Estas ilhas dos Açores não são tão estériles como outras terras, em que há algumas de oito folhas e outras de sete, e daí para baixo até duas folhas, e nehuma de uma, porque não se semeiam cada ano, senão a melhor de dois em dois anos, um ano e outro não, e às vezes de três em três, e de quatro em quatro, até de oito em oito, o que se chama duas, três, quatro, até oito folhas em Alentejo, que é mãe do bom pão, e ainda estercadas, e a melhor delas de alqueive, lavrando a terra um ano, deixando-a apodrecer à chuva e à calma, e depois tornando-a a lavrar o outro ano seguinte, em que se há-de semear, e assim passa por dois invernos e verãos , curtindo-se ao frio e sol, lavrada e beneficiada para dar fruto; que é o que diz Virgílio nas Geórgicas, nestes versos: Illa seges demum votis respondet avari Agricolae bis quae solem, bis frigora sensit.
Que querem dizer: — Aquela sementeira ou seara, finalmente responderá aos desejos do lavrador avaro, que sente duas vezes o sol, que são dois verãos, e duas vezes os frios, que são dois invernos; — com que se está curtindo, apodrecendo e preparando. Mas estas ilhas dos Açores, e particularmente esta de S. Miguel, que é maior de todas, de maravilha espera por folhas de um ano ao outro, nem se usa aqui de alqueive; antes quase todos os anos continuamente se semeiam as terras dela, que nisto parece serem incansáveis, e dão abundantíssimo fruto, maiormente no princípio do seu descobrimento, em que tinham todo seu vigor e força; ainda que já agora não respondem com tanta abundância como dantes, pelo que direi algumas coisas notáveis da fertilidade antiga, em que quase não havia preço no trigo que a terra dava, porque tão barato o davam os lavradores como quase de graça, e depois pelos anos adiante declararei os preços que teve cada ano até o tempo presente, segundo melhor na verdade alcançar pude.
Nesta ilha, tendo os homens, ou cada um deles, três ou quatro moios de terra, só um semeava, ficando os outros sem semear; mas aquele só semeando Ihe dava tanto trigo, que Ihe sobejava e se enfadava.
Um Pedreanes, sapateiro, morador no Nordeste, casado com Beatriz Lopes, estante agora na vila da Ribeira Grande, comprou um moio de trigo por uns sapatos de vaca, que naquele tempo valiam três vinténs; e saía a real o alqueire.
Havia naquele tempo muita rapa-saia, uma erva deste nome, entre o trigo; um Estêvão Chainho, rico morador na vila do Nordeste, tendo um moio de terra semeado, e coberto dela, a deixava para os porcos; o que vendo seus vizinhos, pediram-lhe que Iho desse e eles o segariam, pois que o havia de dar aos porcos; e segando-o, ainda que estava perdido, apanharam eles nove moios de trigo.
O avô de Adão da Silva, vindo a esta terra, Ihe deu o Capitão por repartição a lomba que se chama a Grota Funda, e por Iha mercarem bem, ou ele não fazer caso de viver nesta ilha e se querer tornar, como tornou, para Portugal, a vendeu por quatro carneiros e uma viola; a qual lomba depois rendia cada ano mais de dez moios de trigo.
Na era de nove, um Pedreanes, do Pico, morador na Ribeirinha, comprou a Luís Gago, avô de Rui Gago da Câmara, oito moios de trigo por dezasseis quintais de pastel, que valia então o quintal a dois tostões somente. Este Pedreanes, do Pico, deu por uns sapatos brancos para um seu criado seis alqueires de trigo.
Um Francisqueanes, sendo compreendido em pena de um tostão, devido ao alcaide, Ihe deu um moio de trigo por isso.
Um padrasto de Pero Teixeira e de Antão Teixeira, morador em Vila Franca, vendeu uma terra Mécia , que rende agora passante de quarenta moios de trigo) por uma casinha de telha, terreira, em Vila Franca.
Em tempo do Capitão Rui Gonçalves da Câmara, primeiro do nome, que comprou a Capitania desta ilha de S. Miguel aos quatro dias de Agosto do ano de mil e quatrocentos e setenta e nove, um Fernando Afonso, pai da mãe de Francisco Pires Rocha, da governança da vila da Ribeira Grande, que hoje nela vive, comprou a um Pero Afonso, escudeiro, criado do conde de Monsanto, e a sua mulher Beatriz Rodrigues, cinco moios de terra, junto da ribeira, acima da dita vila, que inclui os assentos de Lopo Dias Homem e de Henrique de Betencor de Sá e o mosteiro das freiras e o assento do mesmo Francisco Pires Rocha, tudo por cinco mil réis, sendo, então, o real de cinco ceitis, e agora vale cada moio seiscentos mil réis, de seis ceitis o real. E, posto que alguns dizem que o estilo de escrever e falar antigo era grosseiro, o contrário se mostra na escritura que desta compra e venda fez Pero Cordeiro, escrivão do almoxarifado e tabelião público em todas estas ilhas dos Açores, que eu vi escrita em um pequeno pergaminho, mui breve e de poucas regras, em que está tudo rematado com palavras mui judiciais e discretas, muito diferente das que agora fazem compridas, de muita leitura desnecessária, com que mui poucas delas há que, pelas muitas palavras tabalioas com que são feitas, não sejam escuras e embaraçadas e não haja por isso depois dúvidas entre as partes .
Na era de mil e quinhentos, e daí por diante, alguns anos, valia nesta ilha o trigo a quatro réis o alqueire. Vendendo um Afonseanes, morador na Ribeira Grande, quatro moios a este preço, por o mercador não ter presente o dinheiro lhe deixou em penhor uma espada e sobre ela Ihe deu Afonseanes o trigo, por Ihe parecer que ficava seguro do preço dele com aquele penhor, e o mercador se foi, sem mais tornar a tirar a espada, cuidando cada um que o outro ficava enganado. E depois se vendeu a espada em um tostão, e assim Ihe saiu vendido o moio de trigo a vinte e cinco réis. Os farelos naquele tempo não se aproveitavam e deitavam-se fora, nos monturos.
Davam a este Afonseanes o pico do Ermo, que pode ter três moios de terra, por dois mil réis e não o quis comprar. Também Ihe davam dois moios de terra do Morro da vila da Ribeira Grande, que tem agora Nuno Barbosa da Silva, por cinco mil réis, e não os quis comprar, parecendo-lhe grande preço, e valem agora mais de três mil cruzados.
Um Gomes Fernandes, morador na Lomba, da Ribeira Grande, vendeu dois moios de terra por uma espadinha com meias bainhas. Este viveu mais de cem anos e sendo muito rico, parece que por Ihe sobejar a vida, veio a ser pobre pedinte.
Na era de mil e quinhentos e sete valia o trigo a cinco réis o alqueire, e um mercador de Lagos, do Algarve, acabando de carregar um navio, sobejando-lhe dois moios de trigo em uma eira, junto do porto dos Carneiros da vila da Lagoa, os dava por uma galinha e dois frangos, com que passava um moço que Ihos não quis dar, por não ter consentimento de seu pai; então deu o trigo de graça a Rui Martins, seu cunhado, morador na mesma vila.
Na era de mil e quinhentos e oito, um Fernão d’Alvres morador na ribeira do Salto, indo um dia da vila da Ribeira Grande para sua casa, disse a sua mulher que folgasse com as novas que levava, que já valia o moio de trigo a seis tostões, tendo aquele por grande preço, porque tinha muito que vender.
João Dias Caridade comprou por uns cintos dois moios de terra, junto da ermida de Nossa Senhora da Piedade, onde ele depois foi morar, porque vivia na vila da Ponta Delgada, que depois se fez cidade.
Na lomba grande da Ribeira Funda, de Luís Fernandes da Costa, se achou uma espiga de trigo que tinha ao pé dela sessenta filhos.
Em o quintal do Padre João Soares da Costa, beneficiado na igreja de S. Sebastião da cidade da Ponta Delgada, defronte de suas casas em que tinha semeado alguns grãos, se achou entre outros um pé deles que deu mil e trinta e três grãos; e dos outros pés, um tinha quinhentos, outro trezentos grãos, a que os castelhanos chamam gravanços.
Luís Gonçalves, sapateiro, morador na Ribeira Grande, pediu a um Gonçalo Pires meio moio de trigo por umas botas, que naquele tempo valiam oito, nove vinténs; e, por Iho rogar muito um seu amigo, tomou outro meio moio de trigo por outras botas.
Vasqueanes vendeu certos moios de trigo a três tostões o moio, posto no porto dos Carneiros, que é o que agora quase vale o carreto dele. E ordinariamente se dava naquele tempo antigo um quarteiro de trigo por uns sapatos de vaca.
Já quando o trigo ia alevantando o preço, na vila da Ribeira Grande, uma mulher mandou comprar um alqueire de trigo das maquias, e disse à criada: — se o moleiro te não escolher maquia, e maquia do melhor trigo que vier ao moinho, não o tragas, porque não hei- de dar meio vintém por um alqueire de ruim trigo.
Mandaram os almotacés deitar pregão na vila da Ribeira Grande que as padeiras fizessem pão de meio real; porque, passando um homem de caminho, não havia de tomar, nem comprar pão de real.
Na era de mil e quinhentos e vinte, ninguém queria o trigo do morro da Ribeira Grande, porque era tão forte e tinha a casca tão grossa, que se tornava farelo e não rendia em pão, senão de Janeiro por diante; rendendo então a terra a quarenta moios por moio.
Daqui veio que procuravam muitos as terras da Ribeirinha, que eram fracas, mais que as do Morro, ainda que eram, então, terras grossas e fortes; mas, gastada já aquela fortidão, são agora melhores e de mais valia.
Um Lopo Gonçalves, morador na vila da Ribeira Grande, deixou vinte e seis alqueires de terra, no morro da mesma vila, à confraria de Nossa Senhora da Estrela, que Ihe rende agora dois moios e quarenta alqueires de trigo cada ano. E então dava o Capitão Rui Gonçalves da Câmara, avô do conde Rui Gonçalves da Câmara, um moio de trigo a quem Ihe trazia outro, do lugar de Porto Formoso à vila da Ribeira Grande. E um Fernão d’Álvares, da dita vila da Ribeira Grande, deu um moio de trigo e três couros de vaca, postos na Alagoa, por umas botas de cordavão .
Fernão d’Álvares, o Grande, morador na vila da Ribeira Grande, avô do Padre Baltasar Gonçalves, beneficiado na dita vila, não quis dar um barrete vermelho, que trouxe de Portugal, por dois moios de trigo. .
Um Pero Vaz, morador na mesma vila, valendo os sapatos a dois vinténs, mandou por uns um vintém em dinheiro e quatro alqueires de trigo, por conta do outro vintém, a cinco réis o alqueire; e o sapateiro, chamado Luís Gonçalves, se aqueixava dele, porque não Ihe mandava o dinheiro, e não o trigo tão caro. E, no tempo de recolher a novidade, diziam as mulheres umas às outras:—comadre, deitastes vós já o vosso trigo no monturo?—porque costumavam naquele tempo deitar o trigo velho fora, sem o aproveitarem, e despejar os granéis para recolher o novo.
Na era de mil e quinhentos e sessenta e nove anos, um Manuel de Almeida, homem honrado, dos principais fregueses da freguesia dos Reis Magos, dos Fenais da Maia, nas terras da Ponta, junto de uma ermida de Nossa Senhora da Ajuda, na sua seara, achou um pé de trigo, que tinha cento e sete espigas, quatro delas de quatro ordens, e as outras de seis e de sete, de oito, de dez e doze; as raízes deste pé de trigo eram tão grossas como a barriga da perna de um homem, quase de grossura de dois punhos, e a rama em cima fazia soma de uma gavela. O qual pé de trigo dependurou o dito Manuel de Almeida na dita igreja da mesma freguesia, onde esteve muito tempo dependurado e o iam ver por façanha e coisa nova, até que espiga e espiga o levaram os que o viam. Também um Manuel Fernandes, enqueredor em Vila Franca do Campo, trouxe da ilha de Santa Maria uma espiga de catorze ordens, que era grande excesso e certo sinal da fertilidade da terra.
Um João Martins, de alcunha Calcafrades, morador nas Hortas, de Vila Franca do Campo, vendeu dez ou doze moios de terra de pasto, onde agora chamam Água Retorta, a João Afonso, do Faial, o Velho, por pano de Londres, azul, para um gabão, que agora dá muito trigo e pastel e é de João Roiz Cordeiro, filho de Pero Roiz Cordeiro.
João Calado, natural do Algarve, comprou um sombreiro nesta ilha por um moio de trigo, que então valia a trezentos réis o moio.
Um homem nobre comprou um capuz por nove moios de trigo e no fim de umas trovas, que sobre isso Ihe fizeram, diziam: — o que traz os moios nove, no capuz até o chão.
Rui Tavares, morador na Ribeira Grande, não há muitos anos que semeou dezoito alqueires de trigo, ao longo da sua eira, que Ihe deram vinte moios. E uma mulher deu um moio de trigo por uma bengala.
Dizia Rui Fernandes, primeiro beneficiado que foi na igreja principal de São Sebastião da cidade da Ponta Delgada, que se quisera, quando veio a esta ilha, comprara uma casa dentro na dita cidade, que então era vila, com um moio de terra, por menos de vinte mil réis; que agora valem mais de dois mil cruzados.
Está verificado por homens ainda ao presente vivos que na era de mil e quinhentos e oito, e daí por diante alguns anos, valeu o trigo a quinhentos e a seiscentos réis o moio e algumas vezes a cruzado; e em muitas casas somente comiam o olho da farinha, e em algumas estavam montes de rolão no granel, sem o aproveitarem. E vieram depois anos tão estériles que moíam os farelos duas e três vezes para fazerem pão que comessem.
Um Luís Gonçalves, sapateiro, morador na vila da Ribeira Grande, não quis dar uma botas de pele de cabra por um moio de trigo que Ihe davam por elas, que valiam então trezentos réis porque havia pouco dinheiro nesta ilha. Um André Álvares, o Grande, morador na vila da Ribeira Grande, vindo de Portugal, não quis dar um barrete vermelho, que trouxe, por dois moios de trigo, que Ihe davam por ele. E muitas vezes valeu o trigo a cinco réis o alqueire e, ainda com ser tão barato, não achavam quem o comprasse.
Bartolomeu Roiz da Serra e outras muitas pessoas que tinham muito trigo velho, quando vinha o tempo da aceifa, mandavam dizer a muitas pessoas que fossem por ele, e Iho davam de graça.
Um Gonçalo Fernandes, da Ribeira Grande, vendeu alguns moios de trigo a trezentos réis o moio, posto no porto dos Carneiros. No mesmo ano, Rui Garcia, pai de Roque Roiz, que foi escrivão da Câmara da dita vila, tendo quarenta moios em um granel para carregar para a ilha da Madeira, da qual vindo então um navio que deu nova valer o trigo a quinhentos réis o moio, vendo que não tinha proveito se o carregasse, e por não ter granel para recolher o trigo novo, os mandou deitar fora do granel, na rua, onde se perderam. Davam então um quarteiro de trigo por uns sapatos de vaca e um moio por uns brozeguis .
Na era de quatrocentos e noventa e oito até a de mil e quinhentos e seis, que por esta conta durou nove anos, era a fartura tanta que desejavam todos que viessem pobres a suas casas e eiras, para lhe darem esmolas, que não havia pobre na terra e estava o trigo em monte na eira, como em um granel; de um dos quais montes tirando um dia onze moios não fez mossa nele, ficando em vão como casa, porque com a chuva fazia côdea por cima, com que ficava como telhado que guardava o que em baixo deixavam. E não queriam comprar o trigo a cinco réis o alqueire, se não Iho dessem joeirado.
