tanto, mas a lugares, aqui um pouco, acolá outro pouco, vindo uma noite grande tormenta, derribou toda a madeira que estava erguida na roça; porque desta maneira costumavam todos roçar as terras, roçando primeiro um grande eito e, como naquele tempo começava de cair a madeira, ela mesma quebrava e derribava a outra que estava junto e diante de si, tão basta era; dali a certos dias Ihe foi este Gonçalo Fernandes pôr o fogo para a queimar e alimpar as terras da madeira derribada, e acertou aquela noite que ardeu a madeira fazer névoa e chuva; indo ele ao outro dia a ver se estava queimada, achou tantas pardelas que cobriam todo o campo da roça, das quais levou muitas para casa. Dando disto conta aos vizinhos, foram muitas pessoas da vila a buscá-las e tornaram carregadas delas.
De mélroas houve e há tanto número que davam trinta, quarenta por meio vintém, e poucos as compravam, por saberem a monte, como também pela mesma razão nestes tempos não fazem caso os moradores desta terra de muita diversidade de pássaros que há nela. As mélroas eram tantas que um dia antes do Natal, na era de mil e quinhentos e catorze, um João Lourenço, pedreiro, matou setecentas.
Antes da era de mil e quinhentos e dez, não havia aqui codornizes, pelo que parece que então as mandou trazer Rui Gonçalves da Câmara, quinto Capitão desta ilha e segundo do nome; e dali por diante multiplicaram tanto, que vieram a dar trinta, quarenta, ordinariamente, por meio vintém, e à quinta-feira, à tarde, davam mais. Depois do dilúvio de Vila Franca houve muito mais, porque com varas ia um homem armar ante-manhã, e em amanhecendo indo ver se andavam porcos nelas achava, setenta, oitenta e noventa nos laços; e tomando-as, tornando a armar e dar logo vista às varas, achava todas cheias de codornizes, como aconteceu a um Jorge Afonso, da Relva, que por não se deter a tirá-las dos laços, arrancou as varas e se foi para casa com elas às costas, com as codornizes dependuradas, de que dava quarenta por meio vintém. Da mesma maneira tomava as mélroas e por o mesmo preço as vendia. Quase as mais das vezes que iam a caçar codornizes, com rede manta, tomavam tantas que, enfadando-se de as contar, as repartiam aos alqueires, enchendo um alqueire delas a um, e outro ao outro. E diziam no tempo antigo os caçadores de varas uns aos outros: — vamos caçar codornizes que já valem trinta por meio vintém -, tendo aquele por grande preço e ganho. Tomavam os caçadores cada noite quinhentas, seiscentas. Mas já agora tomam poucas, por não haver tantas.
O Capitão Manuel da Câmara mandou trazer perdizes a esta terra, que multiplicaram muito, porque as que seu pai Rui Gonçalves da Câmara tinha mandado trazer dantes morreram sem fruto; mas agora há tantas que arreceio que façam muita perda e venham a comer as searas, como já começam, pelo que, ainda que por uma parte sejam proveitosas, pela outra serão praga na terra. As daqui não são tão grandes como as de Portugal, nem tão boas; como não são acossadas e perseguidas com açores ou cães de rasto, e com fios ou telas, ou caçadas com boi, esperam muito com tiro de arcabuz e de besta, com que matam poucas, e também com rede manta, mas muitas mais em eixós e de noite com candeio.
Há nesta ilha infinidade de pássaros de diversas sortes, canários, toutinegras, tentilhões, algumas alvéloas e outros de várias sortes, que fazem o mato saudoso, pousando e cantando sobre o espesso arvoredo dele. Faltam aqui tordos, os quais por S. Miguel vêm a Portugal, e então se vão dele as andorinhas, não se sabe para onde, pois não se vêem em África; parece que se irão para algumas ilhas ou terras que estão por descobrir. E costumam dizer que, encontrando-se no caminho, as andorinhas dizem a eles: — donde vindes, loucos, que fostes muitos e vindes poucos? —, porque os caçaram lá onde eles foram, por serem bons para comer, o que as andorinhas não são, e por isso as não matam. E os tordos respondem: — donde vindes, putas, que fostes poucas e vindes muitas? —, porque levam já filhos que cá em Portugal no verão criaram.