Na era de dez, um Lopo Gonçalves, morador na vila da Ribeira Grande, que deixou vinte e cinco alqueires de terra do Morro à confraria de Nossa Senhora da Estrela, da mesma vila, houve tanto trigo que não teve onde o recolher. Depois de fazer um granel debaixo, e ter ambos cheios, perguntou a um escravo seu, por nome Francisco, se havia mais trigo na eira, e respondeu-lhe que ainda havia um calcadouro limpo; deu graças a Deus, por não ter onde o recolher, e rogou a Frei Afonso, que servia de vigairo na dita vila, que dissesse na estação que quem quisesse trigo fosse buscar quanto quisesse à sua eira, e Iho daria por amor de Deus. E não se acharam mais que duas pessoas necessitadas, que lá foram, tão farta e abastada era a terra naquele tempo, em que valia o trigo a quatro réis o alqueire, e a duzentos e quarenta réis o moio.
Um mercador de fora, junto do verão, morador na Ribeira Grande, quando se havia de recolher a novidade, andava rogando a muitas pessoas que fossem buscar o trigo velho de graça ao seu granel, porque o queria despejar para recolher o novo; sendo o trigo velho bom e limpo e são.
Um João Moniz, morador em Rabo de Peixe, para recolher a novidade de um ano, além de carregar um navio de trigo e cevada, despejou o granel do trigo velho, que Ihe ficava, e eram nove moios que recolheu debaixo do mesmo granel, onde os comeram os porcos e galinhas e outras alimárias, pelos deitar ali como perdidos, por não ter onde recolher o trigo novo.
No Morro da vila da Ribeira Grande, e em outras muitas partes desta ilha, respondia a terra a sessenta moios por moio de trigo, e o mesmo de cevada; e tão basto e grado era o pão, que dois ceifões segavam trezentos feixes no dia, e cada feixe dava um alqueire de trigo; e os donos das searas não diziam que Iho apanhassem nem aproveitassem bem, senão que o levassem por cima e segassem pouca palha. Por isso naquele tempo pequenos calcadouros respondiam com muito trigo. E houve uma eira de um Francisco Martins, no Morro da Ribeira Grande, que Ihe deu vinte e cinco moios; mas agora tudo é pobreza. E o calcadouro que naquele tempo dava dez moios, não dá neste quatro, e é tanta a miséria que não há lavrador que queira ver perder uma espiga, perdendo-se tanto pão no campo naquele tempo antigo, em que um João Gonçalves, alfaiate, morador na Maia, bom ceifão, um ano ganhou a segar sete moios de trigo, com empreitadas que tomava. E ordinariamente no verão vinham ceifões do Algarve segar a esta ilha, pelo muito pão que se dava nela, e levavam para sua terra o que ganhavam.
Um Lourenceanes, serrador, vendeu por um barrete vermelho três moios de terra, arriba da Calheta de Pero de Teves junto da ermida de São Gonçalo, na cidade da Ponta Delgada.
Álvaro Lopes, que morava em Bulcão , sobre a vila da Lagoa, perto da ermida de Nossa Senhora dos Remédios, tinha trigo de três anos no granel, melhor ao cabo deste tempo que o trigo novo, que então se recolhia, que se danava muitas vezes, ficando aquele seu velho fresco e inteiro; parece que era isto pela frieza da terra, por morar ele ali, junto da serra.
João Jorge, da vila de Água do Pau, tendo vendido algum trigo barato, depois do navio carregado, sobejando a um mercador um moio, Iho comprou por três galinhas. Este João Jorge e Álvaro Lopes, dos Remédios, pai de Adão Lopes, eram dos mais ricos e abastados homens lavradores do seu tempo. João Jorge, o primeiro verão depois do dilúvio de Vila Franca, já na era de mil e quinhentos e vinte e três, vendeu trinta moios de trigo por sessenta mil réis, a dois mil réis o moio, que era grande preço naquele tempo, e ainda deu de arra trinta alqueires de trigo para biscoito. E na era de mil e quinhentos e vinte e um, nos Fenais da Maia, respondeu a terra a quarenta moios por moio.
Na Ponta da Garça, morava um bom lavrador, chamado João Fernandes; na era de mil e quinhentos e cinquenta e oito, e cinquenta e nove, determinando de se ir para Portugal Ihe perguntaram porque vendia sua fazenda e se queria ir, pois estava rico e à sua vontade.
Respondeu que se ia pelo que conhecia desta ilha, que tempo viria que não responderia a cinco moios por moio, porque o tinha experimentado nos anos atrás passados; que no princípio, quando ele fora à Ponta da Garça, Ihe davam as terras à razão de cinquenta e sessenta moios por moio e havia trinta anos que ele começara a fazer seara, e já Ihe não respondiam senão à razão de catorze moios; e, pois desta maneira faltou tanto em tão pouco tempo, que faria ao diante. E, se por isso não quis então deixar de se ir desta terra para a sua de Portugal, melhor se fora, se soubera deste nosso tempo, em que os senhorios levam cinco moios por moio, de renda, sem nenhuma piedade, vendo claramente que não dá, nem responde a terra tanto; e os pobres lavradores não podem, nem querem deixar os arrendamentos, ainda que se perdem neles, por não ter outra vida. São nisto como o pobre murganho, que não sabe mais que um só agulheiro ou buraco, em que se acolhe, pelo que prestes o tomam e morre. Mas, conquanto foi declinando a terra desta ilha de sua fertilidade, e no tempo antigo dando em alguns anos toda a ilha dezasseis mil moios e dezassete mil, e depois veio a dar oito mil, todavia o ano de mil e quinhentos e sessenta e nove deu doze mil, e o de mil e quinhentos e oitenta deu dezoito mil moios de pão, o que nunca se viu nela, porque parece que tornou então a seu princípio, e melhorado. E houve terra que respondeu a sessenta moios, e outras a trinta, e a razão de quarenta moios por moio; e muitos mais foram se não se perdera muito nas eiras, por falta de bom tempo para se poder recolher; que se vinha um dia bom, vinham logo outros chuvosos, por onde teve ruim colheita e estiveram muitos lavradores para cobrirem nas eiras o trigo, e os frescais com palha, como fazendo- lhe casas, em que o deixassem, para debulhar no mês de Maio do ano seguinte, por na era de oitenta não fazer tempo para isso, em que muito trigo nasceu nas eiras e ainda por todo o mês de Outubro não estava acabado de recolher todo, em toda a ilha. Valeu em todo o verão a três mil réis o moio, o menos; aos alqueires, o davam a dois vinténs o alqueire; e o ano de mil e quinhentos e oitenta e um, ainda que não renderam tanto as searas como dantes, deu tanto ou mais trigo que o ano de oitenta, por se semearem mais terras, porque se roçaram muitas de silvas, e todas as que chamam as cabeçadas, e aos pés dos picos e pelas faldras deles foram semeadas, e qualquer homem pobre fez seara, por Ihe não faltar trigo para semente do ano abundoso atrás passado. De centeio não se faz caso nesta terra, senão para alcacér, manjar de gado, e para se aproveitarem da palha dele nos enxergões.
É muito fértil esta ilha, não somente de trigo e cevada, mas de muitos legumes, como são favas, ervilhas, chícharos, lentilhas, tremoços e junça, em todo o tempo depois que foi descoberta até agora. E o trigo, a era de treze, quase não teve valia, mas daí por diante até este ano de mil e quinhentos e oitenta e oito, sendo o moio de sessenta alqueires, que é a medida que corre nestas ilhas, teve as valias seguintes, justificadas as mais antigas pela justiça no cartório de João Lopes, tabelião, que foi de Gaspar de Freitas, onde se há-de notar que, o ano que tinha dois preços, quem não pagava no verão, pagava depois na maior valia de todo o ano. E, ainda que nesta terra haja trigo de diversas maneiras, como é anafil, barbela, tremez, canôco e pelado, e o anafil só o primeiro ano que se semeia permaneça o seu ser, e semeado do segundo ano por diante se torna barbela, todo um e outro tem cada ano o mesmo preço .

Estas ilhas dos Acores estão arrendadas, ao presente, por seis anos, que começaram de Janeiro de mil e quinhentos e oitenta e cinco, por setenta mil cruzados, cada ano, a Pero Borges de Sousa, do hábito de Cristo, da ilha da Madeira, excepto a do Corvo e ilha das Flores, que são de senhorio, e ilha de Santa Maria, que é comenda. É recebedor dos dízimos e direitos desta, em que estamos, Pero Lopes Peixoto.
Esta ilha de S. Miguel uns anos por outros rende cada ano para Sua Majestade, em dízimos e direitos de entradas e saídas, mais de cinquenta mil cruzados; e algumas vezes dá cada ano um conto e dois mil moios de trigo, de que vêm ao dízimo de Sua Majestade mil e duzentos moios, que valem perto de vinte mil cruzados.
Em ano fértil, dá quase cinco mil pipas de vinho, de que vêm ao dízimo quinhentas, que valem cinco mil cruzados.
Dá sessenta mil quintais de pastel, que valem cento e sessenta mil cruzados, de que vem aos direitos de entrada e saída mais da quarta parte, que são quarenta mil cruzados.
Os direitos das miunças e açúcar podem rendar mais de mil e quinhentos cruzados.
Podem importar as entradas das mercadorias cem mil cruzados, de que vêm aos direitos do dízimo dez mil cruzados.
Soma tudo o que rendem os direitos a el-Rei, assim de entradas de fora, como de direitos da terra, setenta e seis mil e quinhentos cruzados.
E isto é afora as rendas da ervagem e pescado e saboaria, que rende para o Conde, a quem Sua Majestade as tem dado, e afora a pedra hume, de que há muitas e grandes minas, que ao presente se não lavra.
Rende o pescado mil e duzentos e cinquenta cruzados; a saboaria cinquenta cruzados, e a ervagem duzentos e cinquenta cruzados; e soma isto seiscentos e vinte mil réis, que são mil e quinhentos e cinquenta cruzados.
As outras ilhas todas juntas dos Açores rendem outro tanto, como só esta de São Miguel, afora a ilha de Santa Maria, que é comenda de D. Hierónimo Coutinho, que foi o ano de oitenta e seis por capitão mor das naus da Índia.
Rende esta ilha de São Miguel ao Conde de Vila Franca, Capitão mor e governador dela e alcaide da fortaleza, trinta mil cruzados cada ano.
Rende a redízima dos setenta e seis mil e quinhentos cruzados, que rende esta ilha para Sua Majestade, sete mil e setecentos e cinquenta cruzados.
O dízimo do pescado, ervagem e saboaria rende mil e quinhentos e cinquenta cruzados, como parece pelo atrás dito.
Rendem-lhe os moinhos e pensões de atafonas de toda a ilha e as rendas das terras, que tem de trigo, e dinheiro, mais de vinte mil cruzados, que é pouco mais ou menos a metade das rendas de terras e foros, e a outra ametade dos moinhos e pensões de atafonas; o que fazem soma de trinta mil cruzados.
Afora cinquenta mil réis que tem de alcaide-mor da fortaleza e oitenta e um mil réis que tem na ilha da Madeira, do morgado do segundo filho.
Rui Vaz Gago, chamado do Trato , foi o mais rico desta ilha; a fazenda que ele possuiu veio a render mil e trezentos moios de trigo, cada ano, que estão agora repartidos pelas pessoas já ditas, que nela Ihe sucederam.
Jácome Dias Correia teria até trezentos moios de renda, cada ano.
Barão Jácome Raposo teve, cada ano, duzentos moios de trigo, e com outras rendas de casas e gado podia ter por todo três mil cruzados de renda.
Seu filho, Aires Jácome Correia, que Ihe sucedeu e hoje em dia está em posse de toda a fazenda, a tem acrescentada do que seu pai Ihe deixou nesta ilha e além dela na ilha Terceira mais de seiscentos mil réis de renda que houve em dote com sua mulher, tem por tudo de renda cada ano quatrocentos moios de trigo e quinhentos cruzados em dinheiro e quinhentas galinhas.
Gaspar do Rego Baldaia chegou a ter trezentos e sessenta moios de renda e foros; muitos dizem que teve trezentos e sessenta e seis moios, tantos quantos dias há no ano, e outros afirmam que chegaram a quatrocentos moios.
Seu filho, o grão capitão Francisco do Rego de Sá, que Ihe sucedeu nela, até agora esteve de posse de toda esta fazenda, em companhia de sua mãe, D. Margarida de Betencor, e com gastos que fez em serviço de el-Rei não logra toda a fazenda de seu pai.
António de Brum, que ora vive nesta ilha, terá nela de renda como três mil cruzados; e além disto pode ter, em trato e negócio de pastel e de outras coisas, mais de trinta mil cruzados; terá também nas ilhas de baixo mais de dois mil cruzados de renda. E afora isto trazia uma demanda em Sevilha, que já venceu, a qual importava vinte e dois mil cruzados. Afirma-se que vale toda sua fazenda duzentos mil cruzados.
António de Brum da Silveira, seu filho, possui vinte moios de renda, que houve com sua mulher, filha do licenciado Bartolomeu de Frias, os quais juntos com granjearia que tem, valerá toda vinte mil cruzados. Seu irmão, Gaspar de Brum, quase terá outro tanto, segundo dizem.
O bacharel João Gonçalves, morador no lugar de Rosto de Cão, teve cem moios de renda, além de outra fazenda, que toda poderia valer vinte e cinco mil cruzados. Falecendo sua mulher, de que não teve filhos, fez partilha, sem ninguém os ouvir, com seus enteados António Furtado e Jorge Furtado; e coube a cada um oito mil cruzados. Teve Jorge Furtado trinta moios de renda.
Casou o bacharel João Gonçalves, segunda vez, com uma filha de Lopo Anes de Araújo, de Vila Franca, de que houve um filho e uma filha; e tornando-se a fazer inventairo de sua fazenda e partilha com estes dois filhos da segunda mulher, valeu sua fazenda outros vinte e cinco mil cruzados. E ficando Francisco Ramalho por curador dos dois órfãos, casou a filha com Jorge do Amaral, com dote de quinze mil cruzados, e o filho, chamado Hierónimo Gonçalves, homem de muita virtude, com uma sua filha, com dispensação de Roma. Vale agora sua fazenda vinte e cinco mil cruzados, tudo em propriedades.
Francisco Ramalho tem fazenda de raiz e traz em trato valia de vinte mil cruzados.
Pero Gonçalves Delgado viveu cento e catorze anos, tendo sempre boa disposição e juízo perfeito, e o mais são homem, que se viu nesta ilha. Sendo desta idade, subia e descia por uma escada, como homem mancebo. Viveu próspero e abastado, e, além do que havia de sua lavoura, teria até quarenta moios de renda. Seu filho, Diogo Vaz Carreiro, que Ihe sucedeu em toda a herança, chegou a ter oitenta moios de renda. Fez o mosteiro de freiras, da invocação de Nossa Senhora, em uma ermida de Santo André na cidade da Ponta Delgada, para se nele meterem suas parentas pobres; tendo-o já quase acabado, faleceu deixando-lhe terras, que renderão como sessenta moios de trigo, cada um ano. Ficou por padroeiro do dito mosteiro seu sobrinho o licenciado António de Frias, cavaleiro do hábito de Cristo, com vinte mil réis de tença, que casou com uma sobrinha de sua mulher Beatriz Roiz Camela, com que Ihe deram em dote trinta moios de renda.
Gonçalo Vaz, o Grande, teve duzentos moios de renda; e Gonçalo Vaz Botelho, seu filho, teve outros tantos. Repartiram-se estas rendas por seus filhos e herdeiros.
Afonso Roiz Cabea, morador em Vila Franca antes do dilúvio dela, homem fidalgo, natural de Portugal, de Povos, cujo parente é Melchior Gonçalves, chançarel que foi de todas estas ilhas, tinha quatrocentos moios de renda; foi rendeiro de el-Rei e levou-Ihos todos, com outra mais fazenda que Ihe ficou.
Gaspar de Betancor teria até oitenta moios de renda. Trazia na corte seu filho Henrique de Betancor, que lá casou, em Évora, e uma filha, por nome D. Beatriz era dama da Rainha, mulher de el-Rei D. Manuel; foi a Castela com a Imperatriz, onde casou com D. Pedro Lasso, e mandou ir desta ilha a D. Isabel, sua irmã, que foi aia da Princesa, que casou em Portugal, a qual D. Isabel casou depois com D. Pedro Lasso, marido que foi de sua irmã D. Beatriz, e mandou ir de cá a Castela seis sobrinhas suas, duas, filhas de um seu irmão, e quatro, de António Juzarte, grande fidalgo, e de D. Guiomar de Sá, que depois casou com D. Fernando , das quais sobrinhas casou quatro com quatro morgados, e uma com um seu enteado, que era morgado de seis contos de renda; outra não quis casar e foi freira.
O contador Martim Vaz Bulhão teve passante de cem moios de renda e era homem fidalgo de Portugal; repartiu sua fazenda por seus herdeiros, Manuel de Melo, a mulher de Garcia Roiz Camelo, a mulher de Simão Roiz Rebelo, almoxarife que foi nesta ilha, e a mulher de Simão Godinho, fidalgo.
Jorge Nunes Botelho foi dos mais graves e honrados homens que houve nesta ilha e como tal se tratou sempre; teve de seu passante de cinquenta moios de renda, afora outra fazenda, que tudo podia valer doze mil cruzados.
Jorge Nunes Botelho, filho de Diogo Nunes Botelho, que foi contador em todas estas ilhas, e sobrinho de Jorge Nunes Botelho, acima dito, vive em suas terras abastadamente, com o que herdou de seu pai e mãe e do que houve em dote com sua mulher e do que há com sua granjearia de pastel e trigo, que nelas faz; terá de seu até oito mil cruzados.
António Borges, do hábito de Cristo, com tença de vinte mil réis viveu mui abastado; foi sempre dado a coisas de honra. Mandou dois filhos seus à Índia, onde faleceram em serviço de el-Rei. Deixou aos vivos fazenda, que valeria doze mil cruzados.
Baltasar Rebelo, seu genro, que foi casado com sua filha Guiomar Borges, teve de renda oitenta moios de trigo, afora outra muita fazenda que deixou a seus filhos.
D. Fernando, que foi casado com D. Guiomar de Sá, viúva, teve fazenda e moios de renda, que por falecimento de ambos valeriam mais de seis mil cruzados.
Rui Velho possuiu boas terras que Ihe ficaram de seus antepassados, que foram dos primeiros que povoaram esta ilha; teve de seu mais de trinta moios de renda e outra fazenda, que toda podia valer dez mil cruzados, os quais ficaram por seu falecimento a seus filhos.
Pero de Teves foi muito rico; teria oitenta moios de renda e teve muitos filhos entre os quais se repartiram.
Álvaro Velho Cabral poderia fazer até setenta moios de renda, porque tinha boa fazenda, mas, com fianças e deitar em rendas de el-Rei, e em buscar uma ilha nova, a perdeu toda.
Pedro Afonso Colombreiro tinha cento e vinte moios de renda, que se repartiram por dois filhos e uma filha. Um filho chamado Sebastião de Sousa casou com D. Isabel, filha do doctor Francisco Toscano, corregedor que foi nesta ilha, de que houve uma filha, chamada D. Lianor, de grande virtude, que casou com Martim de Sousa, grande cavaleiro e do hábito de Cristo; o outro, Jorge Camelo da Costa, casado com D. Margarida, filha de Pero Pacheco, terá setenta moios de renda e granjearia de sua lavoura nas Feiteiras, onde vive, e nos Mosteiros, que valerão mais de quinze mil cruzados.
A filha de Pedro Afonso Colombreiro casou com Francisco de Mendonça, filho de Mendo de Vasconcelos, fidalgo; houve em casamento sessenta moios de renda.
Pero da Costa, de Vila Franca, terá trinta moios de renda e outra fazenda, que pode tudo valer oito mil cruzados.
Amador da Costa, seu irmão, quarenta moios e outra tanta fazenda, que deixou a seus filhos Manuel da Costa e Álvaro da Costa, que agora a possuem.
Francisco de Arruda da Costa, seu irmão, que se pode chamar com muita razão Pai da Pátria, terá em renda e fazenda e granjearia, que traz de pastel, doze mil cruzados.
Fernão Camelo tinha de renda sessenta moios. Trazia cinco filhos na Corte, sc., Pero Camelo, Jorge Camelo, Gaspar Camelo, Henrique Camelo e Manuel Camelo, e casou duas filhas, uma com Pedro Afonso Colombreiro, atrás dito, e outra, na ilha Terceira, com Pero Homem da Costa, fidalgo, morador que foi na Praia, e toda a renda se gastou com os filhos.
João Álvares do Olho foi muito rico; teria noventa moios de renda, que se partiu com seus filhos, que eram muitos.
Pero Jorge, pai de Hierónimo Jorge, também tinha boa fazenda em terras na cidade, em que faria sessenta moios de renda, de que deixou um morgado a seu filho, que agora possui seu neto.
Rui Lopes Barbosa foi muito rico; teria cem moios de renda; casou na Ribeira Grande com uma filha de Fernandeanes Tavares, que Ihe deu muita parte dela. Casou uma filha com António Borges, feitor de el- Rei, homem de muita qualidade.
Domingos Afonso, do lugar de Rosto de Cão, natural desta ilha, teve cento e vinte moios de renda, com outra fazenda, que valeria toda dezasseis mil cruzados, ajuntada com sua indústria.
Casou uma filha com o licenciado Bartolomeu de Frias, que terá agora trinta moios de renda, e outra fazenda, que valerá toda doze mil cruzados.
Hierónimo de Araújo teve trinta moios de renda, e outra fazenda, que pode toda valer oito mil cruzados.
Bartolomeu Jácome Raposo, filho de Sebastião Jácome Raposo, tem um morgado que houve por morte de seu pai e avô Jordão Jácome, que rende mais de setenta moios de trigo.
Gaspar Ferreira teria cinquenta moios de renda, e grande trato e muitas casas na cidade da Ponta Delgada, mas com rendas de el-Rei, e outros partidos, se perdeu quase toda.
Dos Farias, do Regno, procedeu António Lopes de Faria, que viveu nesta ilha na vila da Alagoa, casado com Maria da Costa, de grande caridade e virtude, sem ter filhos. Teve cem moios de renda e muita fazenda, que granjeava, que toda poderia valer sessenta mil cruzados.
A maior parte dela deixou a Pero de Faria, seu sobrinho mais velho e dizem que duzentos mil réis a António de Faria, sobrinho mais moço.
Afonseanes dos Mosteiros, natural de Portugal, teria cento e cinquenta moios de renda e lavoura e muito móvel e dinheiro, que se repartiu por seus herdeiros. E deixou um morgado, avinculado a um anal que se diz em uma capela de São João Baptista, que fez na Casa da Misericórdia do Esprital da cidade da Ponta Delgada.
Aires de Oliveira tinha cem moios de renda, sem ter mais que uma só filha, que faleceu antes dele, pelo que deixou a sua ametade à Casa do Esprital e Misericórdia da cidade da Ponta Delgada, e repartiu em outras obras pias.
Garcia Roiz Camelo teria até cinquenta moios de renda. Gaspar de Viveiros, quarenta, Aires Pires, marido de Margarida Mendes, outros tantos, que herdou Amador da Costa, do lugar de São Roque.
Pero Castanho tinha, entre moios de renda e granjearia, fazenda que podia valer mais de dez mil cruzados.
Veio de Portugal a esta ilha um Bartolomeu Roiz, chamado da Serra, porque morava nela, na freguesia dos Fenais, termo da cidade, onde comprou uma fazenda com muito dinheiro que trazia; e, por ser rico e discreto, casou com Isabel Cabeceiras, filha de Gonçalo Vaz Delgado, homem muito honrado, mas já então era pobre. O qual Bartolomeu Roiz tomou a Jácome Dias Correia de arrendamento um bom pedaço de terra, que tinha coberto de pampilho, sem se poder desinçar, que o dito Jácome Dias Ihe deu por muitos anos e que nos três primeiros nada pagasse, mas dai por diante a tivesse por sua renda barata. E de tal modo a alimpou, que ficou estercada com o pampilho que se secou em montes, pondo o fogo nele, e ficou como terra nova que dava cada moio trinta moios de trigo, donde ajuntou muito dinheiro. E, vindo a esta ilha uns egyptanos, em um dia de Natal Ihe roubaram de uma caixa setecentos e cinquenta mil réis em ouro e tostões; e achando-se o cofre quebrado, junto da casa, sem dinheiro, querelou ele os egyptanos, dos quais prenderam sete ou oito, que estiveram na cadeia passante de um ano, em que foi o feito a Portugal; e, por não provar o furto, pagou todas as custas e injúria, que chegou tudo a cem mil réis. E logo se suspeitou que, sob capa dos egyptanos, o roubaram uns seus parentes. Teria este Bartolomeu Roiz de suas terras e lavoura trinta moios de renda.
E tinha na serra, onde morava, e em seu pomar, perto de seiscentas colmeias, de que tirava cada ano mais de uma pipa e um quarto de mel. Tinha muitos filhos e filhas, a que deu seus casamentos, pela qual razão, quando faleceu, já não estava tão rico, nem o ficaram seus herdeiros.
Manuel do Rego, irmão de Gaspar do Rego Baldaia já defunto, foi bom cavaleiro, muito honrado, cortês e benquisto na terra; deixou nove ou dez filhos e filhas.
Das fêmeas, que eram seis ou sete, quatro delas metidas em o mosteiro da Esperança da cidade, da ordem de Santa Clara; aos quais filhos ficariam até oito mil cruzados de fazenda.
Manuel Pires de Almada, cavaleiro fidalgo nos livros de el-Rei, curioso de aproveitar seus filhos, todos mandou aprender a Salamanca e Coimbra, e gastou com eles o principal de sua renda, que será como quarenta moios cada ano, e outra fazenda, que valerá tudo vinte e cinco mil cruzados. Seu primeiro filho, Gonçalo do Rego, foi professo na Companhia de Jesus, bom pregador e de grande conselho, tido por santo. Outro, chamado Baltasar do Rego Sanches, depois de acabar seu estudo e ser bacharel formado, foi despachado por juiz de fora de Mértola e juiz do verde montado e da alfândega e alcaide das saquas . Esteve com estes cargos dois anos, pouco mais ou menos, e depois de ter servido este tempo, sucedendo as alterações destes Reinos, não consentiu ele alevantar-se na vila de Mértola nenhum Rei, até não mandar a Lisboa, antes o defendeu às cutiladas, ele e outros amigos seus. O duque de Medina Sidónia, que combatia o Reino de Portugal por aquela parte do Campo de Ourique, lhe tinha mandado muitos recados que se entregasse, o que ele não fez até Ihe não vir recado de Lisboa; e vindo, soube como estava todo o Reino entregue a el-Rei, nosso Senhor; entregou-se também e fez muita festa ao estendarte de Sua Majestade, e o duque Iho agradeceu muito, em nome de Sua Majestade. Foi despachado por juiz de fora da cidade de Faro, onde esteve oito meses; mandaram outro juiz de fora para a dita cidade, que antes dele estava despachado; veio-se ele para Lisboa, foi dar sua residência a Mértola. Despacharam-no por juiz da cidade de Silves, para onde ele não quis ir, pelo que esteve sem despacho um ano, como agravado. Deram-lhe depois disso a correição da comarca de Alenquer, onde serviu três anos de corregedor, e prendeu um homem que fazia moeda falsa, que foi queimado com outros três companheiros; e eram as moedas de sorte que os mesmos moedeiros e ourivres da prata não sabiam determinar-se se eram tais. Sobre isto traz seu requerimento. A um escrivão que foi com ele deram mil cruzados de mercê e outras mais. Acabando o tempo nesta comarca, foi despachado por provedor da fazenda de el-Rei, nosso Senhor .
Há nesta ilha, neste tempo de agora, e sempre houve, número de trinta até quarenta homens da terra, que todos negoceiam de três até vinte, trinta, quarenta mil cruzados de suas fazendas e pastel, e outras mercadorias, com muita qualidade cumprindo a risco o que ficam e prometem, negociando uns com outros partidos de muita quantidade, sem escrituras, com suas palavras; e com quantos trabalhos há nestes tempos presentes, têm mão na verdade, folgando sempre de a tratar e conservar, e até agora, ainda que muitas perdas tiveram, estão restaurados em suas fazendas e inteiros em seu crédito. Os que agora vivem, são estes: Gaspar Dias, genro de Miguel Lopes de Araújo, cuja renda cada ano será duzentos moios de trigo e móvel mais de quinze mil cruzados, e toda valerá quarenta mil cruzados; Cristóvão Dias, seu irmão, cuja renda, trato e móvel valerá dez mil cruzados, o qual está casado com D. Margarida de Sá, filha de Henrique de Betancor de Sá, morador que foi na vila da Ribeira Grande.
António Mendes Pereira, valia sua fazenda dezanove mil cruzados. A do contador, que foi Francisco Mendes Pereira, seu filho, vale dez mil; e a de seu irmão António Mendes, que tem vinte moios de renda, vale mais de vinte mil cruzados.
Jorge Gonçalves de Figueiredo é dos Figueiredos; tem um filho doutor, em leis, que pretende cátedra em Coimbra; e uma filha freira; e outra, por nome Caterina de Figueiredo, casada com Paulo António, escrivão na cidade da Ponta Delgada, de muita virtude e verdade, filho de António Lourenço, que veio muito rico da Índia, e de Ambrósia Antunes, naturais de Lisboa; e outra, chamada Maria de Figueiredo, que casou com Martinhanes de Sousa, filho de Jordão Jácome Raposo. Este Jorge Gonçalves tem mais de quinze mil cruzados. João Roiz, de S. Pedro, sogro de Hierónimo de Rego, terá outro tanto. André Gonçalves, o Ruivo, outro tanto.
João Álvares Rodovalho vale o seu dez, até doze mil cruzados. Adão da Silva, quase o mesmo. Diogo Mendes, quatro mil cruzados. Lucas Dias, três, até quatro mil cruzados. Álvaro da Cunha o mesmo. Pero Fernandes Moreira, seu genro, que tudo é uma casa, cinco, até seis mil cruzados. Francisco Martins Barros, oito, até nove mil cruzados. Manuel Jorge da Cunha, outro tanto. Francisco Vaz de Andrade, quatro, até cinco mil cruzados. Manuel Martins Soares, de grande habilidade, genro de Brás Raposo, terá de seu quinze mil cruzados. João Fernandes Barros teve mais de três mil cruzados.
Negociavam os Crastos, do Porto, Sebastião de Crasto e seus filhos, Manuel de Crasto e António de Crasto, em mercadorias de açúcares de sua lavra em Vila Franca, fazenda que, por falecimento de Manuel de Crasto que faleceu derradeiro na era de mil e quinhentos e oitenta e quatro anos, valeria quarenta mil cruzados, ficando à mãe dele, a qual ela possui agora e Diogo Leite, seu genro, do hábito de Cristo, discreto e nobre fidalgo, casado com D. Helena, irmã dos ditos Crastos.