Os pássaros também se vão, antes de S. Miguel, de Portugal não se sabe para onde, e ajuntam-se voando alto em uma só parte e parece que adivinham quando se acabam de ajuntar. Então se põem em esquadrão como uma lua contrária da que fazem os mouros quando pelejam, porque as dos mouros levam as pontas para diante e a lua das aves estorninhos e outras desta sorte levam as pontas para trás, e no meio do campo da lua vai um pássaro diante, como por guia e capitão, a que toda aquela lua deles vai seguindo; pelo que claro se vê que os pássaros passam o mar de umas terras a outras, como foi no princípio da povoação destas ilhas e antes de serem descobertas, que delas iriam os pássaros para outras e de outras viriam para elas.
Das aves boas para comer, como eram galinhas domésticas e de Guiné, pombos da serra e torcazes, codornizes, pardelas, estapagados e mélroas, havia tanta abundância que abastava para escusar e fazer esquecer a carne de vaca. Agora há tanta falta desta que sobeja para fazer mortais saudades da fartura das outras, que durou do descobrimento desta ilha até a era de mil e quinhentos e vinte e dois em que, com os tremores grandes da terra e a parte dela que correu, se alagou a principal vila dela, chamada Vila Franca do Campo, com que ficou alagada e sepultada toda a fartura que tinha, com a mais nobre gente que dantes havia. E começou aqui novo mundo, assim nos moradores que ficaram vivos, como na carestia e preço de todas as coisas que ela dava e dá, e vem de fora e vinha, atentando ao passado, ainda que logo por alguns anos seguintes muito barato, a respeito do de outras terras e do que nesta mesma valem.
Há também aqui petos e uns pássaros muito mais pequenos que as carreiras de Portugal, de cor parda, verde e amarela, que têm uma estrelinha na testa mui amarela e são muito mansos; e há outros que chamam prioles, na serra, maiores que tentilhões, quase tão grandes como estorninhos e de cor parda; e outros de diversas maneiras, grandor e cores que se vêem a tempos, pelo que parece serem de outra terra, para onde vão quando desta desaparecem.
Também se vêem aqui andorinhas, em alguns tempos, e vêm de fora falcões, açores, corvos, patas bravas e outras aves grandes e pequenas, não conhecidas, e rolas, afora as que mandou trazer o Conde D. Rui Gonçalves da Câmara, das quais já se acham e matam algumas junto das rochas.
No ano de 1513, valeu o trigo, por todo o ano, a seiscentos réis o moio
No ano de 1514, valeu no verão, geralmente a mil e quatrocentos réis o moio
No ano de 1515, a oitocentos réis o moio
No ano de 1516, a mil réis
No ano de 1517, a mil réis
No ano de 1518, a mil e seiscentos réis
No ano de 1519, a mil e quinhentos réis
No ano de 1520, a dois mil réis
No ano de 1521, a dois mil réis
No ano de 1522 a dois mil e quinhentos
No ano de 1523 a mil réis
No ano de 1524, a três mil e cento
No ano de 1525, a mil réis o moio
No ano de 1526 a mil e oitocentos réis
No ano de 1527 a dois mil réis
No ano de 1528, a dois mil e duzentos
No ano de 1529, a três mil réis
No ano de 1530, a três mil e trezentos réis
No ano de 1531, a três mil e duzentos réis
No ano de 1532, a mil e seiscentos réis
No ano de 1533, a dois mil réis
No ano de 1534, a dois mil réis
No ano de 1535 a dois mil e duzentos
No ano de 1536 a dois mil réis
No ano de 1537, a mil e novecentos réis
No ano de 1538, no verão, a dois mil réis
e por todo o ano valeu a dois mil e setecentos réis
No ano de 1539, valeu no verão a três mil réis
e por todo o ano a três mil e novecentos réis . 3.900
No ano de 1540, a três mil reis no verão
e por todo o ano a três mil e novecentos