Veio a esta ilha, o ano de mil e quinhentos e trinta e dois, João Lopes Cardoso , com João de Belas, seu tio, feitor destas ilhas, e, estando nesta, o casou com Cecília Luís Maga, filha que foi de Pedreanes, o Cavaleiro, e de Caterina Luís Maga, sua mulher. Teve a dita Cecília Luís dois irmãos, um por nome Gaspar Vaz de Sousa, que foi genro do Congro e coronel do campo do Imperador, e morreu na subversão de Vila Franca do Campo; e outro, Baltasar Vaz de Sousa, foi capitão da infantaria em Mazagão. Deram em casamento a João Lopes, com sua mulher, duzentos mil réis, com os quais tratou três ou quatro anos, e no cabo deles comprou o ofício de escrivão, que tem, a um Gaspar de Freitas, seu antecessor, o qual ofício serve e serviu de quarenta e sete anos a esta parte, e neste meio tempo nunca foi suspenso, nem compreendido em erros dele.
E com o ganho de seu trato, que teve em princípio, e o ganho de seu ofício, algum pastel granjeava, Ihe fez Nosso Senhor as mercês que agora direi.
O ano de mil e quinhentos e quarenta e nove foi a Portugal, à cidade de Beja, donde é natural, filho de Pero Martins Cardoso e de sua mulher Isabel Lopes, já defuntos; e por ter uma irmã, chamada Lianor Lopes, solteira e órfã, a trouxe a esta ilha, para sua casa, e a casou na cidade da Ponta Delgada com Diogo de Melo, homem por geração mui honrado , e Ihe dotou duzentos mil réis; mas o seu vale hoje doze mil cruzados, em propriedade e trato .
Depois do qual casou duas criadas suas e vivem mui honradas.
Também casou uma filha, por nome Maria Lopes, com João Roiz Ferreira, homem fidalgo, ao qual dotou mil cruzados, de que tem seis filhos e filhas. Vale o seu quatro até cinco mil cruzados.
Casou outra filha, chamada Catarina Luís Maga, com Francisco Lopes Moniz, homem dos principais desta ilha, de que tem seis filhos e filhas. Valerá o seu oito mil cruzados .
Casou outra filha, por nome de Hierónima Lopes, com António de Matos de Sousa, dos principais da ilha, ao qual dotou quinhentos mil réis, de que tem uma só filha. Valerá o seu mil cruzados.
Daí a pouco tempo, casou outra filha, chamada Guiomar Lopes, com Bartolameu Nogueira, filho do licenciado Manuel de Oliveira, homem principal da terra; dotou-lhe seiscentos mil réis; e, andando para parir, faleceu, e daí a poucos dias mataram os franceses, que vieram com D. António, ao dito Bartolameu Nogueira.
Sustentou um filho na corte, chamado Pedreanes Mago, em casa do secretário de el-Rei D. Sebastião, que está em glória, com o qual gastou quinhentos cruzados; o qual foi para a Índia em foro de moço da câmara, e ia na casa do viso-rei D. Luís de Tayde ; e em Moçambique, estando a nau para dar à vela, desandando com o cabrestante, o matou.
Tem outro filho, por nome João Lopes Cardoso, moço da câmara de Sua Majestade , canonista, bacharel formado em Coimbra, de grande erudição e virtude , com o qual tem gastado perto de mil cruzados.
Tem outro filho, chamado Belchior Luís Mago, que traz no estudo nesta ilha, e é bom latino.
E outro filho, por nome Francisco Cardoso de Espinosa , também moço da câmara de Sua Majestade, que anda no estudo. Os vivos são por todos oito, ainda que sua mulher pariu vinte vezes .
Tem mais um filho, por nome Sebastião Luís Cardoso, ao qual entregou há muitos anos sua fazenda, de que tem dado até agora boa conta, aumentando-a; e ainda que os franceses e perdas do mar e outros desastres que teve o estorvaram; contudo há recebido de Deus mui abalizadas mercês, aumentando-se a fazenda em muito crescimento e não menos honra. O qual foi, o ano de mil e quinhentos e oitenta e dois, a Portugal concluir certos negócios de sua mercancia e, entre outras coisas, requereu a Sua Majestade os serviços que Ihe fizera nesta ilha, nas alterações que nela aconteceram e nas escaramuças que houve com os franceses que a ela vieram; e Ihe fez Sua Majestade mercê de o tomar por cavaleiro fidalgo de sua casa e de trinta cruzados de tença, em cada um ano, pagos nesta ilha; e assim mais Ihe tomou dois filhos por moços da câmara. Tirou no Regno o brasão de seu pai, da progénia dos Cardosos. Tem por armas no escudo, com o campo vermelho, dois cardos verdes, postos em pala, com as raízes e floridos de prata, entre dois leões de ouro batalhantes, armados de preto; elmo de prata aberto, guarnido de ouro; paquife de ouro e vermelho e prata e verde; e por timbre uma cabeça de leão de ouro, que Ihe sai pela boca um cardo verde, florido de prata, e por diferença uma frol de liz, de prata.
Requerendo também o dito Sebastião Luís Cardoso a Sua Majestade os serviços que seu pai fizera, no dito tempo, nesta ilha, apresentando disso certidões e uma carta que Sua Majestade Ihe escreveu, Ihe fez mercê, ao dito João Lopes, de o tomar por cavaleiro fidalgo de sua casa, e Ihe tomou dois filhos seus por moços da câmara. O qual João Lopes se tratou sempre muito bem, com escravos e escravas e homens de serviço, e cavalo e mula na estrebaria, vivendo sempre a lei de cavaleiro e é da governança da terra .
Valerá o seu hoje em propriedades e moios de foro, casas e vinhas, como três contos de réis; e, com o que têm seus genros e filhos, vale até dez contos de réis. E até hoje os três genros atrás ditos que tem vivos, todos servem de capitães da milícia nesta ilha, convém a saber: João Roiz Ferreira, no termo da Relva, onde vive: Francisco Lopes Moniz, na vila da Alagoa; António de Matos de Sousa, em Vila Franca, onde vive.
Casou depois do sobredito uma filha, por nome Isabel Cardosa, com Francisco Corrêa Rodavalho homem principal da ilha e de nobre geração, ao qual deu mais de dois mil cruzados em casamento; e vale o seu, hoje, cinco mil cruzados, e seu pai, João Álvares Rodavalho, tem fazenda que vale mais de doze mil cruzados.
Depois casou seu filho Sebastião Luís Cardoso, da governança da cidade da Ponta Delgada, com Isabel do Quental de Sousa, mulher principal, de muito nobre geração e dos primazes que há e houve na ilha; e vale hoje sua fazenda quatro mil cruzados.
E depois disto, trazendo o dito João Lopes um filho, por nome Belchior Luís Mago, no estudo, de idade de vinte anos, de seu moto próprio pediu a seu pai Ihe mandasse fazer um hábito, e feito se embarcou com um parente seu, Fr. Pedro mestre, para a ilha Terceira, onde vestiu o hábito e tomou o jugo do Seráfico Padre S. Francisco , e agora se chama Fr.
Agostinho da Madre de Deus, já de ordens de Evangelho. Tem já o dito João Lopes Cardoso quatro bisnetos e será de oitenta anos.
Baltasar de Sousa, filho de Pero Roiz de Sousa e sobrinho de Baltasar Roiz, de Santa Clara, foi às Antilhas e veio de lá casado; vive agora na cidade da Ponta Delgada. Vale o seu trinta mil cruzados em propriedades, dinheiro e trato.
Afora os ditos, de três mil cruzados abaixo, há muitos naturais e estrangeiros, que tratam com suas fazendas, com muita verdade, sem haver falta nela, e em trezentos mil cruzados, que cada ano negoceiam uns e outros, se não fazem antre eles dez escrituras públicas; abasta que pagam o que devem, sem os ouvir ninguém, e têm por abatido aquele com quem têm dúvida e, quando alguma se move, procuram conserto nela e na que se pode mover. Aqui negoceiam cada ano, ordinariamente, até vinte e cinco naus ingresas, e alguns anos mais; nunca se achou que ingrês se aqueixasse de mau trato, nem engano, que nesta terra Ihe fizessem. E presume todo o mercador, que daqui passa letras, serem mui certas e de muito bons cumprimentos. De modo que em nenhuma parte há praça tão pequena e melhor que esta o dia de hoje, com quantos trabalhos há nela nestes tempos presentes.

Para tratar das Furnas desta ilha de São Miguel, se há de notar primeiro que a maior parte das faldras destas e doutras ilhas, que são as terras marítimas lançadas ao longo das cordas das serranias, que correm como lombo ou espinhaço alto, pelo meio de cada uma, e quase de todas elas, em alguns tempos passados, por diversas vezes correram arrebentadas, ou sacudidas dos picos das mesmas serras, ora em matéria e polme de pedra derretida que do profundo procede e sai com a força do fogo que fazem acender os vieiros de enxofre, ou salitre, ou outras coisas naturais, e sobre a pedra correu e caiu depois cinzeiro e areia e pedra pomes e a mesma terra dos montes que arrebentaram; com que às vezes, donde cai nos altos, os faz mais altos e os baixos os arrasa com os outeiros, e as grotas com as terras junto delas, e outras vezes tomando posse do mar e estendendo as ilhargas com os mesmos biscoutos, que pelas águas salgadas se estendem como caes, e com areias e fajãs que, espraiando-se abaixo das rochas, fazem grandes entulhos, às vezes sobre o mesmo biscouto, e às vezes sobre as águas do mar, ao modo das lezírias, que fazem as invernadas e crescentes dos rios em terra firme, que aqui não são lezírias, por não serem alagadiças, mas são umas terras chãs e outras, fajãs ao pé das rochas, como é a do lugar dos Mosteiros e o que se acrescentou na Praia, no caminho de Vila Franca, e em outra praia na vila da Ribeira Grande, nesta ilha de S. Miguel, e outras semelhantes. E assim parece logo a quem as vê com consideração e atenção que estas terras são de uma terra sobreposta e quase nateiro, do interior do sertão da serra e picos dela, que caiu do alto, onde a alevantou o fogo, ou trouxeram as ribeiras do polme de pedra ou terra, em tempo que arrebentou algum pico, ou a força das águas quando chovia; mais que terra própria e nativa daquele lugar, a terra do cume daquelas serras ou das rochas, com que se alargou esta ilha e da mesma maneira outras muitas, fazendo-se maiores do que primeiro foram. E parece que Deus ou a Natureza a que ele manda obrar, no princípio da criação ou feitura destas ilhas, pôs aquele muro altíssimo de serranias, para amparo do ímpeto que trás o grande oceano no tempo de sua fúria; e depois pelos tempos em diante, correndo pedra e terra das mesmas serras, se estenderam; os sinais do qual se vêem ao pé de alguma serra, com algumas partes da planura das faldras dela, onde se acha muito cascalho e areia rebatida das ondas do mar, testemunho claro que já ali em outro tempo chegou e depois correu mais terra ou pedra, que tomou adiante mais posse dele, e alargou mais as ilhas, fazendo-as maiores do que dantes eram e do princípio foram, como se vê claramente nas baixas dos lugares da Povoação e Faial, que estão ao pé de altos montes onde o mar chegava, de que a terra corrida tomou posse, e sobre elas se fizeram as casas e se prantaram pomares; e na vila da Ribeira Grande desta ilha, no lugar onde esteve uma ermida de Nossa Senhora da Concepção, que estava em terra corrida em tempos passados, mais baixa já que a outra, e depois, abaixo dela, correu outra, misturada com areia, que atupiu o mar por grande espaço, pelo qual lugar está manifesto que foi a ilha acrescentada duas vezes, em sua largura; e assim foi por muitas vezes em muitas partes, assim na largura, como na grossura, com que de estreita se fez mais larga e de rasa se fez mais alta; do qual são boas testemunhas de vista todos ou quase todos os montes desta ilha, que se forem inquiridos desta verdade responderão como gente cortês, com os chapéus fora, que são seus picos, cumes ou coroas de riba, com covas em cada um e bocas abertas, que estão testemunhando e dizendo como sinal evidente que por elas saiu de suas entranhas e do centro da terra pedra de biscouto e outra pedra pomes, terra e cinzeiro, que aos seus lados se foi estendendo e correndo, até chegar ao mar e tomar posse dele; e outras vezes subindo pelas mesmas bocas, como pelouro por tiro de trabuco, com a força da pólvora e fogo, para o ar, e tornou a cair a mesma matéria de pedra dura e pedra pomes, terra e cinza, sobre as terras a eles adjacentes e vizinhas; e às vezes mais longe, levadas pelos ventos que então cursavam, com que acravavam os matos do alto arvoredo e enchiam as grotas, ficando, na sumidade das mesmas árvores a superfície da terra, que com ela arrazava, tendo-a dantes igual e rasa com suas raízes, mas agora sua altura acravada, e assim tornada calva. Como se vê também nos escalvados que ficaram ao redor das Furnas, quando elas arrebentaram, em que não se achou arvoredo, por estar acravado o que dantes havia, ainda que em outras partes nasceu e cresceu depois tanto, que se tornaram a povoar de mato espesso e altíssimas árvores, de modo que parecem estar prantadas desde o princípio da ilha e começaram juntamente com ela, em sua criação ou feitura. E antre os montes que arrebentaram , a concavidade das Furnas foi dantes um grande e altíssimo pico, coberto de alto, grosso e basto arvoredo, nele antigamente nascido ou criado, que com a força das vieiras de enxofre ou salitre, que no centro de sua raiz havia, veio a arrebentar todo inteiro, antes da ilha ser achada muitos anos, e alçar-se para o ar, como pelouro de trabuco ou bombarda, ou todo inteiro ou em pedaços, desfazendo-se ou espalhando-se pelas partes a ele adjacentes e vizinhas, fazendo, como digo, os escalvados, que acravou com sua matéria e terra que de suas entranhas saiu, deixando feita uma profunda concavidade, que, da sua encumeada para dentro, pode ter cento e cinquenta moios de terra; e a descida para ela, pela parte do oriente, da banda do sul, será de uma légua, pela qual se vão vendo em muitas estâncias profundos vales e fresquíssimas e saudosas fajãs, de alto e sombrio arvoredo, de cedros, faias, louros, ginjas, pau branco, folhado, urzes, uveiras de serra e outras sortes de árvores, com a verde hera abraçada em alguns troncos delas, e em seus ramos muitas maneiras de pássaros, fazendo tanta e tão doce harmonia com seus cantos que quem desce por aqueles ásperos e solitários caminhos, não pode deixar de não parar, com os ouvidos a ouvi-los, e com os olhos a ver, e com o entendimento a considerar aqueles lugares sós, acompanhados de tanta soidade, que Ihe arrebata o sentido e o vai alevantando tão alto em pensamentos e considerações de seu Criador, que de boa vontade se deixaria ali ficar naquele ermo, esquecendo-se dos povoados, se Ihe desse lugar e o não estorvasse a humana fraqueza, invejosa destas saudosas saudades. Outra descida tem da banda do norte, mais íngreme, de espaço de meia légua, que se chama Pé de Porco, por dizerem que descendo-a ou subindo-a uns homens, no princípio do descobrimento da ilha, comeram ali um pé de porco que levavam cozido; outros dizem ter este nome, porque logo no princípio que começaram a andar por ali vaqueiros, e fazer currais de gado naquela rocha, acharam um pé de porco que nela deixaram uns ladrões, de um que ali mataram; a qual descida não é menos acompanhada de arvoredo, que a outra do oriente, e mais trabalhosa, ainda que não tão saudosa, afora outros caminhos ásperos, por onde descem ao campo baixo e raso, onde estão as Furnas, que se podem pintar como os poetas pintam os Campos Eliseos, porque é um campo chão, deleitoso, fresco e aprazível, dantes calvo em algumas partes e em outras de alto arvoredo; mas já agora está sua calva coberta de muitas faias e outro mato ainda baixo, que virá a ser mui alto, se o não impedir a avara, estragada e desperdiçada condição dos homens; e como as Furnas são chamadas nesta terra, pelo parecerem assim, Boca de Inferno, nestas descidas têm mais facilidade, que quando se tornam, os que desceram, a subir por elas; como diz Virgílio, fácil é a descida para o Inferno, mas tornar a subir e escapar para os ares superiores do alto, aqui está o cansaço e o trabalho. Se as descidas são deleitosas, mais o são os campos amenos, acompanhados em umas partes com espessos bosques de altíssimo arvoredo, e em outras, de outro mais baixo, raso e raro, que deixa passar aos hóspedes e romeiros por antre sua verdura, regados com algumas grandes ribeiras, umas de claras e frias, outras de turvas e quentes águas, antre os quais, quase no meio daqueles campos chãos, naquela grande e profunda concavidade, estão as Furnas tão nomeadas e celebradas, não somente nesta ilha, mas quase em toda a parte do Universo, onde se sabe o nome dela.
Para mais clareza, direi, Senhora, por ordem as coisas que há neste campo, começando da descida a ele, da parte do oriente, da encumeada que chamam os Graminhais, por haver por ali muita erva deste nome, chamada grama, caminhando para o ponente, quase ao noroeste, contando estas coisas brevemente, pois são mais para ver com os entendidos olhos e longas considerações, que para dizer, nem contar com compridas práticas, nem multiplicadas palavras.
Um clérigo, a que não pude saber o nome, veio com os primeiros povoadores, que vieram a esta ilha e saíram na Povoação Velha; dali a dias, desejando ver de perto e saber que coisa era uma grande língua de fogo que sobre o ar aparecia e saía da terra, partindo da Povoação, se foi um dia com um companheiro, metendo-se pelo espesso mato, fazendo caminho com uma foice roçadoura e deixando por ele balisas e sinais nas árvores, porque à tornada se não perdesse; chegou sobre as Furnas, a uma alta encumeada, de que elas da parte do oriente estão cercadas, da qual descobriu primeiro que ninguém o lugar donde o fogo delas saía; e não se atrevendo descer abaixo, pela aspereza da terra e espessura do arvoredo, se tornou para a nova Povoação, que agora se chama Velha, em respeito das outras que pelo tempo adiante se fizeram, para tornar mais devagar e com mais companhia de gente a descobri-las, como depois fez; e suspeita-se que desceu a elas pela descida e caminho da encumeada dos Graminhais, da banda do oriente, de que agora usam os que a elas vão da Povoação e daquelas partes. Este parece foi o que primeiramente descobriu as Furnas, que naquele tempo estavam mais altas e furiosas que agora, por então estar ainda junta maior matéria de fogo e mais fortes vieiros de enxofre, que as faziam ferver com maior fúria e mais espantosas; estavam em terra mais alta, que se foi abaixando e consumindo cada vez mais, e o seu furor também foi desfalecendo, porque já agora são muito menos do que foram.
Acabando de descer por aquele caminho do oriente, da alta encumeada dos Graminhais, ao plano e campo chão, onde as Furnas estão logo ao pé da rocha e descida de deleitosas faias, como tenho dito, da parte do oriente, está uma grande e larga ribeira de claras, frias e doces águas, em que os que acabam de descer a alta rocha, cansados e suados, se refrescam, lavam e bebem descansados; caminhando dali para o oriente, pouco espaço, está um pequeno ribeiro de água fria, que em partes é verde e em partes vermelha, doirada, ferrugenta e de outras diversas cores, segundo as têm os limos sobre que vai correndo, não porque a água as tenha, mas por causa do lastro da terra e limos, cuja cor transluz pela água que é clara, como no mar Roxo acontece. Andando mais adiante, virando para a parte do sul com uma pequena volta, se vêem os grandes fumos e se ouvem os temerosos estrondos que as furnas estão fazendo; e chegando-se a elas se vêem duas juntas, antre as quais vai um caminho muito estreito, como vereda, por um baixo espigão de terra e pedra, que entre ambas está; a primeira, que fica da parte do ocidente, está mais alta, de água clara, tão quente que pelam nela leitões, porcos, cabras e cabritos, metendo-os dentro e tirando-os logo, que também os podem cozer nela se os deixarem estar mais tempo; e do peixe que nela se mete não fica senão só a espinha; deita esta furna no meio um olho de água fervendo, dois côvados de alto e de grossura de duas pipas, mui furiosa; mas posto que ponha terror a sua fervura, não se teme tanto aquela estreita passagem ao longo dela, por ser de água clara, a qual corre desta primeira, por um pequeno canal que atravessa o estreito caminho e se mete em outras duas, correndo de uma em outras para a parte do norte, que também estão fervendo com muitos olhos alevantados, cuja água não é já tão clara, ainda que são mais largas que a primeira. Logo mais adiante, para a banda de leste, está um olho fundo, aberto na terra, fumegando e fazendo terror, com espesso fumo que dele está saindo; junto com ele está outra furna, como caldeira, com muitos olhos fervendo cinzento polme e faz uns círculos a modo de coroas grandes, ou cabeças calvas, donde o vulgo Ihe veio a chamar a furna de Coroas de Frades. Logo mais adiante está uma cova mais funda, que com um grande e furioso olho, ou borbulhão de polme cinzento escuro, subindo para o ar três ou quatro côvados de alto, de grossura de três pipas juntas, está em contínuo movimento, um olho saindo, outro começando; e pela fúria com que sai, matinada que faz e cor que tem encarvoada, se chama a furna dos Ferreiros, que parece que aquela é a forja de Vulcano; e esta é a mais furiosa, temerosa e espantosa furna de todas.
Junto desta se abriu, pouco tempo há, outra mais pequena da mesma cor e polme, que ferve com três olhos menos furiosos e mais pequenos; em uma grota que corre ao longo delas, da parte do oriente, está um grande olho de água quente, de grossura de um quarto, que ferve para o ar em altura de um côvado; na qual grota se ajuntam as águas que correm destas furnas e fazem uma pequena ribeira de água quente, que se vai adiante para a banda do sul ajuntar com uma ribeira quente e outra ribeira fria, que passa pela fábrica de pedra hume e nasce acima dela e da rocha do Pé de Porco, e ambas juntas em um corpo, a fria e quente, vão cercando e rodeando as furnas todas pela banda do sul; e no cabo das furnas se encorpora a ribeira da água delas com estas duas. Mais além se ajunta a outra grande ribeira também de água fria, de que contei primeiro, que corre da parte do oriente, com estas três; e todas quatro juntamente se fazem uma e vão sair ao mar do sul, com nome de uma só Ribeira Quente, que com outros olhos que se abrem, fervem e fumegam ao longo dela, se vai mais acrescentando e aquentando. Antes desta grota e água quente que sai por ela às furnas, antre ela e elas, está um outeiro pequeno de terra quente que quase todo é enxofre misturado com uma mole e branda pedra branca, principalmente na superfície, donde os que vão ver as Furnas tiram muito e levam para muitas partes, aproveitando-se dele alguns da mesma maneira que ali o acham, e outros o apuram somente com o ferverem ao fogo, e derretido, o dietarem em canudos de canas, com que fica perfeito e formoso, como qualquer outro, sem mais outra cerimónia; e por mais que se tire dele, da superfície daquele quente outeiro, nunca desfalece e logo se torna a achar outro no mesmo lugar, porque a mesma terra, que é vereiro dele, com a grande quentura que tem, está vaporando e criando outro, sem nunca faltar naquele mesmo lugar grande cópia dele.
Junto da furna chamada das Coroas para a banda do sul estão na terra dois buracos pequenos, tão grande cada um como uma caldeira pequena, onde esta fervendo a água clara; e mais para o ponente, da banda do sul, junto da Ribeira Quente que vai correndo ao longo destas furnas, está outro olho de água fervendo, ao tamanho dos de cima, e com passar a ribeira que chamam Quente, está ali quase fria, por vir já junta com a ribeira fria da fábrica e se misturar com este olho de água que fervia, está fervendo quente e não se esfria. Antre ela e as furnas se tirou já muita pedra hume que se fez e rendeu muita quantidade de pedra hume, e a dá muito boa e de bom rendimento. Esta é a causa porque se conservam ali tanto tempo aquelas bocas fervendo, sem se consumirem e gastarem e afundarem todo aquele lugar, porque se fora terra o que está antre elas, já estivera consumida e gastada com o grande fervor das águas delas, e tiveram feitas muito maiores bocas e aberturas; mas saem estas furnas como fontes ou olhos de água que ali nasce e sai por antre aquela pedreira de pedra hume e os vieiros de enxofre, e de algum salitre, que pode haver naquele lugar, ou outra matéria de fogo, que aquenta aquela água e ferve com grande fúria, sem nunca faltar água daquelas fontes que ali nascem: uma clara, que faz a furna clara e outra misturada com a terra e cinza, que faz as furnas de polme cinzento e negro; sem faltar o vieiro de enxofre e matéria de fogo que as aquenta e faz ferver com contínuo movimento e fervura, porque é muito o enxofre que tem debaixo e há em todo aquele campo, de que é claro indício haver alevantado para o ar e desfeito o grande e alto monte que ali esteve, deixando feita a rocha ao redor e a espaçosa e alta encumeada que já disse, dentro da qual outros muitos olhos de água quente se alevantam com fervura e grande fumo, ao redor das mesmas furnas e pela Ribeira Quente abaixo, de que não faço particular menção por serem pequenos; antre aquela terra, que é toda como estéril, há uma mina de enxofre.
Das Furnas, para a parte de leste, declinando à banda do sul está uma furna pequena, que por fazer um som e matinada como tambor, se chama o Tambor, e ferve para cima com um olho furioso e fervura que faz com um polme ralo de cor cinzenta, junto de uma terra quebrada. Ao redor dela, está mais de um alqueire de terra escalvada em que se deitam os bois no tempo frio, porque a acham quente.
Perto desta furna se ajuntam as três ribeiras principais que nascem dentro da grande concavidade, sc., a fria e a que ferve e a quente e a outra que nasce das furnas, que vão todas juntas em uma dali para baixo ter ao mar do sul; e lá tem o nome de Ribeira Quente, ainda que são quatro, duas quentes e duas frias, encorporadas em uma só. Por esta Ribeira Quente abaixo, meia légua das furnas, no cabo do Lombo Frio saem desta rocha três tornos de água, perto um do outro, como quantidade de dois côvados antre cada um; o torno do meio é quente, os outros dois frios. Dali para baixo é a Ribeira Quente tão chã até o mar, espaço de outra meia légua que vêm as tainhas por ela acima até o Lombo Frio; tem esta ribeira um salto pelo qual podem passar as tainhas mais acima.
Tão feias e furiosas são estas furnas e tanto horror põe a quem as vê e ouve o grande estrondo e arruído que fazem, trabalhando com contínuo movimento, que parece uma confusão e semelhança do inferno; das quais dizem os pastores, que por aquelas partes ao redor delas pastoram seu gado e o mesmo afirmam outros que o têm experimentado, que no tempo do Inverno fervem com maior furor e fazem maior fumaça, parecendo-lhe que andam nelas os demónios, dizendo que a razão disso é andar naquele tempo o mar mais bravo, que as faz ferver com maior braveza; mas ainda que isto pode ser alguma causa, a principal é por que naquele tempo, que é mais frio com os ares frios circunstantes, por antiparastasis se reconcentra a quentura e recolhe para dentro da terra, com se acender mais o fogo nos vieiros do enxofre que há nela, com que acescenta a fervura naquelas bocas abertas, aquentando- se mais a água e polme delas, e saltando para o ar, com mais espesso fumo e apressurado ímpeto e veemência, e mores estrondos que no Verão, em que tudo tem menos, por respirarem pelos poros da terra que estão então mais abertos. Mas também no Verão como no Inverno, ainda que mais no Inverno, se deve meditar no trabalho eterno que terão os danados, pelo que têm estas furnas perpétuo, sem nunca cessarem; e ainda que algumas delas cessaram já, outras se vão abrindo de novo, porque todo aquele campo é uma mina de enxofre. E quando cursam ventos nordestes, por serem mais tormentosos, e tanto que revolvem as águas e areias, também elas andam com mais fúria e soam mais ao longe, deitando mais cópia de vapores e fumos, cuidando que o mar por debaixo da terra se comunica com estas bocas; mas, como outros com mais razão afirmam, por os nordestes serem secos e taparem os poros da terra, com que são causa dela tremer, por não ter o ar por onde respirar, assim, quando ventam, são causa de maiores estrondos nestas furnas.
Ainda que isto destas furnas é natural, parece coisa sobrenatural, e se perguntarem por que razão duram sem se gastarem, consumirem e acabarem , responde-se a isso que ainda que se vai gastando o enxofre a mesma qualidade de terra vai criando outro enxofre e outra matéria de fogo, de novo, e assim nunca falta; pelo que as furnas e seu fervor não cessam, porque não é outra coisa enxofre senão uma grossura de terra, a que chamam pinguitudo, junta com a humidade, as quais, como sejam ambas matéria do mesmo enxofre, o que há naquelas partes em abundância, sempre a natureza está subministrando o dito enxofre, que nunca falta nestas furnas, do que é clara mostra e prova o lugar que atrás tenho dito, onde nunca falta por mais que dele tirem; pelo que é estéril a terra dantre as furnas, por ser toda uma mina de enxofre. Outra razão se pode dar e é que será tamanho e de tanta quantidade o vieiro de enxofre e matéria de fogo ali debaixo da terra, que pode durar e dura tantos anos, como tem durado e ainda durará até que se acabe de gastar e consumir pelo tempo adiante, e então acabarão de ferver as furnas, como já acabaram algumas e cessaram por se acabar a matéria do enxofre e água ou humidade que as cevava; e outras começarão novamente, por se começar novo enxofre e nova matéria de fogo na humidade que ali acham, ou se criou também nova humidade que ferve com novo fogo nascido de novo; e assim umas furnas vão secando, outras começando e abrindo novamente, por ser pedreira de pedra hume o espaço que está antre algumas, ou elas como fontes nascerem antre esta pedreira, não se desfaz nem gasta, como pudera ser gastado, se não fora pedra, como já tenho dito.