No ano de 1541, a três mil e seiscentos réis
e por todo o ano, a quatro mil e duzentos
No ano de 1542, a dois mil e setecentos
No ano de 1543, a três mil e seiscentos
No ano de 1544, a dois mil e setecentos
No ano de 1545, a quatro mil e quinhentos
No ano de 1546, a quatro mil e duzentos
No ano de 1547, no verão, a dois mil e quatrocentos
e por todo o ano, a dois mil e setecentos
No ano de 1548, no verão, a dois mil e quatrocentos
e por todo o ano, a três mil e seiscentos
No ano de 1549, no verão, a dois mil e setecentos
e por todo o ano, a três mil e seiscentos
No ano de 1550, no verão, a dois mil e oitocentos réis
e por todo o ano, a três e seiscentos
No ano de 1551, no verão, a quatro mil e duzentos
e por todo o ano, a quatro mil e oitocentos
No ano de 1552, a três mil réis
No ano de 1553, a três mil réis
No ano de 1554, a três mil réis
No ano de 1555, a cinco mil e quatrocentos réis
No ano de 1556, a cinco mil e quatrocentos réis
No ano de 1557, a quatro mil e oitocentos, no verão
e por todo o ano, a seis mil réis
No ano de 1558, no verão a dois mil e quatro-centos réis
e por todo o ano, a quatro mil e duzentos
No ano de 1559 a três mil réis
No ano de 1560 a dois mil e quatrocentos réis, no verão
e por todo o ano, a três mil réis
No ano de 1561, no verão, a quatro mil e duzentos
e por todo o ano a seis mil réis
No ano de 1562, no verão, a quatro mil e oitocentos
e por todo o ano, a seis mil réis
No ano de 1563, a quatro mil e oitocentos, no verão
e por todo o ano, a seis mil réis
No ano de 1564, no verão, a três mil e quinhentos
e por todo o ano, a quatro mil e oitocentos
No ano de 1565, no verão, a três mil e seiscentos réis
e por todo o ano, a quatro mil e duzentos
No ano de 1566, no verão, a quatro mil e oitocentos
e por todo o ano, a seis mil réis
No ano de 1567, no verão, a quatro mil e oito-centos réis
e por todo o ano, seis mil réis
No ano de 1568, no verão, a três mil réis
e por todo o ano, a quatro mil e duzentos
No ano de 1569, no verão, a três mil e trezentos
e por todo o ano, a quatro mil e duzentos
No ano de 1570, no verão, a quatro mil e duzentos
e por todo o ano, a seis mil reis
No ano de 1571, no verão, a quatro mil e duzentos
e por todo o ano, a seis mil réis
No ano de 1572, no verão, a quatro mil e duzentos
e por todo o ano, a seis mil réis
No ano de 1573, no verão, a quatro mil e duzentos
e por todo o ano, a quatro mil e oitocentos
No ano de 1574, no verão, a quatro mil e duzentos
e por todo o ano, a seis mil réis
No ano de 1575, por todo o ano, a sete mil e quinhentos
e foi o ano de tanta esterilidade que algumas pessoas o venderam a duzentos e a trezentos réis o alqueire, que era a doze mil réis e a dezoito mil o moio.
No ano de 1576, a seis mil réis o moio
No ano de 1577 a seis mil réis
No ano de 1578 a seis mil réis
No ano de 1579, a seis mil réis
No ano de 1580, a três mil réis no verão; e quase todo o ano
No ano de 1581, no verão e quase todo o ano, a três mil réis
e no cabo do ano, antes de se recolher trigo novo, como havia muitos navios, valeu a quatro mil réis . 4.000
O ano de 1582, no verão, pela taussa, a seis mil réis
O ano de 1583, no verão a seis mil réis
e pelo mais tempo do ano, a sete mil e duzentos e a mais
O ano de 1584, a seis mil réis
O ano de 1585, a seis mil réis
O ano de 1586, também a seis mil réis
O ano de 1587, valeu a seis mil reis o moio
e, pelo tempo adiante, a muito mais, por diversos preços, até chegar a dez e doze mil réis.
O ano de 1588, valeu, logo em se recolhendo, a seis mil
e pelo tempo adiante a mais, até chegar a nove mil. O ano de 1589, valeu no novo a seis mil réis
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