Um tiro de arcabuz das furnas para a parte do ocidente estão em um campo algumas pequenas bocas abertas, pouco fundas, e outras quase rasas com a superfície da terra; e ao redor das mesmas furnas, para a banda do mar e da terra, uns lugares, como covas, e outras rasas, em outros três ou quatro pedaços de terra, de alqueire cada um, em diversas partes, donde saem uns fumos e fedores tão prejudiciais e infestos a quaisquer aves do ar ou animais da terra que caem e em breve espaço morrem, se logo os não tiram fora, escapando os cães com a vida, cortando-Ihe as orelhas, por onde purgam aquela peçonha que pelos narizes receberam. Dizem alguns que ao longo da Ribeira Quente, por ela abaixo, estão outros campos desta mesma qualidade, até os quais somente sobe do mar pescado de diversas maneiras, sem passar mais acima, e todos, uns e outros, se chamam por esta razão os fumos ou fedores, sem em nenhuma parte deles receber dano nem mal alguma pessoa humana, se não se deixar estar ali por notável espaço de tempo, porque os que se detêm mais de uma hora, quando vão tirar dali o gado, também sentem movimento no corpo, como é vómito e outros acidentes. Além, pouco espaço ao ponente, corre uma grande e fresca ribeira de boas e claras águas, que nasce na rocha junto do Pé de Porco, onde está feita a fábrica de pedra hume, que ali mandou fazer João de Torres, mestre dela, depois que deixou de obrar a da vila da Ribeira Grande, de que adiante contarei; e com esta água desta ribeira ser muito fria, está fervendo em muitas partes, com a respiração que faz a quentura dos vieiros de enxofre que está debaixo daquela terra, por onde vai correndo; pela qual razão se chama a Ribeira-que-Ferve, cuja água dizem ser a melhor de toda a ilha, se o não for a da cidade da Ponta Delgada, principalmente na fonte donde nasce, onde está mui fresca e fria, porque na donde sai, vai já muito amassada e encalmada, sem perder sua bondade, mas às vezes por isto e por causa das raízes que dentro nos alcatruzes crescem muito, sabe a terra e não se bebe tão fresca e fria, posto que a água que vem de longe por canos limpos é melhor que na fonte donde nasce, por vir purificada de algumas escórias que da terra nascem. Defronte da fábrica, um pouco mais acima, está uma fonte, como um cano de água, que sabe a ferro e se mete na mesma ribeira, pelo que, quem quer boa água dela, a toma acima do lugar onde esta fonte de ferro se mete nela.
Desta ribeira fria que ferve, pouco espaço para o ponente, está uma ermida de Nossa Senhora da Consolação, de muita romagem, que agora com grande custo mandou consertar o magnífico e liberalíssimo Baltazar de Brum da Silveira, em condição Alexandre. Além dela, um tiro de besta, está a Ribeira Quente, que nasce perto da dita ermida, de dois grandes e apartados olhos de água turva e tão quente que se se não temperasse com outra fria de outras fontes que ao redor nascem não se poderia sofrer sua quentura; mas com esta mistura fica sua água temperada, sem ferver, como ferve a outra ribeira fria que atrás disse, ficando a ermida antre estas duas ribeiras, a fria e a quente; abaixo da cruz da ermida, mui perto, está uma fonte muito fria e amarela a metade dela, e a outra metade verde, não tão fria. Na qual Ribeira Quente se curam muitas pessoas de flegma, salsa e sarna e outras enfermidades, tomando nela banhos, sem mais outros suadouros; a que não faltam, se não oficinas e edifícios para se igualarem com as celebradas Caldas da Rainha, que estão em Portugal, junto de Óbidos, e as Caldas junto a vila da Bouzela e quaisquer outras.
Da ermida das Furnas, a mais de três tiros de besta para o ponente, está uma grande alagoa de água doce, que terá em circuito mais de uma légua; e da parte das Furnas, acima de um cerro e baixa encumeada, que está antre ela e as mesmas Furnas, tem outras quatro ou cinco furnas, fervendo e fumegando da mesma maneira que as já ditas, das quais dizem que procede a Ribeira Quente e os dois olhos que já disse que dela nasciam, em que se tomam os banhos; e quando a água cresce no Inverno, as cobre de água, como também se secam no Verão parte delas. E às vezes se vê esta alagoa vasar alguma coisa e tornar-se a encher, como maré, pelas bordas, de que parece ser causa o vento, que a faz ir para uma parte e tomar o seu lugar, quando a calma cursa ou vem da parte contrária, ou por causa da lua; pode ter esta alagoa dez moios de terra, a qual deu el-Rei a um João Tavares, da vila da Ribeira Grande, que Iha pediu com determinação de a vasar pela parte do Sanguinhal de Duarte Pires, e dali a levar ao mar pela Ribeira Quente, por se aproveitar da terra dela para semear pastel ou trigo, o que não houve efeito. Está claro que onde está esta alagoa grande foi outro alto pico que em outro tempo arrebentou e ficou ali aquela concavidade, dividida com o cerro que está antre ela e o campo das Furnas, em que se fez aquela grande alagoa, correndo para ela algumas ribeiras, regatos e grotas de chuvas e enchentes. Dizem que de toda a terra ao redor dela se pode fazer caparrosa, se se soubesse quantos dias há de estar a apodrecer, e houvesse mestre dela, como também de alguma terra dantre as furnas se faz já muito boa. Dali a pouco espaço, para a banda do sul, abaixo do caminho que vai das Furnas para Vila Franca, estão duas alagoas pequenas, de água doce, a respeito das quais, a outra atrás se chama a Alagoa Grande; e das duas menores, a que está da banda das Furnas é mais escura, em uma cova de um pico que em outro tempo arrebentou, cercada a água ao redor de altas árvores; outra, da banda do ponente, é mais clara, onde vai ter uma ribeira que se chama de Diogo Preto, nome de um homem principal que ali morou e tinha sua fazenda; na qual alagoa clara se sume a dita ribeira de Diogo Preto, e vai por debaixo da terra, espaço de uma légua, a sair no mar, nas fontes que saem junto do Forninho, perto da baixa chamada Lobeira , o que tenho por mais certo, que o que outros dizem, serem aquelas fontes que nascem no mar, da Alagoa Grande, porque se dela saíram, fora minguando, o que não faz, pois está sempre em um mesmo ser, afora as mudanças que Ihe faz fazer o vento, ou as enchentes que nela entram no Inverno, ou secura do Estio, ou a lua.
Das Furnas até à ribeira de Diogo Preto vão dois caminhos bem assombrados, em que espairecem e se desenfadam muito os caminhantes, um ao longo da Alagoa Grande, pela qual se estendem os olhos de água por suas águas, e outro por um lombo alto, acompanhado de altíssimo arvoredo de uma e outra banda; e da do sul se vão os olhos apascentando por altos montes e baixos vales, povoados de espessas árvores, que fazem aqueles lugares e caminhos estranhamente alegres e saudosos; anda nela diversidade de aves em grande número, como são adens, mergulhões, maçaricos, galeirões, patas bravas e outras espécies delas; podia-se criar ali infinidade de peixes de água doce, se houvesse curiosidade para os trazer a ela, de fora.
A noite que amanheceu a sete de Outubro de mil e quinhentos e oitenta e oito, choveu por aquelas partes tanta água, que atupiu muitas destas furnas com suas enchentes e levou algumas casas com seus moradores ao mar, de que tomou bom espaço posse um pedaço de terra que quebrou do pico da Vara, mudando a Ribeira Quente de sua primeira madre, e em diversos lugares e partes desta ilha, fazendo muitas mudanças e espantosas novidades.

Além das Furnas, para a parte do ponente, está o pico chamado de el-Rei, por se tomar para ele, de um homem que Ihe devia e não podia pagar, ou por aquelas terras serem de el- Rei; e o pico de Álvaro Pires, e os dois picos quebrados, ou esfolados de Luiz Fernandes da Costa; o pico do Barbosa; o pico da Senhora, porque foi de D. Inês, mãe do Capitão Rui Gonçalves da Câmara, pai de Manuel da Câmara; o pico do Louro e dos Bodes, nomes alcançados das coisas que neles havia; o pico do Congro, ao pé do qual está a alagoa do Congro, sobre Vila Franca; depois o pico da Sanchoeira acima dos engenhos de açúquere que por ali estiveram; e o pico de São Brás, da banda do norte, por mandar fazer nele uma ermida deste santo um homem principal e rico, chamado Mateus Vaz; e logo a alta serra do Monte Escuro, que tem no cume uma grande alagoa, ao redor da qual, antes do segundo terremoto, havia tão cerrado mato maninho, de altíssimo arvoredo de muitos cedros, folhados, faias, louros e ginjas, que ninguém podia lá passar, nem o gado que entrava podia mais sair e ali morria de velho, aproveitando somente os donos algum que, com grande dificuldade, se Ihe tornava a vir por si mesmo, que eles não podiam lá entrar para o tirarem; e os que tinham gado cabrum, ainda que ouviam andar, não o podiam tomar, nem assinar do seu ferro, por causa da grande espessura do arvoredo daquele mato; e por aquela alagoa ser muito sombria e obscura com as muitas árvores que a cobriam, e o mesmo mato obscuro com a espessura delas, se chamou aquela serra e cumieira Monte Obscuro. Do pé da qual serra nascem três ribeiras: a das Tainhas, que vai sair ao mar do sul, junto de Vila Franca, além de São João, para o nascente, e a ribeira do Salto, da outra parte da mesma Vila Franca, e a Ribeira Grande que pôs nome à vila, da banda do norte, e a corta pelo meio. Além do Monte Escuro está um pico que se chama o pico de Água de Alto, porque dele sai a ribeira deste nome, que cai da banda do sul. Adiante está o pico da Praia, do qual nasce a ribeira da Praia. Depois, a cumieira donde nasce a ribeira da Grota de Três Voltas. Além, um alto pico que se chama da Correia, nome da que o possuía; adiante, outro pico muito alto, sobre a vila de Água do Pau, que por ser em cima de terra chã, se chamou pico das Mesas, ao pé do qual estava uma alagoa de um Gonçalo Pires, que arrebentou no tempo do segundo terremoto que aconteceu nesta ilha ; e logo, outro alto monte, que se chama o pico Agudo, pelo ele ser no cume. Descendo dele, está a alta e comprida serra de Vulcão, que por ser altíssima, fragosa e crespa, com muitos montes de que está acompanhada ou composta, parece ser a morada que os antigos fingiam de Vulcano, donde cobrou este nome Vulcão que o vulgo chama Bulcão, corrompendo a letra, ou pela carranca grande que faz a quem o está olhando; ao pé do qual, quase junto do mar direito da ponta da Galé, está o pico de Água do Pau, sobre Val de Cabaços, a que chamam o Furado em toda a ilha, mas não naquela vila.
Logo está o pico das Mós, por tirarem no tempo antigo ali as primeiras mós de engenho de pastel, por mandado de Dona Inês, mãe do Capitão Rui Gonçalves da Câmara e avó do Capitão Manuel da Câmara, já defuntos, o qual pico está na Mediana, terra assim chamada por ser o meio da ilha. Mas da banda do norte estão primeiro: o pico da Murta, porque a tem; o pico do Azedo, por morar nele um homem deste nome; o pico de Santa Eiria, sobre o porto da vila da Ribeira Grande; o pico do Ermo; e o monte de Trigo, que parece assim ainda que é terra, e logo acima dele, quase ao pé da serra, a grande encumeada.
Além do lugar onde disse que estivera a fábrica da pedra hume, perto de meia légua da vila da Ribeira Grande, antre ela e a serra, está uma concavidade que terá cinco ou seis alqueires de terra, cercada de umas quebradas, onde já se tirou muita pedra hume, de pedreiras que ali há dela; e no tempo antigo, antes de tirar dali a pedra, estavam umas caldeiras ou furnas, como covas pequenas na mesma terra, que ferviam com olhos de água e polme; mas depois que se deixou de tirar a pedra hume, se abriram estas covas doutra maneira, mais em número e mais bravas e espantosas que dantes, de tal maneira que, tirando serem mais pequenas, quase são tão furiosas como as Furnas que estão à parte do oriente mas estas estão por esta ordem: entrando nelas pelo caminho da parte do ponente, estava uma alagoa de quinze palmos de largo e vinte de comprido, de água clara e fria, que em algumas partes fervia, a qual já agora está seca; e dela para a parte do oriente, dez ou doze palmos, está um grande ribeiro de água fria que vai correndo e fervendo muito mais que a ribeira fria, que nas Furnas ferve; passado o ribeiro, se vê a primeira caldeira, rasa com a terra e muito grande, junto dele fervendo com muitos olhos, deles grandes como uma joeira, e deles menores e outros mais pequenos. Logo para o oriente, espaço de quinze palmos, está outra pegada com ela, mais profunda, que ferve como ondas de mar bravo, da mesma grandura da outra rasa, de quinze palmos de largo, trinta de comprido e vinte de alto, tão furiosa que parece ribeira quando trás enchente antre penedia e faz grande matinada, de cor e água cinzenta; mais ao oriente oito palmos, está outra caldeira rasa, quase do mesmo tamanho, de um polme cinzento e basto, o qual alevanta muitas empolas tão grandes delas como jarras de azeite, de três canadas e de canada e meia; pegado com esta, para a banda do nascente, estão quatro olheiros pequenos, de água clara os três deles e outro de água cinzenta, afora outros olheiros que já se secaram. Junto destes, para a banda da serra, está uma caldeira de dez palmos de comprido e outros tantos de largo e cinco de altura, que ferve com alguns olhos grandes e pequenos de polme cinzento e basto, mas com pouco estrondo. Junto deste caldeirão está outro mais pequeno, com seis olheiros abertos, fervendo polme cinzento; pegada com o qual, quantidade de uma braça para a parte do oriente, está uma caldeira grande de vinte palmos de comprido e quinze de largo, a qual sempre ferve com muitas fervuras contínuas e muitos olhos de um polme ralo.
Dali a sete braças de dez palmos cada uma, para a banda da serra, ou do sul, está um caldeirão pequeno e raso com a face da terra, de água clara de tanta quentura, que se não pode aguardar com a mão, senão metendo-a e tirando-a logo, que é da mesma quentura da furna da água clara das Furnas, e como nela, também neste caldeirão se podem pelar cabritos; pegado com ele estão muitos olheiros rasos de água clara, fervendo, uns de água quente, mas não tanto como a do caldeirão, outros estão fervendo, sendo a água doce e fria. Antre estas caldeiras estão muitos resfolgadouros por onde sai fumo e quentura, que em alguns lugares Ihe não pode aguardar a mão, e podem neles assar ovos. A cor da terra é de pedra hume, como cal cinzenta, da mesma maneira da das Furnas, e o fumo que sai delas também cheira a enxofre, como o das Furnas; estão por antre elas algumas junqueiras e um campo coberto de cinzeiro, que parece cair em algum tempo atrás, que não dá senão silvas e feitos.
Um tiro de arcabuz delas para a vila da Ribeira Grande está um fojo ou cova que deita de si um ar tão peçonhento, que mata os pássaros ou coelhos que àquela parte vão ter e ali caem sobre ele, da mesma maneira como os fedores das Furnas, onde, se entra o gado, morre, e os cães também, se Ihe não cortam logo as orelhas, como já disse quando tratei delas.
A terra e sítio, antre estas caldeiras, é pedreira mole de pedra hume, na superfície da terra, mas debaixo é pedreira dura, porque doutra maneira já abriram muito maiores bocas, se fora terra, e a consumiram, e da mesma maneira é nas Furnas.
Mais acima, já na faldra da serra. estão outras caldeiras, em que ferve polme da mesma maneira, e vai lavrando o fogo por debaixo da terra, que na superfície está quente, de que há muitos anos se vê continuamente sair muito fumo, que no tempo do Inverno, antre os ares frios dele, se vê mais grosso e espesso; pelo que se podem todas estas caldeiras chamar umas Furnas pequenas a respeito das grandes, de que já tratei atrás a razão e causa delas, que toda é uma.
Além das caldeiras, ao pé da encumeada, está o pico do Leitão, por ser de um homem deste sobrenome, e logo um pequeno monte que se chama o Pico-que-Arde, porque sempre ardia, saindo fumo dele, tendo uma cova no meio, por onde arrebentou em tempo antigo; e assim na cova, como em todo ele, tinha a terra mui quente, pelo que Ihe puseram nome o Pico-que-Arde; mas depois do segundo terremoto desta ilha já não arde, nem fumega como dantes soía. Além está o pico de Santa Maria, por ter a confraria de Nossa Senhora da Estrela da vila da Ribeira Grande nele alguma terra que rende para ela. Na mesma Mediana e meio da ilha, está o pico do Maranhão, homem assim chamado, e por outro nome o pico do Sapateiro, porque foi de um oficial deste ofício, o qual arrebentou no segundo terremoto e dele correram duas ribeiras de fogo, como adiante direi. Também o pico da Madeira, por estar ali perto da Ribeira Grande, nele, a derradeira madeira que se roçava e achava no tempo antigo, sendo todos os outros picos ao redor despovoados já dela; mais além de uns outeiros, o pico da Cova, por uma que tem, por onde em outro tempo arrebentou, o qual nome pode ser comum a quase todos os picos desta ilha e não só a este, pois quase todos têm covas e arrebentaram já em outros tempos não sabidos, nem vistos. Junto deste, está o pico de Rui Gago da Câmara cujo é; adiante, o pico da Areia, por todo estar coberto dela; e o de Álvaro Lopes, que deu em casamento, com outras terras, a António de Faria, seu genro, sobrinho de António Lopes de Faria, da Alagoa, que por ali teve outros picos, terras e criações. Além, o pico de João Ramos, tomando o nome de seu dono assim chamado, que ali morou antigamente no meio de uma estrada que vai da Ponta Delgada para a vila da Ribeira Grande; ao pé do qual estão dois padrões afastados do caminho por marcos e balisas, que dividem os termos da dita vila e da cidade; e logo o pico do Bezerro, por dizerem que se ouvia bradar nele um muitas vezes; e o pico de João Moniz, e o de Fernão Vieira, cujos eram. Adiante, o pico da Cruz, onde estava arvorada uma, no tempo antigo, o qual está sobre as cabeçadas do lugar de Rosto de Cão, para a banda do sul, que chamam do Congro, partindo da banda do levante com terras de Rosto de Cão, que foram de Diogo Nunes Botelho, contador destas ilhas dos Açores, e agora de Jorge Nunes Botelho, seu filho; e da banda do ponente, com terras da Fajã, que foram de Sebastião Barbosa da Silva, Rui da Costa e Francisco Anes, que poderão ser cem moios de biscouto, pouco mais ou menos, que natural ou violentamente correram por aqueles lugares mais baixos e cobriram naquele tempo as melhores terras, que ficaram depois tais e tidas em tão pouca estima, que a troco de quatro galinhas que davam ao Capitão que então era, não as dava ele por medida, senão quanta os homens Ihe pediam, porque nem o mato, que ao tal tempo tinham, cuidavam de entrar. Mas proveu Nosso Senhor de maneira que são todas feitas vinhas, que valem mais que as melhores terras da ilha, pelo muito proveito que dão em vinho, vides, pêssegos, maçãs, peros, peras, albricoques, marmelos, figos e outras muitas frutas, afora muitos e ricos pomares que em fajãs antre eles se prantaram, que são de fruta estremada de espinho, em que fazem seus donos muito dinheiro, sem Ihe semearem trigo de tostão o alqueire. Indo para o ponente, está um pico grande, antre dois caminhos que vão da cidade para os Fenais, que também se chama o pico da Cruz, porque teve no cume outra, e contém em si outros picos e serras ou outeiros pequenos e três concavidades que têm água contínua, onde bebem os gados de três freguesias. sc., Fajã, Fenaes e Rabo de Peixe. Adiante está o pico de Gaspar Ferreira e o pico de João da Castanheira, mais junto da cidade, sobre a qual, acima das terras de pão, está a Serra Gorda, que é um só pico tão grande como uma grande serra, e por isso Ihe chama Gorda, que em outro tempo parecia longe aos moradores da cidade, mas agora Ihe parece ficar perto, por causa dos pastéis e trigo pelado que semeiam até meia ladeira dele, o qual é tão grande que tem bem que fazer um homem bom andador, com o rodear em um quarto de dia; no cume dele estão três concavidades, as duas delas muito grandes, de grandura cada uma de dois moios de terra; à terceira, que está no topo, da banda da cidade, tem um charco contínuo onde bebem os gados que no dito pico se criam. Ao pé do qual pico, algum tanto afastado, abaixo da estrada que vai para o lugar de Santo António, está um charco, como alagoa de espaço de dez alqueires de terra, que sempre se chamou o Charco da Madeira, por razão da muita que dentro e fora dele em outro tempo houve, o qual é mui cursado dos gados e lavagem da roupa dos moradores da cidade e seu limite. Mais adiante, para o ponente, está uma alagoa que se chama das Canas por ter moitas de espadanas tão viçosas, que se parecem com elas. Além, para a banda da cidade, está outra alagoa que chamam da Prata, por ser muito clara, e antigamente, antes que fosse tirada a água da fonte da cidade, que nasce não muito longe, dela bebiam, e quando quebrava, enchiam muitos as pipas dela, e depois faltando a água da mesma cidade, meteram um cano dela nos alcatruzes, para ajudar a fazer mais cópia, mas não se sofreu, por já agora faltarem os matos e ser mui tratada de porcos e gados e outras alimárias.
Mais para o ocidente está uma alagoa que chamam dos Monteiros, onde se alaga quase todo o linho da cidade e seu limite, pelo que é chamada também o charco dos Linhos. Adiante está um pico, na fazenda que foi de Pero Gonçalves Delgado, chamado das Malhas, porque no Verão, em muitas partes dele, florescem umas ervas como rapassaes ou rabaças, que de longe parecem bem e fazem as ditas malhas. Mais além, ao pé do pico das Éguas, está uma alagoa grande, que, por ter um estreito no meio, parece duas e corre uma para a outra, segundo faz o vento, ora para uma, ora para outra banda; e logo, o pico das Éguas, que por ser alto o vão buscar as éguas no Verão para seu refresco, donde cobrou o nome delas, ou porque o dito pico sempre foi e é ainda agora do concelho, comum a todos, pelo que por outro nome se chama a terra devassa, em que as éguas e mais gados, corridos dos outros sarrados, tem seu couto. Sobre o lugar da Relva está o Monte Gordo, porque assim o parece; acima do qual estão duas alagoas muito grandes, na cumieira da serra, uma das quais, por ser muito clara, tem também nome da Prata, e a outra, por as moças irem lavar nela roupa, Ihe puseram nome, alagoa das Moças. Logo está o pico das Ovelhas, sobre uma grande serra que contém em si muitos picos mais pequenos, chamado das Ovelhas porque, sendo a ilha toda de mato, o dito pico sempre foi escalvado e de bom pasto para elas, pela qual razão, quem as tinha, as botava para lá e elas mesmas, por se sairem do mato, o iriam buscar, que isso têm por natureza; ao pé do qual pico, da banda do ponente, está uma alagoa quase rasa, de quantidade de quatro alqueires de terra, pouco mais ou menos, que se chama dos Canários, não por andarem ali pássaros deste nome, que depois vieram de fora, mas porque antigamente houve ali pastores de ovelhas e cabras, naturais das ilhas Canárias, à qual levavam a beber as ovelhas e mais gado que no pico das Ovelhas criavam.
Ficando no oriente este pico das Ovelhas, que está quase em direito pela terra dentro, arriba da cidade da Ponta Delgada, perto da fonte de água que vai dali a ela, de cuja frescura a melhor que há na ilha, bebem os moradores da cidade e das partes de redor dela, que custou muito levá-la por longos caminhos e alcatruzes, e não custa menos conservá-la. Além do pico das Ovelhas, para a parte do ocidente, está o pico da Cruz, pelo meio da terra ou da ilha, e da parte do sul, está o pico do Casal. Dali vão por uma encumeada até o Cerro do Camelo, que é uma descida para as Sete Cidades. Da parte do pico do Casal, fica para a banda do noroeste outra terra baixa e concavidade, de altura de meia légua de bom caminho de carro, novamente feito como obra de romanos, para tirar por ele a lenha daquela concavidade, cercada com a encumeada do pico do Casal, que tem dentro em si duas alagoas, uma que se chama alagoa do Santiago, que está muito sumida na terra, de tão negra e obscura cor, que é coisa medonha olhar para ela, cuja água terá de fundo trinta e sete braças e meia, que tomou por prumo um André Pires Cedro, grande fragueiro, no meio dela, de uma barca que nela fez, com que andava atoando e levando de uma a outra parte muita madeira de cedro que, nas quebradas e fajãs ao redor dela, cortou e deitou de cima dentro na água da dita alagoa, que será, lá em baixo, de uma légua em redondo, ainda que de cima, do alto, não parece tão grande, donde depois a tirou, arrastando os toros dos paus por caminho novo que fez, e a vendeu para a casaria da fortaleza da cidade da Ponta Delgada; e achou dentro na água uma certa maneira de peixe, quase da feição de camarões, e pegado em um pau, uma casca ou pelo de lagarto; tem esta alagoa, ao longo de água faias muito grossas de cinco, seis e sete palmos de testa, e de sessenta em comprido; onde há também pau branco, louros, folhados, azevinhos altíssimos, com que está toda cercada, até a sua cumieira, acompanhado todo aquele arvoredo de infinidade de mélroas, canários, tintilhões, petos, crespinas, estorninhos e outras sortes de passarinhos; no Verão, sobre os ramos e nas águas da alagoa, há muitas adens, marrecas e galeirões; ao redor da qual terra há um areal, espaço de um tiro de espingarda; cujas águas parecem ter resfolgadouro ou algum sumidouro no meio, ou em alguma parte delas, porque se vêem crescer e minguar palmo e meio e dois palmos; ainda que, com mais certa razão, parece ser a causa disto a lua, que faz impressão em todo ajuntamento e multidão de águas, onde não há corrente, como na alagoa Grande das Furnas, e nesta de que vou falando, está ao lível com as outras alagoas das Sete Cidades, que têm pouca altura de água, de sete até oito braças, em comparação da altura desta, de trinta e sete braças e meia, ainda que vista da alta encumeada, parece que deve de ser muito mais funda, pela sua obscuridão e põe medo a quem vê sua fundura e alta concavidade desta alagoa de Santiago; e por isso parece que Ihe puseram este nome de Santiago, porque quando vemos uma coisa perigosa, dizemos logo —Santiago — como invocando este nome do padroeiro de Espanha os espanhoes, que nos livre Deus dela. E outra alagoa que chamam a de Água Rasa, em respeito da outra funda, que é mais pequena, porque está em terras mais altas e não recolhe tantas águas; perto destas, estão muitas fontes, com as quais já moeram em outro tempo azenhas; e para a parte do noroeste ficam as Sete Cidades que são uma grande concavidade repartida em duas, com um cerro ou cumieira que as divide, mas juntas fazem uma concavidade, que terá em circuito quatro léguas e de diâmetro por qualquer parte, uma, toda cercada de alta encumeada, feita das faldras do pico que não arrebentaram, e somente arrebentou, com a força do fogo, o cume e ponta dele, que fez esta concavidade de quatro léguas em redondo, o que mostra bem a grandeza e altura que o alto pico podia ter, antes de arrebentar e se desfazer, como agora está desfeito.
Afora estas duas alagoas ditas, divididas com o cerro ou encumeada, que disse, antre si em uma parte da grande concavidade, está na outra fundura, da parte do norte, uma grande alagoa de légua e meia de roda, que é mais comprida que a das Furnas, mas não tão larga, que se chama alagoa Grande, em respeito das outras duas. Junto dela está uma praia grande, que terá até trinta moios de terra, ou por melhor dizer, estéril areia, que tudo era água no tempo antigo, por onde passava o gado antigamente, a pascer de uma parte à outra, em uma barca grande que mandou fazer Baltazar Vaz de Sousa, da vila da Ribeira Grande, que ali tinha grande criação dele; e logo, quase pegado com este areal branco, no meio, está ao pé do pico do Casal a alagoa que se chama Azul, por parecer a sua água desta cor; e além, para o ponente, está um cerro, como cumieira redonda, que terá de circuito dois moios de terra, alto e com mais de cento e cinquenta espigões, faz ruas que vão descendo dele, como ladeiras, para as partes derredor à maneira de grotas, antre espigão e espigão, povoadas de alto e fresco arvoredo, como cidade rodeada, que todas vão descendo do meio para baixo delas, de cento e cinquenta e outras de cem braças e menos de comprido, até dar em um campo chão, onde estão as alagoas, a Grande e a Azul, e se fazem umas ruas mui largas e chãs, na dita praia de areia, sem arvoredo, como espaçosas praças e ruas, que assim como dão muita graça ao espesso e fresco arvoredo, assim a recebem também dele, porque a espessura e altura do mato e calva das ruas, ambas estas coisas juntas realçam uma à outra. E por estas ruas e praças, puseram a este lugar nome de Sete Cidades, ou porque o parecem naquela concavidade, a quem a vê de cima, da alta encumeada delas, como outro mundo baixo e cidades ali abscondidas, segundo se diz de outras incógnitas de cristãos que estão ainda por descobrir. Todas estas coisas acima ditas estão cercadas com uma cumieira alta, em partes de meia légua e em outras partes menos, dentro do qual circuito tem as alagoas, águas, arvoredos, ervas, que disse, e rosais de João Gago, e uma fresca e clara fonte onde descansam e desencalmam os que vão ver estas cidades sem gente e ermas, e estes lugares tão sós e saudosos, com muitos pássaros que ali habitam em seus ninhos antre seus ramos, e fazem aquele lugar mui alegre e saudoso com seus cantos. Estão além dos Mosteiros, da parte do ocidente.
Este pico das Sete Cidades, como tenho dito, e segundo dele diziam os antigos, depois de achada a ilha, logo naquele primeiro ano tornando o navio ao Regno, os primeiros descobridores que nela ficaram, ouviram grande trovoada e estrondo, com grandes tremores de terra; e neste tempo, na Povoação Nova que depois se chamou Velha, o sentiram arrebentar com grande força de fogo, salitre e enxofre, e dele subiu pelo ar e tornou a cair por todas aquelas terras ao redor, que dantes eram mais rasas e as fez mui altas e dependuradas; e parte correu para a banda do noroeste e ocidente, até o mar, e descendo pela rocha, fez abaixo dela uma grande fajã de até onze moios de terra boa e dela misturada com pedra e areia, onde se fez depois uma povoação e freguesia da invocação de Nossa Senhora da Concepção, que chamaram os Mosteiros. Sobre o qual lugar está seu vizinho o pico de Mafra, que de algum homem que ali morou de Mafra, lugar de Portugal, cobrou este nome, ou por ter alguma semelhança com a terra de Mafra, na altura ou no sítio; outros picos, muitos grandes e pequenos, há por todo o espaço da serra desta ilha, que não nomeio por não fazer um longo processo, nomeando somente os mais notáveis, com que está como com botões abotoada a roupa ou opa roçagante do gigante Almourol, pelo meio, do pescoço até o rabo dela, safado, que chamam os Escalvados, sem verdura sendo ela toda verde.

Esta ilha de São Miguel, pela sua compridão de dezoito léguas dentro em si é muito fértil e cria toda a maneira de prantas, e pelas duas enseadas, que tem da parte do sul, e outra da banda do norte e pelos seus altos montes, a quem a vê de ambas estas partes atravessada, e melhor da banda do norte que do sul, está parecendo às vezes duas ilhas, porque, pelas duas enseadas que a fazem estreita no meio, a largura é uma légua, que é da vila da Alagoa, da banda do sul cortando ao norte, até o lugar de Rabo de Peixe, por não haver neste caminho muitos altos montes, parece que se corta e divide em duas, aparecendo o mar de parte a parte, sem se ver a terra baixa do meio, porque, na cintura dela, pelas faldras é baixa, ainda que montuosa em toda a sua compridão. E, quando se achou, era toda cheia de arvoredo, de que agora já está quase calva por muitas partes dela, ainda que por outras, em algumas serras, tem muita lenha seca e verde e muitas árvores de diversas maneiras, como são cedros, sanguinhos, faias, louros , ginjas e azevinhos, urzes, tamujos, uveiras, pau branco, cernes e alguns teixos, que já se vão acabando por serem muito prezados e buscados para deles fazerem ricas mesas e bordas delas, cadeiras e fasquias para ricos escritórios, que com eles se guarnecem e já agora se ajudam com outros teixos trazidos da ilha do Pico, onde há muitos, e sem eles suprindo em seu lugar, para as bordas e fasquias, o sanguinho que é também singular pau para isso. Às vezes parece esta ilha três ilhas, porque a altura do Morro do Nordeste, com seu lombo, parece uma e o Vulcão alto que está sobre a Alagoa e Água de Pau, figura outra, e a alta encumeada das Sete-Cidades parece outra. Pelo meio dela toda corre uma corda de serranias, em algumas partes de picos altos e fragosos que demandam as nuvens, e em outras, montes baixos e outeiros; e, quando cursam os ventos do norte, sul, nordeste, e alguns outros com fúria, fazem nela grandes perdas, principalmente nas árvores, frutas e searas, que se não foram tormentas destruidoras dos frutos que ela abundosamente produz, parecera e fora deleitoso horto terreal. Mas, por estar muito descoberta a estes e a outros ventos, é mui escaldada, posto que por antre as serras tem alguns vales e baixos de grotas abrigados, e nas faldras das serras, algumas ladeiras e terras chãs, onde os moradores fazem suas sementeiras, principalmente de trigo pelado, centeio, cevada e pastel; e nos altos pastam seus gados em bons pastos, que havia dantes e há em toda ela, porque no lugar a que não chegou a pedra pomes e cinzeiro que caiu no tempo do segundo terremoto, ainda os pastos são como sempre foram de muita erva milhã, pé de galinha, balanco, azevém, sargaço, que outros chamam saragaço, trevo e trevina, para os porcos, alfacinha, feito, dentabrum e cabelinho, que serve como lã para colchões e o pé para comer, como palmitos e outras muitas sortes de diferentes ervas, musgo e grama, que é erva pequena, baixa e rasa com o chão E onde alcançou e cobriu cinzeiro e pedra pomes, já agora cria uma erva que se chama solda, que se quer parecer com erva ussa, mas cresce mais alta e comprida, e é sempre verde, proveitoso pasto para o gado, além de o ser também a rama das árvores do mato, de pau branco e de outras, especialmente a do azevinho que é mais prestadia, a qual por ser alta Iha cortam os pastores, e outra rama de louro, que alcança o gado ao dente, por ser mais baixa, de que há maior quantidade e abundância; mas, a rama da ginja, de Março por diante, na serra e em terra de mato sombria, o faz ourinar sangue. Há feito molar, que é também no Verão bom pasto para o gado, com os quais pastos, há dele grande criação, cuja carne é mais gostosa, a que se cria em pastos escalvados e descobertos ao sol, que a dos lugares sombrios antre matos e arvoredos; e toda, uma e outra, melhor e de mais gosto que a da ilha de Santa Maria e Portugal, e as reses têm mais força e sofrem mais trabalho. As árvores, que aqui tornam a arrebentar, são faias, se Ihe não tiram a casca, uveiras, urzes, louros, tamujos, murtas e ginjas, cortando o tronco, que do pé lançam muitas e muito altas vergônteas, que são árvores agrestes, que dão um fruto tão grande e vermelho como ginjas, mas ao gosto são azedas, e o sanguinho dá outro fruto como cerejas, muito doce, que embebeda. Na ilha de Santa Maria, que parece um torrão de terra da que em Alentejo serve de criar gado, são os carneiros melhores e mais gostosos por causa do pasto, que é de massapez muito seco, e de natureza do carneiro é ser húmido, pelo que, comendo pasto seco, se tempera uma coisa com outra e faz a carne muito boa; o que não tem a carne de cabra que é mais somenos e desgotosa, por ser o pasto seco e a cabra de sua natureza seca. Isto mesmo se acha no Regno de Portugal e Castela, onde os carneiros têm os pastos secos, são bons e de extremado gosto, e os chibarros não tais; o que não se vê nesta ilha de São Miguel, onde os pastos são mui verdes e a carne do carneiro não tem tão bom gosto, nem é tão boa, e os cordeiros também não muito bons, mas os cabritos mui gostosos e de bom sabor, e a carne de cabra nova, muito boa, pelo que se usa aqui da carne dos chibarros, cortando-se nos açougues, parte do mês de Abril e todo o mês de Maio e o de Junho. A carne de vaca da ilha de Santa Maria é mui seca e desgostosa e, muito gorda, toda é acompanhada de cevo em lugar de gordura, por causa do pasto seco; e nesta ilha de São Miguel é muito boa por os pastos serem verdes e frescos.
Dizem alguns que aqui os cabritos, criados com as mães, em lugares solitários, de tal modo que uma cabra não ande em companhia de outra, se fazem muito mais gordos e melhores, por ser a cabra, de sua natureza agreste e solitária, afeiçoada só, o que não tem a ovelha que, andando só, cria mal o cordeiro, por ser de natureza saudosa, o que parece ter alguma razão; mas eu cuido ser também causa de se criar melhor a cabra por comer mais à sua vontade, andando sem companhia que a ajude, pois estando acompanhada Ihe cabe menor parte do mantimento, principalmente sendo muitas juntas; por esta razão não criam tão bem as que andam em manada, como as que estão apartadas, pois claro se vê que, a que anda só, está de posse de todo o pasto e come à vontade, e a grande manada junta, em pouco tempo despovoa a comida de largos campos e, se as não mudassem dali, se perderiam à fome. Por isso dizem os pastores que mais criam cem cabeças de cabras em mediana e honesta criação que sendo cento e cinquenta, porque sendo muitas comem o pasto umas às outras, e não podem criar os cabritos nem a si mesmas, e os que criam são muito magros e morrinhosos e morrem muitos deles, mas sendo poucos, logram-se muito bem os cabritos e elas. Muitos homens procuram ter esta criação de cabras nesta ilha, por haver muitas silvas nela, que é seu mais principal pasto, e também pela necessidade que há das peles para calçado; e no tempo antigo se costumava matarem-se os chibarros nesta terra capados, por ser a carne deles assim melhor para comer. Chamavam-se crestões por serem castrados, mas depois vieram a entender que não era a coirama tão boa dos capados como dos outros por capar, por serem as peles delgadas como de cabra. Haverá quarenta anos, pouco mais ou menos, que já os não matam capados, por antes quererem melhor o coiro que a carne, pela muita necessidade que há de calçado, com o costume que corre nela de trazerem todos botas; pelo que se vê a grande criação que há deste gado nesta ilha, pois, não havendo nenhum homem que não traga botas, se pode quem quer espantar de poder a terra criar tanto para prover a tantos.
Acerca do qual gado e de sua criação, ainda que nos animais que têm unto, não tenha este segredo que agora direi, o tem nos que têm cevo; pelo que é de notar que, desde a ribeira de Dispe-te que suas — até o lugar de Rabo de Peixe, tanto pelo meio da terra, como pela faldra dos montes, da banda do norte, todo fato de gado, ou cada rez, que por tempo não é mudada no ano duas vezes, ou ao menos uma, do pasto em que anda para outro da banda do sul, corre muito risco de morrer, porque adoecem de disenteria
ou corrença e vêm-se a desfazer tanto das carnes que morrem; e do lugar de Rabo de Peixe, cortando ao sul ao lugar de Rosto de Cão, para diante até aos Mosteiros, com todo o termo da cidade da Ponta Delgada, nenhuma doença sentem e nenhum dano recebem, nem os mudam por respeito disto. Também no Nordeste até à ribeira de — Dispe-te que suas — é da mesma maneira, nem têm doença, nem morrem os ditos gados, nem há necessidade os mudar; assim que nos cabos desta ilha, que é no nascente e no ponente, está sabida esta experiência e tem os pastos ou terra esta virtude de não se tomarem os gados deste mal nem morrerem, como no meio da terra, da ribeira de — Dispe-te que suas — até Rabo de Peixe em toda esta compridão e largura da ilha e espaço do meio. E da banda do sul, começando de Água Retorta, até partir com o termo da Ponta Delgada, que é até os biscoutos que estão além da casa de Cristóvão Soares, contra o lugar de Rosto de Cão, se tomam também os gados deste mal e morrem, se os não mudam, o que não faz aos bois e vacas que correm nas terras feitas, que estes adoecem poucas vezes, e os do mato muitas. No princípio da povoação desta ilha se tomavam mais gados e adoeciam de corrença e criavam na língua muitos sapos que são umas empolas pequenas como grãos ou chícharos, quando mais gorda estava a rez. Logo quando se começaram a criar gados nesta ilha, um Fernão d’Afonso de Paiva, avô de Francisco Pires da Rocha e de Pero de Paiva, homens principais, moradores na vila da Ribeira Grande, teve no Morro da dita vila onze moios de terra de mato, como então toda era, e criando na dita terra do Morro, Ihe morria a maior parte do gado, sem ele alcançar a causa disso; mas vendo que no lugar de Santo António e nas Capelas e Bretanha, como mais para o ponente, da parte do sul, se criavam gados sem receberem o tal dano, se tirou da terra do Morro, vendendo-a e houve muita criação em Santo António, onde criou seu gado, sem receber nele dano nem perda, ainda que seus herdeiros a receberam muito grande em ele se tirar dos onze moios de terra do Morro, que agora são como um condado de grande rendimento, da qual terra ele não entendeu então o proveito a que podia montar e montou depois. Mas já agora, do segundo terremoto para cá, não se tomam os gados de mal nenhum, ainda que não se mudem como soía; dizem e parece ser a causa disso a muita pedra pomes que cobriu os pastos, sobre a qual o gado anda e se deita, e assim anda são, porque é quente e amiga da natureza. Dantes andava em lameiros e poças de água que havia entre o arvoredo muito alto, porque logo depois do segundo terramoto, em que caiu a pedra pomes sobre os pastos da erva, não comia o gado senão rama que Ihe cortavam das árvores altas, por ainda não arrebentarem seus troncos, encravados na pedra e cinzeiro, com a rama nova; e tão acostumadas estavam as reses ao cortar dos ramos que, perdendo um homem um novilho, buscando-o sem o poder achar no mato, Ihe disse um pastor que logo o faria vir ali, ainda que não o via nem sabia dele parte; e subindo-se sobre uma alta árvore, porque não tinha machado nem instrumento com que cortar rama, começou a dar nela porradas com um pau, como quem a cortava, ao qual tom acudiu logo muito gado, como tinha de costume acudir à rama que Ihe cortavam os pastores, sem então Iha cortarem, e antre o outro, veio o novilho que o homem não achava, que cobrou pelo ardil e engano proveitoso do discreto pastor, com que achou e restituiu o perdido a seu dono.
Está no princípio da ilha, da parte do oriente declinando para o norte, um grande e alto pico chamado da Algaravia, porque foi de uma mulher deste nome, natural do Algarve, que ali morou com seu marido alguns anos, e depois deles viveram outros muitos; e para a banda do sul, outro monte, muito alto e largo, que se chama o Lombo Gordo, que está sobre as ribeiras, uma de Trosquiado, mais junto da vila do Nordeste, e a ribeira dos Cambos, logo adiante, e a ribeira do Arco, que logo se segue, no Espigão Rachado, que todas nascem do dito pico. Na faldra do mesmo Lombo Gordo está situada a vila do Nordeste. Mais adiante está outro pico muito alto, chamado o pico de João Bartolomeu, por ser de um homem rico, deste nome. Logo adiante outro, dito pico do Morrão, porque tem um morro e quebrada grande, e pegado com ele, está outro pico, que se chama o Caldeirão, por ter uma cova de feição de caldeira, no meio. Mais adiante está o pico Verde, por maior parte do ano estar vestido desta cor e ter bom pasto de erva. E logo o altíssimo pico da Vara, da causa de cujo nome há diversas opiniões; uns dizem que passando um meirinho por ele e deitando-se a dormir, depois de acordar Ihe esqueceu ali a vara, aonde depois a foi buscar, ou foi achada de outros, ficando ao pico em que se achou o nome de Pico da Vara; outros dizem que um homem chamado Estêvão Chainho, dos primeiros povoadores do Nordeste, indo caçar às pardelas ali, estando no alto dele, fincou no chão uma vara que levava como aguilhada; outros dizem que tem este pico três nomes: a parte dele que está sobre a vila do Nordeste se chama Pico da Vara por ser muito alto e comprido, como vara, e por estar junto do Topo do Nordeste, que é a sua faldra na ponta da ilha, da banda de leste, onde é mui alto e a primeira terra em que os mareantes, que vêm do levante, topam a vista, se chama Topo do Nordeste; e porque vai correndo pela encumeada, para a banda do ponente, ao lugar das Furnas, até o pico Redondo, onde descem à Povoação, se chama os Graminhais, porque até ali há sempre grama, erva baixa e rasa, com que está verde todo o ano; dali por diante não há grama; que é tão alto que de cima dele se descobre a ilha toda cercada de mar, vendo-se suas salgadas águas que a rodeiam em torno por todas as partes dela, do meio do qual nascem três grandes e formosas ribeiras: a primeira e a maior que há na ilha vai pela Povoação Velha entrar no mar do sul; a segunda, para o levante, chamada a ribeira do Guilhelme, declinando ao Nordeste; a terceira, da Mulher, para o norte; e por ser tão alto, é muito ventoso, pelo que julgo eu que ainda que o não seja, a razão do seu nome devia ser esta: vara em língua dos chins é nome de um tempo ou vento que faz maravilhas, de Sila e Caribides, que estão antre o cabo de Comorim da terra firme da Índia e a ilha de Ceilão; e assim pode ser que algum, sabendo isto, pôs nome a este monte pico da Vara, como se dissera pico do vento, pelo grande vento e tormenta que no alto dele faz em tempo do Inverno, e sobeja frescura no quente e seco, junto de uma fresca fonte em que os cansados caminhantes, no seu cume, temperam sua sede ardente Além dele para a parte do ponente, está um grande pico que se chama do Azevinho, por ter muitos azevinhos; e logo o pico do Tição, por haver sido de João Lourenço Tição, homem dos principais desta ilha; e junto dele, o pico do Pardino, nome de seu dono. Depois está o pico Redondo, pelo ele ser, e o pico da Salga, por salgarem nele os porcos monteses que por ali caçavam e monteavam; e o pico do Feno, que há nele; os Moles, terra deste nome, por ser húmida e de muitos lameiros; os Graminhais em que há grama, e a grande serra, chamada por antiperistasim , Serreta, ou por se achar nela mais baixo mato, que cresceu, não de princípio da ilha, mas depois de arrebentarem as Furnas, por toda aquela comprida encumeada ao redor delas, donde os caminhantes vão vendo aquela sua espaçosa concavidade, como outro mundo inferior, mais perto do centro da terra, onde está o Inferno, que semelham parte dele, povoada de grandes alagoas, que estão parecendo mar, regada de muitas ribeiras frias e quentes, dantre as quais se alevantam grandes fumaças de umas bocas da terra, como de fúrias infernais, a que comummente chamam Furnas, de que mais particularmente agora direi, antes de passar além pelos montes, deixando as alturas da terra por estes vales dela, pois também é vale de lágrimas este em que agora vivo desterrada, em que todos vivemos, ou por melhor dizer, morremos.